Não Feche Os Olhos
4 Abraço
Notas iniciais
- HEY! – Gritei propositalmente para chamar sua atenção. Acenei com as mãos sutilmente.
- Oi moça! – Ele acenou de volta. Seus olhos complacentes encontraram os meus e desapareceram. Nenhum sorriso. Ele havia parado apenas alguns segundos para me cumprimentar e havia ido embora. Parece que ele já havia descoberto sobre a minha completa esquisitice. Outro sentimento inundou meu peito, diferente de todos os outros que já havia sentido. Era algo como decepção. Eu podia jurar que ele era um cara diferente e que não ligaria para o que as pessoas achassem de mim e podia jurar também que era o homem mais gentil que conheci. Parece que eu estava enganada, mais uma vez. Desejei não sentir aquilo e já havia prometido a mim mesma que não iria me magoar (ou me deixar afetar) por alguém, mas estava sendo difícil. Eu o conheci ontem, talvez eu fosse pegajosa. Mas eu achei que iria demorar demais para outra pessoa falar comigo. Era isso que doía.
Tentei me concentrar no restante das horas que passaram, não consegui. Senti meu celular vibrando no bolso avisando-me que era hora de voltar para casa. Recolhi minhas coisas e fui embora. Não consegui evitar procurar André com os olhos até chegar à porta. Percorri o olhar por toda biblioteca e não o vi. Sai dali com o semblante de sempre, indiferente a tudo. Mas por dentro, eu sentia algo estranho.
Já em casa, tomei um banho rápido e decidi não comer. Deitei a cabeça no travesseiro e repassei meu dia. Havia começado perfeito e terminado desastrosamente. Fechei os olhos e algumas palavras ressoaram em meus pensamentos. Logo adormeci.
Eu estava em um penhasco prestes a cair. Uma das minhas mãos segurava uma pedra desse penhasco e era o que me mantinha viva até então. Meu corpo todo tremia. Meus olhos ardiam de tanto chorar. Eu gritava desesperada por ajuda e não havia ninguém. Minha voz sumiu e eu tentei me concentrar em salvar a mim mesma sem precisar de ajuda, mas parecia impossível. Um vulto se aproximou milagrosamente de mim e estendeu a mão. Tentei agradecer, mas agora minha voz teimava em não sair da garganta. Estiquei o braço que estava livre e segurei a mão da pessoa que tentava me ajudar. Soltei a outra mão da pedra e passei a depender somente da força do misterioso vulto. Mas eu sinto que estou caindo. Quem quer que fosse, havia me soltado e deixado cair propositalmente. Não consegui gritar e nem chorar. Eu estava em estado de choque ao ver o que as pessoas seriam capazes de fazer. Fechei os olhos e pressionei com força esperando o impacto do meu corpo com o extremo vazio.
Abri os olhos e senti meu rosto úmido. Eu sabia que estava chorando por causa do meu pesadelo e por causa de muito mais coisas que estavam acontecendo já havia um tempo. Não consegui conter mais lágrimas e abafei meu choro com o travesseiro. Lembro-me de ter chorado até adormecer novamente.
*
Acordei em um sobressalto. Olhei as horas no meu celular e lá estavam marcando 06:20.
- Atrasei cinquenta minutos, não é possível! – Resmunguei para a parede. Corri para o banheiro e tomei um banho muito rápido. Vesti minhas roupas, passei maquiagem e gritei para minha mãe avisando que estava pronta e atrasada. Parei diante o espelho do meu quarto por seis segundos e me considerei levemente ‘arrumada’, porque bonita estava longe de ser. Meu cabelo estava preso em um coque onde poucos fios ficavam soltos ficando um pouco mais informal, uma jaqueta jeans por cima do uniforme, uma calça de tecido tão confortável que nem precisei levar um short e uma sapatilha preta. Eu resolvi forçar um pouco a maquiagem para disfarçar meus olhos levemente inchados por culpa do choro.
Entrei no carro e passei a investigar porque meu celular não havia despertado. Descobri que ele despertou repetitivas vezes e eu acabei não acordando. Sorte a minha que havia acordado sozinha.
Repensei a noite anterior e me senti forte o suficiente para não deixar me abalar por pouca coisa. Talvez eu precisasse apenas chorar para me livrar daquilo. Decidi que aquela havia sido a última vez que chorei e que não ia se repetir. E por fim eu voltaria ser aquela pessoa que não precisava de ninguém para se sentir bem. Eu sempre tinha me saído melhor sozinha. Sempre evitei pessoas para fugir de me machucar mais. A diferença era que antes eu desviava das pessoas, mas tinha com quem contar se precisasse. Agora eu estava sozinha.
Desci do carro e resolvi não avisar minha mãe que eu ficaria lá na escola até mais tarde. Achei que ela não se importaria e, aliás, nem notava o quão tarde eu chegava em casa. Prestei atenção nas aulas e na hora do recreio fiquei ali mesmo ouvindo música. A preguiça me consumia e me proibia de caminhar até a sala dos armários.
Quando a aula acabou, me senti um pouco aliviada. Gostava sair daquele inferno cheio de diabinhos que adoravam atiçar meu lado malvado. Aprendi a controlar minha raiva muito bem, porque caso contrário todos ali já tinham levados socos ou chutes meus. Embora alguns pensem ao contrário. Recordei da minha infância onde eu aprontava muito com outras crianças justamente por causa de criticas em relação a mim. Sempre achei que fosse ‘coisa de criança’, mas minhas atitudes eram consideráveis e até próprias para minha atual situação.
Livrei-me de todos os pensamentos macabros que passaram a me assustar (e passaram também a me lembrar de coisas que eu não queria) e caminhei até a biblioteca. Passei pela porta e dessa vez consegui não procurar por ninguém. Sentei no fim do meu corredor (àquela altura eu já o considerava meu). Apanhei o livro de física.
- Minha matéria ‘preferida’! – Exclamei com meu sarcasmo nada sutil. Iniciei com alguns exercícios mais leves e simples. Fiquei feliz ao perceber que estava conseguindo resolver com mais praticidade e comecei a tentar os de nível médio. Sem sucesso. Alterei meu estado emocional para ‘nervosa’ e continuei tentando resolver. Nada. Joguei a cabeça para trás buscando ar para respirar. Observei o teto por um tempo. Deixei meus pensamentos fluírem em busca de uma resposta para a questão. Percebi uma movimentação no inicio do corredor e olhei. Era André. Arrumava uns livros em cima de uma mesa. Pensei em cumprimenta-lo, mas determinei que não fosse o melhor a se fazer. Afinal, se ele não queria falar comigo eu não falaria com ele.
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