Os meus pés escorregavam insistentemente pela calçada enquanto eu tentava andar na chuva torrencial que já havia encharcado todos os meus membros inferiores. O meu tênis claro, de aparência tão fofa, mais parecia ter sido feito de água naquele instante e pisar fazia-o emitir um guinchar doloroso aos meus ouvidos.

Apertei o sobretudo cinza sobre o meu corpo enquanto corria de modo desajeitado até a recepção do prédio velho de nome engraçado no qual eu morava. Não era um prédio ruim, só era... velho. Fechei o guarda-chuvas de bolinhas e balancei rapidamente enquanto ouvia o ronco baixo do segurança que assim como o prédio era velho, raquítico e adorável. Passei por ele e ia entrando no elevador quando em um impulso virei-me e fui até a sua mesa. Peguei um papel e a sua caneta que pendia, presa a um cordão e escrevi “Vou deixar um café pra você no elevador. Ainda preciso que alguém esteja acordado para me proteger, querido príncipe e ninja, segurança do meu coração. Com muito carinho, Ally, sua futura ex-mulher.” Sorri ao terminar e deixei o papel na mesa, voltando para o elevador, sabendo que ele acordaria quando ouvisse o ronco estrondoso do elevador lento e desconjuntado que mais cheirava a leite passado da validade do que a qualquer coisa.

Apertei o botão do meu andar, 13, e esperei pacientemente enquanto o elevador subia devagar, quase parando. Tirei o chapéu que ainda estava usando da cabeça e segurei-o pela aba, analisando seu estado. Era um chapéu coco que ganhara do meu pai logo depois de termos ido á uma maratona de filmes do Charlie Chaplin, muito tempo atrás, o tempo de uma vida inteira. Apertei os lábios e segurei as lagrimas que ameaçavam subir aos olhos enquanto pensava sobre isso. Levantei os olhos para o teto do elevador e foquei a minha visão nos números que mudavam devagar. 10... 11... 12... 13. Quando enfim, a porta se abriu pela metade e eu pude passar, deixei a minha bolsa na porta do elevador e corri para a porta de casa, onde liguei a cafeteira e botei água e o pó de café que tanto odeio. Na verdade, mal sei por que compro ele. Aliás, eu sei. Eu só o compro por que o segurança, Velho Bill, adora-o. E eu adoro o Velho Bill— e espero que ele goste de mim, às vezes acho que ele só gosta do meu café.

Sentei-me na beirada da pia e esperei os 60 segundos necessários para a cafeteira terminar de fazer o café. Olhei ao redor e sorri ao perceber que estava tudo do jeito que eu sempre deixo e gosto. Minha mesa do café vazia, apenas um prato e uma xícara ao lado, me esperando para o jantar. Um notebook branco ao lado, semiaberto, me esperando com trabalho a fazer e um cobertor vermelho e branco espalhado pelo sofá, como se me esperasse. Estava quase me levantando e indo em direção do sofá, pronta para abraçar o cobertor e sentir o cheiro de chá que o impregnara desde que eu derrubara uma xícara inteira e fumegante nele, quando ouvi o bip alto da cafeteira e peguei uma xícara azul com estrelas pretas desenhadas e deixei o café enche-la. Deixei a xícara no canto do elevador e tirei a bolsa da porta, apertando o botão do térreo antes de sair, deixando a encomenda ir até o seu ansioso dono.

Voltei para o apartamento e deixei a bolsa jogada de qualquer jeito na mesa, ao lado do sobretudo que tirara assim que abri a porta e fui até o banheiro. O espelho me encarava majestoso, com o seu reflexo acusador. Nele eu pude ver uma jovem cansada. Os olhos azuis faiscando e a boca fina pintada em um tom vermelho não muito promissor. Os fios ruivos que emolduravam a face combinavam com as sardas debaixo dos olhos. Apesar da descrição parecer promissoramente bela, não era o que eu via. Quando observava a jovem mulher que me observava de volta, piscando em perplexidade e acusação, podia ver o fracasso rindo de mim.

Mais cedo, naquele mesmo dia de chuva que alagou a cidade, eu tinha estado em mais uma mesa de um diretor de uma editora. Tentando convencê-lo a publicar o meu livro. Sim, eu sou uma escritora. Uma das bem fajutas, para falar a verdade. A única obra que consegui completar até hoje já passou por mais editoras do que posso contar— mentira, eu contei, até hoje foram 17— e ainda não fora aceita por nenhuma. No básico, devo ser ruim a um nível excepcional.

O meu livro, um romance policial que chama “Vestígios de um Crime”, parece não agradar a ninguém que não a mim. E ninguém que eu realmente conheça o lera, só as minhas amigas da internet, que insistem em dizer que eu devo continuar tentando. Mas não dá pra confiar em gente que gosta de você, eles vão dizer o que for necessário para te fazer feliz e é esse o problema. Hoje, pelo menos, não levei um não completo do tal editor. É de uma editora nova, bem pequena e desconhecida, mas é alguma coisa. Ele pareceu bem animado com a perspectiva que eu passei sobre o meu enredo, o que eu julgo ter sido mais devido a resenha maravilhosa que uma amiga minha escreveu, do que pelo real potencial do livro. De qualquer modo, ele disse que nos falaríamos quando ele tivesse uma resposta definitiva. Ou seja, em uma língua que todo escritor em processo de publicação entende, nunca.

Entrei no Box de vidro com um pensamento critico na minha mente “E se eu nunca conseguisse?”. Esse não era um pensamento inédito para mim, já cruzara com ele em minha mente varias e varias vezes. Em especial quando vejo minhas amigas escritoras conseguindo publicar ou qualquer coisa do tipo, é como se alguma coisa simplesmente estivesse sendo estupidamente irritante e inconveniente, gritando em meus ouvidos a bela e realista frase: Você nunca vai conseguir. Por que ainda tenta?

E sabe de uma coisa? Por mais que a gente responda que ainda tenta por que gosta do que faz, a verdade é que tenta por que precisa ter certeza de que não gastou tempo a toa. Precisa ter certeza de que serve para algo na vida. Precisa ter certeza de que... Tudo pode dar certo. Mesmo que não dê.

Balancei a cabeça e espantei os pensamentos enquanto ligava a água quente escaldante que tirava do meu corpo todos os vestígios de um possível futuro que não vai existir. Sai do banheiro e fui ao quarto, pegando uma camisa grande demais para mim, amarela dos Beatles escrita Yellow Submarine, e um short rosa choque com estampa de nuvens. Em cima de uma escrivaninha de mogno, bem velha, que eu achara no apartamento quando me mudei e que o locador me concedeu como um brinde, mas só por que não sabia que era mogno, estava uma pilha de folhas que me encarava com alguma seriedade. Sentei-me na cama e peguei as folhas, encarando as palavras da frente com algum peso no coração.

“Vestigios de um Crime — por Ally Young” Era a ultima copia que eu tinha para dar aos editores em reuniões. Tenho que tirar mais copias, pensei. Mas assim que pensei nisso, outro pensamento me acometeu. Não precisará de mais copias se tiver vergonha na cara e desistir, idiota. minha mente é cruel, eu sei. Na verdade, essa frase “Se tiver amor próprio e desistir será mais fácil” é uma frase que eu já ouvira varias e varias vezes. Meu pai insiste em fazer esse discurso sempre que me visita, uma vez a cada ano, quando pergunta como vai o emprego e eu digo que larguei ou que estou trabalhando no livro. Ele odeia a ideia de que eu sai de casa, deixando-o sozinho. Odeia a ideia de que eu não segui seus passos e me tornei uma advogada bem sucedida. Mas, a advogada de terninho social e argumento na ponta da língua que encanta os juízes no tribunal que ele esperava que eu fosse, nunca foi quem eu fui e sou. Ele odeia o fato de que sempre fui mais parecida com a minha mãe. A destrambelhada e sonhadora Amy— que fugira de casa quando eu tinha cinco anos, indo atrás dos seus sonhos e me levando consigo como uma mala a tiracolo, voltei para a casa do meu pai alguns anos depois, depois de uma batalha judicial acirrada na qual meu pai apelou para o recurso “Abandonado e sem família, o que será de mim?”.

Na verdade não consigo ser atrevida ou mal educada. Não consigo bagunçar as coisas sem arruma-las de volta logo no instante seguinte. Não consigo falar em publico com dignidade. Não consigo ser a filha que Edward Young queria. E não me culpo, muito, por isso. Um soluço escapou dos meus lábios, incontrolável, enquanto eu pensava sobre isso. Toda vez que eu pensava sobre ele, o meu fracasso parecia gargalhar da minha cara. Estúpida! Idiota! Pensa que é talentosa? ele grita para mim toda vez. E eu ouço. E eu choro.

Mas, apesar de tudo, eu tento outra vez. E, enquanto observava aquela ultima copia em minhas mãos, tive uma ideia que poderia ser a coisa mais atrevida que já fiz na minha vida. Uma única copia, uma única chance. Ainda havia uma editora que eu ainda não havia visitado. Ela era grande e me intimidava pensar no tipo de pessoa que teria que enfrentar para conseguir uma reunião. Editora Aevum. Conhecida por só publicar Best-sellers, aquela editora era o ultimo lugar que eu pensaria em publicar o meu livro. Não, não. Não era pra mim, definitivamente. Pensar naquilo, me fazia sentir ainda mais incompetente e insignificante! É claro que eu não conseguiria.

“Como você sabe?” Eu disse em voz alta. Sentindo-me uma completa louca enquanto o fazia. Mas, geralmente, conversar conseguia clarear a minha mente e na solidão que me encontrava conversar comigo mesma era a melhor opção. Era isso ou Velho Bill. Ou, é claro, Senhora Yona, do andar de cima, que mais poderia me atirar um gato— dos 17 que ela cuida— do que me dar um conselho útil.

“Como você sabe?” Eu repeti e me forcei a responder-me.

“Eu só sei. É obvio que eles não me aceitariam lá. Obvio...”

“Já tentou?”

“Não.”

“Então como sabe?”

“Eu já disse. É lógico que não iria dar certo.”

“Você nunca vai saber enquanto não tentar.”

“Mas e se eu tentar e der errado?”

“E se você tentar e der certo?” Minha mente parecia replicar meus pensamentos com mais velocidade do que eu conseguia concebê-los. Ela tinha uma voz atrevida, porém calma e compreensiva que me faz pensar que ela seria o tipo de voz que você ouve quando vai ao psicólogo. Depois daquela pergunta, no entanto, eu já não tinha tanta certeza do meu argumento.

“Eu não sei.”

“Tente.”

“Para quê?”

“Diversão.”

“Por que eu deveria?”

“Porque você pode.”

“Como você sabe?”

“Você sabe que sabe disso.”

“Como eu saberia disso? Ninguém nunca disse isso.”

“Precisa de que alguém diga isso?”

“Não.”

“Touché.”

Minha mente ganhava de mim todas as vezes, mas no fundo do meu ser, onde a minha teimosia não era tão grande, eu sabia que ela tinha um pouco de verdade. Eles poderiam ser grandes, intimidadores, ricos e famosos, mas eles não poderiam me morder. Eu realmente deveria tentar. Eu posso, não posso? Dever, já não sei se devo. Mas eu posso. E, enquanto formulava esse pensamento, eu soube que estava prometido e concretizado. Em algum lugar de mim eu sabia. Eu teria que ir. Que tentar, pelo menos.

Eu poderia tentar, não precisava de nenhuma esperança que desse certo— coisa que eu não tenho. Eu poderia simplesmente ir lá, marcar uma reunião, comparecer e falar um pouco. Talvez eu receba um não, mas talvez eu receba um sim. E se eu receber um talvez é ainda mais do que eu poderia esperar. E, munida dessa coragem súbita, levantei-me e fui até a sala, levando comigo a minha arma máster e meu objeto de orgulho, a minha linda e adorada copia final. Deixei-o sobre a mesa e peguei o notebook, conectei-o a uma tomada e liguei, sabendo que deveria ter passado o dia inteiro ligado e ter descarregado. Como sempre.

Assim que ligou, esperei que carregasse e abri o navegador de tema colorido. Esperei a conexão resolver dar sinal de vida e então vi o conhecido site na minha frente, o fórum de escrita que me guiara por toda essa jornada. Fiz login e fui ao meu tópico favorito onde as minhas amigas já estavam presentes e conversando. Eu usava um nome falso, como todas elas, mas ainda que soubéssemos os nossos nomes verdadeiros aquela brincadeira era divertida o bastante para nos manter ali por horas.

“Olá gente, acabei de chegar em casa.” Postei o comentário e abri outra aba para um site de escritores que fala sobre editoras, escritores e novos lançamentos. Quando voltei para a aba do fórum, vi algumas respostas animadas como “E ai, como foi a reunião? Teve alguma resposta?!” Respirei fundo e digitei uma resposta aparentemente alegre, não queria preocupa-las. “Ah, sim. Eles disseram que vão me responder com mais certeza quando terminassem de ler o original, mas disseram que há uma boa chance de ser a minha vez.”

As meninas pareciam animadas naquela noite e comemoraram por mim. Começamos a conversar sobre coisas banais e rimos estupidamente das nossas piadas. Era uma noite comum, mas ainda assim parecia uma noite especial. De repente, no meio da conversa, perguntei “Alguém ai já tentou publicar pela Aevum?”. Pouco tempo se passou até que as respostas chegaram. A maioria era cheia de nãos e, apenas uma, me encarava com um sim e uma longa historia acompanhando-o.

A resposta era: “Sim, eu tentei. Você sabe, eles só publicam os melhores e assim que terminei de falar eles disseram ‘Não acreditamos que essa editora seja para escritores como você. O seu projeto não atende a nossas demandas. Continue tentando e boa sorte.’ E simplesmente me mandaram embora como se eu não fosse muita coisa, só outra escritora ruim dos milhares que pisam lá todo dia. Mas sabe de uma coisa? Eu aprendi com o erro. Nunca mais piso lá de novo, embora eu conheça uma garota que conseguiu publicar por lá.”

Por um instante, eu senti o medo se instalando no meu coração como um vírus em um computador. Chega devagar e se espalhando rápido, fazendo estragos que são difíceis de reparar. Quando notei isso, no entanto, respirei fundo e me forcei a pensar nas possibilidades. Primeiro, eu poderia ser chutada descaradamente, como eu já sabia que era possível. Segundo, eu poderia ser chutada com classe, o que é uma boa hipótese. Pensando nisso, pude sentir meu coração se acalmando e limpei o suor das mãos no cobertor antes de digitar uma resposta “É, acho que vou tentar com eles. Mais uma resposta negativa não vai me matar”.

Depois que mandei aquilo, eu percebi. Existia uma voz bem fina, no profundo da minha mente, dizendo “Ei, sua boba, e a terceira opção? Aquela em que você consegue um sim, não vai considerar?” E, assim que ouvi-a, empurrei-a de novo para o profundo dos meus pensamentos. Ela era simplesmente ridícula e impossível. Não merecia ser nem citada. Então, logo que o fiz, pude ver as respostas aparecendo na tela, uma atrás da outra. A maioria eram resmungos sobre o como eles eram metidos e desejos de boa sorte, mas uma, uma realmente especial dizia “Eles seriam burros se não te publicarem.”. Sorri involuntariamente enquanto lia e meus olhos se voltaram para a ultima copia que me encarava sorridente, de cima da mesa, como quem diz “E então, vamos?” e eu, em um reflexo impensável, sorri de volta como quem diz “Mas é claro”. Olhei o relógio, eram duas horas da manhã. A chuva de mais cedo parecia ter estiado e o sono já atacava meus olhos a espadadas, fazendo-o piscar com força sempre que eu tentava ler algo.

Despedi-me e sai do fórum. Dei uma olhada rápida nas redes sociais e desliguei o computador. Levantei-me, tropeçando no fio do carregador do computador e quase caindo. Praguejei baixo e, então, depositei a maquina na mesa velha envernizada.

Fui arrastando os pés até o quarto, onde uma citação brasileira me encarava em cima da cama “Isso também passa” e joguei-me ruidosamente em cima dos lençóis e tudo, imaginando se esse sono realmente iria sair do meu corpo em algum momento. A janela entreaberta deixava um vento fresco entrar no quarto e, observando o curso das estrelas no céu, fui deixando o cansaço tomar conta do meu corpo e meus olhos se fecharem pouco a pouco. Como estrelas que se apagam sob o brilho do sol.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.