Máscaras na Nuvem

1 O sonho de Jack


Notas iniciais
Primeiro conto, primeiro capítulo, é sempre algo esquisito. Não tem nada muito bem desenvolvido na minha cabeça. Espero que vocês gostem. Aqui apresento vocês uma personagem muito importante, que pretendo desenvolver futuramente. Aproveitem a leitura e, qualquer sugestão, dúvida, e crítica, comentem!

Em dias nublados o céu fica mais bonito do que o comum. Os holofotes e feixes coloridos dos painéis holográficos iluminam as nuvens, dando graça impar e personalidade a chuva, quando ela cai.

Agentes autônomos trabalham sob esse céu e qualquer outro, mas alguns preferem dias nublados. A superstição conta que há algumas décadas, quando tudo não era tão 'high tech', os equipamentos que existiam para encontra-los davam problema por conta da interferência eletromagnética.

Mas se isso é real, ninguém sabe. Até porque, os tempos já são outros. Os anos 60, não é baby.

Mas não é porque agentes autônomos são foras da lei que eles não têm uma cede, ou local comum onde se encontram. Há sim, e para piorar, há um em cada cidade grande.

É um trabalho difícil, mas que rende bem, pra quem aguenta o tranco.

O dinheiro move o mundo. O dinheiro é novo Deus, bom, ele sempre foi. Mas hoje em dia, andando a sombra das mega corporações, dos estados privados e das Federações de comércio, há certas coisas que precisam ser feitas e que não podem vir à tona, estar na mídia, ter visibilidade. Por que se tem uma coisa que joga lá em baixo o poder do Deus dinheiro é a imagem arranhada de uma empresa e, não importa se ela gera mais renda que um país inteiro.

Deus dinheiro, filho do Deus mercado.

As leis existem para manter uma ordem tátil, que protege o que pode ser tocado, o que pode ser visto. Mas os agentes não trabalham a vista. São pagos para não serem notados. E é por isso que o mesmo sistema que as Grandes Corporações sugam até a última gota, os caça sem parar.

É complicado ser um mocinho nesse mundo desgraçado. O mal venceu. Aceite. Caso contrário, seja um policial. Só não esqueça que seu salário é pago por uma das grandes corporações, que frequentemente contratam os agentes autônomos.

A cidade da Liberdade é uma das grandes. Tem uns 30 milhões de habitantes, mas é a cidade satélite de outra, três vezes maior. Só não pense que viver ai não é bom, ao contrário, é muito bom. A atenção das grandes empresas e do Estado vendido é menor ali.

O que gera uma falha, que geralmente muitos agentes autônomos cometem. Esquecem que são peões, ferramentas, que podem ser usadas e descartadas sem a menor desfeita.

O dinheiro não sente, só quer resultados.

Ao sair de casa, um prédio comum, de frente para o rio, um cara bem encarado, passeia com o jornal de papel de baixo do braço. Ele é Jack um agente autônomo, que está a caminho de mais um dia de trabalho.

Segue pela margem do rio por exatos 15 minutos e então para. Pronto, trabalho feito. Agora é relaxar e pegar um sol. Ele se senta e abre seu jornal.

Liberty Journal.

Muitas coisas acontecem. Muitas notícias, transações, quedas, vendas, casos cotidianos, e grandes reportagens midiáticas que não levam quem lê a lugar algum.

O olho esquerdo, no entanto está focado em outra coisa. Um ambiente virtual de conversas. Um chat privado com mil vozes. Não há avatar, mas poderia haver.

Alguém fala algo e isso é o gatilho para ele agir. O Espaço cibernético é uma existência a parte e ele poderia viver nele, não fosse uma ótima forma de se foder.

Jack se levanta, volta a andar, tromba, acidentalmente em uma moça que corre com seu cachorro. Ele se desculpa, e ao vira-se, da de cara com outro homem. Meia idade, acima do peso, cara de otário.

O alvo.

Pergunta se está tudo bem, esperando ouvir que sim. E ouve. O homem é educado, uma atitude boa, pra um mundo ruim. Jack sabe disse. O senhor comenta que não é normal ouvir desculpas e isso é o estopim para o início da conversa.

Um aperto de mão é o suficiente. Jack já sabia que o homem, que se chama João, também tinha um implante neural para rede. Afinal, quem não tem? O aperto de mão serviu para liberar os nano robôs, eles só precisaram de alguns poucos minutos para entrar e achar o implante. Hackear era a parte do outro agente, o que liberou o gatilho no ciber espaço.

Dois segundos, apelido e tempo necessário. Estavam dentro. Centenas de arquivos, todos defendidos com protocolos de segurança de nível zero. Algo que ia além das capacidades de um civil comum. Coisa de empresa ou militares.

Quem foi que disse que Dois Segundos era um civil comum?

Protocolo após protocolo desativado, sem dar alarme, sem deixar rastros. O arquivo morto D 709 estava lá. Conferia com as informações previamente adquiridas. Ele era real, por tanto, o risco dos planos para a fusão da XanteX, Ellba e a MAR, eram reais.

"Que caralhos"— Digita Jack no chat dentro da nuvem, no ciberespaço. "Certeza que essa porra vai dar merda"— Ele termina caminhando na direção contrária ao outro homem.

Dois segundos responde; "Merda não vai dar, porque a gente tá aqui pra impedir isso".

Jack olha para o lado bem incomodado. "Que vai impedir isso sou eu, né?"— Ele chuta uma latinha na direção a um robô de limpeza urbana, que responde grato, com sua voz mecânica.

Arquivos mortos são pessoas sem conexões que são pagas para guardar informações ultra secretas. Elas basicamente não existem para o mundo ultra tecnológico, então estão incrivelmente protegidas por sua ultra normalidade.

Uma pessoa comum, como esse cara que você vê andando, pela sua janela, na rua. Pode ser qualquer um. E para piorar, hoje, em pleno ano de 2073, do nosso senhor jesus cristinho, existem 22 bilhões de pessoas em todo o território ocupado. O buraco que é a terra, a colônia Lunar, as colônias orbitais, as colônias extra lunares e as recentemente inauguradas, colônias no solo de Marte.

Que dia fucking feliz, não é mesmo?

Não há nenhuma informação de onde D 709 esteja, disse Dois segundos. Jack o apelidou de Don, mas o hacker não gostou. Ele gosta de acreditar que é uma mulher, por isso o chama de Danny.

A título de curiosidade, Danny é uma ex-namorada de Dois segundos, que ele nunca esqueceu.

Mas tem algo que nenhum agente entende muito bem. Na verdade, ninguém consegue entender essa parte muito bem. Esse tal de destino é algo que ainda não foi dominado pelo ser humano. E mesmo aqueles que não concordam com isso, que acham que escrevem seus próprios caminhos, tem que concordar; tem horas que da merda e, ninguém tem nem tempo de respirar.

As sirenes de aviso das forças de segurança ecoaram pela orla do rio como nunca antes. Jack sabia o que aquilo queria dizer. Tinha dado merda.

Viaturas em um instante estavam parando na rua mais próxima, uns 50 metros do caminho a beira rio. No céu, drones de vigia serviam de batedores para as naves de transporte.

Dois segundos digitou como se sua vida dependesse disso "Sai dai, deu merda, vai ter USA".

Mas não é sua vida dependia mesmo disso?

Unidades USA, sigla para Unidade de Segurança Atomata, é uma forma legal de dizer, que androides feitos de uma liga de titânio, agilidade felina e força de cinco gorilas estariam chegando com seus fuzis de assalto com munição penetrante, só para captura-lo.

E uma dica; não precisa ser com vida. Graças à tecnologia atual, é possível acessar informações contidas no córtex cerebral morto. Fora o que os implantes ligados a nuvem podem manter. Basicamente, qualquer coisa, seria extraído do alvo, vivo ou morto.

Mas morto era mais interessante.

"Ei, você!"— Um oficial da unidade de segurança gritou. Era humano, mas estava bem protegido, com um duo de seis camadas, além de armado com uma pistola com munição penetrante. Além disso, estava acompanhando com outros quatro como ele.

Jack não pensou duas vezes e saiu correndo.

Os autofalante diziam para que ele pareasse e se entregasse. Que seus direitos eram assegurados, assim como sua integridade física.

Que puta mentira.

Jack corria pelo caminho reto, só havia essa saída. Dois segundos entrou em contato através dos implantes auditivos. Sua voz era rouca. Ele gritava para que Jack chegasse a um píer e se jogasse no mar. Não havia barcos chegando, e os USA afundariam por seu peso.

Ideia ruim, mas a situação era bem pior. Então valia a pena.

O fugitivo sacou sua pistola. Uma .45 antiga, do começo do século. Contra um androide fucking sinistro ele não faria nem cócegas. Mas se atingisse o lugar certo nos agentes de segurança, com certeza o derrubaria.

PEW!

PEW!

PEW!

Largou três tirão para trás, sem olhar para onde atirava ou ligar para onde acertava.

Mas avisos e pedidos, mais barulhos de viaturas. Dois segundos parou de falar ou digitar. E ele não tinha ideia do motivo, mas não era a hora de pensar nisso.

A figura metálica caiu do céu a alguns metros a sua frente. Um USA pintado de vermelho e preto, a cor da Agência de Segurança que provia a ordem na cidade da Liberdade.

2 metros de altura e 230 kg de pura fodelancia.

Jack largou o dedo, dessa vez no automático. O som de sucessivos disparos atingindo o alvo em cheio da altura do peito até a cabeça.

Se fosse gente, já era.

Mas não era gente.

"Senhor, você está detido"— A maquina falou enquanto esmurrava o peito de Jack com um golpe preciso. O ar sumiu de seus pulmões e seu corpo ficou mole feito geleia. Nos segundos seguintes o monstro de metal o imobilizou no chão.

"Senhor, para sua segurança, mantenha-se calmo"— A máquina falou enquanto torcia seu braço a ponto de quase quebra-lo, tudo milimétricamente calculado por seu programa base.

Jack não tinha nem força para falar, quanto mais para reagir.

Seus olhos apagaram-se, tomados por um breu raramente experimentando por pessoas normais. jack se desesperou.

"Ei, acorde"— A voz sonora falou. "Vamos lá, isso não foi tão assustador assim, não é?"— O dono da voz vestia um uniforme da Agência de Segurança, e tinha seu rosto coberto.

Jack acabava de desconfiar de que algo estava mais errado do que podia estar realmente.

O dono da voz explica que ele foi levado para uma unidade de segurança e extração de informação. Ele se apresenta como Consultor Moebius.

Jack reconheceu o nome na hora. Havia histórias sobre esse cara. Não eram nada boas. Ele tremeu na base ao notar que estava preso, sedado de uma forma estranha.

"Se acha que foi sedado, está enganado"— Consultor Moebius falou com sua voz sonora. "Hackamos teu cérebro a partir dos teus implantes, você é todinho meu"— Seus olhos, a única coisa a vista, mostraram uma expressão bem sutil e incomoda para Jack.

"Antes de começar o procedimento de extração de informação.."— Ele fala, tirando a mascara e mostrando um sorriso largo de quem está muito feliz com o que está preste a fazer. "Como você se sente sabendo que toda aquela perseguição, quanto o contato com seu amigo... foi criado por mim?"— Ele ri consigo mesmo, ao notar a expressão de horror de Jack.

Coloca novamente a máscara e ordena a que a porta seja fechada.

A pergunta final caia sobre o que era real e o que não era. Até que ponto se tornou uma ilusão cibernética? O arquivo morto era real? Quem é o Consultor Moebius? Quem o capturou? Quantas outras perguntas?

Muitas perguntas. Mas para que se apegar tanto a elas? O aqui e o agora são mais importantes.

Notas finais
Já tentei escrever sobre essas coisas mais de uma vez. Não deu muito certo. Mas não é por isso que vou desistir. Por isso, espero que vocês tenham gostado. Esse foi o primeiro episódio de Máscaras na Nuvem. Outros virão, e o universo cinza da cyberpunk Cidade da Liberdade, seus moradores e suas histórias, também.