Máscaras na Nuvem
7 Face da Esfinge
Notas iniciais
Dia nublado, a chuva é uma benção por muitos motivos, mas não para os transeuntes que caminham pelas ruas entre os prédios enormes. A água se acumula em seus topos, meio quilômetro acima do chão e, eventualmente, caem como um tijolo. Acidentes como esse são comuns o suficiente para as marquises estarem voltando a moda nos últimos anos. O centro da cidade é repleto delas, mesmo que os prédios tenham soluções tecnológicas para evitar os acidentes, eles sempre acontecem, como se uma força secreta, invisível e intangível, gostasse de tornar o simples fato de chover uma ameaça para aqueles que andam por ai.
Chove lá fora, tudo que não se cobre está encharcado. Mesmo assim há quem não se incomoda com a água.
Há muita gente querendo sua atenção. Ela é uma moça bonita, mas é mais do que isso, ela é inteligente, bem humorada, divertida e muito proativa. Ji-Yoog Sook, ou apenas Sook, apesar disso tudo, sempre se mete em confusão.
A pequena menina que não deve medir mais do que uma menina típica do começo do século XXI mediria e, que não pesa mais do que a mesma garota típica do começo do século XXI pesaria, se encontra correndo, ainda que com um sorriso no rosto, de homens mal encarados, vestidos como seguranças empresariais. Ela atravessa uma rua no sinal, como se tudo aquilo não passe de uma brincadeira. Ela salta por cima de um banco, como se a perseguição não fosse realmente perigosa. Ela passa entre os carros, mesmo quando os homens sacam suas armas e ameaçam atirar.
Sook não é uma dessas garotas que se preocupa. Ela segue fluxo, curte o momento. Se ele, o momento, diz que é para pular da ponte, ela pula. Se diz que é para se jogar no vão do metro, ela se joga. Se fluxo da situação a pede para entrar no complexo habitacional SHUN II, ela não pensa duas vezes antes de entrar.
A portaria é cravada de balas, os seguranças não sabem reagir, tudo acontece muito rápido. O alarme soa por todo o bloco A.
Todos os equipamentos de segurança são danificados, enquanto o corre-corre estoura. A moça aproveita, ela segue o ritmo das demais. Uns saem, outros entram. Definitivamente, Sook, entra.
Tudo com aquele fucking sorrisinho no rosto.
O alarme não para, nem os perseguidores, que não a perdem de vista. O corredor largo e cumprido é o palco de mais tiroteio. A segurança privada do local demora a chegar. E a menina cruza com a primeira unidade que se posiciona na saída da passagem.
Ela se vira para olhar o que acontece e não pode deixar de ver os corpos dos inocentes que foram baleados. Seu sorriso se fecha. Mas não deixa de continuar a correr.
Correr ou morrer. Será?
Hologramas por todos os lados. Cores por todos os lados. Anúncios por todos os lados. É tanta informação visual que alguns às vezes até sofrem fisicamente com isso. Sook os aprecia enquanto anda apressada como se soubesse para onde ir. E talvez soubesse seguir o fluxo, era quase como se algo a dissesse aonde ir e ela ia, sempre ia.
O painel, ignorando por todos durante a confusão está ali, esperando a mão de alguém. Ele é uma ferramenta para alguns poucos que possuem a credencial certa. Pesquisa, qualquer informação relacionada ao bloco, e até mais, variando do nível da credencial. É uma interface usada apenas pela segurança privada que promove a paz e a justiça no conjunto.
Beep.
Ela acessa tudo o que queria. Mais até do que gostaria. A cena é projetada na tela que ocupa toda a parede logo a sua frente. Centenas de câmeras, informação textual correndo, fotos, vídeos, vozes. Ninguém sabe, ou prefere ignorar, mas tudo ali é monitorado.
Segurança é meu ovo, é controle absoluto.
"Ei você" Alguém grita e a menina tira a mão do painel. Sua cara de inocente não levanta suspeitas. Com certeza foi um defeito. O agente a expulsa com gentileza, dizendo que aquilo ali não é o lugar para uma garota durante um tiroteio. É perigoso. É melhor que ela se esconda.
O que é uma bala 9 mm contra um chassi de fibra de carbono?
Sook faz bico, ela caminha para longe da cabine e do painel. Está vazio ali, apesar do som dos tiros não pararem. Os agentes devem ter entrado em conflito contra seus perseguidores. Tanto faz para ela, sensibilidade não é exatamente seu forte.
"Daniel... quem é Daniel?" Ela resmunga enquanto entra em um elevador. Sua roupa está rasgada há algum tempo, mas é só ali, dentro do elevador de 3 por 3 metros que ela repara. Sook cruza os braços, o sorriso voltou, seja lá o que for o fluxo, o momento, aquela voz dentro dela, está falando algo.
Mas, por que deveria encontrar esse cara?
O alarme para de tocar. Seja lá o que aconteceu, o problema foi resolvido e é possível que aqueles homens que a perseguiam tenham sido presos. Ou até mortos. Sook sai do elevador com calma e graça, ela anda como uma menina cantarola alguma coisa quase inaudível enquanto passeia pelos corredores residenciais dos andares superiores.
SHUN II não é um lugar só de coisas boas. Não, como poderia ser sendo povoado por pessoas? Há, como em qualquer lugar, aqueles que estão ali para tornar a vida mais fácil para si ao tornar a vida dos outros mais difíceis. Nesse caso, são os Olhos Negros. Uma facção criminosa que age em várias frentes, com drogas, roubos e até terrorismo. É um vírus que convive de forma simbiótica com a sociedade.
Eles veem Sook. E Sook os vê também. A diferença é que ela ta pouco se fodendo para eles.
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