– Isso é algum tipo de brincadeira? – ele perguntou sério.

– Não. – respondi, na mesma seriedade.

Eu nunca havia falado tão sério na vida. Eu não sabia se era minha raiva ou meu súbito sentimento de inutilidade que tinha feito daquela decisão a mais séria que eu já tinha feito até então.

Eu simplesmente queria fazer uma loucura para esquecer tudo o que tinha acontecido.

– Por favor, eu não tenho onde ficar. – implorei pateticamente.

Talvez a mesma estupidez e raciocínio ilógico apoderou-se de Itachi, porque ele simplesmente disse sim e me informou seu endereço antes de desligar.

Sem hesitar, andei até o local indicado e me deparei com uma enorme mansão branca com tantas janelas que eu não poderia contá-las pelo lado de fora.

Imaginei se ele morava naquele lugar sozinho, mas então lembrei da riqueza da família Uchiha e não me surpreendi tanto.

Eu não soube o que fazer, deveria tocar a campanhia e esperar um mordomo? Sem nenhuma ideia, apenas esperei do lado de fora do portão, completamente perdida.

Então, vi um rosto aparecer em uma das janelas e logo reconheci Itachi, me analisando de longe.

Ele parecia um fantasma assombrando aquela enorme casa. Sozinho, procurando por alguém que pudesse tirá-lo de sua miséria, que pudesse guiá-lo até o purgatório, onde seria julgado por seus pecados.

Seus olhos negros me lembravam Sasuke e de repente me ocorreu que talvez aquilo tivera sido uma péssima ideia.

Ele disse alguma coisa, mas era óbvio que eu não podia ouví-lo, então, sem querer, li seus lábios. Seus lábios rígidos e suaves ao mesmo tempo. Diziam “suba”. Era tão sedutor... Era inevitável me sentir atraida por aquele momento.

Tudo era impossivelmente romantizado, eu me senti em um dos meus livros favoritos, me senti em um filme antigo, me senti... Especial. Suspirei, o universo estava claramente conspirando contra mim, criando um cenário que era absurdamente irresistível.

Olhei para o portão alto e dessa vez o encontrei aberto. Sem conseguir manter-me do lado de fora, me senti seduzida pelas cores do jardim, pela grandeza da casa, pelo mistério de Itachi.

O jardim se extendia por metros e metros e eu fiquei pensando em quem tinha feito tudo aquilo. Era completamente planejado, com árvores floridas e arbustos coloridos e bem cortados. Entre eles, tinha uma fonte com estátuas de anjos e demônios que soltavam água por suas bocas. Eu poderia ficar horas apenas observando tudo aquilo e analisando as obras de artes.

Sai surgiu subitamente em minha mente, ele adoraria estar ali, me indicaria todos os movimentos artísticos da Europa e em qual deles todas aquelas obras se encaixavam.

Percebi que estava protelando e resolvi entrar na mansão, certamente lá dentro haveria outras obras, muito mais sedutoras.

Eu estava certa. Entrei no grande hall e me perdi entre tantos quadros e obras espalhadas pelo ambiente. Tonta, analisei o cômodo e apreciei o fato de que a família Uchiha não gastava seu dinheiro com coisas supérfluas e sim com obras de arte.

Talvez fosse só Itachi que pensava assim. Mas eu não ligava, fiquei observando as pinturas e me perdi em todos os lugares para onde aquelas obras me levaram.

– Monet. – ouvi por detrás, mas não me virei. – Impressionismo.

Sabia que era Itachi falando, porque sua voz soava medonha e ao mesmo tempo confortadora. Um perfeito mistério.

– Eu sei. – respondi, apreciando “Femmes au jardin”, uma obra simplesmente linda de 1866. – Sou fã de Monet. – completei, desnecessariamente. Afinal, quem não era?

– Eu também. – Itachi disse, me surpreendando. Ele não havia discutido, não disse que eu estava mentindo, que eu não entendia do que eu estava falando, ele simplesmente concordou.

Então, naquela pequena conversa, eu tinha notado a principal diferença entre os irmãos Uchiha.

– Qual é o seu quadro favorito? – perguntei.

– Dele? Ou de todos?

Virei-me para fitá-lo. Segunda diferença. Sasuke entenderia imediatamente o que eu tinha perguntando. E eu já saberia a resposta só de olhar para os seus olhos. Itachi não, ele não conseguia ler a minha mente e eu não lia a dele.

Sua impenetrabilidade era diferente da de seu irmão mais novo. Não mais ou menos sedutora, era simplesmente diferente, mas com o mesmo caráter misterioso e aquele desejo de ser quebrada.

– De todos.

Para a minha surpresa, ele pegou a minha mão e me guiou por dentro da mansão. Era como um grande labirinto abandonado, triste e frio. Não tinha ninguém e estávamos cercados de móveis antigos e luxuosos.

Perguntei-me novamente se Itachi morava ali sozinho e pensei o quão solitário e triste aquilo deveria ser.

De repente, o apartamento de Sasuke pareceu bem maior do que realmente era. Talvez porque era tão diferente da mansão, tão mais aconchegante, mais confortador, mais como um lar.

Então a face de Sasuke apareceu em minha mente e meu sentimento completou-se.

Sim, aquele sim era um lar.

Subitamente, Itachi parou na frente de um quadro e eu fitei a obra.

Não reconheci imediatamente, mas tinha certeza que era neoclassicista. Completamente lógica e realista, o total oposto do que Sasuke era. Aquilo dizia tanto da personalidade de Itachi que eu me senti invadindo sua privacidade.

O quadro mostrava uma menina pequena sentada com um livro em seu colo, ela olhava fixamente para frente. O que mais chamava a atenção era a extrema perfeição da pintura, parecia uma foto.

– É bonito. – falei. – De quem é?

– É brilhante. – ele retrucou, corrigindo-me. – De Bouguereau, La leçon difficile.

Vi Itachi olhar para o quadro e me perguntei porque ele gostava tanto daquela obra. Era claramente bem feita e linda, mas eu nunca fui fã de pinturas que copiavam a realidade. Afinal, a realidade era uma droga, simplesmente terrível, então se você podia fazer qualquer coisa, pra que representar o que já existia?

Ficamos um bom tempo apreciando o quadro e percebi o quanto ele gostava. Preferi não perguntar seus motivos para não ofendê-lo, já que eu estava me hospedando em sua casa.

– E o seu? – ele perguntou, a certo ponto.

– Eu tenho dois. O primeiro é de Degas, aquele de uma bailarina sendo segurada por outra que tem uma espada nas costas.

Itachi ergueu as sombrancelhas.

– Por que? – perguntou, sem hesitar.

– O meu avô tinha esse quadro na sua casa e, sempre que eu ia lá, eu perguntava por que a bailarina está assustada com a outra, se ela não sabia da espada escondida. Meu avô respondia que era porque ela era cega, o que não fazia nenhum sentido pra mim, já que a que tem a venda nos olhos é a que tem a espada, não a outra.

“Só depois que eu cresci, eu entendi. Meu avô morreu antes que eu pudesse conversar com ele sobre isso.”

Percebi, tarde demais, que aquilo era absurdamente pessoal e que eu nunca tinha dito para ninguém os meus motivos por gostar tanto daquele quadro.

Parei de falar e fiquei fitando os olhos negros de Itachi, que agora me olhavam com curiosidade. Ele certamente não estava esperando uma explicação como aquela.

– E o segundo é... – comecei, tentando me redimir.

Les sept arts, Salvador Dali. – ele completou, acertando. – É o mesmo que o de Sasuke. – explicou, depois de ver minha face incrédula.

Mas claro que era. Como eu podia ficar surpresa? Nós éramos tão parecidos, pensávamos igual, então como não poderíamos ter o mesmo quadro como favorito? Tentando ignorar todos os sentimentos que voltaram a tona, me concentrei em prestar atenção em Itachi.

Não pude deixar de pensar que era tão mais fácil falar com ele. Não tinha que me sentir culpada, nem como se tivesse que cuidar dele ou de ler as entrelinhas para entender suas frases.

– Venha ver uma coisa. – falou e pegou minha mão novamente. Eu deixei.

Depois de andar por um tempo no labirinto de cômodos e móveis antigos, paramos dentro de um quarto todo destruido. Olhei em volta e segurei um soluço, eu tinha certeza absoluta que aquele era o quarto antigo de Sasuke.

Meus olhos voltaram-se para o que Itachi queria que eu visse e eu encontrei o quadro de Dali logo acima da cabeceira de uma enorme cama de casal, que estava coberta por poeira.

Suspirei e senti uma súbita vontade de chorar. Porque Sasuke não era mais meu, porque ele tinha me tirado de sua vida, porque ele não me queria mais. E ele era tão perfeito. Tanto quanto aquele quadro.

– Ele tem bom gosto. – disse, só para mostrar que eu não estava surtando por dentro.

– Claro que tem, ele é meu irmão. – Itachi respondeu e eu notei um pingo de orgulho em sua voz que eu nunca tinha ouvido antes. Por um breve momento, eu até cheguei a pensar que ele não odiava Sasuke.

– Por que você não arruma essse quarto? – perguntei, voltando a olhar em volta. Além da poeira, alguns móveis estavam quebrados, como se um ladrão tivesse passado ali para achar alguma coisa e destruiu tudo no processo.

De um jeito estranho, eu tinha achado a cena bonita, junto com a luz da lua que entrava de leve pela janela semi-aberta e o vento que balançava a cortina rasgada...

– Não é meu. – ele retrucou simplesmente, mostrando-se mais diferente de Sasuke do que nunca.

Ele era mais maduro, menos emotivo, mais direto. Mais real.

Aquele realismo todo me apavorava, porque eu não sabia lidar com a realidade.

– Posso dormir aqui? – perguntei, pegando a grande manta que cobria a cama e a retirando com cuidado para que a poeira não se espalhasse.

Embaixo dela os lençois e travesseiros não estavam tão sujos, então não hesitei em deitar-me.

Ao olhar para cima, me deparei com uma pintura que cobria o teto inteiro e me maravilhei ao notar a pequena assinatura de Sasuke perto da lâmpada. Aquele quarto era a representação perfeita de sua personalidade.

Involuntariamente, cheirei os lençois e me surpreendi ao notar que o cheiro delicioso de seu dono ainda estava ali presente, me lembrando da burrice que eu tinha feito em deixá-lo ir.

Perdida em meus pensamentos, não percebi quando Itachi deitou-se do meu lado. Virei-me involuntariamente e notei as curvas de seu rosto, ele era mais adulto, mais maturo.

Suas mãos grandes me ofereceram um copo de alguma bebida chique demais para pronunciar e eu bebi.

Ficamos bebendo e falando de arte até a minha completa exaustão.

Por que Sasuke não gostava de seu irmão? Ele não era que nem seu pai e mãe.

– Por que você trata o Sasuke tão mal? – perguntei, quando já estávamos bêbados o suficiente para não nos sentirmos desconfortáveis com aquela pergunta.

– Ele me deve dinheiro. Ele me roubou e acabou com a nossa empresa só para comprar drogas. E depois sumiu. – replicou, fácil demais.

Já tinham me dito aquilo antes, mas eu tinha achado difícil de acreditar, eu tinha achado que Sasuke não era assim. Mas, por alguma razão, naquele momento em particular, eu achei bem mais fácil acreditar na versão de Itachi.

Porque Itachi era assim. Ele tinha esse charme e esse poder de te fazer acreditar em qualquer coisa.

E eu acreditei. E senti um enorme desgosto por Sasuke de repente, que juntou-se com a minha raiva de anteriormente e com todas as minhas frustações com o que ele tinha me dito naquela noite.

Todos aqueles sentimentos rancorosos, junto com as bebidas que eu tinha tomado, fizeram da figura de Itachi bem mais sedutora do que outrora.

E tudo o que ele dizia, fazia ou pensava se tornou absurdamente irresistível. Porque era mais fácil falar com ele, olhar pra ele, lidar com ele. Ele não era destruido, eu não tinha que pegar os cacos, não precisava penetrar e entender sua mente torcida. E eu não ficava vulnerável. E ele não ficava drogado.

Nesse momento de transe, eu não pensei mais em nada e simplesmente me joguei para cima dele.

O beijei de uma forma que nem sabia que podia beijar alguém, profundamente e incansavelmente.

Notas finais
Ooi, ok, tenho várias coisas para falar aqui, paciência comigo, por favor, haha.
1. Queria dedicar esse capítulo à fofa da Morbid, que deixou uma recomendação super linda para a fic, muito obrigada *-*
2. Eu vou viajar e voltar só no dia 6, então o próximo capítulo vai vir só depois, ok? )):
3. Eu tenho uma super análise do porquê cada um tem o respectivo quadro como preferido, mas duvido que vocês queiram saber, mas se alguém estiver interessado, me fala por review que eu respondo :D
4. Fim da biblia, desculpa! Hahaha
Gostaram?
Beijão :*