Máscaras & Sussurros
37 Fim
Desarmada, não soube o que responder. Afinal, ele estava certo. Eu realmente nunca perguntei, eu nunca dei-lhe a chance de esclarecer tudo o que eu sempre quis saber. Os mistérios mais sedutores de seu passado, eu nem ao mesmo os mencionei.
Esse seu comentário me fez perceber o quão desgastada estava a nossa relação e eu não tinha percebido. Como se estivéssemos baseando-nos em mentiras e segredos. Ocultando as verdades óbvias e simples que eram necessárias para um mútuo entendimento. Porque, no fundo, sabíamos que elas iriam nos destruir lentamente. Tentando suprir o meu desespero e suposições, respondi, em tom neutro: — Eu não achava que seria necessário, eu achava que você iria querer me contar. Ele me olhou, incrédulo. — Você nunca me contou nada sobre a sua vida em Nova York. – alegou, como se dissesse a coisa mais óbvia. — Você nunca quis saber. – respondi, automaticamente. — Viu? Eu poderia dizer exatamente a mesma coisa que você me disse agora. Que eu achei que você iria querer me contar. – ele replicou, com um tom intruso de divertimento em sua face. Ele estava acabando com todos os meus argumentos, me colocando contra a parede, em uma situação onde ambos só podiam perder. Por que ele queria isso? Eu estava quase no meu limite, implorando para que ele perdoasse os meus pecados, exigindo que me contasse a verdade sobre Kankuro, Karin e Itachi. Mas a parte sã de mim ainda dizia que se eu chegasse a esse ponto, colocaria tudo a perder. Se já não estivesse perdido... — Quer saber, você tem razão. – admiti finalmente, já com lágrimas nos olhos. – Eu sei que você odeia quando eu choro, mas não posso evitar. E você está certo. Sobre tudo. Sou mesmo egoísta. Eu tenho medo e gosto do drama. Eu sou uma merda. É isso o que você quer que eu diga? Ele apenas piscou. — Mas você também tem defeitos. Você é manipulador, Sasuke. Você me tem na palma da sua mão e se aproveita disso. Você sempre quer que eu me drogue com você pra se convencer de que isso é aceitável. Ele não disse nada e eu apenas continuei, em extremo estado de anseio. — Você é impulsivo, teimoso e antissocial. – falei, percebendo dolorosamente que poderia usar aquelas mesmas caracteristicas para me descrever. — E você acha que isso anula o fato de você ter fodido com o meu irmão? – ele perguntou, me petrificando com a frieza de seu olhar. Percebi, com aquele comentário, que nada a partir dali seria igual. Que, mesmo se continuássemos juntos, não seria a mesma coisa. Sempre teria aquele abismo, aquela cicatriz. Aquele fantasma sempre nos lembrando do que eu tinha feito. Era o pior sentimento. Saber do fim e não poder evitá-lo. Saber que tudo aquilo que tanto te fazia feliz, iria se extinguir em um segundo e não havia nada que você podia fazer para impedir. E a culpa era sua e só sua. Você que tinha colocado tudo a perder. O meu coração apertou e eu quis arrancá-lo para fora do meu corpo e jogá-lo longe. Involuntariamente, passei meus olhos por todo o seu corpo, demorando o máximo que eu consegui. Eu queria guardar aquela imagem, lembrar de todos os detalhes daquele ser, daquela perfeição. Tentar captar toda aquela essência em uma fotografia mental. Não queria perdê-lo. Minha memória não podia falhar. — Para de me olhar assim. – ele disse, a certo ponto. Engoli um soluço. — Assim como? – perguntei, em um fio de voz. Eu já não tinha forças para falar, para pensar... O medo de perdê-lo estava me paralizando. — Como se eu fosse algum bem precioso que você vai perder. — Eu não vou te perder? Ou você vai dizer que você nunca foi meu para eu te perder? – perguntei, ácida. Algo no tom superior que ele usou despertou uma irritação que antes não estava presente nas minhas suplicações. Ele desviou o olhar e eu percebi que meu comentário tinha o afetado de certo modo. Cheguei a me dar ao luxo de pensar que ele ainda se importava, que ele também não queria que aquilo estivesse acontecendo. — Eu era absolutamente e aburdamente seu. – Sasuke afirmou, em um murmúrio. Quase que por reflexo, coloquei a mão na minha boca ao notar que sua frase estava no passado. O “era” em sua fala doeu mais do que mil agulhas perfurando o meu olho claro. — Era? – sussurrei, mais para mim do que para ele. Tentando me convencer de que fora aquilo mesmo que eu tinha ouvido. Seus olhos escuros não se voltaram para os meus. Então, como em um filme, me lembrei de todos os momentos felizes que tivemos juntos. Aquela primeira noite depois da balada, a nossa aposta de sangue, a sua jaqueta, aquela música... Tantos momentos que agora eram só memórias. E aquele nascer do sol naquela praça... Aquele nascer do sol que me fez pensar tão erroneamente que éramos tão impenetráveis e invencíveis. Agora tinha percebido o quão cega eu estava. Pensar em todas essas cenas me fez perceber o quão impossivelmente necessário Sasuke era na minha vida naquele momento. Eu não podia deixar aquilo acabar. Aquele não podia ser o fim.
— Você era meu? – repeti, em desespero, enfatizando o verbo. — Eu não sei. – ele murmurou, com os seus olhos longe. — Como assim, Sasuke? Você não pode seriamente estar pensando que... — Que a sua transgressão foi tão séria? – perguntou, completando a minha frase perfeitamente. – Cherry, eu não consigo olhar para você sem imaginar as patas imundas do meu irmão em seu corpo. — Mas... — Eu não consigo fitar seus olhos sem pensar que você é algo que esteve nos braços de Itachi, que é algo compartilhado com ele. Eu já não aguentava nem ter o mesmo sangue que ele, mas agora... Percebi, em vão, o quão difícil para ele era estar falando tudo aquilo. Sua honestidade e perfeita conduta me fez sentir-me ainda mais mal. Eu simplesmente queria morrer, mas até eu sabia que isso seria um luxo muito grande. Eu merecia estar ali e sofrer tudo aquilo. — Como.. Como eu posso fazer tudo isso ficar bem? – perguntei, claramente apelativa. — Eu não sei se isso é possível. – ele respondeu, fazendo minhas dores físicas voltarem. Quis desmonorar. Mais lágrimas cairam involuntariamente dos meus olhos claros. Eu precisava de alguma coisa que o fizesse mudar de ideia, eu precisava de... — Eu sei porque você está fugindo dele, eu posso pagar as suas dívidas, eu posso... — Cherry, eu não fujo do Itachi porque eu devo dinheiro a ele. – ele disse, calmo. Como se achasse necessário esclarecer aquele fato. – E você realmente acha que eu matei alguém? A verdade é que eu não sabia mais o que achar. Eu já estava tão esgotada mentalmente, que a minha percepção de certo e errado, de real e irreal, estava completamente falha. Tentei soltar algum som, mas simplesmente fui incapaz. — Seu silêncio diz tudo. – ele disse sério e eu comecei a chorar ainda mais. – Vou facilitar as coisas pra você e abrir a porta. Você não iria querer ficar no mesmo cômodo que um assassino. Com seus passos firmes e sua presença significativa, ele andou até a porta do loft e abriu-a, esperando calmo a minha saída. De repente, nada mais fazia sentido. Aquele era o fim? Minha visão estava embaçada com as lágrimas que não paravam de sair. Ele não podia fazer isso comigo, eu não aguentaria... Senti um vazio. Um grande vazio que corroia tudo o que encontrava no meu interior. Meu estômago embrulhou e a minha cabeça girou. Eu já não sentia mais desespero, era como se eu fosse feita de ar. A ausência completa de algum sentimento. Puro e completo choque. Me senti em um filme e de repente me vi de longe, como se eu fosse um anjo, analisando-me e apontando todos os meus erros. Então eu cai. Minhas asas falharam e eu me encontrei em queda livre, já não me importando com o que eu encontraria ao cair no chão. Mas eu não cai. Invés disso, o meu castigo foi ver o olhar absoluto e inflexível de Sasuke. O olhar de alguém que estava pronto para me deixar ir embora de sua vida. E como um pesadelo, me dei conta de como seria a minha vida sem ele. Quando menos percebi, tinha voltado a realidade e estava com um caco de vidro em mãos, apontado para o meu pulso. — Sem você, minha vida não tem sentido. – consegui falar finalmente, entre meus soluços sofridos. – Eu vou me matar. Eu me mato antes de ficar sem você. Para a minha própria surpresa, eu soava mais séria do que nunca, e naquele momento era a única opção que me parecia plausível. Como eu viveria sem Sasuke? Minha epifania tinha mostrado o quão horrorizante seria. O quão perdida eu estaria... Eu já não conseguia pensar direito e a indiferença dele só me fez ficar ainda pior. — Para com o drama e saia, Sakura. – era a primeira vez que ele me chamava pelo meu verdadeiro nome e eu nem sabia que ele o conhecia. Aquela simples frase me fez perder o pouco controle que tinha me sobrado e toda a angústia que estava fazendo o meu interior se contorcer explodiu de uma vez só. — É CHERRY! – berrei, com as lágrimas ainda caindo violentamente sobre o meu rosto. Porque eu nunca estive tão longe de ser Sakura... De ser qualquer uma, se não Cherry. – Você acha que isso é drama? Com minha mão tremendo, comecei a cortar meu pulso devagar, sem saber exatamente o que estava fazendo. A minha única esperança era que a minha dor passasse. Eu queria sentir dor exteriormente para ver se o meu desespero interior cessava-se. Finalmente, vi o olhar de Sasuke transformar-se um pouco e eu soube que ele ligava. Eu precisava que ele se importasse... Se não, quem se importaria? Eu claramente que não. — Cherry... – ele falou meu nome em um tom autoritário, como se soubesse que eu o obedeceria. – Solta o vidro. — Não. Se você me quer fora da sua vida, eu não me importo em morrer nem um pouco! Era verdade, eu já não me importava se eu realmente acertasse minha veia principal. Tudo parecia tão frágil e minha visão de tudo estava completamente distorcida. — Você não quer fazer isso. – ele afirmou, ainda mantendo-se ao lado da porta. — Você acha? – perguntei, ironicamente, afundando o vidro ainda mais na minha pele. Eu não queria que ele falasse que tudo bem, que iria ficar comigo, porque eu sabia que seria mentira. Eu sabia que aquilo seria apenas uma ameaça emocional. Não. Eu não estava fazendo aquilo para chamar atenção, nem para fazê-lo ver que ele se importava. Eu realmente cheguei a acreditar que eu não queria viver se suas palavras fossem verdades. Seu olhar preocupado tinha comprovado que o que ele sentira por mim fora real. E isso já bastava. Só de saber que ele me amara já era satisfatório para mim, eu já não me importava com mais nada. Apertei com mais força e vi as cores se misturarem, minha visão ficou ainda mais embaçada e finalmente... Escuridão.
Notas finais
Oooi, ok, não me matem, esse não é o último capítulo, haha.
Espero que tenham gostado de qualquer jeito ♥
Beijos :*
Espero que tenham gostado de qualquer jeito ♥
Beijos :*
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