Máquinas do Apocalipse
3 A Última Criança a Nascer na Terra
Aquela manhã escaldante novamente desafiou meu papel de mentor, mas me mantive firme com nossa esperança em primeiro plano, minha saúde por si só já não servia para nada depois do fim do mundo. Me dirigi com certa dificuldade até o minúsculo oásis onde acontecia o duro treinamento de meu pupilo. A areia negra queimava a sola de meus pés, mesmo através das sandálias, e o vento quente soprava aquela poeira negra fazendo esvoaçar minha longa túnica. A outra mestra da aldeia, Kaede, já estava lá trocando golpes com o jovem.
— Deixando o deserto levar a melhor de novo, Victor? — Brincou Kaede, enquanto se defendia dos golpes do bastão de nosso pupilo.
— A temperatura subiu repentinamente outra vez. — Respondi, cuspindo uma mistura de saliva e areia negra. — Andrômeda deve estar sonhando de novo.
— Aquela máquina idiota não vai sonhar por muito mais tempo! — Exclamou o jovem de maneira energética, perdendo a concentração e sendo facilmente derrubado pelo bastão de madeira da velha Kaede.
A habilidosa artista marcial girou o bastão com maestria, o batendo no chão de pedra no meio do oásis. Kaede treinava o corpo, a resistência física e ensinava técnicas de combate do mundo antigo para o nosso pupilo. Já eu, ensinava tudo o que sabíamos até então sobre os Deuses-Máquina. Em especial, sobre Andrômeda.
— Vou deixá-los a sós, não quero atrapalhar sua aula, Victor. — Se despediu Kaede com um aceno de cabeça. — Vocês devem ter muito a conversar já que hoje é o grande dia.
Apenas concordei com a cabeça e observei o jovem que se levantava com a cara fechada, apoiado em seu bastão.
— Vai me contar outra história absurda sobre o passado ou vai me dar algum dos seus sermões sobre minha responsabilidade com a aldeia?
Depois de tanto tempo, outra coisa que havia esquecido era o quão irritantes eram esses adolescentes. Se ele não fosse a última criança a nascer na terra, eu já teria lavado minhas mãos e abandonado o treinamento desse moleque idiota.
Após o fim da batalha dos Deuses-Máquina, o mundo e as poucas pessoas que nele habitavam nunca mais foram os mesmos.
A pequena parcela da população que sobreviveu às catástrofes globais foi salva graças às intervenções de alguns D’eles, que por piedade ou curiosidade, nos proporcionaram estranhos refúgios sob sua proteção. Nossa aldeia era um desses refúgios.
As pessoas logo passaram a se organizar nas ruínas da velha civilização e as coisas mudaram naquele mundo sem lei. Sobrevivência era a única premissa, já que repopular a terra foi uma das opções tiradas de nossa raça.
A humanidade havia se tornado estéril.
Nos anos que seguiram o fim da grande batalha, as máquinas passaram a nos tratar com indiferença, como meros organismos moribundos aguardando a morte.
Nas pequenas aldeias nenhuma mulher conseguia engravidar, não que elas fizessem questão, mas com a vida gradativamente seguindo seu rumo, nós percebemos que a habilidade de crescer e se multiplicar foi tirada de nós.
As máquinas que sobreviveram à batalha passaram a construir suas majestosas fortalezas e demarcar seus domínios através do planeta, e nós eventualmente percebemos que nossa única opção era voltar nossos olhares desolados para aquelas máquinas apocalípticas e aceitar sua estranha forma de piedade.
Andrômeda, o primeiro Deus-Máquina, ouviu nossas súplicas e nos permitiu estabelecer nossa aldeia aos pés de sua fortaleza titânica. Ele ainda nos deu outro presente: permitiu que um feto fosse gerado no ventre de uma das mulheres de nossa aldeia.
Dezoito anos depois esse presente milagroso se tornou meu pupilo, Reno.
Isso não pode ter sido em vão. Reno deve ter algum propósito. É nisso que todos nós apostamos as esperanças.
— Sem mais lições, Reno. — Respondi ao jovem indolente. — Hoje você vai subir o obelisco comigo.
O olhar castanho de Reno se encheu de empolgação ao ouvir aquelas palavras.
— Finalmente! — Comemorou o jovem girando o bastão com habilidade. — Vou conhecer o todo poderoso e se ele bobear, socar esse bastão na cara dele.
— Um movimento brusco e Ele lhe transforma em pó. Ou em uma poça de mercúrio, ou em uma estátua de ferrugem ou até mesmo em um daqueles zumbis mecânicos que você viu vagando no deserto aquele dia. — Repreendi Reno, virando as costas para o mesmo. — Trate de se preparar mentalmente, partimos para o obelisco ainda hoje.
Mesmo com todas as minhas histórias, com os estudos e observações que viemos fazendo nos últimos anos, Reno ainda não parecia convencido sobre os poderes desumanos dos Deuses-Máquina. Talvez um primeiro contato com Andrômeda o ajude a entender melhor a situação desesperadora em que nos encontramos.
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