Mystery And Crime
3 Dois: Extraordinary
Notas iniciais
A história pode estar ficando um tanto confusa. Mas eu juro, tudo será explicado mais adiante! E digressões como a que ocorre no final - logo vocês poderão perceber - vão se tornar bem comuns. Afinal, nosso pobre Roderich não sabe de nada...
Boa leitura!
Pista. Gilbert dissera-me que eu era a pista.
Mas como? Como, e por quê? Eu nem mesmo mantive contato com meu pai à época de sua morte, como poderia ter algo a ver com aquele caso? A imagem do tribunal, que tanto me perturbava, me vem à mente, mas com uma diferença: o réu sou eu. Começo a perder-me em devaneios de pânico, pensando no que fariam de mim se me tivessem como suspeito, e minha imaginação alcança fronteiras inimagináveis antes que Gilbert me traga de volta à tona.
— Ei, não vai nem me pedir para explicar minha descoberta fascinante? — O albino me soa realmente decepcionado com meu silêncio após seu insight milagroso, mas estou tão perdido em hipotéticas escapatórias para meu julgamento iminente que mal dou atenção à sua presença.
— Estou ocupado — admito, me arrependendo logo depois. Sinto minha face ruborizar, mas isto não me impede de continuar a frase. — Tentando não entrar em pânico. — Viro o rosto para que ele não veja a minha vergonha. Que descuido o meu, falar tais tolices para aquele homem!
— Kesesese — ri-se o outro, e seu risinho excêntrico de alguma forma parece combinar perfeitamente com ele: não sei se está achando graça da situação ou zombando de mim, e ambas as opções me incomodam.
— Posso saber o que é tão engraçado? — volto-me para ele outra vez, na esperança autêntica de que meu rosto tenha voltado à tonalidade usual. Chego também a achar graça em meus devaneios prévios – minha experiência, ainda que pouca, me dizia que, se ele realmente me visse como suspeito, jamais o diria diretamente para mim.
— Fique tranquilo, Herr Edelstein, e, por favor, não mije nas calças de novo. — brinca ele, referindo-se ao episódio da xícara de café mais cedo. Sua impertinência me impulsiona a dar-lhe um sermão, mas, antes que eu consiga, ele continua a falar sobre suas impressões. — Você não é suspeito, muito pelo contrário. Uma vez que seu pânico me fez perder a deixa para uma explicação mais épica, vou ter que me fazer entender de outra maneira. Mas já deixo avisado que não vai ter o mesmo impacto — reclama, dando de ombros com um ar impertinente. Fico em silêncio, embora sinta uma vontade infantil de interrompê-lo, só para vê-lo irritado. Talvez fosse natural dele manter aquela atmosfera cheia de egocentrismo.
Gilbert, ainda abaixado, aponta para a base do piano. Ele me olha, à espera de alguma observação – ou não, pois, sem nem me dar tempo para responder, ele prossegue.
— O segredo, Roderich Edelstein, sem nome do meio — começa, repetindo a maneira como eu dissera meu nome. — É que, esse tempo inteiro, você e todos ao seu redor tinham a chave para abrir a Biblioteca. A chave, como você deve estar se perguntando... — eu não estava. Porém, continuo quieto, à espera de que aquela enrolação terminasse de uma vez. — É o piano. No entanto, ela só abrirá, obviamente, se for movida da maneira correta.
À medida que fala, o homem de cabelos brancos passeia seu indicador pela parede, indo do piano até próximo da porta selada. A impertinência cede lugar, por um instante, à intuição e à racionalidade, e, embora eu ainda desconhecesse por completo seus métodos, ele me parece muito mais confiável. De certo ângulo, até um pouco mais normal.
— Quando alguém pensa em uma porta trancada, logo imagina que haja uma senha a se digitar — explica, virado para a parede, já sem dar muita atenção à minha presença. — Pois bem. Não há nada de diferente neste caso.
Fico à espera da conclusão, ao que Gilbert, em perfeita sincronia com suas palavras, levanta-se e se vira para mim, as mãos nos bolsos de volta àquela pose despreocupada.
— Vamos digitar a senha.
— Eu ainda não entendi — respondo, com a voz baixa. Eu não queria admitir que não estava conseguindo acompanhar seu raciocínio. — Mesmo que haja uma senha a digitar, em quê digitá-la? E, mais importante... Como vamos descobri-la?
— Mas é isso o que estou tentando dizer, Roderich — ele diz, como se eu não conseguisse enxergar a coisa mais óbvia do mundo. — O teclado é o piano. E a senha... A senha é você!
Acho que ele esperava alguma reação que não fui capaz de demonstrar, porque, após alguns segundos de silêncio, o desapontamento em sua face era perceptível. Com um suspiro, o albino se aproxima de mim, tira o chapéu da cabeça e põe-se a girá-lo com uma das mãos, relaxado.
— Meu Deus, mas você é a verdadeira face do desânimo. O segredo para entrar na Biblioteca estava em você o tempo inteiro! Não se sente um pouquinho mais especial? — Ele dá um risinho de escárnio e põe um braço sobre meus ombros, ao que tento me afastar, sem sucesso. — Rrrroderich Eeeedelstein. Entendeu? — pronuncia, dando uma ênfase estranha às iniciais.
— Eu sei bem o meu nome, muito agradecido — respondo, sem muita polidez. — Só não sei o que está querendo dizer.
Mais um suspiro.
— Me diga, qual a vantagem de ser brilhante se ninguém entende a sua genialidade? — reclama Gilbert. Ele se aproxima e senta-se ao piano.
— Saia já daí! Ninguém tem permissão de sentar neste instrumento! — tento reprimi-lo, puxando-o pelos ombros, mas é inútil. O albino tem certa força física, e sou incapaz de movê-lo um centímetro que seja. Para piorar, ele agora parece irritado.
— Me deixe trabalhar — ordena, as mãos sobre o teclado e sem ao menos virar o rosto para me encarar. Seu semblante ganhou seriedade de súbito.
— O senhor está louco se pensa que vai me dar ordens — eu ajeito os óculos sobre o nariz e posiciono-me ao lado do piano, de frente para o outro. — Exijo que me explique agora o que pretende fazer!
Gilbert não me olha. Permanece a observar as teclas do instrumento, a harmonia rígida e geométrica entre as brancas e negras, postas como num perfeito quebra-cabeças.
— O que é uma senha? Nada mais que uma combinação de símbolos. E letras, como você sabe, são símbolos. R-E — soletra, e a primeira coisa que me vem à mente são os monogramas bordados em minhas toalhas, lençóis e todo tipo de pertence. RE, minhas iniciais, que até então não me pareciam ter nada de especial. No entanto, a descoberta me abate de frente.
Ele estava certo. Aquilo não poderia ser mais óbvio.
Santo Deus, como eu podia não ter percebido?
— Eu sou a senha — afirmo, o olhar fixo na parede do outro lado do quarto.
— Foi o que eu disse — responde ele, ainda sem me olhar. — Mas você ainda está perdendo alguma coisa. Não vê letras neste piano, vê?
Aceno negativamente com a cabeça, à espera de seu próximo movimento. Eu ainda não sei direito onde ele pretende chegar, mas Gilbert, decididamente – e eu quase sentia vergonha em admitir isso – havia percebido muita coisa que eu era incapaz de captar.
— Talvez eu não tivesse pensado nisso se não tivesse pego o detalhe do latim — continua, e fico somente mais confuso. O que uma coisa tem a ver com a outra? — Você sabe algo de teoria musical, suponho. Pense em outra coisa que essas duas letras podem ser.
Ele não espera que eu responda, e continua falando sozinho.
— R-E. Ré. Ou D, como você deve conhecer. Embora as letras sejam mais usadas na notação musical por aqui, o Do-Ré-Mi-Fá-Sol-Lá-Si é outra forma de indicar as notas musicais, e sua utilização é comum nas línguas latinas. Seu pai era um músico aficionado por latim, não era? Pois bem! Roderich Edelstein, R-E, Ré, a senha neste caso não se trata de uma combinação de símbolos como letras, mas sim notas musicais! A senha é um acorde em Ré!
Gilbert revelou sua grande descoberta em tal velocidade que ele agora ofegava. Minha mente não consegue exprimir pensamento algum. Ludwig não estava errado. Ele era extraordinário, não porque fosse um gênio, embora ele obviamente acreditasse nisso.
Ele era extraordinário por ver aquilo que ninguém mais conseguia ver. Nem mesmo eu.
— Eu espero que eu esteja certo, porque, pelo que você disse sobre seu pai não deixar ninguém tocar o piano, eu suponho que a trava fique bloqueada no caso de alguém errar a senha. Então...
— Espere aí — reclamo. — Então o senhor não tem certeza?
— Kesese — ele ri mais uma vez, negando com aquele sorrisinho impertinente. Minha mão vai parar em meu rosto. Não acredito que quase mudei minha opinião sobre este... Completo tolo! No fundo, ele estava só arriscando um chute!
— Mas não se preocupe, Herr Edelstein. Como você deve ter percebido, os meus palpites costumam ser muito bons.
— Ótimo, agora deixe-me tocar o Ré.
— Ei, ei! Eu também sei alguma coisa de música, está bem? — O albino dá um sorriso de lado que, por alguma razão, me faz enrubescer. Talvez eu estivesse mesmo o subestimando, de várias formas.
Seus dedos são ágeis ao dançar sobre as teclas, e ele possuía uma habilidade tranquila que, embora não transpareça erudição e classicismo, mostra que ele sabe o que está fazendo. Em um piscar de olhos, ele termina, e se levanta, os olhos fixos no instrumento.
— Você tem que admitir, Roderich — diz, sem me encarar, quando a porta selada faz um ruído metálico e começa a subir. — Eu sou genial.
Gilbert faz um sinal e me permite ir à frente. Adentrando agora o cômodo estupidamente grande que meu pai escondera por anos e com o qual eu tanto devaneara, era difícil não me sentir como uma criança assustada, encarando aquilo que era ao mesmo tempo o seu maior medo e o seu maior sonho.
Caminho por entre os três corredores de altíssimas estantes de madeira, passando os dedos com cuidado pelos livros. Há neles uma quantidade enorme de poeira, e cada detalhe deixa mais claro que aquele lugar era menos dedicado à leitura e mais ao trabalho. Quando acabam as estantes, Gilbert e eu a encontramos ao mesmo tempo. Uma grande mesa de escritório, feita em mogno muito escuro, sobre o qual se atulhavam papéis dos mais variados. Alguns contratos dos concertos de piano que Berthold ocasionalmente realizava. Mas, em sua maioria, papelada relacionada aos negócios da Academia de Música. O albino se senta à poltrona gasta de couro, castigada pelos anos, e põe-se a examinar os documentos. Eu busco por evidências em toda a Biblioteca, mas é inútil. Quase duas horas se passam até que ele me chame.
— Você já saiu de Berlim, Roderich? — o comentário me aprece completamente aleatório, mas eu estava me acostumando à ideia de que nada que aquele homem dissesse seria remotamente desproposital. Os olhos de Gilbert vagueiam todos os ângulos como se escaneasse todo o ambiente – e sei que é isso o que estão fazendo.
— Na verdade, eu não sou daqui... Nasci em Viena. Onde Heidi mora. Mas, dentro da Alemanha, Berlim é tudo o que conheço.
— O seu pai nunca te levou para conhecer a Academia? — pergunta. Não sei aonde ele quer chegar, mas sei que tudo o que eu saiba sobre Berthold pode ser útil às investigações.
— Nunca — respondo, com um quê de humilhação. Aquela Academia de Música tinha praticamente a minha idade, e eu nunca a conhecera. Sabia que ficava no interior, a cerca de duzentos quilômetros da capital, e meu pai ia constantemente visitá-la. No entanto, tudo a respeito dela era uma total incógnita para mim. — Nunca fui para lá. Como disse, nunca conheci nada além de Berlim nesse país.
— Compreendo — afirma ele. Sua expressão séria ganha um sorrisinho de repente. — Você devia viajar mais por aqui. Há muito para se ver, sabe. Por exemplo... Se você conhecesse alguma coisa sobre a Academia, talvez soubesse que o que acontece por lá é sujeira pura.
A afirmação, que ele dissera com tanta calma, me assusta. Atento, espero que o outro me dê mais explicações, e vejo minha mente sair de órbita.
— Eu sinto muito, Rod... — com uma das mãos sobre o rosto, Gilbert ganha um semblante realmente decepcionado. — Ah, céus, eu desconfiava. Mas realmente esperava estar errado.
— Eu ordeno que me explique exatamente agora o que diabos você está querendo dizer. — minha voz é firme, como eu desejava, e ele, talvez pela primeira vez, me responde como espero, sem nenhuma gracinha ou prepotência. Leva na mão esquerda uma folha de papel desgastada, e seu tom é o de um detetive sério e invicto do que diz.
— Uma Academia de grande renome — começa, balançando o papel à minha frente, ainda sentado. — Sem dúvida. Professores brilhantes – não duvido. Berthold era um músico – quem poderia querer qualquer coisa de mal com ele? Mas não era só um músico. A pessoa que matou seu pai não levou nada, então o fez por razões ideológicas. Por que mais seria, se não por conta da Academia?
— Mas não vejo o que a Academia possa ter a ver com nada disso! — reclamo, com sinceridade. Eu só quero respostas.
— A Academia cresceu em torno de uma corrupção sem tamanho, Roderich. A razão pela qual tantos estudantes vindos de lá foram parar em Orquestras ao redor do mundo é que Berthold tinha dezenas de contatos nessas organizações. Contatos... — Ele se vira de costas para mim. — Que recebiam bem, muito bem, para conseguir isso.
Não consigo acreditar no que ele me diz. Meu único instinto é de negar tudo aquilo, de impedir que a honra de meu pai fosse suja daquela forma.
— Você está errado.
Gilbert não responde. Simplesmente me estende a mão, com uma folha pequena, em uma caligrafia rebuscada. Um bilhete, com um recorte de jornal grampeado a ele. No recorte, a foto do assassino a cujo julgamento eu havia assistido. Uma foto datada de sua última prisão.
— Seu pai sabia que ia morrer, Roderich. Ele foi avisado. Por isso ele não se opôs quando o assassino veio ao Casarão. Ele mata homens poderosos por encomenda.
Você deve reconhecê-lo. Se não, o conhecerá muito em breve.
Vocês deveriam tomar chá um dia.
- Amadeus
Amadeus. Embora eu não soubesse nada sobre aquela Academia, aquele nome me era um velho conhecido. Impassível, com o papel em mãos, retorno aos meus anos de infância. Só havia um Amadeus que podia ser aquele. Eu tinha apenas nove anos.
— Bem-vindo à Alemanha, pequeno — o homem de cabelos grisalhos usava um elegante terno em risca de giz, e seus olhos castanho-claros cintilavam ao me ver tocar. Meu pai me sentara ao piano com a intenção de demonstrar àquele senhor os talentos inegáveis de seu herdeiro para a música. Tal pai, tal filho. No entanto, me sinto um tanto desconfortável com a situação. Os olhos do homem, tão belos, me lembram uma ave de rapina. Mesmo sendo jovem, posso sentir uma coisa sobre ele. Eu não era a primeira criança que ele olhava com aquela voracidade.
— Ele é dono de um orfanato — digo, os olhos ainda no papel. — Um grande orfanato. Não muito longe de onde é a Academia.
— Eu sei — responde Gilbert, o cotovelo apoiado na mesa e o rosto sobre as mãos. — Amadeus Kraftenberger. Assina como AK. Homem poderoso. Filantropo de renome.
Apesar de tudo, não estranho o fato do albino conhecer aquele homem. O rosto de Amadeus estampava inúmeros jornais, todos propagando seus feitos na recuperação de crianças carentes. Mas havia algo que eu não sabia.
— Ele já me mandou uma carta.
Meus olhos confusos estudam Gilbert, que mal se moveu, à procura de respostas. O caso do assassinato de meu pai – que fora, pelo que eu entendia, ordenado por um de seus conhecidos mais poderosos – parecia mais e mais distante.
— A.K. Berger — continua, de costas, e seus cabelos alvos bagunçados me encaram como podem por baixo do chapéu. — “Gostamos de você. Assinado, A.K. Berger”. Só isso. Foi há três semanas. Joguei fora. Não pensei que pudesse ser algo importante, mas a caligrafia é a mesma.
Quem era o nós de gostamos? O que ligava Amadeus com meu pai? E, principalmente, como Gilbert entrava naquela história toda?
— Você sabe o que acontece com os órfãos que saem do Orfanato Kraftenberger, Roderich? Faz alguma ideia?
A expressão de Gilbert é de uma decepção que não consigo compreender. Nego, com a cabeça.
— É claro que não — ele passa as mãos pelos cabelos brancos, deixando cair o chapéu negro. — Ninguém nunca faz.
Um silêncio se segue, e eu deixo o papel da carta sobre a mesa à frente de Gilbert, forçando-o a olhar para mim.
— Só o que eu quero saber... É por que Amadeus Kraftenberger mandou que matassem o meu pai.
Com as duas mãos à frente, posicionadas como se rezasse, Gilbert deu as respostas que eu queria. Com muita calma. Não parecia o mesmo homem. Havia algo diferente – era como se tivesse pena de mim. Ou raiva.
— Berthold Edelstein e Amadeus Kraftenberger faziam parte de uma rede de favores que ocupa mais de vinte cidades alemãs. Seu pai organizava a Academia e Kraftenberger, o Orfanato. Li dezenas de e-mails e cartas nesse meio-tempo. Os jovens que iam ficando velhos para o Kraftenberger eram mandados para todo tipo de lugar, para trabalhar com o que quer que fosse. Uns mais espertos iam estudar música. Outros conseguiam vagas na polícia. E alguns... Eram jogados à própria sorte. Nunca sem que o caso fosse muito bem abafado, é claro. Acontece que...
Começo a devanear. Eu podia usar aquela carta e os e-mails para acusar Kraftenberger como o verdadeiro culpado, mas, se o que o albino dizia era verdade, então seus contatos na polícia conseguiriam que ele fosse inocentado – e sabe Deus o que poderia acontecer comigo e com Gilbert.
Era por isso que aquele assassino era culpado por todos os crimes. Era matador de aluguel de um homem inatingível.
— Mas, se juntarmos evidências... Se formos atrás dos outros que ele mandou matar, então talvez... — minhas palavras soavam ingênuas até para mim, quanto mais para o outro, então ele simplesmente ignora.
— Roderich, Roderich, me deixe terminar. Isso vai ser demasiadamente clichê, mas seu pai morreu porque sabia demais.
— E os outros?
— O mesmo. Tem algo realmente nojento acontecendo por debaixo dos panos nesse orfanato, e Berthold e os outros acabaram descobrindo isso. Quem dera não tivessem. Certamente estariam vivos e ainda enchendo seus bolsinhos. — Gilbert cruza os braços e apoia as costas na poltrona. Num gesto intuitivo, pego o chapéu do chão e ponho sobre sua cabeça. Por alguma razão, meu rosto enrubesce logo após.
— E o que fazemos agora? — pergunto. Sinto vontade de explodir, de matar Amadeus Kraftenberger, fosse lá o que estivesse fazendo, com as minhas próprias mãos. Mas me controlo. Não sei ainda por quanto tempo.
— Agora nós deixamos que aconteça o que aconteceu com os outros. Um assassinato com hora marcada... Aparentemente sem razão. Ódio de um rapaz pobre contra um bando de burgueses. É isso. Não temos mais nada a ver com isso.
— Errado! — puxo seu ombro, virando-o de frente para mim. Nossos rostos estão tão próximos um do outro que sinto sua respiração em minhas bochechas. Sei que estou rubro de raiva, e não me importo. — O senhor não tem mais nada a ver com isso. Mas, eu não sei se se lembra, mas ele era o meu pai! E está morto! E você pretende simplesmente deixar o culpado andando livre por aí e fazendo seja lá o que estiver fazendo!
Gilbert fica em silêncio, me encarando. Estou ofegante, por ter falado rápido demais, mas meu nervoso é impossível de conter. Com os braços apoiados em seus ombros, abaixo a cabeça e sinto lágrimas, fossem de ódio ou as de tristeza e inconformismo contidas há tanto, umedecerem minha face. Eu tremo. Gilbert me surpreende, colocando uma mão sobre meu próprio ombro, com pena, e isso só impulsiona a saída da única palavra que me povoava a mente. Se me refiro a ele ou a mim, eu não sei.
— Covarde.
O albino se levanta, o que me desequilibra, e faz menção de ir embora. Não consigo simplesmente deixá-lo ir naquela situação, e puxo-o pela gola da blusa. Ele continua a tentar não me encarar.
— Você está indo embora?
— Não me diga. — sua ironia me deixa ainda mais irritado, mas posso ver que ele mesmo se irrita.
— Eu preciso que me ajude a destruir esse homem. Eu preciso que...
— Deixe isso para lá, Roderich — interrompe-me. — É mais seguro continuar a viver na superfície. Você pode não gostar do que encontrar enterrado.
— Eu prefiro arriscar. Pelo meu pai. Ele morreu antes que pudesse trazer tudo à tona, então é meu dever moral continuar seu trabalho.
— Se você bem se lembra, Herr Edelstein, seu pai também era um corrupto. Não pense que as coisas são tão simples, principezinho. — sua voz está cada vez mais irritada, e me delicio com a raiva que estou fazendo-o sentir. — E ele morreu por isso.
— Eu já disse. Vou correr o risco.
— Então se vire sozinho — o albino ajeita o chapéu e me lança um olhar de reprovação. — Eu não vou deixar mais ninguém morrer por burrice. É meu último conselho. Não mexa com o submundo. Não pode entendê-lo se não nasceu no meio dele.
— Então como você o entende?
Gilbert me deixa no silêncio. Com um puxão, se vira e vai embora, sem mais nem menos. Uma vez que esteja fora de minha vista, saio da Biblioteca. Não digo nada a Hildi ou Sebastian, ou a ninguém. A versão oficial é de que nada conseguimos encontrar. Durmo no Casarão naquela noite, assim como minha mãe, e planejo voltar ao meu apartamento apenas na manhã seguinte. Sem compreender direito o porquê, sei que vou seguir o conselho dele. Uma parte de mim não queria admitir a corrupção de meu pai, então faço como Gilbert aconselhou. Finjo que nada aconteceu.
No entanto, ele havia acontecido. Aquele homem extraordinário, que enxergava por debaixo de tudo. Que via tudo o que ninguém mais via. Aonde ele iria agora? Onde vivia? Ele sabia tanto sobre mim, e eu tão pouco sobre ele.
Tento me convencer de que estou melhor longe dele. Sua prepotência e orgulho, no fundo, somente escondem um espírito covarde. Ele era inteligente, com certeza, mas de que adiantava aquilo tudo?
Pela manhã, volto à polícia. Ludwig se decepciona com a falta de evidências, e convenço-o, a contragosto, a arquivar o caso. Era melhor deixar tudo como estava.
Trinta e sete dias se passam sem notícias de qualquer outro assassinato a mando de Amadeus. Trinta e sete dias daquela minha rotina cinza e monótona, encontrando criminosos ridículos e que, perto do dono do Orfanato, sobre o qual apenas eu sabia a verdade, pareciam completamente tolos. Trinta e sete dias sem saber nada de Gilbert.
E então veio o trinta e oito.
• • •
Sem nenhum aviso, o indivíduo sentou-se à mesa, o chapéu negro impecavelmente posicionado sobre a cabeça. A governanta poderia ter-se assustado, mas aquela se tornara uma visita costumeira. Era sempre assim: pouco antes do amanhecer, um horário perfeito para o chá. Ainda assim, Amadeus nunca estava lá.
Depois de terminar, de um só gole, a bebida, o visitante suspirou.
— Creio que devo ir embora — disse, levantando-se e pondo sobre a mesa um pedaço de papel. — Avise a ele que passei por aqui, e lhe entregue isso.
— O senhor sabe que sempre o faço — responde a mulher.
— Não custa reforçar. Seja boazinha.
A caligrafia desajeitada não tinha nada de nobre. O estranho foi embora sem dizer mais nada. Tudo estava dito no bilhete.
Encerrado com atenção pela assinatura de Gilbert Beilschmidt.
Notas finais
Não gostei desse capítulo nem a metade do que gostei do outro, mas ele é necessário. As razões de Gil para deixar Amadeus em paz são muito mais obscuras do que imaginam! Da mesma maneira, gostaria muito de saber as teorias de vocês. Há muuuuuita coisa por descobrir!
Critiquem à vontade esse capítulo, pois sei que ele saiu bem fraco. No entanto, a partir daqui as coisas vão melhorar...
Continuem acompanhando!
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