Cristian disse que iria me levar para o seu triplex para comermos uma pizza, alegando que estava cansado demais para ir em um restaurante, pois tinha gravado cenas o dia inteiro para a nova novela.

— Vai querer perguntar sobre a minha vida ou vai continuar calada?

Dei uma risadinha sem graça pelo jeito um tanto grosso que Cristian usou para falar, mas um segundo depois dei-lhe um desconto porque — como já havia me dito — ele estava cansado.

Reuni toda a doçura na voz e disse:

— Vou perguntar.

— Ótimo, mas não me venha com perguntas do tipo "Quais as famosas que você já pegou?"

Droga! Era exatamente isso que eu estava querendo saber! Ainda bem que ele avisou antes.

— Bem... qual era o seu sonho de criança?

— Boa pergunta. É estranho, mas eu queria ser engenheiro agrônomo.

— Difícil olhar para você e te imaginar nessa profissão.

— Pois é, é o que meus pais também achavam e exatamente por isso não dei continuidade com esse sonho.

Durante o caminho Cristian me contou um pouco da sua história e disse que desde criança ele sempre foi uma pessoa bonita — nada modesto e nem convencido. Aproveitando a sua beleza os pais o levaram para uma agência de modelos infantis. Ele começou tirando algumas fotos para publicidade, logo depois foi convidado para fazer comerciais e passou a infância sendo o rostinho mais cobiçado para representar marcas famosas em valiosas propagandas. Antes dos treze anos Cristian já ganhava dinheiro suficiente para comprar uma casa na metrópole e quando os pais realmente decidiram se mudar para um bairro nobre da capital, pela primeira vez na vida — segundo ele — o ator mirim protestou contra, pois a vida na pequena casa numa parte rural da cidade era para ele melhor que tudo. Foi exatamente aquela pequena casa no meio do pasto, dos cavalos, das galinhas, das vacas e das plantaçôes que surgiu nele a vontade de trabalhar com engenharia agronôma. Mesmo que Cristian não tivesse se tornado um ator, eu tinha certeza que ele seria um excelente trabalhador do meio rural, e que sorte teriam as lindas e tímidas mocinhas da roça em conhecer ele, assim como eu estava conhecendo.

Chegamos no triplex e fiquei muito impressionada com o tamanho do apartamento que deixava qualquer cenário de "melhor novela do ano" no chinelo. Parei em frente de um quadro do Salvador Dali num canto da sala e enquanto observava a pintura, Cristian ligou para a pizzaria e pediu uma pizza com o dobro de queijo.

Em silêncio eu observava cada detalhe dele e já tinha aprendido três coisas: 1- Ele gostava da vida rural, 2- Ele era um admirador da arte, 3- Ele gostava de queijo.

Cris se esparramou no sofá e com os olhos fechados disse:

— Estou com dor de cabeça, me distraia.

Distrair? Ora, eu não era um bobo da corte, a única coisa que eu podia fazer era conversar. Sugeri contar sobre a minha vida e ele aceitou. Envergonhada sentei-me ao seu lado e iniciei uma breve narrativa da minha infância, dizendo-lhe quais eram as minhas brincadeiras preferidas, porém Cristian não se conteve só com a minha fase de criança e fez perguntas mais profundas sobre meu passado provavelmente por conta de tudo o que eu já tinha dito da minha vida para Otaviano. E mesmo que tudo fosse verdade, eu estava com muita vergonha de admitir pessoalmente para ele toda a bagunça que foi o casamento dos meus pais e sobre a minha dificuldade e pobreza. Fui salva pelo gongo e as minhas respostas foram silenciadas quando a pizza finalmente chegou. Cristian foi pagar a pizza e quando voltou, imediatamente se sentou à mesa e começou a comer. Eu estava estática no sofá esperando que ele me chamasse para comer e puxasse a cadeira para mim, no entanto eu havia aprendido a quarta característica de Cristian Bee: Ele não era cavalheiro. "Não há problema, afinal, ele já havia dito que estava cansado".

O jeito foi levantar-me e me servir sozinha. Comemos em silêncio e depois que ele estava satisfeito, disse:

— Já é hora de você ir embora. Vou chamar um táxi.

Cristian se levantou, foi até o telefone e chamou um táxi para me levar para casa e quando retornou à mesa, disse em tom bem enérgico:

— Preste atenção, não quero que você saia espalhando sobre nossos encontros por aí igual panfleto de pŕomoção de loja. Eu vou odiar muito se a mídia souber de você, então tome cuidado. E outra coisa, não crie esperanças em seu coração, porque você é uma sugar e sugars são somente uma distração de companhia para mim. Entendeu?

— Sim, entendi.

— Ótimo.