My Little Ghost
2 O Fantasma Na Estrada
Notas iniciais
O mais difícil era o fato de tudo lembrar ela.
A faculdade, o cinema, a praça... Até mesmo sua casa. Tudo era uma lembrança constante daquilo que perdeu.
Faziam seis meses desde o acidente e ainda não havia retomado sua vida. Como retomá-la quando uma parte importante de si foi roubada?
Era grato pelo que todos estavam fazendo por ele. Respeitando seu espaço, seu luto. Até mesmo Isshin deixara de lado seus ataques e dramas.
Mas aquilo não iria — nem poderia — durar para sempre, soube disso no momento em que leu a mensagem de Inoue:
Kurosaki-kun, nós vamos passar na sua casa por volta das sete horas, para irmos todos juntos ao cinema. Eu sei que você está sofrendo, mas precisa tentar seguir em frente. Nós dois sabemos que Tatsuki-chan iria querer isso.— I.OSeus amigos obviamente não estavam lhe dando escolha, então tratou de tomar um banho, afinal já passava das seis e meia.
Uma parte sua sabia que Inoue tinha razão, talvez fosse mesmo hora de se reerguer. Perdera muitos assuntos na faculdade, precisava voltar. Se Tatsuki visse seu atual estado, provavelmente lhe daria uma boa surra.
Agora que havia parado para pensar em sua situação, Ichigo se dera conta de que seu estado de espírito afetava todos a sua volta. Seus amigos estavam sempre sendo cuidadosos para não dizer algo que o machucasse; sua família — principalmente Isshin — andava tão quieta que era quase como se estivesse sozinho em casa o tempo todo, sem escândalos, brigas... Nem risadas. Talvez todos estivessem apenas esperando ele ficar bem outra vez, mas a verdade era que Ichigo não estava fazendo nenhum esforço para isso. Dar-se conta daquilo o fez se sentir mal.
— Ichi-nii! — Despertou de seus pensamentos ao ouvir a voz de Karin do outro lado da porta — Será que pode descer logo? Uryu vai deixar todos surdos com essa buzina!
Só então o Kurosaki notou o barulho insistente vindo do lado de fora e desceu as escadas.
Já do lado de fora, ele foi direto até o carro do amigo.
— O que foi, Ishida, está vendendo a buzina? — Perguntou assim que se acomodou no banco de trás, juntamente com Sado e Keigo.
— Eu não precisaria tocá-la tantas vezes se você fosse mais rápido, Kurosaki!
— Ishida-kun, deixe ele em paz. — Orihime, que estava no banco do passageiro, voltou seu olhar para o ruivo — Boa noite, Kurosaki-kun.
— Boa noite, Inoue.
O caminho para o cinema se seguiu com Keigo e Orihime matracando sem parar sobre assuntos que, sinceramente, ninguém além deles prestava atenção. Vez ou outra Uryu mandava Keigo se calar, o que resultava em escândalo e drama. E tudo seguiu assim até que finalmente chegassem ao bendito cinema
(…)
Caminhando pelo estacionamento em busca do carro, os rapazes se arrependiam amargamente de ter deixado Orihime escolher o filme. Ela escolheu nada mais, nada menos que "A Bela E A Fera", para o total descontentamento dos garotos.
Agora, ela estava dançando pelo estacionamento enquanto cantarolava a canção principal do filme. Se a conheciam tão bem quanto achavam, ela continuaria com isso até chegar em casa, para desespero deles.
No caminho para casa, como previram, Inoue só parava de cantarolar para falar o quão maravilhoso o filme era. Isso os estava levando à loucura! Mas então outra coisa tomou a atenção do Kurosaki. Um grito vindo de algum lugar:
— Alguém pode me ajudar?!
— Ouviram isso? — Os amigos de Ichigo, que estavam tentando fazer Orihime parar, o olharam sem entender — Vocês não ouviram nada?
— A única coisa que eu ouvi é a Orihime enchendo o saco. — Keigo disse, como se fosse óbvio.
— Está tudo bem, Ichigo?
— Está, sim, Chad. — O ruivo se recostou no banco — Talvez tenha sido minha...
— Alguém? Por favor! — Outro grito foi ouvido,dando à Ichigo a certeza que precisava. E, se seus amigos não conseguiram ouvir, só podia significar uma coisa: o grito era de um fantasma!
Prestando mais atenção, o Kurosaki pôde ver uma menina trajando um kimono branco na beira da estrada. A menina tentava falar com as poucas pessoas que passavam por ela, mas ninguém lhe dava atenção — porque ninguém conseguia vê-la —,e aquilo a estava deixando desesperada.
— Ela não sabe que está morta... — Ichigo sussurra para si mesmo. A menina parecia tão perdida e desesperada... Ele tinha que ajudá-la! — Ei, Ishida, pare o carro.
— Para quê?
— Apenas pare logo essa porcaria!
Devido a insistência do amigo, Uryu atendeu ao pedido, mesmo que protestando.
— Kurosaki-kun, não faça isso, por favor! — Inoue pediu, deixando Ichigo confuso. Qual o problema de sair do carro ali?
— Já volto. — Foi tudo o que disse antes de sair do carro, sob os olhares atentos e preocupados dos amigos.
A medida que se aproximava, reparou que não se tratava de uma menina, mas sim de uma mulher de baixa estatura — e põe baixa nisso. O olhar desesperado dela recaiu sobre si, deixando-o tenso e maravilhado ou mesmo tempo. Tenso por ter que dar a ela a notícia de que estava morta; maravilhado pela cor exótica de seus olhos.
— Me ajude!
— Calma, eu vou te ajudar. — Mesmo tendo sua típica expressão emburrada, seu tom de voz era o mais manso possível. Precisava acalmá-la antes de tudo.
— Por que todos estão me ignorando?!
— Primeiro: qual o seu nome?
— Meu nome... — A morena fez uma pausa, como se buscasse se lembrar — Rukia! Meu nome é Rukia.
— Certo, Rukia, e seu sobrenome? — Ichigo observou a expressão confusa dela, como se estivesse tentando se recordar dessa informação.
— Eu... Eu não sei... — Ela pareceu espantada com esta constatação. Como não se lembrava de algo tão importante? — Como você se chama?
— Eu sou Kurosaki Ichigo.
— Ótimo, prazer em te conhecer, agora me diz o porquê de essas pessoas estarem me ignorando!
— Bom... — Essa era sempre a pior parte. Ter de contar algo tão delicado era angustiante, mas preciso — Eles não podem ver você, Rukia.
A garota o olhou como se fosse louco — algo muito comum, na verdade.
— Você é maluco? Como assim não podem me ver? Eu 'tô bem aqui!
— Rukia, você é um fantasma.
— Um... Fantasma? — Ela riu, talvez por estar nervosa, ou por achar aquilo ridículo — Você é desequilibrado!
— Eu posso provar. — Ele sempre usava aquilo para convencer espíritos relutantes — Toque em mim.
Ela o olhou de cima a baixo, tendo a mais absoluta certeza de que aquele homem era maluco.
— Você é um tarado ou coisa do tipo?
— O quê?! Claro que não! — Céus, que situação constrangedora! Certo, ele poderia ter escolhido melhor as palavras — Vamos, segure minha mão!
Com certo receio, a morena segurou a mão oferecida por ele, foi nesse momento que sua confiança se abalou. A mão dela, ao contrário do que imaginava, atravessou a de Ichigo.
— O-o que...
— Lamento, Rukia... De verdade. — Era sempre triste ver almas perdidas. Seres vagando por aí, sem poder descansar e sem sequer saber o porquê. Era por isso que Ichigo se dedicava a ajudá-los.
— O que aconteceu comigo? Onde está minha família? Como eu morri? — Milhões de perguntas fervilhavam em sua cabeça, mas o Kurosaki não tinha nenhuma das respostas.
— Vou ajudar você a descobrir, eu prometo. — O som de uma buzina atraiu a atenção dos dois. O ruivo ficou tão focado em Rukia que se esqueceu completamente dos amigos — Tenho que ir, mas volto amanhã.
— Mas... — Antes que ela pudesse protestar, ele correu de volta para o carro.
— Tudo bem, Kurosaki-kun? — Orihime soou preocupada.
— Claro, Inoue, por quê não estaria?
— Você demorou. Achamos que, talvez, você estivesse... — Keigo parou de falar, como se Ichigo fosse capaz de deduzir por si só o fim da frase. Mas ele não era, porque ele não fazia a menor ideia do porquê de tanta preocupação.
— Eu estivesse... — O incentivou a terminar.
— Revivendo o acidente. — Fora Uryu quem completou a frase, afinal era o que todos eles estavam pensando.
O Kurosaki ficou tão alheio ao caminho e, depois, tão focado em Rukia que não percebeu, mas agora tudo fazia sentido: a relutância de Ishida para parar, a preocupação de todos... Aquela era a mesma estrada em que sofrera o acidente seis meses atrás!
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