My Girl
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Emily perguntava-se por que a vida tinha que ser assim. Por que o amor não podia ser o suficiente?
Emily amava Mary. Uma mulher. E acima de tudo, uma mulher negra. Na década de 60, casais interraciais eram abominados pela sociedade. Casais homossexuais interraciais seriam como a personificação do demônio.
Emily era casada com um homem importante em sua pequena cidade no interior do Alabama. O casamento aconteceu porque seus pais queriam e não havia amor por parte dela, mas não havia nada que esta pudesse fazer, a não ser aceitar o destino que sua família havia escolhido. Mary entrou em sua vida alguns anos depois. Elas se conheceram pela primeira vez de forma corriqueira e pela repetição de encontros, começaram uma amizade.
A amizade levou ao amor, e o amor levou a tornarem-se amantes. Emily finalmente sentia-se completa. Ela sentia-se viva quando estava junto de Mary. Quando as duas riam por coisas banais deitadas na cama de Mary em uma tarde quente de verão.
É claro que Mary amava Emily também. De forma pura e verdadeira, mas ela entendia sua condição na sociedade e entendia que o amor que sentia era proibido. Ela não o achava errado, "amar não é errado" disse ela a Emily, quando esta pôs-se a chorar pela angústia que sentia em sua vida.
Emily sabia que sua amada tinha razão, mas a razão e a realidade eram diferentes, e ela fez-se chorar mais no colo da outra. Mary numa tentativa de animá-la a puxou de pé para um abraço. Deu-lhe um longo e apaixonado beijo, que cessou um pouco seus soluços. Limpou-lhe as lágrimas que escorriam pelo rosto e pôs música para ouvirem, isso sempre a animava. "I've got sunshine on a cloudy day" cantou Mary para Emily enquanto dançavam juntas pelo quarto. "What can make me feel this way?" Ela olhava Emily nos olhos e sorria. Emily não resistia a seu sorriso. A maneira que seu rosto se iluminava e trazia calor ao coração. "My girl" cantavam juntas dançando ao ritmo da música. A luz que entrava pela janela, fazendo um faixo de luz dividir o cômodo, dava a sensação de paraíso as duas. E naquele momento nada existia. Os medos, as inseguranças, as dúvidas. Nada. Somente elas existiam e a letra da música que preenchia o ambiente.
Mas o paraíso tinha que ser abandonado como sempre. Já era tarde e o marido de Emily ficaria incomodado com a demora da esposa. Ela declarou-se à amada "eu amo você e só você. Sempre amarei." Emily disse a Mary com lágrimas nos olhos novamente. "Eu sei" respondeu Mary "eu também amo você com a minha vida."
Mary a levou até a porta. Despediram-se uma última vez. Ela viu seu amor ir desaparecendo aos poucos de vista. Fechou a porta recostando-se sobre ela. E então deixou que o peso do mundo caísse sobre si. Pôs-se a chorar, escorregando e sentando-se no chão. Abraçou os joelhos enquanto lágrimas desciam por seu rosto. Ela permitiu-se chorar o quanto pode. Ela não choraria na frente de Emily nunca. Tinha que manter sua postura de porto seguro para a amada. Se as duas desmoronassem não seriam capazes de se recompor.
Mary levantou-se, limpou os olhos, ajeitou seu vestido branco florido, e foi em direção ao quarto onde o perfume de Emily ainda permanecia no ar. Deitou na cama e abraçou uma de suas almofadas, ela também tinha o cheiro de Emily. Mary fechou os olhos e sonhou com um mundo onde as duas poderiam se amar livremente. Onde não haveriam raças, nem gêneros, nem costumes que impedissem o amor de acontecer.
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