My Favorite Darkness
8 Um homem macaco pega um ônibus.
Notas iniciais
POV:Nico
Estão de sacanagem comigo.
Cheguei no quarto e não tinha luz. Ok, ainda tinha a claridade da luz entrando pela janela, então estava tudo bem, eu ainda conseguia enxergar. Larguei minha mochila em um canto qualquer e fui arrumar as coisas para eu finalmente poder dormir.
Abro o guarda-roupa. Encontro um travesseiro baixo e quase sem estofamento e um edredom mais velho do que aquele lugar, roído por traças e que de jeito nenhum iria me aquecer naquela noite um milhão de graus negativos. Sério, eu estava quase congelando. Então, quando eu vi que eu realmente não poderia dormir só com eles, lá fui eu pedir um cobertor emprestado para uma das meninas.
Resolvi que iria ver primeiro com a Violet se ela tinha um cobertor sobrando. Foi meio inconsciente a escolha, eu só queria mesmo descansar. Mas aí eu abro a porta...
Eu realmente achava que não era ela. Aquela assassina que matou uma hidra de sete cabeças não poderia ser aquela garotinha encolhida no chão, chorando desesperadamente. Eu pensei em correr ou sair dali de fininho, porque aquilo não era algo que eu podia ver. Mas aí ela olhou pra mim.
Eu perguntei um monte de vezes o que tinha acontecido com ela, o porquê de ela estar chorando, mas ela não respondia. E ela estava se encolhendo tanto que eu achei que as pernas dela iam se fundir com o tórax. Fui me aproximando sem ter ideia do que fazer com ela, e sentei ao seu lado.
Então eu fiz uma coisa que eu jamais me vi fazendo e que eu pensei que nunca iria ter de fazer; eu a abracei. E não vou falar que "é porque muitas vezes eu estive naquela mesma situação e eu precisava de conforto, mas ele não veio" e toda essa conversa de gente que corta os pulsos e posta frases depressivas no Facebook. Não. De início foi por puro desespero, porque eu queria que elaparasse. Mas assim que eu abracei ela, sei lá... Acho que desde que eu a resgatei do cais eu tenho uma ligação com ela. Eu sinto que eu tenho que protegê-la, como se eu tivesse de defendê-la do que ela temesse. E eu gosto de ter esse laço. Eu tinha de confortá-la, dizer à ela que tudo iria ficar bem, mesmo sem saber o quê iria ficar bem. E foi um alívio quando finalmente Violet finalmente parou de soluçar em meus braços depois de nem sei quanto tempo e adormeceu.
Eu a pus na cama com facilidade, afinal, se eu já tinha corrido com ela, colocá-la na cama não era nada. Então a cobri com o único cobertor do guarda-roupa (melhor que o meu, mas também não grande coisa) e a deixei, voltando para meu quarto, onde eu dormi com o meu único edredom frio, que, a propósito, não cobria meus pés.
~*~
Acordei, ou melhor, fui acordado pela Sophie às seis da manhã do dia 19 de dezembro, o que significava que tínhamos 3 dias pra chegar no Tártaro e derrotar uma deusa. Eu estava horrível. Havia olheiras embaixo dos meus olhos, meu cabelo ia para todas as direções, e meus olhos estavam vermelhos, de modo que eu parecia um viciado em crack há 10 anos. Para uma pessoa que deve ter dormido umas três horas na noite por causa do frio, até que eu não estava mal
Fiz o que eu podia pra melhorar minha aparência, pus todas as minhas blusas de frio ao olhar pela janela e ver que estava nevando, fui me encontrar com as meninas, e (eu devia estar com muito sono para não ter pensado nisso antes), me lembrei do acontecimento da noite anterior.
O que eu iria dizer à ela? O que aconteceu na noite anterior foi invasivo da minha parte, acho queaté meio íntimo (por mais que sejamos praticamente estranhos um para o outro). Algo assim nunca tinha me acontecido antes, eu não tinha a mínima ideia de como reagir... Estava com isso na cabeça e nem reparei quando estava no saguão de entrada. Só ela estava lá.
–Oi- Violet disse, olhando para mim por um segundo e baixando a cabeça, constrangida.
–Oi.- Muito bom Nico, você é um cara que sabe se comunicar.
–Bom dia Nico e Violet. Dormiram bem?- Sophie descia a escada sorrindo, como se tivesse dormidonum hotel 5 estrelas.
–Sim. -respondi- tirando o frio, a luz, o travesseiro e o colchão foi uma noite maravilhosa.- Acho que o meu mau humor matinal supera até crises de vergonha.
–Nossa. Que estranho, meu quarto era até bom...- ela disse, chegando até onde Violet e eu estávamos.- Olá Louise.
A balconista vinha caminhando na nossa direção com pressa, como se estivesse ansiosa para que fôssemos embora.
–Olá crianças. Estão com as chaves?- Entregamos à ela.- Ótimo. Vão agora, vocês tem pouco tempo para completar sua missão. Boa sorte.- Nossa tia, calma. Nós não estamos sendo perseguidos por monstros ou qualquer coisa do tipo. Ah, espera, nós estamos sim.
Ela nos levou até o portão e se despediu. Então encaramos a fria manhã de inverno e resolvemos que iríamos tomar café antes de pegarmos o ônibus até o metrô, pois concordamos que apesar de demorar mais, não podíamos bancar nossa comida e o táxi (nossa última corrida foi 20 dólares).
Andamos por uns 10 minutos até que achamos uma tímida padaria-cafeteria numa esquina. Ninguém falou nada, pois estávamos sendo açoitados pela forte nevasca e tentávamos nos afundar o máximo em nossas toucas e cachecóis.
Sentamos numa mesa e esperamos a garçonete. Ela veio até nossa mesa se arrastando e com ódio nos olhos, do tipo "como vocês ousam me incomodar a essa hora da manhã?!", anotou nosso pedido e se retirou. Silêncio.
–Nico...- começou Sophie- ontem eu fui ao seu quarto perguntar sobre nosso destino de amanhã, no caso hoje, e você não estava lá... Aonde você foi?- ela indagou, com uma leve suspeita na voz.
Violet me fitou com seus olhos verdes, suplicando silenciosamente para que eu não dissesse nada.Então eu soube o que eu deveria fazer. Eu guardaria o segredo dela e se ela quisesse falar sobre isso algum dia, ela viria falar comigo. Eu não a pressionaria, nem contaria a ninguém sobre o que aconteceu na noite passada. Era mais do que certo.
–Eu fui... Hm...ao banheiro.- respondi, pensando na coisa mais óbvia que qualquer um falaria. Muito bom Nico. Muito bom.
–Mas eu fui ao banheiro também, logo em seguida.- Ela disse, estreitando os olhos.- Não vi você lá.
–É...- Caralho véi- É que eu me perdi. O hotel é muito grande, eu acabei me perdendo. É isso.- Devia ter ganho o Nobel de melhor ator com essa representação. Uma pena que não tenham conhecido ainda meu talento.
A garçonete mal-humorada chegou, me salvando de mais perguntas constrangedoras, pelo menos momentaneamente. Deixou a comanda e a comida e foi embora.
Sophie olhou pra mim, duvidando da minha história-não sei como, como vocês podem ver eu minto muito bem- mas não fez mais perguntas, me deixando aliviado.
Então olhei para Violet, que sorriu timidamente para mim, num misto de risada da minha mentira ridícula e de agradecimento. Sorri de volta pra ela e mordi um pedaço de panqueca**
~*~
Eram 7:30 quando pegamos o ônibus em direção à estação de trem que iria até Chicago. A viagem até essa cidade era de 7 horas e o trem sairia às 8:20, ou seja, se não houvesse nenhum imprevisto, chegaríamos às 15:20 na estação em que desceríamos. Almoçaríamos e pegaríamos o próximo metrô, dessa vez em direção à Denver, e esse duraria em média 12 horas. Chegaríamos lá às 03:50, mais ou menos, e teríamos de acampar em algum bosque por aí, a mercê de monstros, bandidos e o mais horrível de todos: os micro-vampiros horrorosos perturbadores de sono, denominados popularmente de pernilongos.
Isso era em teoria o que era para acontecer. Mas nós somos semideuses, e semideuses nunca conseguem fazer nada como planejado. E normalmente não é por causa de um acontecimento bom, é por algo que normalmente faz com que nos fudamos (P.s: é assim que se diz??).
Entramos no ônibus e éramos os únicos passageiros com exceção de um cara que lia seu jornal num banco próximo a roleta. Ele tinha uma cara de profundo tédio e apenas ergueu os olhos com nossa chegada.
As garotas se sentaram juntas e eu no banco á frente delas, não muito distantes no cara entediado. Sophie estava interessada no hotel em que estivemos, e diversas vezes especulava o porquê de a atendente ter tanta ansiedade para sairmos daquele lugar. Era uma boa pergunta e eu sabia que a filha de Nyx sabia a resposta, mas ela não comentou nada, e fechava os olhos com força de vez em quando, como se tentasse apagar uma memória horrível.
Mudei de assunto ao ver que ela estava desconfortável, e comecei a falar de nossos planos para quando chegássemos ao Tártaro. Tínhamos uma desvantagem muito grande, pois não sabíamos os planos de Nyx, então tentaríamos invadir sua casa/mansão/fortaleza e descobrir os seus planos, para depois elaborar um jeito de derrotá-la.
–É realmente incrível o jeito que vocês agem, como se ainda houvesse esperança para salvar o Olimpo. Incrivelmente tolo.- O cara do jornal vinha se aproximando de nós e soubemos na hora que estávamos numa enrascada.
Todos nós levantamos, e empunhei minha espada, assim como as garotas.
– Quem é você? E o que quer de nós?- A filha da Noite disse, elevando a voz.
–Sou apenas um humilde servo enviado para fracassar a missão de certos semideuses. Normalmente eu estraçalharia todos vocês mas infelizmente eu não posso. Não todos. Tenho ordens de levar você viva, mas caso não receba a sua colaboração- Ele agarrou Violet pela blusa erguendo ela à alguns centímetros acima do chão, e ela não conseguia se soltar- poderei quebrar cada osso seu, rasgar sua pele e retirar o seu coração, como vou fazer agora com os seus amiguinhos.- Ele olhou a mim e à Sophie sorrindo cruelmente. Reparei que seus olhos agora eram amarelos e os dentes pontudos com grandes presas(a ponta do dente encostava na gengiva superior e vice-versa)como dentes de lobisomem ou algo do tipo.
–Sinto muito decepcioná-lo- Violet disse, voltando à sua incrível expressão assassina- Mas vai ter de me matar antes de me levar à algum lugar ou encostar um dedo neles. — Ela fez um corte superficial no pulso do "homem" com a sua espada, e ele gritou de dor e jogou-a num dos bancos bruscamente.
O corte começou a apodrecer lentamente, mas nada tão impressionante ou incapacitante como quando ela cortou as cabeças da hidra. Deduzi que o golpe devia ser mais grave pra causar um danomaior.
Então o cara começou a se transformar na sua verdadeira forma. Ele cresceu meio metro de altura, ganhou muitos, muitos músculos, de modo que roupas rasgaram e ele ficou usando apenas uma espécie de tanga, os cabelo e os pelos do corpo cresceram como se ele fosse tipo um Tony Ramos, seus pés viraram patas de lobo e em suas mãos cresceram garras afiadíssimas. Foi aí que começou a ficar estranho.
Até o momento Tony Ramos, achei que ele iria virar um lobisomem, mas então o seu rosto começou a mudar. Ele sofria arrepios e à cada arrepio ele mudava algo na cara até que eu me vi encarando um.. gorila. Sim, o rosto do mostro virou o de um macaco . Eu tinha certeza absoluta de que não era grego nem romano, o que me deixou confuso. O monstro transformou o jornal numa clava e parou, como para que admirássemos a causa da nossa morte
–Um Oni.- Violet disse, quase num sussurro, quando a metamorfose acabou.- Mas eu achei que estávamos vivendo a mitologia grega...
Eu ia perguntar sobre o que ela estava falando quando o demônio começou a agir. Ele brandiu a clava na minha direção e por milímetros errou um golpe que seria mortal. Então ouvi um berro e vi o motorista correndo para fora do ônibus, provavelmente pra chamar a polícia. Mas então ele teve o pé preso pelo freio de mão e tentava desesperadamente escapar, porém o Oni, ou seja lá o que aquilo for, foi rápido, pulou a catraca e deu com a clava na cabeça do homem que caiu com um baque no chão. Soube na hora que ele havia morrido.
O monstro se virou para nós com o que seria um sorriso demoníaco no rosto, mas parecia uma careta na cara de macaco dele. Ele pulou a catraca novamente e girou a clava nas mãos. Paralisei por um instante, encarando o corpo inerte do homem no chão. Ele provavelmente havia deixado esposa e filhos para trás e por anos. estes procurariam um assassino que nunca seria achado. E tudo porque ele manteve-se fiel ao trabalho mesmo em uma nevasca.
Investi contra o monstro mas ele se defendeu com a clava e me atacou com as suas garras, e eu me desviei; Sophie feriu o Oni no rosto e ele se virou pra ela, e a atacou com a clava, mas ela pulou em um banco e se desviou. Violet dava inúmeros golpes nas costas do demônio mas ele parecia não se importar, provavelmente por causa das ordens de não poder machucá-la. Os golpes superficiais dela cicatrizavam rapidamente, enquanto os profundos apodreciam lentamente a pele em volta dos ferimentos. Ela tentou várias vezes atingir o coração do monstro mas ele sempre se desviava dela; Sophie investiu novamente contra o Oni, mas ele se defendeu e atacou de volta. Infelizmente dessa vez a filha de Nice não teve sorte, e ele atingiu a clava na cabeça dela com força suficiente para deixá-la inconsciente, e ela caiu no banco do ônibus. O homem-gorila avançou para ela, para que ele pudesse dar o golpe final, mas me coloquei na frente dela, usando todas as minhas forças para repelir a clava com minha espada. Coloquei-me de pé diante do demônio e investi nele diversas vezes, mas apenas alguns golpes tiveram sucesso, e nada que eu pudesse me vangloriar. O monstro estava recuando, e vi Violet sair de trás dele para não ser esmagada. Ela atingiu o Oni em seu pescoço e ele urrou de dor. Finalmente ele deu atenção para a garota e cansando-se dela, deu-lhe um golpe de clava na cabeça e e ela caiu no chão, desmaiada. A visão dela caindo fez com que eu me distraísse por um instante, e o Monkey Man me atacou repetidas vezes fazendo com que eu mal tinha tempo pra me defender. Ele me tirou muito sangue e eu estava ficando cansado, mal conseguia manter a espada em pé. Cometi o erro de baixar a guarda um instante. O homem-gorila me atingiu nas costelas com a clava e eu caí. Então ele retirou a espada da minha mão com um chute e imobilizou minha mão segurando meu braço. O Oni se debruçou sobre mim e usou suas minha espada para fazer um corte profundo em meu rosto. Tentei dar um soco com a mão esquerda, mas ele agarrou meu braço e o torceu, até ouvir o tec que do meu braço quebrando. Gritei de dor e angústia.
–Não sei porque você é tão importante... — O demônio disse- Tão fraco e inútil... Minha senhora deveria se preocupar menos com a profecia...
Ele rasgou todas as blusas que eu estava usando com suas garras, deixando meu tórax exposto ao frio.
–Gostaria de te torturar mais, herói, mais me foi designado uma missão e não posso mais ficar...- ele girou minha espada entre as mãos- Vamos acabar logo com isso. Tenho que levar aquela garota para o Tártaro.
Ele ergueu a espada e fechei os olhos esperando pela morte. Mas então ouvi um cleng e ao reabrir os olhos, dei-me com minha espada caída à minha direita. E quando ergui o olhar vi uma lâmina negra atravessando o coração do monstro apodrecendo toda a área do seu peito. Então, a espada foi retirada e ele caiu no chão ao meu lado. Atrás dele estava Violet, com uma expressão de ódio e frieza em seu rosto, olhando para o homem-gorila de cima sem o mínimo sentimento de culpa.
–Você devia prestar mais atenção nas promessas das pessoas, demônio.- ela disse.- Certifique-se da próxima vez se eu estou morta.
Com isso o Oni se dissolveu em uma nuvem de pó negro, deixando para trás apenas um chifre. E então eu apaguei.
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