My Dear Angel
1 One
Notas iniciais

Evellyn Evans tremia dos pés a cabeça naquele dia frio de Natal, nem mesmo o casaco grosso preto que ela usava conseguia aplaca-lo; ela andava na rua desértica, a maioria das pessoas estavam em suas casas comemorando o Natal com suas famílias, era quase depressivo vê-la ali andando entre as lojas fechadas.
Por mais que a ruiva odiasse o frio e o Natal, ela precisava admitir que tudo ficava mais bonito neles. A neve caia graciosamente no chão parecendo quase que um espetáculo de dança, as árvores que na primavera são tão floridas e cheias de vida, agora estavam secas, todavia, davam um ar incrivelmente bonito na rua; os piscas-piscas colocados nelas ajudavam também, os quais brilhavam em cada poste que havia ali em diversas cores, dando um ar alegre. Era quase que prazeroso andar por ali apenas observando tudo de sua cidade, afinal, realmente tudo ficava mais bonito e interessante no Natal.
Ela caminhou lentamente até um banco que conseguiu identificar em meio ao branco, jogando a neve para o chão e se sentando enquanto se encolhia. Amaldiçoava a tudo por não ter nenhuma cafeteria aberta onde ela pudesse apenas se sentar e desfrutar de um bom café. Frustrada, bufou alto ao lembrar da briga que teve com sua irmã mais velha, Helena, a qual acabou resultando nas duas separadas e uma comemorando o Natal longe da outra. Era complicado ficar longe da irmã, ainda mais em uma data como essa, desde que nenhuma das duas tinha o costume de se separarem no Natal, algo que se devia a seus falecidos pais, que prezavam muito pela união da família nessa data.
A única coisa que se mexia em seu corpo era os seus olhos, com eles ela captou um moreno andando na rua tranquilamente, calado; diferentemente dela ele não parecia se importar nem um pouco com o frio que estava fazendo. Ele era lindo. Olhos negros bem marcantes, expressão feliz, as mãos dentro da calça jeans que usava, postura relaxada… Parecia ser alguns anos mais velho do que ela. Ele pôde perceber o olhar da ruiva nele e não tardou a se aproximar dela, abrindo um sorriso simpático no rosto, se sentando ao seu lado.
— Sabe é estranho uma moça tão bonita como você estar sozinha no Natal. — ela virou o rosto para conseguir o fitar, ele não era bonito apenas de corpo, seu rosto também era lindo; o sorriso dava um ar caloroso, as feições másculas. Ela tinha certeza de que conseguiria se perder com facilidade naqueles olhos negros toda vez que os visse, ele era como uma espécie de anjo.
— Digo o mesmo para você. Não deveria estar com sua família...? — ela arriscou perguntar, um dos seus problemas sempre foi falar demais, ela pode perceber o sorriso vacilando no rosto do homem.
— Bom, meus pais estão mortos e eu não sou casado ou tenho namorada, então prefiro apenas curtir a alegria do Natal sozinho. — ele riu sem humor, no mesmo momento em que a ruiva encolhia os ombros totalmente sem graça juntamente a um sorriso completamente tímido, se xingando mentalmente por ter que perguntar justo uma coisa dessas. Não queria afastar aquele homem de si, ele era lindo e ela se sentia bem conversando com ele.
— Eu também não tenho pais. — ela confessou — Os dois morreram há alguns anos, minha mãe de câncer, depois disso o meu pai acabou cometendo suicídio. Mas bem, não importa, eu acabei brigando feio com a minha irmã mais velha, apesar de que eu estava com a razão, e por isso estou aqui. — ela decidiu falar um pouco de si para ver se amenizava a situação, ela odiava ter a sua boca grande, o que pareceu dar certo, já que ele deu uma risada. O som era delicioso de se escutar, melodioso, dava vontade de nunca mais parar de ouvir, chegava até mesmo a ser viciante.
— Realmente ruiva, é incrível, parece que nós sempre temos razão em tudo o que fazemos, não? — indagou bem humorado enquanto a observava ajeitar uma mexa de cabelo atrás da orelha, ainda sem tirar o sorriso do rosto.
— Bom... Acho que sim. — ela teve que admitir, sem conseguir desviar o olhar do dele. O olhar que ele lhe mandava era intenso, amigável, misterioso e cativante, Eve ainda se perguntava, embasbacada, como um simples olhar podia transmitir tanto.
Enquanto a conversa fluía, uma banda se estabeleceu em um ponto distante deles e começou a tocar Jingle Bell’s em uma versão instrumental. Não havia ninguém na rua a não ser eles para apreciar o som gostoso dos violoncelos, teclado e bateria; aquilo parecia mais ser um ensaio do que uma simples apresentação. Por estar tudo silencioso e sem ninguém, o som da música chegou até eles com uma facilidade incrível.
— Eu adoro essa música. – o moreno disse a ela. — É gostosa, apesar de ser meio infantil.
— Bom, ela é um clássico, é meio impossível alguém não conhecer ou não gostar. — ela constatou, se forçando a desviar o olhar para a banda, uma tarefa difícil considerando que o moreno possuía olhos magníficos, e falhando, pois ela logo voltou a fitá-los como se tivessem alguma coisa mágica que a instigava a olhar para eles, como imã atraindo metal. — Falando nisso... Qual o seu nome?
— Ah sim! Eu nem me apresentei, que tonto eu sou! — disse ele, estendendo a mão para ela — Kaleb Wood, prazer.
Ela aceitou a mão dele, a apertando e se surpreendendo ao ver que incrivelmente a mão dele estava quente mesmo sem ele estar usando luvas. Ela se perguntou se todo o corpo dele estaria daquele jeito também, afinal, ela não se importaria nem um pouco em sentir aquele calor.
— Evellyn Evans, e o prazer é todo meu. — ela respondeu, recebendo em resposta um lindo sorriso antes de Kaleb se levantar do banco e olhar para ela.
— Bom, Evellyn, eu tenho que ir. O que acha de me passar o seu número? — ela abriu um sorriso feliz com a pergunta dele, apesar de se sentir estranhamente triste com a partida do moreno e com o fato de que ela não poderia mais desfrutar da sua doce companhia durante aquela noite fria. Pelo menos sabia que aquela era uma oportunidade de encontrá-lo novamente, isso pareceu ser o bastante no momento.
— Com certeza, mas só se você me passar o seu.
Logo os dois trocaram seus números e ele foi embora, a fazendo suspirar enquanto se via ali sozinha. Contudo, a sua mente estava naquele homem, Kaleb Wood, que mais se igualava a um anjo e não a um mero mortal.
O tempo foi passando e os dois passaram a se encontrar mais vezes. Não demorou muito para Evellyn se apaixonar completamente por aquele anjo. Com poucas semanas, Kaleb não perdeu tempo e logo a pediu em namoro. A vida da ruiva não poderia estar melhor, ela vivia sorrindo para todo lugar desde que começara o namoro; os olhos estavam sempre vivos e animados, o sorriso mais brilhante… Do momento em que ele a pediu em namoro para frente ela passou a amar o Natal, mesmo com o seu frio infernal.
Um ano se passou e finalmente era Natal de novo, com o frio, piscas-piscas, ruas desertas e músicas. Ela esperava o namorado em casa, desde que ele disse que a queria levar para um lugar especial. Animada, Eve se vestiu em as roupas de inverno, caprichando na maquiagem, já que, como qualquer mulher apaixonada, ela queria estar bonita para ele. Não podia negar que estava ansiosa para ele chegar logo e a levar para onde quer que fosse; a ruiva não podia deixar de pensar que talvez ele fosse a pedir em casamento. Céus, ela estava louca para que isso realmente acontecesse! Desde alguns meses atrás ele já não parava de falar que tinha uma surpresa para ela que ela iria adorar, a qual queria mostrar no Natal, simbolizando o dia em que eles se conheceram.
Muitos poderiam falar que era muito cedo para pensar em algo como casamento, como Helena falava (apesar de ela gostar de Kal) entretanto, Eve não se importava, estava totalmente entregue nas mãos daquele anjo; se ele a pedisse em casamento não haveria qualquer tipo de hesitação, a resposta seria sim na hora, afinal, ela o amava. Às vezes se pegava pensando em como seria um casamento entre os dois, até mesmo já havia sonhado e o imaginado detalhadamente inúmeras vezes!
Quando Kaleb finalmente chegou, tinha um sorriso maior do que todos os outros que ela já havia visto em seu rosto; ele parecia feliz e muito animado, algo fez o coração da ruiva bater descompassado contra o peito. Ele estendeu a ela um buquê cheio de rosas vermelhas, fazendo-a sorrir abertamente enquanto o deixava em uma mesa de centro e pulava em seus braços, beijando-lhe os lábios apaixonadamente, sem se importar com o tempo que levou provando de seu gosto. Sua vida não poderia estar mais completa e feliz.
Quando se afastou, foi apenas o rosto, e somente o suficiente para admirá-lo. Amava estar envolta naqueles calorosos braços. Ela lhe acariciou o rosto.
— Kal! Senti sua falta, meu anjo. Eu sei que nos vimos ontem, mas ainda assim não posso evitar! – ela disse e depois riu, o abraçando e ouvindo a risada dele acompanhando a dela. Se sentia uma adolescente com os hormônios à flor da pele quando estava com ele; Kal vivia trabalhando, como ele tinha um cargo alto na polícia, durante a semana eles só se viam pela noite, apesar de passarem os finais de semana inteiro juntos.
— Eu também senti sua falta, Eve! – ele admitiu, o som de sua voz era cheio de ternura.
Kal lhe roubou um beijo e se afastou dela delicadamente, pegando sua mão e entrelaçando seus dedos. O gesto era o suficiente para fazer o coração dela aumentar ainda mais sua frequência cardíaca, algo que a fazia se questionar se poderia morrer de amor.
— Vamos? Eu preciso saber logo qual é a tão falada surpresa que você esteve morrendo para me mostrar! — ela sequer podia conter a euforia em sua fala.
O moreno apenas assentiu em resposta, a puxando para sair dali e chamando o elevador. Não tardou para os dois estarem no carro.
Kaleb parou em uma rua antes de pegar a mão dela e a puxar para fora, a levando em frente ao banco onde eles se conheceram. Eve sorriu abertamente ao reconhecer o lugar, como poderia esquecer?! Ela perdera as contas de quantas vezes havia sonhado e pensado no dia em que aquele anjo aparecera em sua vida, sempre sem acreditar na sorte que teve.
Ele se colocou atrás dela e envolveu a sua cintura com os longos e fortes braços, apoiando o queixo em seu ombro. Em seguida pegou uma venda que estava dentro de sua bolsa masculina.
— Eu preciso que você coloque isso aqui agora, tudo bem? – ele indagou baixinho e rouco na orelha dela, antes de mordiscar o seu lóbulo. A ruiva se arrepiou dos pés a cabeça, o frio não parecia mais um problema, não mais. Não com Kal ali.
— Certo. – ela concordou, pegando a venda e a colocando, deixando o namorado amarrar bem forte. Em seguida ele saiu de trás dela e pegou em sua mão, a puxando para algum lugar que ela não fazia ideia de onde era, na verdade, sequer conseguia imaginar.
— Pronto. Agora eu vou tirar a venda. – ele disse a ela após um tempo andando, se colocando em suas costas e desamarrando-a e colocando-se ao lado dela.
A ruiva franziu o cenho ao ver que eles estavam em um beco escuro e sem saída; nada de velas, nada de flores, nada de anel... Era apenas um beco vazio. Ela arregalou os olhos quando sentiu um soco forte vindo na direção de seu rosto, a força com a qual foi atingida era tanta que ela se sentiu caindo para trás e se encolhendo enquanto sentia os olhos marejando com força juntamente a um ardor intenso no rosto.
— K-Kal...? — ela perguntou com a voz trêmula, sem conseguir compreender nada, sentindo seu corpo começar a tremer. De repente, de forma violenta e repentina ela pôde senti-lo agarrando seus cabelos ruivos com força e a jogando contra parede com brutalidade, prendendo-a com o próprio corpo contra o dela, ainda sem soltar os cabelos. Eve gemeu com a dor que sentiu, o sorriso antes doce e acolhedor no rosto de Kal, agora era frio e sádico; havia uma satisfação estampada nos olhos dele e nas feições de seu rosto, como se lhe deleitasse ouvir cada som dolorido que a ruiva soltasse.
— Cale a boca, sua vadia! Você vai pagar pelo o que fez! – ele basicamente rosnou na orelha dela e pela primeira vez aquele arrepio tão gostoso se transformou em algo de puro pavor. Ela sentiu as lágrimas quentes escorrendo por seus olhos enquanto se debatia desesperada contra o corpo dele. Tentava gritar, mas a sua voz não saia devido aos soluços intensos, o que era aquilo?! Por quê?! Ela não entendia. Onde estava o seu anjo?!
O corpo de Evellyn gelou quando ela sentiu algo gelado e fino contra a pele de seu pescoço. Um canivete. Se ela conseguisse ver, saberia que fora ela mesma quem havia lhe dado aquele canivete de presente de aniversário, e agora ela sentiu-o pressionando-o contra a região delicada de sua pele. Um filete de sangue escorria lentamente, o corte não era profundo, mas ardia e foi o suficiente para ela se apavorar ainda mais.
— Aposto que você nem se lembra deles, como se lembraria? Você estava bêbada! – ele riu de forma psicodélica, fazendo-a se encolher contra a parede e chorar mais e mais, sem conseguir entender sobre o que infernos ele estava falando — Estava bêbada quando atropelou duas pessoas. Faz alguma ideia de qual eram os nomes deles, vadia?! Victoria e Justin Wood, também conhecidos como meus pais! Ah era para você ter sido presa, não era? Mas você teve que subornar a merda do juiz para sair impune disso!
A voz dele agora era carregada de ódio. Ela sentiu outro soco em seu rosto, fazendo-a cair estirada no chão enquanto se encolhia ali mesmo. Ela sabia que reagir não iria adiantar, ele era muito mais forte do que ela e treinado, afinal como não ser? Ele trabalhava na polícia. Eve sabia que iria morrer, ela estava encarando a face do diabo que um dia jurou ser seu anjo; os olhos que outrora a faziam suspirar e se sentir em outro mundo, agora lhe causavam calafrios. Tudo o que ela conseguiu fazer ao abrir a boca foi gritar, um grito cheio de horror e de desespero. Finalmente sua voz saia de sua garganta, não queria morrer, rezava para alguém aparecer e a salvar naquele instante. Até por que, como uma pessoa apenas aceita a morte? Abraçar a vida era seu instinto natural. Não podia deixar sua irmã, não podia partir sem ter conhecido o mundo, apenas não podia; o desespero, a agonia... Sentimentos tão imensos que mal cabiam em seu peito.
Ela se debateu quando sentiu Kaleb colocando a mão em sua boca com força, abafando os gritos e pegando uma arma com um silenciador. Foi rápido, um estalo baixo e ela sentiu a bala perfurar a carne de seu braço, parando em contato com seu osso. Ele parecia deleitado como nunca a vendo se contorcendo de dor, gritando de forma abafada graças à mão dele, impotente, sem a mínima chance de se defender. Kal fechou os olhos em puro prazer ouvindo a dor dela sendo expressada naquele grito, já que apenas ele conseguia ouvir mesmo. Em seu rosto, um sorriso enorme apareceu antes de ele rasgar o casaco no corpo de Evellyn brutalmente com o canivete, o jogando em qualquer lugar e a deixando tremer tanto pela dor e a agonia quanto pelo frio; o vento gelado bateu com força, parecendo se arrastar cruelmente em sua pele, rasgando-a por dentro, mas sequer conseguia prestar atenção nisso, o pânico e o aperto em seu coração por ver o homem que amou com tudo de si fazendo isso.
— Não se preocupe Eve. – ele rosnou de novo para ela, o apelido carregado de ironia – É só a justiça. Afinal eu tenho razão, talvez se você não fosse tão burra a ponto de me passar o seu telefone naquele dia, de ter paquerado comigo, sido a minha namorada, talvez agora você pudesse estar viva e bem. Você foi patética, deixou tudo fácil demais, não faz ideia de como eu fiquei satisfeito com a sua ingenuidade.
Em seguida a arma foi para o peito dela, bem em cima do coração. O tiro foi rápido, uma pontada de dor agonizante que se alastrou como uma cobra venenosa em cada uma de suas veias. Ele largou o corpo quase morto de qualquer jeito ali mesmo, naquele beco imundo. Saiu andando calmamente para longe, com um sorriso satisfeito estampado no rosto, quem o visse de longe poderia jurar que ele era a pessoa mais feliz e tranquila do mundo.
O frio nunca pareceu abater tanto a Evellyn como naquele momento, o vento gelado parecia como facas penetrando o seu corpo em todas as direções, sua visão estava completamente embaçada. Ela só conseguia ver o seu sangue vermelho destacado naquela neve branca e um pisca-pisca rosa brilhando em um poste, apesar de tudo não passar de um borrão de luz para ela. Seu corpo inteiro estava dormente, não conseguia tremer, não conseguia mais gritar e nem mesmo as lágrimas escorriam mais por seu rosto. Estava imóvel.
Ironicamente ela jurou ouvir Jingle Bell’s sendo tocado naquele exato momento enquanto tudo ficava escuro.
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