My Dark Angel
59 Hallelujah
Notas iniciais
Fechando mais um ano com vocês o/
FELIZ ANO NOVO, MEUS ANJOS! Muita paz, muita saúde, muita fanfic, muito Guns N' Roses...hahaha...Gunner não pode deixar de desejar isso :p
Agora, divirtam-se!
Beijos!
–Senhor Axl? –uma doce voz feminina afugentou a cortina de pensamentos confusos que me cobria.
Sondei-a ainda com olhos perturbados. Fez um único movimento com a cabeça, pedindo para que lhe acompanhasse. Eu o fiz, embora estivesse completamente perdido, submergindo naquele mar de nós, longe de qualquer pensamento plausível ou consciência plena. Nunca antes me sentira tão fora de órbita. Estava flutuando sobre uma linha imaginária, relutando com as ilusões. Estava inteiramente atormentado como nunca houvera estado. Trôpego, caminhei em passos exaustos por aquele corredor branco, sob a luz fria que pendia alternadamente do teto, sentindo o odor de doença me contaminar. Finalmente a porta branca acompanhado o estado monocromático. A enfermeira fez sinal para que eu entrasse e então sumiu no corredor. Analisei a porta com atenção. Sentia o peso das olheiras abaixo de meus olhos inchados, a subtração da falta de forças, as grandes bolas de chumbo que carregava em meus ombros naquela dolorosa peregrinação. Estava imensuravelmente exausto, sufocado. Parecia no final das contas sensações incuráveis que agravavam consideravelmente à medida que minha mão hesitava tocar a maçaneta prata.
Engoli a saliva que acumulava-se em minha boca, sentindo um gosto metálico perfurar minha garganta seca. Enrijeci. Acertei minha postura sendo imediatamente castigado pela pontada rigorosa na extensão da coluna. Fechei os olhos por cerca de dez segundos, tentando absorver uma força inexistente, tentando evitar qualquer lágrima que pudesse abrolhar em meus olhos ao recordar das imagens que tivera em mente algumas horas antes. Nada nunca me fizera fraquejar tanto antes, nada me aterrorizara tanto. Lizzi tinha aquele estranho poder desde que a conheci, aquele grandes olhos azuis facilmente penetravam-me e domavam-me de forma estarrecedoramente natural.
Não era hora de estar sob as rédeas daquelas fortes emoções que tão frequentemente me dominavam. Teria de enfrentar aquela situação, reprimir qualquer raiva ou dor. Mas por hora não conseguia pensar em nada e então simplesmente fiz.
A maçaneta estava gelada, todavia não quis recuar, forcei-me aquele ato, abrindo a porta. Um ímpeto de ar frio me tocou. A luz do quarto era amena, suave. O silêncio era quase tão grande quanto daqueles corredores vazios, porém, ao invés dos sapatos movimentando-se de um lado para outro havia o bip insistente de aparelhos. Eram poucos aqueles que a ligavam, nada que me pudesse assustar demasiadamente, no entanto, vê-la daquela forma feria-me. Ligar doença a ela era cruel demais a mim.
–Axl. –estava acordada, recostada na parte inclinada da cama. Não havia nada ligado ao seu rosto.
Não podia esconder que algo em mim respirava o glorioso alívio de ouvir sua voz. Não encontrei palavras para responde-la. Logo me analisou com curiosidade.
–O que foi? Está tão...abatido. –a voz era fraca, baixa. A palavra que dissera ressaltou minha atenção a sua face. Seus lábios secos e esbranquiçados, sua pele empalidecida, sua feição de exaustão. Parecia-me tão doente, talvez fosse normal após o que tivera de enfrentar, já era incrivelmente extraordinário que já estivesse tão lúcida após tão poucas horas do acontecimento no quarto.
Franziu o cenho sem uma resposta minha.
Aproximei-me da cama, apoiando as mãos no apoio final de algum tipo de ferro, próximo a seus pés cobertos pelo edredom branco.
Deixei que o silêncio se propagasse, imaginando quais seriam as palavras certas a dizer.
–Por que fez isso? –perguntei, esperando que ela entendesse de imediato o assunto a ser tratado. Fitou-me com incredulidade e escapei de seus olhos. –Por que não me contou? –continuei ríspido, sem ver sua reação. Mais um silêncio.
–Eu não tive escolha. –murmurou.
Deixei uma breve risada sombria me escapar.
–Não teve escolha por que, Elizabeth?! Hein? –perguntei, a encarando com frieza desta vez. Resisti à viva sombra de dor em seus olhos.
–Você estava tão feliz com a ideia de ser pai que...-antes que terminasse sua frase dei-lhe as costas, sentindo o latejar do sangue em minhas veias. Ergui a cabeça, fitando por um segundo o teto branco. Escorreguei a mão pelo rosto, pensando em como absorver força para enfrentar aquilo.
–Lara é importante para você. Conseguiria lidar com isso. –sua voz tinha um tom choroso.
–Como pode simplesmente pensar que me dar um motivo para continuar vivo poderia justificar a morte de outro! –gritei, deixando que uma fúria pelo acontecido tomasse-me. Era a dor das palavras do médico refletindo-se em eco na minha cabeça, agitando as emoções, permiti que aquela transparecesse.
–Você precisava suportar, você tinha que suportar por ela! –tendo novamente os olhos sobre ela já podia ver o pranto aconchegando-se em sua face.
–E que direito você achou que tinha de esconder isso de mim? –controlei o tom de voz.
–Eu não podia estragar tudo. –respondeu ela.
–Estragar o que, Elizabeth?! –gritei. –É ridículo! Você sabia o tempo todo que poderia morrer e conseguia continuar me ouvindo fazer planos com tanto sangue-frio?
Sabia perfeitamente que minhas palavras a feriam, todavia, sabia também que ela precisava ouvir. Eu não poderia voltar a encara-la como se não soubesse nada do que sabia agora, como se pensar que por muito pouco ela não estava morta não me ferisse.
“Foi realmente um milagre que a Elizabeth tenha sobrevivido.” A voz do médico vibrava em minha mente. “Preciso confessar ao senhor que mesmo que continuássemos tentando mantê-la viva ninguém mais acreditava que ela fosse suportar. Um minuto mais de demora para tirar Lara dela e certamente tudo teria dado errado.” Poderia cuspir todas aquelas palavras em formatos de placas de sangue, tamanho era a dor que me causava pensar que por um triz eu não a estava vendo a fria, a pele arroxeada, o coração parado, o corpo desnudo sobre uma maca, em meio a outros tantos corpos vazios em uma sala. Morta. Nada poderia fazer-me sobreviver a isso. Não poderia sobreviver sem Lizzi. Eu suportaria que ela me evitasse, ou que nunca mais voltássemos a morar juntos, suportaria até que ela me odiasse, mas não morta, nunca. Eu teria ido com ela, sem nem mesmo repensar.
– Eu precisava, eu sabia que você suportaria. –insistiu.
–Como eu poderia suportar olhara para Lara e enxergar você, Lizzi? –gritei, deixando que novamente a dor se transformasse em fúria naquele furacão que me invadia. – Saber que tudo que eu um dia amei, tudo que um dia eu acreditei está morto, dentro de um caixão? Só um corpo frio e um coração parado? –as lágrimas banharam sua face á medida que absorvia minhas palavras.
–Você é forte, Axl. –disse desta vez mais ríspida e confiante.
–É aí que você se engana, Elizabeth. –já não mais gritava. –Eu posso ser forte para suportar qualquer coisa, qualquer coisa, menos perder você! –murmurei. Não respondeu. Novamente dei-lhe as costas, afundando a mão pelo cabelo.
Tornei a olha-la, por um único segundo, até que deixasse que minha visão caísse ao chão. Apoiei uma única mão na cintura, esfregando a região de minha boca com a outra, escorregando-a até o pescoço, procurando novos pontos de vista. Estava longe de um pensamento plausível e contido naquele momento. O choro de Lizzi era audível, me atormentava. Nada me machucava mais do que vê-la chorar, mas precisei insanamente lutar contra meus instintos.
–Se você não tivesse saído daquela sala viva, Elizabeth, se alguma coisa tivesse dado errado...-interrompi-me com o retorno dos pensamentos cruéis. –Se você tivesse morrido lá dentro –relutei para continuar, sentindo meus olhos umedecerem. –eu já teria dado um tiro na cabeça. –completei.
–Não diz isso! –reprimiu-me.
–Não vou te esconder a verdade como fez comigo. –murmurei, olhando-a nos olhos. –Eu amo minha filha de uma forma incondicional, eu daria a vida por ela. Mas isso não faz com que eu suportasse perder você, Elizabeth. –deixei que um silêncio se propagasse por cerca de meio segundo até que abandonasse o quarto, tão transtornado quanto entrara.
Precisava desesperadamente sair daquela maternidade, antes que estivesse doente por aquela tensão que se instalara pelos arredores.
A raiva não surtia de lugar algum. Talvez fosse o melhor sentimento a aflorar naquele momento, há anos atrás o mesmo seria inevitável, até que enfim aquela garota apareceu na minha vida e revirou qualquer das minhas emoções de cabeça para baixo. Eu poderia sentir raiva de todos os que me cercavam, menos dela. Odiar aquela mulher era impossível. Provavelmente era aquele amor torturante e demasiado que sentia por ela. Um só sentimento poderia oprimir todos que eu costumava ter. Lizzi certamente fora o anjo que surgiu em minha vida, tentando ajudar um cara bêbado em sua porta. Talvez este fato me tornasse o anjo obscuro de sua vida, o que me fazia todas as manhãs agradecer por ter aquela garota por perto, que ela pudesse amar alguém como eu. Mas no final daquele conto eu sempre estrago tudo, destruo o que me é de mais preciso. Faço isso por falta de controle, egoísmo meu que desperta lágrimas nela. Mal podia dizer se um dia iria parar, se um dia finalmente eu seria o homem que Lizzi sempre sonhou.
Eu não conseguia. E novamente a havia feito chorar, havia gritado com ela, agora pensava nas lágrimas que a deixei derramar depois de quase tê-la perdido. Ainda assim, algo em mim recusava aquele tom de piedade ou arrependimento. Recusava este às desculpas e os motivos de Lizzi por esconder algo de mim. A condenar por um erro era inegavelmente ridículo quando ela tantas vezes ignorou diversos meus. Por hora, sabia que ainda não conseguia correr ao hospital e pedir perdão por minhas palavras. Não queria que pensasse que ainda era o idiota de sempre, que ainda fala sem pensar, fere abruptamente mesmo aqueles que diz amar e então pede desculpas tentando mudar o que está no passado.
Tão inconscientemente fui levado a viva lembrança de minha última- e única- conversa com Sarah.
–Olha, eu sei que não sou a pessoa mais adorável ou alguém que você esteja feliz em ver agora. –disse ela, em tom firme, imponente. –Mas pode ter certeza que eu não estaria passando por isso aqui agora se não fosse por Lizzi. Se eu duvidasse ao menos um pouco do que ela sente por você eu estaria em casa falando para ela te esquecer.
–Me ama tanto que estava aos beijos com Zac, pela segunda vez. –rebati ríspido.
–Você transava com cinco mulheres por dia enquanto eram namorados e ainda assim ela foi capaz de casar com você. –retrucou. –Eu adoraria que fosse por Zac que ela estivesse apaixonada, adoraria. Você sabe que não gosto de você e nunca escondi isso. Não é pelo meu irmão, eu simplesmente poderia te matar a qualquer momento se Lizzi não te amasse tanto. Você a fez sofrer tantas vezes que chega a ser irônico.
–Então, se não é por Mike, por que me odeia? –perguntei, pela primeira vez sondando a infantilidade sofrida em seus olhos.
–“Por quê?” Olha o que fez com Lizzi. Ela te deu tudo que tinha e você só a machuca, promete o que não pode cumprir, diz que a ama e demonstra o contrário. Confesso que se está mesmo sofrendo agora você realmente merece, e merecia muito mais pelo que fez a ela. –não a interrompi, pois sabia perfeitamente que suas palavras eram sinceras naquele momento. Estava imensuravelmente certa.
–Eu não preciso de alguém que me lembre tudo que fiz a Lizzi. –proferi.
–Sim, você precisa. Tenho certeza que não se lembrou de tudo que fez a ela quando fez pirraça ao vê-la beijando Zac. Esperava que fosse ao menos mais maduro. Não digo que seja fácil vê-la daquela forma, mas ela já suportou tanto por você. –continuou. Embora as palavras fossem dignas de uma bronca ela não exibia tom de sermão na voz. Era dura, fria. –Nunca tive um namorado, não sei o que envolve um namoro muito menos um casamento, mas também não sou burra nem cega. Percebo quando duas pessoas se amam e eu nunca vi ninguém como vocês. Confesso que no fundo invejei Lizzi, não porque ela tinha você. -referiu-se a mim com repugnância. –Mas porque ela tinha alguém que a amasse dessa forma, a apoia-se. –a sondei com incredulidade. –Mas você é tão bipolar que chega a ser ridículo, ora o marido dos sonhos, ora o monstro. Acho que está mais do que na hora de escolher em que time jogar, Axl Rose. Lizzi o ama mais do que a si própria e essas suas mudanças constantes a machucam.
“Ouvi dizer uma vez que quem ama confia. Tem uma garota lá em casa esperando que você apareça por lá só para te pedir perdão, perdão por algo que você a induziu a fazer. Quando era você ela simplesmente confiou no amor que sentia por ela, agora está invertendo os papéis, mas não está tendo a mesma maturidade que ela teve. Só peço que retorne aquela casa para uma resposta concreta para ela. Que só a leve de volta a casa dela quando souber que não irá cometer os erros antigos e fazê-la sofrer novamente. Lizzi não é uma cobaia posta para esperar você tentar ser um homem e sempre falhar. Se está sofrendo pense que ela está sofrendo muito mais. Não seja tão ridículo, quem sabe um dia eu até te aceite. Mas se voltar a feri-la novamente eu vou até o inferno, mas vou acabar com a sua vida, Axl Rose”
Sarah tinha razão. Não tinha motivos o bastante para reprimi-la enquanto ela aceitou tanto de mim, calou diante meus erros, mesmo quando traí sua confiança. Não podia me render ao orgulho ferido agora.
Sob as centelhas douradas do sol, sentindo o calor refletir em suor na minha pele observava o intenso vai e vem do mar, rebentando em pedra e na areia turva. Pássaros faziam sobrevoo no azul celeste que perdia-se na luz assim que partia ao horizonte. O doce cheiro da maresia era forte, a brisa era fria e acolhedora. Toda aquela paz genuína novamente me levava aos sorrisos de Lizzi sobre aquela extensão da areia, sentindo o mar lamber seus pés. Os planos ditos e reditos ao pôr do sol, a cima da pedra mais alta, cobertos pelo calor humano e pela música dos deuses. Era um maravilhoso banho de felicidade em que recobrava a memória de o quanto minha vida progredira a seu lado. Pela primeira vez eu estava realmente apaixonado por uma garota, logo ela seria a mulher da minha vida que deixei simplesmente ir.
Ainda absorto na repetição de pensamentos, achei melhor fazer o que deveria. Abandonei os delírios da praia, seguindo até a casa de Sarah onde tinha de pegar algumas das coisas que Lizzi precisaria.
Em seu quarto, por incontáveis minutos passeei, tocando os moveis e os lençóis, sentindo a intensidade de seu perfume floral, embriagante, que estava incrivelmente vivo ali. Abri com calma a gaveta, pretendendo ficar mo quarto o maior tempo possível. Busquei pelo o que me fora pedido, inconscientemente tocando as macias peças de roupa de Lizzi. A cada uma surtia a nova lembrança de quando ainda éramos um casal e de tudo eu que deixara escapar um pouco mais todos os dias.
Enfim um envelope de papel bem dobrado caiu ao chão. A frente as letras negras e graciosas traziam escrito “A minha família e amigos” Não hesitei em abrir, deparando-me com uma carta que ao iniciar a leitura percebi a melodia de despedida que ressonava por meio das palavras, até que finalmente chegasse no parágrafo direcionado a mim.
Lizzi point of view
Assisti o irradiar do sol ao céu límpido naquela tarde de verão. Ainda agradecia incessantemente a Deus por poder presenciar aquela cena mais uma vez. Estava imensuravelmente feliz com o que eu acreditava ser uma segunda chance, mas doía-me pensar que depois do ocorrido naquele quarto, algumas horas antes, aquela segunda chance fosse para ser vivida sem Axl. Era um árduo trabalho ter de aceitar com naturalidade aquela nova perspectiva, deixar que Axl não fosse mais um ponto nevrálgico em mim. E lá estava a luz celestial que ainda não invadira as janelas do quarto, mas estava certa de que brilhava ao alto da imensidão azulada para alertar-me de que era um novo dia, de que haveria mais uma vez de recomeçar.
Já não tinha muitos planos para quando deixasse o hospital. Pensei se talvez não aluga-se uma casa mais tarde, na rua de Lizzi, procurando privacidade e estabilidade sem abandonar um dos meus pontos de força. Por hora não queria pensar no futuro. Estava sendo empresada contra a ânsia de ver minha filha pela primeira vez, amamenta-la pela primeira vez. Tudo que tinha dela comigo agora era a visão embaçada da silhueta em outros braços. Precisava absurdamente de Lara junto a mim.
Na inconstância de devaneios ouvi os dois sutis toques a porta. Finalmente a enfermeira, cumprindo o alertado há alguns minutos. Abriu minuciosamente a porta antes mesmo que respondesse. Agitei-me na cama, a essa altura já não tinha mais nenhum aparelho ligado a mim, impedindo que me movesse. Meus olhos ganharam o mais intenso brilho ao ver um pequeno movimento na manta rosa seco que carregava nos braços. Tive de reprimir a explosão de emoções, rejeitando as lágrimas que abrolhavam em meus olhos. Queria ter a visão em perfeito estado, observar com clareza cada traço do rosto de minha filha que ainda eram um mistério para mim. Aproximou-se lentamente, enquanto me sentava na cama, esticando os braços no alegre desespero de tê-la em mãos. Curvou-se em minha direção e então aquela quente e aveluda manta foi posta em meus braços. A pequena face dela reluziu, iluminada por graciosas centelhas nas extremidades da circunferência perfeita de sua cabeçinha, coberta por uma densa camada de fios extremamente lisos, em um tom acobreado. Os traços eram sutis, linhas perfeitas e bem colocadas na pele absurdamente alva, enrubescida no alto das grandes bochechas. Era incrivelmente e indiscutivelmente parecida com Axl, desde os lábios finos –que em sua boca pequenina formavam um adorável biquinho-, até o desenho das orelhinhas. Já os olhos, embora estivessem fechados me eram de um formato arredondado muito familiar, exatamente como os meus. Sobre o pequeno nariz nada poderia ser declarado ainda, era perfeito como os de minhas bonecas de porcelana, e ela era de uma beleza tão fascinante quanto as de minhas bonecas de pele lisa. A diferença era que estava viva, respirava sutilmente, o que a tornava ainda mais apaixonante.
Senti que não pude conter a lágrima que silenciosamente escorreu por meu rosto e umedeceu meus lábios repuxados no mais exultante sorriso. Ainda estava incrédula, observando a perfeição imposta a ela, a feição de Axl viva em seu rosto...Saber que era minha era uma sensação inexplicável. Eu poderia sentir o mundo nas mãos, tenro e aquecido, apenas meu. À medida que aninhava-se próximo a meu peito sentia-me mais extasiada, mais recompensada, perdidamente glorificada. Percebia que agradecer a Deus por Lara pelo resto da minha vida ainda não seria o bastante. Então estava inteiramente tomada por uma mistura de sensações, a mais forte era um amor imensurável, assustador, a vontade demasiada que tinha de proteger aquele pequeno e frágil ser em meus braços de todo o exterior. Descobri que não poderia amar nada mais da mesma forma que eu a amava agora. Enquanto o delicioso cheiro de xampu infantil penetrava minhas narinas sentia-me completa, em paz, agradecida e desde então nada mais importava, apenas ela, meu mundo se tornara ela.
Deixei escapar uma risada abobalhada, confortando-a mais próxima a meu corpo. Moveu-se delicadamente, o pequeno corpinho coberto por um macacão de mangas compridas, rosa, dobrando-se contra ela. Era pesada e relativamente grande. Gemeu baixinho, novamente sossegando junto a meu corpo.
–Ela é muito inquieta até que durma, aí ela dorme bastante, se torna completamente preguiçosa. –contou a enfermeira. Não fui capaz de tirar os olhos de Lara.
Toquei com o dedo indicador sua pequena mãozinha, perfeitamente formada. Ela reagiu apertando o mesmo dedo e então afrouxou novamente a mão.
–No berçário ela foi amamentada com outro leite. –quase irritei-me internamente ao pensar que minha filha houvesse sido amamentada por outra mulher. –É um leite especial, simula o leite materno. A senhora ainda não estava em condições de fornecer leite. –aliviada com que fosse algum tipo de leito de laboratório, pensei em como deveria estar enquanto Lara precisava de mim. Desacordada, ligada a aparelhos.
–É faminta. –contou.
–Quantos quilos? –perguntei ainda ostentando o sorriso involuntário.
–3,950. – respondeu seguramente.
–Ei menininha, você é mesmo um grande bebê. – murmurei a Lara e novamente ela movimentou-se.
Lembrei-me do que Sarah havia dito alguns minutos atrás. Axl ainda não a havia visto. A visão do berçário só fora permitida minutos após ter saído para buscar o que ela lhe pedira. Falou também sobre o quanto estava transtornado quando deixou o quarto, de forma como nunca o vira antes. Não tive saída. Contei-lhe a verdade. De inicio, reagiu com estado de choque que me assustou, mas após despertar, ainda meio entorpecida fez perguntas e quase alterou a voz de estresse, todavia compreendeu, os olhos transbordando toda vez que dizia que não poderia perder mais um irmão. Abraçou-me como uma criança amedrontada e por fim, disse-me sobre Lara, o quanto era linda e apaixonante. Mesmo suas palavras não tiveram resultado agora. Era ainda mais bonita quanto descrevera. Lara era um pedaço do céu que carregaria comigo e estava plenamente gratificada pelo fato de que agora poderia vê-la crescer, acompanhar cada um dos seus passos. Lara era minha por toda a eternidade.
Novas batidas na porta e a enfermeira seguiu para abri-la. Não fiz questão de checar quem se tratava, meus olhos estavam acorrentados a qualquer movimento de Lara. Quando uma nova alma ocupou o quarto ergui os olhos.
Fale com o autor