My Blood: a Draco Malfoy story
2 Mansão Malfoy
O pós reunião poderia ser entendido como calmo.
Pandora imaginou que as pessoas ali presentes seriam todas carrascas e nem um pouco simpáticas e, de fato, a maioria ali era – com algumas exceções.
Logo após a partida de Voldemort, aquela que se apresentava como a proprietária da casa se aproxima da garota.
— Narcisa Malfoy. – Diz seu nome com um sorriso tenro no rosto. – É um prazer conhece-la, querida.
— Pandora Hawking. – Retribui o sorriso mesmo tensa. – Mesmo não sabendo muito sobre a senhora, também é um prazer conhece-la.
Narcisa ri e se vira na direção de Corban: — Vejo que a convivência com você não diminuiu um pouco do humor que possa habitar nela, Yaxley.
— Perdão, Narcisa? – O homem coloca uma das mãos sobre o coração, como se estivesse ofendido. – Meu humor é de um elevado refinamento. – É a vez de Pandora sorrir. Podia contar nos dedos as vezes que presenciou uma risada ou qualquer coisa que lembrasse bom humor vindo do sujeito.
— Sei bem... – A senhora Malfoy retruca. – Esses são meu marido, Lucius. – Apresentou um homem de aparência extremamente pomposa. Os cabelos loiros chegavam na altura dos ombros e ele se utilizava de uma bengala. Seus traços aparentavam cansaço e Pandora imaginou que, talvez, em outra época, ele seria considerado bonito. – E filho, Draco. – Apontou para o garoto de cabelos loiros iguais aos dos pais e olhos acinzentados. Ele, definitivamente, era considerado bonito. Ambos acenaram na direção da garota que repetiu o gesto. – Venha! Iremos mostra-la suas acomodações.
Pandora arregala os olhos e olha para Yaxley: — Eu ficarei aqui? – Pergunta.
— Pensei que soubesse... – O mesmo responde contrariado.
— Não. Não sabia! – Rebate a menina com tom de acusação.
— É só por uns dias. – Narcisa interrompe, tentando acabar com a tensão. – Até que comecem as aulas... – Sentindo que iria ser questionada, completa: — A compra de seus materiais será de minha total responsabilidade. Não se preocupe.
Não gostava da ideia de ficar naquela casa – ou melhor, quartel-general – sem ninguém de sua confiança, ou seja, sem Yaxley. Não conhecia aquelas pessoas o suficiente para saber o que esperar delas.
Olha para Corban, na esperança de ver algum apoio ou dúvidas quanto a estadia da garota, mas só encontra determinação. Suspira, tentando manter a cabeça clara e os ânimos em harmonia: — Certo. Acredito que vá para casa agora... – Acrescenta na direção do seu, até então, responsável.
— Pensei em acompanha-los no tour. – Responde sorrindo amigavelmente.
— Não será necessário. Tchau. – Pandora interrompe já começando a andar na direção da saída da sala.
Nem ao menos olha para trás.
*
— E aqui fica o seu quarto. – Narcisa diz ao abrir uma das inúmeras portas do corredor.
A casa parecia não ter fim. Pandora já havia perdido as contas de quantos aposentos visitou e, obviamente, não se lembrava mais da localização exata de boa parte deles. Mas, de uma coisa tinha certeza, aquela era a casa mais bonita que já tinha entrado, pensada nos mínimos detalhes e ainda mais alguns.
— Sinta-se em casa. – Acrescentou ao passo que a garota duvidava bastante disso ser possível, mas preferiu manter seu pensamento para si, afim de não aborrecer ou magoar a anfitriã. Mesmo nos poucos momentos que passaram, começava a gostar da senhora Malfoy.
— Obrigada. – Responde no fim das contas.
— O quarto de Draco é logo ali. – Aponta para uma porta a poucos metros de distância. – O meu e de Lucius está no andar de cima, mas se precisar de algo, pode falar com qualquer um de nós. Estaremos a sua disposição. – Ela avança um passo na direção da garota e tenta pegar uma de suas mãos, ao qual Pandora puxa para longe sem muita delicadeza.
Percebendo que Narcisa havia ficado levemente confusa e os dois outros Malfoy's a olhavam com um quê de questionamento, esclareceu: — Desculpe, não quis ser indelicada. – Alisa os braços na tentativa de manter suas mãos longes de qualquer pessoa. – Imaginei que Yaxley poderia ter comentado sobre, mas não gosto e nem fico muito confortável com... – Parou. – Bom, com toques. De modo geral.
— Ah! – Narcisa exclama. – Não precisa se desculpar, minha querida. Considere-me avisada. – As duas mulheres sorriem uma para outra numa espécie de entendimento. – Bem, deixarei você se organizar agora. Tenha uma boa noite! – Com isso, puxa o braço do marido que acena mais uma vez para a menina e sai do recinto.
Pandora e Draco se olham um pouco acanhados e há um momento de constrangimento entre eles. Nenhum dos dois sabe o que dizer e se deve dizer algo. Por fim, o garoto é o responsável pela quebra do silêncio.
— Conhecer seu pai do jeito que foi tudo isso parece um pouco decepcionante. – Comenta com as mãos no bolso do terno preto que usa. A menina avalia a aparência do menino e chega à conclusão que gostava muito do que via.
— Eu sou muito boa com decepções. Aprendi a não esperar muito das pessoas. – Responde.
— Pessoas são complicadas... Especialmente, pais. – Draco rebate e, aparentemente, avalia a garota da mesma maneira.
— Você me diz. – Ambos soltam uma gargalhada e, alguns segundos depois, param e se encaram, ainda avaliando um ao outro.
A garota se vira na direção do quarto, na intenção de acabar com aquele momento constrangedor. Para analisando o cômodo. É grande. Na verdade, enorme. A cama, posicionada no meio do local, conseguia facilmente acomodar duas pessoas e mesmo assim ainda sobrar espaço. O armário cheio com suas roupas e mais algumas que não reconhecia e que, poderia apostar, foram cortesias de sua anfitriã.
Mas nada. Nada! Se comparava à vista.
Uma vista dos jardins de tirar o fôlego. Pequenos animais brincando por ali, rosas e flores a torto e a direito e a brisa noturna entrando com suavidade pela varanda. Poderia passar o dia todo ali escrevendo e lendo poesia sem nem ver o tempo passar.
— Acho que, definitivamente, prefiro a vista daqui pra a do meu quarto. – Brinca. – O quarto em si para falar a verdade.
— Seu quarto é menor que este? – Draco questiona.
Pandora não saberia dizer se ele estava sendo irônico ou não, pois era óbvio que a casa em que vivia não chegava aos pés daquela. Não que Yaxley não tivesse condições boas, mas não moravam numa mansão digna de filmes clichês trouxas.
— É sério? – O menino afirma. – É óbvio que é menor. Não moro numa mansão, sabe... – Completa. – Quem sabe um dia eu não possa te mostrar. – Retruca com um quê de duplo sentido por trás ao passo que nota a vermelhidão no rosto do garoto.
Passado algum tempo, os dois ainda no aposento, com Pandora já se questionando quando ele iria se tocar que gostaria de passar um tempo sozinha, até que: — Posso perguntar uma coisa? – Ele questiona.
— Sim?
— Como... – Ele se interrompe tentando achar as palavras. – Como pode ser filha dele?
— Desculpe? – Não era possível que seus ouvidos tivessem captado aquilo direito.
— Não se ofenda! – Ele responde rapidamente. – É que, quero dizer, você é muito bonita, tipo muito! É educada, aparentemente não é má, talentosa para alguém que nunca foi à escola e mesmo assim é filha dele? – Ele sacode a cabeça. – Não consigo entender, já que não é nada parecida com ele.
— Bem, não é como se eu tivesse escolha. – A garota responde. Para alguém que a conheceu há algumas horas, ele parecia ter uma opinião bem forte sobre ela. – De qualquer forma, você não me conhece, certo? Você pode estar errado e eu posso ter mais em comum com ele do que pensa.
— Não acho que esteja. – E, com isso, ele a encara profundamente.
Desconfortável, Pandora diz: — Você está encarando.
Ele ri e sacode a cabeça. – Vou indo para a cama. Minha mãe me disse para te mostrar o lugar amanhã. Então, nós vamos passar basicamente o dia juntos e, depois do jantar, podemos começar a falar sobre... – Ele para e respira fundo. – Sobre a tarefa. Tudo bem pra você?
— Sim. Por mim, tudo bem. Boa noite, então. – Responde.
— Para você também.
Depois de fazer sua higiene, Pandora passa muito tempo na cama, olhando para o teto.
Não sabia o que pensar sobre aquela noite. Esperava quase nada daquele encontro, mas o que recebeu foi menos ainda. Quase desprezo. Será que era tão inútil e decepcionante assim? Não! Não podia pensar dessa forma, afinal sabia de seu valor.
Mas para uma adolescente, inseguranças faziam parte do seu cotidiano.
*
Acorda com uma batida na porta.
Depois outra.
E outra.
— Sim? – Responde com a voz sonolenta.
— O café da manhã será servido em cinco minutos. – A voz de Narcisa se faz ouvir. – Venha comer conosco! – Convida.
— Certo! Estou indo. – Pandora se senta coçando os olhos. Dormiu que nem tomou consciência disso e revirou as lembranças da noite que passou tantas vezes que as mesmas pareciam encravadas no interior de suas pálpebras. Sacode a cabeça e se obriga a levantar.
Depois de um rápido banho, coloca um vestido preto – sua cor preferida – de manga longa e um coturno, lembrando da promessa de Draco em leva-la para conhecer a propriedade da família.
Em alguns minutos, está sentada na mesma sala do dia anterior, tendo como única diferença as pessoas ali presentes: Narcisa, Draco e Lucius.
— Bom dia. – Os cumprimenta.
— Bom dia. – É a resposta dos três.
— Dormiu bem? – Narcisa pergunta.
— Mais do que bem. – Responde sorrindo ao que Narcisa retribui.
— Perfeito! – Diz em seguida.
O café da manhã continua sem muitas interrupções. Pandora, sem muita fome, se serve de duas torradas com geleia e um chá de hortelã. Ao longo da refeição, consegue notar alguns olhares de desconfiança lançados em sua direção pelo senhor Malfoy, mas resolve ignorar. Afinal, não foram dirigidas palavras para ela.
— Querida. – Depois de algum tempo a matriarca a chama. – Irei ao Beco Diagonal. Comprar os materiais escolares de Draco. Afinal de contas, vocês dois estarão indo para Hogwarts em dois dias. – Completa. – Lucius não me acompanhará por questões... Bem, questões que fogem ao nosso controle, mas se importa se eu comprar os seus também? Acredito que tenha um cofre em Gringotes para si.
— Hum, sim! A chave está no meu malão. – Pandora diz. – E não, não me importo. Se não for incômodo, claro...
Narcisa faz um movimento de indiferença com a mão: — Besteira! Não é incômodo algum.
Após alguns minutos, Draco pergunta: — Terminou? Podemos ir?
Pandora afirma com a cabeça e pede licença para os bruxos mais velhos, acompanhando o filho para saída.
Ao chegarem ao exterior da casa, 'Malfoy Jr.' começa a mostrar o terreno para a garota que, assim como no dia anterior, constata que não só os quartos ou o interior da localidade eram belíssimos, mas todos os locais da propriedade. Plantas, animais e fontes todos dispostos dentro dos limites da mansão tornavam a atmosfera daquele lugar muito boa.
— Você quase esquece que aqui serve como base de operações para ele. – Pandora deixa escapar.
Draco olha para ela e diz: — Nós não gostamos disso, sabia? Acho que papai está quase se amaldiçoando por causa disso.
— Mas vocês não tiveram escolha, tiveram? — Ela pergunta.
Malfoy ri de algo aparentemente engraçado que passou pela sua cabeça. — Acho que escolhas são uma espécie de privilégio. – Diz olhando para o nada. – Nem todos possuem um mentor ou um leque de opções muito grande. As vezes as escolhas se resumem a sim ou não, viver ou morrer...
— Nossa, esse papo ficou deprê muito rápido. – Pandora diz tentando aliviar a tensão no ar. O que funciona, pois faz o garoto sorrir.
— E então, como foi viver com Yaxley durante todos esses anos? Soube que eram só vocês dois... – Pergunta se sentando num banco em frente à uma das fontes. A garota se senta no chão, cruzando as pernas e passando as mãos na grama verde.
Sempre gostou de estar em contato com a natureza. Essa era uma das razões de tentar levar a mesma para as paredes de seu quarto através de desenhos.
— Nada muito além do normal, acho. – Respondeu. – Um pouco solitário, talvez, já que ele passava boa parte do tempo no Ministério ou em viagens, mas era bom. Sempre tive muita liberdade em fazer o que quero e, bem, muita facilidade para conseguir as coisas, de modo geral. – Completa. – Obviamente nunca tive muito convívio com outras pessoas além dele. Acho que Yaxley tentava criar uma redoma ao meu redor, seja por cuidado ou medo do que o Lorde das Trevas poderia fazer... – Ajeita a postura deixando suas costas completamente ereta. Não queria parecer vulnerável. – Encontrei um pouco de refúgio e talvez até uma fuga na poesia e na leitura, mas tudo parece meio... – Para e reflete. Como o mundo lhe parecia? – Inalcançável.
Draco analisa as palavras de Pandora. Conseguia ver uma espécie de solidão nos olhos da mesma quando falava sobre seu cotidiano e não podia deixar de se identificar, nem que fosse um pouco. Tinha amigos, sim. Em Hogwarts. Mas, com tudo que estava acontecendo, todo o fardo que já sentia carregar, não conseguia afastar o sentimento de estar um pouco sozinho. Por isso, diz:
— Bem, agora não precisamos estar sozinhos.
Um brilho diferente atravessa os olhos da garota: um misto de alegria e periculosidade.
— É. Talvez! – Responde, por fim.
Ficam em silêncio por um tempo. Não um silêncio desconfortável, mas contemplativo.
Eles são duas faces de uma mesma moeda.
Dois sujeitos destinados ao mesmo fim.
— Me fale sobre Hogwarts. – Ela pede.
— Caramba, Hogwarts... – Ele para um tempo pensando. – É realmente legal, na verdade. Claro que existem alguns idiotas, como o Potter, mas no geral é um bom lugar. – Se interrompe novamente. – Não tem muito o que falar sobre. Acho que Hogwarts se define mais pela experiência que você vive lá. Mas, de modo geral, existem quatro Casas: Grifinória, Lufa-Lufa, Corvinal e Sonserina. Quando você chega lá, é escolhido para uma delas. — Ele olha na direção da menina com olhos semicerrados. – Eu realmente acho que você vai ser colocada na Sonserina.
— E por qual motivo você acha isso? Pelo fato de eu ser fil...
— Não! – Ele a interrompe. – Acho que você tem todas as qualidades de uma sonserina. – Ao perceber o olhar questionador da garota, complementa: — Determinação. Autopreservação. Ambição.
— E você chegou a essa conclusão um dia depois de me conhecer? Você é muito observador.
— Ha ha! E você é hilária. – Ele faz menção de socar o ombro de Pandora, mas para no meio do movimento ao lembrar da aversão da mesma à toques. O resultado disso é um gesto estranho que ele logo tenta disfarçar como a tentativa fracassada de espantar algum inseto que voou por ali. – A questão é que o que você fez ontem foi algo totalmente sonserino. Quer dizer, você não tem nenhuma experiência em duelos, mas só para se defender, você duelou com Dolohov. – Completa.
Pandora pensa no que ele acaba de dizer e chega à conclusão de que: sim, ele tem razão. Todos os pontos levantados por ele apontam que a Casa ao qual pertencia era sim a Sonserina. Mas, como tudo em sua vida, não alimentaria esperanças antes de qualquer coisa.
— Isso é legal vindo de você. – Diz finalmente ao garoto.
— Não é nada! — Ele sorri. – Então, pro que você está mais ansiosa com relação à escola?
Passam o dia todo conversando, falando sobre a escola e até mesmo sobre suas vidas pessoais, evitando, ambos, de entrar em muitos detalhes.
Draco tratou logo de falar sobre o fato de que haviam algumas garotas — sim, no plural — derretidas por ele, afirmando algo que Pandora já sabia desde o momento em que pôs os olhos nele: aquele era um garoto que seria muito desejado por qualquer bruxa e trouxa, ousaria dizer, de sua idade. A beleza de Malfoy não era algo que passaria despercebida, principalmente no meio de inúmeras meninas com os hormônios a flor da pele. E, por isso, ela não pôde deixar de se perguntar se, caso estivesse inserida nesse meio a mais tempo, também não seria uma dessas... Chega à conclusão de que sim, seria.
Quando a noite chega, Malfoy e Pandora se reúnem no quarto da última e começam a falar sobre sua missão. De acordo com ele, não seria algo fácil. Dumbledore é muito poderoso, Hogwarts possui os mais avançados feitiços de proteção e aurores à disposição, o que tornaria chegar até ele uma tarefa que demandaria tudo deles.
O fardo já começava a pesar nos ombros de ambos.
Contudo, tal como Draco disse, escolhas são privilégios e não seria dado a eles o de escolher entre fazer isso ou não.
Não existia meio-termo.
Quando ele está quase fora do quarto, Pandora o chama: — Malfoy?
— Sim?
— Você acha que conseguiremos?
Ele a olha com tristeza nos olhos.
Sua resposta faz o coração de Pandora Hawking parar por um segundo.
— Eu realmente não sei. – E, com isso, ele sai.
Fale com o autor