Notas iniciais
Capítulo dedicado a minha primeira leitora daqui, Bella Leving.

O relacionamento de Pandora e Draco havia melhorado e muito nos últimos dias.

Ambos se cumprimentavam nos corredores e, em alguns momentos, seus grupos de amigos se fundiam e passavam um tempo juntos.

Mesmo sob regime de turnos, faziam o possível para ajudar um ao outro na medida em que podiam. Num dos dias, por exemplo, quando o garoto havia passado o jantar na Sala Precisa, a garota tinha separado um prato com diferentes opções de comida e levado até ele.

Era nítido que a parceria entre os dois era algo positivo. Suas aparências, inclusive, haviam melhorado e já não se viam olheiras tão proeminentes em ambos. Começavam a recuperar o peso perdido e estavam mais atentos ao que acontecia ao seu redor.

Numa tarde de terça-feira, Daphne e Blásio reúnem os dois grupos no jardim durante um tempo livre, com o intuito de relaxar um pouco. Estão reunidos, além deles, Pandora, Crabbe, Goyle, Draco e Pansy.

Enquanto todos conversam, pois já tinham um entrosamento de anos de convivência, a novata fica deitada ao lado, lendo um livro sobre Transfiguração. Tinha notado que era a matéria que mais gostava, em partes porque alimentou uma grande afeição pela professora McGonagall, mas também por ter muita facilidade em desenvolver os encantamentos da área.

Em determinado momento, sente estar sendo observada e levanta os olhos do livro. Nota que Malfoy a analisa, calado e atento. Ela sustenta seu olhar. As íris cinzas estão tempestuosas e parecem esconder alguma coisa por trás delas.

A Hawking é a primeira a desviar o olhar, voltando sua atenção ao livro. Já não bastava alguns momentos desconfortáveis que tinha que passar sozinha com ele, quando lhes faltava assunto e ficavam se encarando, não iria ampliar essas situações para o âmbito público.

Depois de alguns minutos, uma corvina se dirige a eles e entrega um envelope para Daphne, Blásio e Pandora. Todos possuíam o carimbo e assinatura do professor de Poções.

— Merlin, que não seja mais nenhuma dessas reuniões de Slughorn. – Blásio comenta antes de abrir o papel. – Juro que se precisar falar da minha mãe por mais duas horas, me jogo da Torre de Astronomia. – todos riem daquele comentário.

Para desespero do garoto, o envelope guardava um convite que dizia:

Prezado aluno(a),

É com grande honra que comunico a realização da minha festa de natal no dia anterior às férias do referido feriado. Caso tenha recebido o convite, isso quer dizer, obviamente, que está convidado a participar da festividade.

Devo informa-los que, com o intuito de garantir uma maior interação e cooperação entre todos – além do desejo de possibilitar uma noite prazerosa -, cada aluno poderá levar um acompanhante, seja ele ou ela, parte do Clube do Slug ou não.

Conto com sua ilustre presença.

Atenciosamente,

Professor Slughorn.

Pandora revira os olhos. A obsessão daquele homem por festas e celebrações era assustador. Já havia notado que o professor não deixava passar nenhuma oportunidade de estar com seus alunos mais excepcionais, de acordo com palavras do próprio!

— Que ótimo! Uma festa de natal. – Daphne diz animada.

— Você está brincando, né? – Hawking pergunta. A Grengrass a olha ofendida. – Daph, essa vai ser só mais uma reunião idiota de Slughorn.

— Eu gostaria de ser chamado. – Goyle comenta baixinho.

— Talvez tenha tirado a sorte grande, Goyle. – Blásio comenta. – Aqui diz que podemos levar um acompanhante. – diz mostrando o papel ao outro menino. – Quem sabe a Grengrass ou a Hawking queiram te levar...

Daphne desvia o olhar imediatamente e parece, de repente, muito interessada nos detalhes da caligrafia do papel em suas mãos.

Goyle olha esperançoso na direção de Pandora que diz: — Nem pense nisso!

Com essa resposta, foi possível ouvir dois risos distintos: um de divertimento e outro de deboche pertencentes, respectivamente, à Draco e Pansy. Essa última pergunta: — Já tem alguém melhor em mente para levar, Hawking? Queria realmente saber quem será o "sortudo". – acrescenta aspas com as mãos na palavra final da sentença.

— Não sei, Parkinson. Mas fique tranquila que se não sobrar ninguém, posso leva-la comigo! – retruca. — Sei que adoraria passar mais tempo em minha presença.

Com isso, volta sua atenção ao livro em seu colo, desligando-se totalmente do mundo. Isso faz com que ela não note quando os amigos levantam e seguem para suas respectivas aulas, a deixando deitada ali.

Sorte a dela que tinha dois turnos livres. Azar que eles chocavam com os de Malfoy, pois, diferente de seus companheiros, não cursavam Trato das Criaturas Mágicas.

Sente um corpo caindo ao seu lado e resolve olhar na direção. Seus olhos encontram os do garoto e, por um momento rápido, ela se perde naquela imensidão cinza. Mas só por um segundo até desvia-los.

— Com quem gostaria de ir pra essa festa de Slughorn? – ele pergunta, usando o cotovelo de apoio e virando na direção da garota.

— Você está doido pra que eu te chame, não é? – ela questiona, virando a página do livro.

Ele bufa: — Me poupe. Como se eu fizesse questão de estar entre os preferidos desse idiota ou de sequer participar de algo do tipo.

Pandora fecha o livro e olha na direção dele. – É óbvio que gostaria, Malfoy! Ou acha que não noto o quão baba ovo você é... – ela diz. Era bem nítido que Draco fazia de tudo pra ser um aluno exemplar e queridinho dos professores o que, na maioria dos casos, era. Contudo, Slughorn configurava como uma exceção nesse quadro. – E, de qualquer forma, não sei nem se quero levar alguém. – comenta, por fim.

— Porque tem tanta resistência em se enturmar? – questiona. Ela levanta suas sobrancelhas, pois não lembrava de atestar aquele fato. – Acha que não percebo que, sempre que tem oportunidade, você se ausenta ou evita interagir? Está sempre acompanhada de um livro porque, quando não é interessante estar rodeada de pessoas ou sustentar alguma conversa, o usa como desculpa para se manter distante.

— Desde quando você é especialista em Pandora Hawking? – ela pergunta, evitando responder à pergunta.

— Além disso, você também tem mania de desviar o assunto para evitar se expor. – ele completa, deitando de costas para a grama.

Agora foi a vez dela se levantar nos cotovelos. – Pra sua informação, Malfoy, eu não tenho resistência em me enturmar. A questão é que todos aqui se conhecem de anos. Vocês já estão familiarizados uns com os outros. – ele levanta a sobrancelha. – Eu que sou a outsider aqui!

— Mas ninguém te exclui. Principalmente a Grengrass. – diz.

— Eu sei. Só que não quero forçar nada em cima de ninguém... – ela desabafa. – Sem falar que, sinceramente, não sei como aguentam a Parkinson. De verdade, se eu tivesse que ouvir ela falando na mesma frequência que vocês o fazem, provavelmente já tinha estourado meus tímpanos. – completa, fazendo-o rir.

— Ela não é tão ruim assim. – Pandora o encara. – Okay! Talvez um tanto quanto irritante. E um pouco sem noção. Mas você se acostuma.

— Malfoy, entenda uma coisa: não sou obrigada a tolerar coisas que não concordo ou não gosto. Sei que, conscientemente ou não, todos vocês possuem uma certa afeição a ela, mas não forço simpatia e muito menos vou fazer amizade com alguém por mera conveniência. – afirma. – Ah e, acima de tudo, me parece impossível ser amiga de alguém que, na primeira brecha, tira sarro de mim!

— Ela só está com ciúmes de você. – ele diz sem se dar conta.

— Ciúmes? – questiona.

Malfoy percebe que falou mais do que devia e tenta arrumar uma desculpa para aquilo, mas percebe que Pandora não deixaria um comentário daquele passar despercebido, então diz: — Sabe que se tornou o alvo de admiração preferido de grande parte dos sonserinos, certo?

A garota se assusta com aquela informação, pois não fazia ideia.

Ele revira os olhos e fala: — Ah, pelo amor de Merlin. Vamos, Hawking! Você é estupidamente bonita, em menos de dois meses já mostrou que é uma bruxa mais habilidosa do que metade de nossa turma e é gente boa. Um pouco sarcástica e irônica demais pro meu gosto, mas gente boa do mesmo jeito. Se mesmo sem os garotos conhecerem essas características você já era um alvo só por ser novidade, imagine com mais tudo isso no pacote...

Pandora pensa sobre aquilo. Não gostava da ideia de ser alvo de nada e muito menos "novidade", pois ser vista daquela forma era algo bem objetificado. Mas entendia o ponto em que ele queria chegar e, em certa medida, concordava e acreditava naquilo.

Deitando no chão ao lado do garoto, diz: — Não sou muito boa nisso. – ele a olha, sem entender. – Garotos. Nunca tive muito contato de qualquer natureza, então é tudo meio estranho.

Ele pensa um pouco no que ela acaba de dizer, perguntando logo depois: — Quer dizer então que você nunca... – ele para tentando encontrar uma forma delicada de perguntar aquilo. – Fez... Sabe... Nada?

Ela o olha com raiva. – Acho que você está querendo saber demais, não? – Malfoy sussurra um "é só curiosidade", ao passo que ela responde: — Sim, Malfoy, eu já fiz "coisas". – gesticula aspas com os dedos. – Mas nada que passasse de beijos ou pegações mais intensas.

Ele pondera aquilo. Sabia que ela tinha sido privada de muitas vivências, mas naquele nível era um pouco perturbador. Não imaginava chegar aos dezesseis anos sem ter tido ao menos uma experiência sexual.

A olha com atenção e percebe que, mesmo voltando a concentração ao livro em suas mãos, estava desconfortável com o tópico. Por isso, decide não comentar mais nada e escolhe manter o silêncio naquela situação.

O que tinha dito era verdade. Sabia que Pandora Hawking era uma garota bem popular no meio masculino, mesmo não tendo contato direto com tantas pessoas, mas Draco entendia muito bem o motivo: a beleza dela era algo imensurável. Chegava a ser irreal. De outro mundo. Os cabelos negros como a noite emolduravam o rosto fino, chegando até sua cintura e faziam com que a pele alva se destacasse. Mas o que tinha de mais belo eram os olhos: as íris incrivelmente verdes eram capazes de hipnotizar qualquer um. Vibrantes e que se tornavam mais bonitos se combinados com sua personalidade. Um misto de humor ácido com iniciativa e atitude. Qualquer um seria capaz de cair nas graças daquela sonserina.

E Malfoy tinha certeza que se a tivesse conhecido em outros tempos a teria cortejado.

Sai do transe quando a nota olhar o relógio. Provavelmente estaria no horário da aula de Transfiguração.

Ambos levantam e se encaminham juntos na direção da sala de aula. Ambos se perguntando, em suas cabeças, o que poderia ter sido diferente se seus caminhos tivessem se cruzado antes.

*

— Consegui! – Draco grita abrindo de supetão a porta do quarto da garota.

Pandora agradece a todas as entidades divinas, bruxas e trouxas, por ela estar devidamente vestida quando ele o faz. – Entre, deixe de mistério e se explique. – diz, vendo-o entrar no aposento e lançar um Abaffiatona porta. – Ah! E da próxima vez, bata. – acrescenta.

Ele revira os olhos: — Consegui transportar isto! – ele diz se aproximando e mostrando-a uma maçã verde. – Não funcionou 100% já que... – Malfoy vira um dos lados que estava, claramente, faltando um pedaço da fruta. – Coloquei no Armário ela inteira. Recitei o feitiço da primeira vez e pude notar que ela havia sumido. Recitei novamente e ela reapareceu, mas faltando esse pedaço. – acrescenta. – Não é muito, mas é um começo!

— Não é muito? – Pandora questiona sem acreditar. – Malfoy, essa é a primeira vez que temos qualquer tipo de movimento dentro daquela coisa. É óbvio que é muito! – o parabeniza, pois realmente acreditava que aquilo era um bom sinal. Isso faz com que o garoto se sinta muito satisfeito consigo mesmo. – Precisamos contar isso a sua mãe. Ela gostaria de saber. – diz, por fim.

Ele concorda e pergunta se tinha pena e papel próximos. Ambos se dirigem a escrivaninha do quarto e começam a relatar o ocorrido para Narcisa Malfoy. Estavam tão concentrados no que faziam que não percebem duas coisas: suas cabeças praticamente coladas e Daphne Grengrass entrando as pressas no quarto.

— Ah, me desculpem! Não quis atrapalhar. – diz, fazendo menção de sair do aposento.

— Deixa de besteira e entra, Daph. Não está atrapalhando nada. – Pandora diz. – E será possível que em dezesseis anos de vida e cinco de estudo ninguém ensinou vocês a bater?

Tanto Draco quanto Daphne dão de ombros. A recém chegada os observa com interesse, enquanto continuam em sua tarefa.

Por fim, Pandora sela o envelope com a carta e a prende na pata de sua coruja, Hermes. Dá as instruções a ele e o observa ir embora.

Se vira para os dois outros ocupantes do espaço que já estão absortos em conversas.

— Achei que iria jogar na disputa contra a Grifinória no início da semana que vem. – Daphne está dizendo quando ela se aproxima.

— Quem vai jogar? – Pandora questiona.

— Eu. – Malfoy responde. Hawking lança um olhar questionador na direção dele que revira os olhos. – Sou apanhador do time de quadribol da Sonserina. Mas não vou poder jogar na partida contra os leões, já que estarei... – para e limpa a garganta. – Ocupado. – conclui, lançando um olhar significativo à garota.

Ela logo entende o que ele quer dizer: não poderá jogar contra a Grifinória, pois estará ocupado tentando concertar o Armário Sumidouro.

— Posso te ajudar, se quiser. Daí poderá participar do jogo... – ela diz, rezando para que ele entendesse que estava se oferecendo para assumir o turno do garoto. Pensava que talvez fosse um pouco suspeito se ele não participasse, visto que, segundo o mesmo, pessoas como Harry Potter não deixavam passar a oportunidade de segui-lo pela escola. Ele a olha de forma divertida.

— Não precisa! O quadribol já não me entretém faz tempo. – rebate.

— E o que te entretém, Malfoy? – ela questiona, provocando.

— Posso pensar em algumas coisas, Hawking. – ele responde. – Enfim, preciso me encontrar com Crabbe e Goyle pra discutir alguns assuntos. Boa noite, meninas. – Se vira e vai embora.

Pandora ainda fica parada no mesmo lugar, olhando o ponto em que antes estava o garoto. Balança a cabeça tentando sair de seus devaneios, pois intrigava o fato de Draco não se interessar tanto por quadribol já que, segundo as análises de sua amiga e informante Daphne Grengrass, o esporte era algo que ele se dedicara bastante nos últimos anos.

— Então... – A loira começa. – Quando vai me dizer o que está rolando entre você e o Malfoy? – pergunta.

Pandora urra, se jogando na cama e colocando o travesseiro em cima da cara, fazendo Daphne soltar uma gargalhada.

— Tudo bem. Posso descobrir sozinha! – diz, também se retirando do aposento.

*

O dia do jogo de quadribol deixou a atmosfera de Hogwarts quase impossível de ser tolerada.

O café da manhã no Salão Principal era uma verdadeira baixaria. Gritos dos estudantes da Sonserina e da Grifinória quando viam um de seus jogadores entrar no local; xingamentos de ambas as torcidas direcionados aos rivais; Luna Lovegood, uma garota da Corvinal, usando um chapéu horroroso de leão que rugia sob a gritaria.

Pandora realmente não conseguia entender a fascinação de todos ali pelo esporte. Certo que parecia ser uma ótima chance de aproveitar o tempo com os amigos e, de fato, se engajar na torcida por algo, mas era tudo muito extremo. As pessoas ali presentes, os mais eufóricos, no caso, pareciam quase animais. Não se via muita civilidade pelo lugar.

O barulho era tão alto que a garota só percebe a chegada de sua coruja quando a mesma pousa ao seu lado.

— Oi, Hermes. – a cumprimenta, separando um pedaço de bacon e oferecendo a ave. Pega a carta amarrada na pata dele e a abre. – Pode ir ao corujal! – recebe uma última bicada carinhosa dele, antes do mesmo levantar voo.

Era a resposta de Narcisa:

Querido filho e Pandora,

Fico feliz em saber do progresso que estão fazendo. Conversei novamente com Borgin esses dias e ele me disse que o trabalho de concertar um Armário Sumidouro não era nem um pouco fácil, então imaginem minha felicidade em saber que vocês estejam obtendo algum tipo de sucesso!

Sei que pode parecer pouca coisa agora, mas sei também que isso é fruto do esforço de ambos.

Contudo, mesmo sabendo disso, peço que se empenhem ainda mais na missão, pois os ânimos por aqui estão cada vez mais alterados – se é que me entendem... Mas na muito extremo, odiaria vê-los cansados e além do limite.

No mais, saibam que estou orgulhosa!

Yaxley também.

Aguardo novas atualizações e espero ansiosamente pra podermos nos encontrar no feriado de natal.

Com amor,

Narcisa.

Pandora sorri com a resposta. Seu apreço pela senhora Malfoy só cresceu com o tempo e ficava muito satisfeita em saber que a deixara orgulhosa por algo, mesmo que o resultado tivesse sido alcançado mais pelo filho da mesma. Contudo, percebe a pressa que estavam exigindo deles. "Os ânimos por aqui estão cada vez mais alterados". A garota sabia o que aquilo significava: o Lorde das Trevas estava ficando impaciente.

Precisavam cumprir seus trabalhos o mais rápido possível.

— Soube que o goleiro da Grifinória desse ano é, de novo, o Weasley! – Daphne comenta sentando ao lado da menina que, num movimento rápido, esconde o pedaço de papel em suas vestes. – Bom pra nós. Ele sempre teve um problema de nervos. – ela para de falar ao perceber o silêncio de Hawking. – Você está bem? – pergunta preocupada.

— Sim! Você viu Malfoy? – questiona. Precisava encontra-lo e mostrar a carta.

— Ele estava com duas garotas subindo as escadarias. – ela diz. – Não sei exatamente aonde está indo!

— Certo! Vejo você depois, okay? – a morena a cumprimenta.

— Não vai assistir o jogo? – Grengrass questiona.

— Nunca fui muito fã de quadribol. – grita enquanto se dirige à saída, notando a ausência não só de Draco, mas também de Crabbe e Goyle.

*

Antes de sequer conseguir alcançar o corredor do sétimo andar, Pandora esbarra em ninguém mais, ninguém menos que Harry Potter. O olha desconfiada pois, se seus cálculos estivessem corretos, ele estava atrasado para a partida.

— Boa sorte no jogo hoje, Potter. – o cumprimenta com sarcasmo.

Ele ri, ironicamente: — Como se a Grifinória precisasse de sorte pra derrotar Sonserina. – com isso ele se vira e vai na direção das escadas.

Ao chegar no corredor do sétimo andar, a garota dá de cara com uma sonserina mais nova. A menininha a olha assustada e, após soltar um grito, derruba um caldeirão que leva nos braços. Hawking se abaixa e lança um Reparo no objeto, o entregando, em seguida, para a respectiva dona.

— Deveria estar indo pro estádio. – diz, desconfiada.

— Eu não... – a pequena começa, mas se interrompe soltando um pigarro. Estranhamente a voz dela parecia grossa demais para pertencer a um ser de aparência tão delicada. – Eu não gosto muito de quadribol. – responde, dessa vez com um timbre completamente diferente.

Pandora estava prestes a fazer um interrogatório completo com ela, quando escuta uma voz a chamar: — Hawking. – vira-se na direção e observa Malfoy andando em seu encontro. – Pensei que iria ao jogo. – comenta.

— Não sou muito fã de quadribol. – repete a frase pela segunda vez naquele dia. – De qualquer forma, vim entregar a resposta de sua mãe. – diz, entregando a carta ao garoto e olhando desconfiada na direção da menininha que ainda estava ali, percebendo que a mesma lançava olhares ansiosos na direção do loiro. Isso faz uma ideia surgir na cabeça dela. – Essa menina está ajudando você? – questiona.

Draco levanta os olhos da carta e parece, pela primeira vez, perceber a presença da pequena, soltando em seguida: — Que droga, Crabbe! Você já devia ter ido embora.

— Espera, Crabbe? – Pandora pergunta horrorizada.

— Não é minha culpa se sai dizendo a tordo e a direito o que anda fazendo, Malfoy. – a menininha retruca, dessa vez com a voz de Vincent Crabbe.

A sonserina de cabelos negros fecha os olhos, juntando toda a paciência que podia encontrar, dizendo, por fim, à Malfoy: — Por favor. Me diga que não pediu ajuda aos dois... – praticamente implora para que ele negue.

— O que queria que eu fizesse? – Draco pergunta, levantando os braços em um gesto de rendição. – Preciso de alguém que fique aqui fora vigiando as entradas da Sala Precisa. Crabbe e Goyle me avisam sempre que alguma pessoa passa por aqui! É desse jeito que sei que é seguro sair. – Pandora tinha que admitir que aquela era uma boa estratégia, mas não confiaria nem os cuidados de um mero botão aos dois garotos. – Olhe, sei que é tudo muito tranquilo em seus turnos, mas cada vez mais, tenho sido seguido pelo Potter, então todo cuidado é pouco.

— Não gosto disso. – diz, por fim.

— Nem eu! – ele concorda. – Mas não temos escolha. Pode ir, Crabbe! Leve Goyle junto. – eles observam enquanto a menininha/Vincent se desloca.

— Como foi que fez com que concordassem com isso? – Pandora pergunta a Draco rindo.

Ele sorri: — Nem queira saber.

Entram juntos na Sala Precisa e, pela primeira vez, fazem um turno em parceria.

E, mesmo que não admitam, tinham achado incrivelmente prazeroso.

*

No final das contas, a Casa das Serpentes tinha sido derrotado pelos Leões.

O clima, antes tão eufórico entre os sonserinos, agora se igualava ao de um enterro. Até Draco que não participara do jogo e muito menos o assistiu apresentava-se cabisbaixo, fazendo Pandora rolar os olhos em desaprovação. Tanta coisa melhor pra se preocupar e eles perdendo tempo com isso?, pensou.

Quando o tédio a consumiu por completo, se dirige ao seu quarto. Porém, uma pessoa intercepta seu caminho no meio do dormitório feminino, a agarrando pelo braço e imprensando contra a parede. O impacto contra o concreto com certeza deixaria marcas.

Seu olhar, repleto de ódio, encontra o do responsável.

Daresponsável pra ser mais exata: Pansy Parkinson a olha com o maior desprezo que podia reunir em seu ser.

— O que quer com Draco? – questiona.

— Não sei do que está falando, Parkinson. Se está tão curiosa sobre isso, deveria perguntar a ele. Afinal, ele não é seu namoradinho? Ah, espere! Não é não. – é a resposta. O aperto no braço de Pandora se intensifica e ela tinha certeza que aquilo também ficaria marcado. Ela olha na direção da mão da outra garota e diz, ameaçadoramente: — Não sou sua amiga, mas vou lhe dar um aviso, Pansy. Se não tirar suas mãos de mim em dois segundos, garanto que não as sentirá mais.

Sabendo que a menina imobilizada era infinitamente melhor em magia que ela mesma, Pansy Parkinson a libera. – Agora vamos deixar uma coisa bem clara. – acrescenta. – O Draco é meu! Não vou admitir que ninguém venha aqui e o tire de mim. Especialmente uma zé ninguém como voc... – ela não chega a concluir a frase, pois uma varinha é encostada em seu queixo.

— Nunca. Sob hipótese alguma. Ouse falar assim comigo novamente. – Pandora sussurra com uma voz tão cheia de ameaça que nem parece sua. A outra garota engole em seco. – Não estou interessada em tirar nada de ninguém, Parkinson. Então, se ao menos conseguisse ser um pouco mais segura de si e confiasse no próprio taco, saberia que nem ao menos estou tentando. – Hawking se afasta, guardando a varinha no bolso das vestes. – E faça um favor a si mesma: pare de tentar parecer ameaçadora. Pode pensar que parece um pitbull assustador, mas não passa de um pinscher com tremedeira.

Vira na direção de seu quarto, deixando a outra garota estatelada no mesmo lugar. Seria possível que a obsessão daquela menina por Draco a teria deixado tão irracional ou a irracionalidade já era parte se seu ser? Pandora não sabia responder.

Mas de uma coisa tinha certeza: Pansy Parkinson era a vadia mais doida de Hogwarts.

*

O final de semana em Hogsmeade havia chegado.

Depois do confronto nos corredores do dormitório, Pansy evitava fazer qualquer tipo de comentário sobre Pandora enquanto ela estava por perto. Esta última não podia estar mais satisfeita, pois as vezes que precisava ouvir a voz da outra tinham diminuído em quase 100%.

O vilarejo era bem bonito. Sendo o único povoado exclusivamente bruxo de toda a Grã-Bretanha, podia-se ver o quão livres os bruxos e bruxas se sentiam em estar ali. Em serem quem eram, sem precisar de disfarces ou coisas do tipo. Isso dava ao local uma atmosfera aconchegante, mesmo com toda a neve encontrada ali.

— Precisamos ir até o Correio das Corujas. – Daphne comenta na direção de Pandora. O grupo formado completamente por sonserinos estava se dirigindo à Zonko's, mas, ao que parecia, a Grengrass possuía outros planos. – Temos que encomendar nossos vestidos para a festa de Slughorn. – A morena revira os olhos, pois não estava nem com a metade da animação da outra com relação à festividade. – Ah, vamos, Pan! – mesmo a contragosto, ela concorda e começa a acompanhar.

Hawking lança um último olhar na direção de Malfoy que, discretamente, acena com a cabeça. Tinham combinado de estarem no Três Vassouras quando o resto do grupo se dirigisse de volta à escola.

— Já decidiu com quem vai? – Grengrass pergunta assim que se afastam.

— Combinei com Blásio de irmos juntos. – Pandora afirma e, de fato, dois dias atrás entrou em comum acordo com Zabine de que acompanhariam um ao outro, como amigos. Em partes, pelo motivo da garota não ter vontade de convidar outra pessoa e ter se aproximado dele, mas também pela ideia de que aparecer na festa sozinha lhe parecia um pouco desanimador e humilhante.

Mas a verdade é que ela tinha sim, alguém em mente. Mas não conseguira reunir coragem o suficiente para chama-lo.

— Que estranho. – o comentário de Daphne a tira dos devaneios. – Não me leve a mal. Gosto muito de Blásio, mas imaginei que convidaria outra pessoa.

— E quem seria? – ela questiona, acusatória.

A loira ri: — Acho que nós duas sabemos de quem estou falando.

Permanecem em silêncio durante todo o trajeto. Mas, diferente da boca, a mente de Pandora não estava nada silenciosa.

*

— Achei que tinha desistido disso. – Malfoy comenta assim que ela toma uma cadeira ao seu lado no Três Vassouras.

— Daphne teve problemas em decidir como gostaria que seu vestido parecesse. – ela diz, enquanto pede ao garçom uma cerveja amanteigada. – Juro que tento entender a fascinação dessa garota por essas festas, mas não consigo assimilar.

— Talvez ela só fique feliz por ter algo diferente da rotina. – ele responde, tomando um gole de sua bebida.

O garçom retorna à mesa colocando um copo com um líquido de cor âmbar a sua frente. A bebida é bem gostosa, constata Pandora. Não tem muito álcool e nem é muito doce.

— Então, quando vamos falar com Rosmerta?

— Ela virá nos chamar em alguns minutos. – Draco esclarece. – E então, soube que irá com Zabini para a festa de Natal. – comenta como quem não quer nada.

— Blásio se mostrou uma companhia muito agradável nos últimos dias, então não foi uma opção aleatória. – ela diz, tomando um gole de seu copo.

— Mas foi sua primeira opção? – ele pergunta astuto.

Ela sorri: — Não. E, de qualquer forma, não faz muita diferença. — admite. — Você já teve algum outro resultado na questão do você-sabe-o-quê? – ela diz, mudando o tópico da conversa.

Ele ri notando a mudança de assunto, mas resolve ignorar. Por hora. – Tudo na mesma. Embora a carta de mamãe tenha me deixado um pouco preocupado.

— Acha que ele está tentando pressionar algo? – ela pergunta, se referindo a Voldemort.

— Não acho. Tenho certeza! – afirma.

Pandora pensa um pouco sobre aquilo, mas logo lembra de um tópico que prometeu a si mesma tratar com o garoto: — Pansy surtou, sabia? – ele a olha em dúvida. – Há alguns dias ela me parou no dormitório feminino, achando que pareceria intimidadora e me questionando sobre que envolvimento nós temos.

Ele precisou de alguns minutos para responder, já que tinha quase se engasgado com a bebida. – E?

— E ela nunca mais fará isso novamente. – esclareceu. – Enfim, não disse exatamente que tipo de relação nós tínhamos, já que acho que o que temos não seria definido nem como relação, pra falar a verdade, mas deixei claro que não é nada além do que deveria ser.

— Caramba, Hawking, assim você me magoa. – ele brinca, ainda rindo. – E não se preocupe. Já esclareci tudo o que tinha pra esclarecer com Pansy.

— Como assim? – ela questiona.

— Digamos que ela fez o mesmo comigo alguns minutos atrás. – Pandora levanta uma sobrancelha. – Não da mesma forma, mas ela questionou a maneira como nos tratávamos, afirmando que percebia um certo interesse. De sua parte, óbvio. – ela revira os olhos. – Disse a ela que o que faço ou com quem me envolvo não é da conta dela.

— Achei que vocês tivessem um casinho. – ela diz, rindo.

— Achou errado. – Draco rebate.

Madame Rosmerta se aproxima da mesa dos dois e faz um movimento indicando que a sigam. Ela os leva até uma sala particular e aponta para o sofá a sua frente. Ambos preferem permanecer em pé.

Para uma pessoa sob o efeito da Maldição Imperius ela parecia bem lúcida. O que indicava que Draco tinha executado o feitiço de forma brilhante. As vezes, Pandora esquecia que, mesmo sem se gabar disso o tempo todo, ele era um bruxo talentoso e um dos melhores da turma.

— Alguma novidade? – ele pergunta assim que entram no aposento.

— Soube por meio de informantes que frequentam o Cabeça de Javali que o Lorde das Trevas está começando a ficar bem irritadiço. – Pandora e Draco trocam um olhar entre eles. – Dizem que algo o está deixando ansioso e infinitamente mais perigoso.

Malfoy acena com a cabeça. – Tinha imaginado. – é notável uma ponta de desespero e medo em sua voz. Se a demora dos dois estivessem deixando o Lorde daquele jeito, não queria nem pensar em como seriam as suas férias de natal na Mansão dos Malfoy. Bom, as férias deles, pensou. – Mais alguma coisa?

— Sim! – a senhora confirma. – Semana passada o professor Slughorn veio aqui. – aquilo chama a atenção dos dois. O mestre de Poções era, sabiam, um frequentador assíduo do bar e muito próximo de Madame Rosmerta. Se ele tivesse percebido a presença da Maldição Imperius todo o plano poderia ir por água abaixo. – Não notou nada de muito diferente, até porque sempre passa um pouco do limite de álcool quando está aqui, mas ele me pediu uma indicação de presente para alguém especial. Quando perguntei quem seria, ele afirmou se tratar de Dumbledore. – esclarece. – Então, plantei a ideia de presenteá-lo com um hidromel que, por acaso, estava envenenado.

— O quê? – Pandora exclama. Ela olha escarnecida na direção de Draco. – Como teremos certeza que isso vai chegar em Dumbledore? E se for mais um episódio como o de Cátia Bell?

Ele se vira para a garota. – O hidromel está nas mãos de um professor e não de uma aluna! – exclama. – A possibilidade de chegar no diretor é infinitamente maior. E, por favor, evite comentar sobre o episódio do colar. Me culpo o suficiente sem ninguém me lembrando do que aconteceu.

— Usar outras pessoas como vetor não vai nos ajudar, Malfoy. – ela diz. – Não vê o quanto isso é perigoso e, sem falar, potencialmente problemático?

— E o que você quer que eu faça? – ele grita. – Quer que eu apareça na sala de Dumbledore e lance uma Maldição da Morte nele? Pode não parecer, Hawking, mas estou tentando ao máximo não me envolver diretamente nisso.

— E quer que outra pessoa o faça? – é a vez dela gritar. – Porque, Malfoy? Porque?

— Porque eu não consigo! – Draco grita enlouquecido. Pandora congela e o observa sentar no sofá com as mãos cobrindo seu rosto. – Não consigo. – diz baixinho.

A menina não sabe o que fazer. Olha na direção de Rosmerta em busca de ajuda, mas ela parece estar alheia a situação que se desenrola ali. Respira fundo e se aproxima do garoto, sentando-se ao seu lado. Coloca uma das mãos no ombro dele e aperta levemente.

— Estamos juntos nessa, Malfoy. – ela diz. – Mas precisamos entrar num consenso sobre o que fazer. Caso contrário isso não vai dar certo.

— Ele vai mata-los, sabia? – ele sussurra. – Vai matar meus pais e depois me matar.

Ela nunca tinha o visto naquela situação. Descontrolado. Tão frágil. Tão... vulnerável. Draco estava com medo não por ele, mas pelos seus pais e Pandora nada podia fazer a menos estar ali pra ele ou tentar apaziguar a situação.

Por isso, diz: — Isso não vai acontecer. – ela afasta, delicadamente, as mãos dele do rosto e observa as lágrimas que caem de seus olhos. Pega o queixo do garoto, o levantando e obrigando que a encare. – Não vamos deixar isso acontecer. Eu não vou deixar acontecer, Malfoy. – afirma com convicção. — Vamos sair dessa e seus pais estarão em segurança. Prometo!

O gesto que ela faz depois deixa ambos surpresos: o puxa pelos ombros e aperta o garoto num abraço. Alguns segundos depois, passado o choque, ele a abraça de volta.

Estranhamente, a sensação de estar naquela posição não é de desconforto, mas completamente o contrário. Tanto Draco quanto Pandora se sentem bem.

Confortados.

Pertencentes a algum lugar.

Seus cheiros parecem familiares um ao outro e aquilo os enche de um sentimento bom. Tranquilo.

Ficam naquele gesto durante o que parece ser um longo tempo, mas não se importam. O vazio em seus peitos e a sensação de mau presságio não os atinge enquanto estão assim.