Notas iniciais
Fogo, sabe aquela coisa brilhante, antiga e que se você tocar terá problemas? Isso é o fogo? Pode até ser, mas em alguns momentos, nós temos idéias diferentes sobre fogo, idéias que podem parecer meio filosóficas ou difíceis de compreender, já imaginou estar pegando fogo? Já imaginou a sensação de derreter como cera? Já sonhou com isso?
Eu já, acordei quatro da manhã, o céu limpo e cheio de estrelas de Lima já levemente banhado de alguma luz de alvorada, esse era um dos privilégios de morar em cidade pequena, o sol sempre parece chegar mais cedo, eu estava suando e ofegante, ainda conseguia lembrar da sensação de minha carne derretendo lentamente, de tentar gritar e não conseguir, ironicamente, naquele mesmo dia, eu conheci a pessoa que me faz sentir o fogo na pele hoje.
Uma garota loira, com a pele clara e macia, os olhos de um azul tão vívido que parecia o mar do caribe daqueles que a gente vê nos panfletos de companhias aéreas e que você sabe que na realidade não são bem assim, ela tinha o sorriso mais lindo, um brilho de inocência nas íris azuis que faria qualquer um suspirar se olhasse por muito tempo.
Foi ali que começou meu paraíso e também meu inferno, bem ali, desde o “oi” tímido até nosso primeiro beijo naquele mesmo banco naquele mesmo parque, talvez eu devesse contar o que aconteceu, mas entender tudo ainda é meio complicado e as palavras se embaralhariam na minha cabeça, além disso, Brittany sempre teve em mim o poder de me fazer perder as falas, esquecer o que eu ia dizer ou parar de pensar, então, se eu fosse tentar contar tudo, desde o começo, seria uma história defeituosa, como um livro que caiu na água e algumas páginas importantes grudaram umas nas outras durante o processo de secagem.
Mas eu sei que para que entendam minimamente, vou contar o começo, a única parte que sei de cor, pois já se repetiu tantas vezes em minha cabeça e em meus sonhos nos últimos dias, que cada vírgula já foi decorada.
MODE FLASHBACK ON
Era uma tarde calma para mim, estava com doze anos na época, minha irmãzinha Kayla, tinha dois anos, Jade tinha catorze e Fernando, dezoito.
Kayla estava brincando com alguns bebês na caixa de areia enquanto eu a vigiava, Jade estava jogando vôlei garotosXgarotas, ela e sua melhor amiga Nissy contra Fernando e um garoto loiro novo na cidade, Theo, ele tinha quinze anos.
Me sentei em um banco e fiquei olhando Kay brincar, fechei os olhos por alguns segundos e deixei que minha cabeça pendesse para trás, aproveitando os raios de sol em minha pele e sentindo ela esquentar levemente, era um domingo extremamente agradável, do tipo que tem sol e céu limpo de nuvens.
Poderia ficar assim o dia todo, com o rosto virado para o céu, apreciando a brisa suave com cheiro de Pinho Sol e o calor morno dos raios solares na minha face, mas tinha prometido á minha mãe que ia ficar de olho em Kay para ela, então voltei a abrir os olhos e foquei na garotinha morena que brincava com uma menininha loira na caixa de areia, Kayla, assim como eu, tem a pele cor de caramelo, cabelos negros, os dela são bem mais curtos, mas tem exatamente a mesma cor e olhos cor de chocolate escuro, Nando também é assim, a única que é minimamente diferente é Jade, ela puxou á minha vó Ana, mãe da minha mãe e á minha mãe também, sua pele é da mesma cor que a nossa, e seus cabelos também são negros, mas seus olhos são redondos e tem um tom de verde bonito, suas feições são mais delicadas e menos latinas.
Minha mãe, Eleanor, é filha de um imigrante porto-riquenho chamado Miguel e uma filha de pais franceses da alta sociedade, Anneliese, ou simplesmente Ana, eles tiveram uma história de amor digna daquelas melosas que acabam virando filme e tiveram duas filhas, Eleanor e minha tia Jade, que morreu alguns dias antes de minha irmã de mesmo nome nascer, tia Jade tinha um único filho, Jason, que criava sozinha, quando ela morreu, o menino já tinha vinte e dois anos e estava prestes a se casar com Idina, uma garota rica nova-iorquina, ele se casou e hoje tem uma filha, Polyana, ou Poly, como todos a chamamos.
Já meu pai, Antonio, é totalmente latino, como meu avô Miguel, ele nasceu em Porto Rico e passou lá toda a sua infância, até seus quinze anos, quando ele pegou um avião para Chicago e tentou uma bolsa para medicina, foi acolhido por um médico renomado que dava aulas na faculade, Dr. George Pensington, fez a faculdade e se tornou um conhecido neuro-cirurgião.
Há alguns meses, meu avô Rafael morreu de uma doença no coração, sua mulher e minha avó, Alma, caiu em profunda depressão, então papai foi buscá-la para morar em Lima e hoje ela é até feliz, vai abrir uma floricultura, o que é bom porque eu posso ir lá ajudá-la de vez em quando, eu gosto de flores.
Olhei em volta, Jade estava fazendo um passe curto na bola de vôlei, Fernando estava tentando segurar o passe curto de Jade e Theo e Nissy pareciam estar tentando descobrir o que estariam fazendo ali, já que a guerra parecia ser entre Jade e Nando.
Kay ainda brincava com a menininha loira, mas agora, do lado da nova amiguinha da minha irmã, tinha uma menina, ela parecia ser da minha idade, tinha a pele branca levemente avermelhada nas bochechas, cabelos loiros como fio de ouro e usava um vestido azul claro da cor do céu, eu não conseguia ver seu rosto, mas foi como um impulso, eu tinha isso ás vezes, uma vontade de fazer alguma coisa que era quase incontrolável até para mim.
Me levantei do banco, puxando a bainha do meu suéter azul escuro da J. Crew e caminhei pela grama verde-esmeralda macia até a caixinha, Kayla sorriu para mim e eu sorri de volta, a menina olhou para cima e eu paralisei no lugar, seus olhos eram quase da cor de seu vestido, de um azul puríssimo, eu nunca tinha visto olhos dessa cor.
- Tana! Vem ati ver meu tasteio! – chamou Kay, eu dei um sorrisinho bobo e me abaixei, vendo o enorme monte de areia com uma bandeirinha em cima.
- É lindo, Kay, por que você não me diz o nome de suas novas amiguinhas? – perguntei, olhando de canto de olho para as duas loiras, que agora parecia quase obvio que eram irmãs devido á sua semelhança.
- Essa é a Hannah e essa é a Bit. – falou, simples, e eu sorri enquanto ela voltava a construir seu castelo.
- Prazer, sou a irmã da Kay, Santana. – falei, estendendo a mão para a menina maior, que estava com uma cara meio boba que eu achei fofinha. – Você é a Hannah ou a Bit? – perguntei, certa de que Kay tinha falado o nome da menina errado, ela apertou minha mão, se naquele momento eu soubesse na confusão que estaria me metendo pelos próximos cinco anos, não teria apertado de volta.
- Prazer, sou Brittany, irmã da Hannah.
MODE FLASHBACK OFF
E agora aqui estou eu, cinco anos depois, na minha cama, pegando fogo internamente e chorando porque a Bit que eu conheci no parque através da minha irmãzinha de dois anos me trocou por um aleijado idiota.
Estou sentindo muita dor do lado esquerdo do meu corpo, isso é ruim ou muito ruim? Tenho quase certeza que estou com febre e acho que já vomitei metade do peso do meu corpo, mas eu não consigo pensar nisso, só consigo pensar nos olhos azuis dela, em seu sorriso, só consigo pensar nela, isso me deixa nervosa, minha família toda preocupada que eu esteja com dor, que eu preciso ir no médico, eu não vou a lugar nenhum, papai chega amanhã, pra que o desespero? Posso esperar por ele, apesar da dor estar cada vez pior.
Coloquei as mãos na minha barriga onde doía e soltei um gemido baixo, a porta se abriu, eu esperava por mamãe, Jade ou Fernando, mas ao invés disso, com o vento da porta, veio um cheiro inconfundível de Marshmallows, flores e açúcar, era ela, eu não precisava nem olhar para saber.
- Bit?
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