My Beating Heart Belongs To You
19 All Coming Back
Notas iniciais
Minha mãe sempre reclamava que eu tinha muitos pesadelos, desde muito pequena, eu me debatia e gritava, já tinha caído da cama tantas vezes que mamãe começou a temer que acabasse quebrando alguma coisa, ela sempre me chacoalhava até que eu acordasse e me ninava até que dormisse novamente, esses sonhos me renderam inúmeras visitas ao psicólogo e a vários pediatras, que sempre afirmavam que em breve eles iriam embora, que era coisa da idade, não me lembro exatamente quando pararam de acontecer, acho que por volta dos treze ou doze anos.
Mais ou menos quando conheci Santana, depois que a conheci, foi como se houvesse uma lavagem no meu cérebro, e todos aqueles sonhos com zumbis, fantasmas, alienígenas, casas mal assombradas e florestas escuras foram substituídos por um único foco, eu sonhava com seu sorriso, com sua voz, um sonho melhor que o outro. Os pesadelos pararam de acontecer, mas até hoje me lembro dos piores, principalmente de um, que permaneceu em minha cabeça por bastante tempo.
Eu acordava no sofá da minha sala, era natal, e eu sabia disso porque a casa cheirava a noz moscada e a pinheiro da árvore que estava montada e acesa perto da lareira, olhei em volta procurando pela minha mãe, ou meus irmãos e me levantei devagar, andei pela sala até a cozinha, percebi que uma boca do fogão estava ligada, e em cima dela tinha uma enorme panela de sopa, que balançava e derramava um líquido cheiroso, meus olhos brilharam com a ideia de ser a sopa de legumes que minha mãe sempre fazia no natal e era muito gostosa. Olhei para os reguladores de gás no painel do fogão mas todos estavam na mesma posição, então como o fogo estava ligado? Peguei um pano de prato no balcão e tirei a tampa da panela delicadamente, mas ao invés da sopa de legumes da mamãe, uma víbora negra com a boca do tamanho do meu punho fechado pulou em mim.
Tudo ficava escuro depois disso, agora eu tinha essa mesma sensação, como se tivesse aberto uma panela e saísse de lá uma cobra, Antonio Lopez me encarava da porta da casa, um sorriso levemente irônico nos lábios dei um passo para o lado, ficando perto da latina, me inclinando sobre ela protetoramente, que me olhou de soslaio, os lábios entreabertos.
– O que faz aqui? — Jade perguntou, cruzando os braços sobre os seios, um típico sinal dos Lopez de quando estavam prestes a entrar em pânico ou a chorar, quantas vezes eu já teria visto aquele sinal em Santana?
– Preciso conversar com vocês, onde está o Fernando? — perguntou, eu entortei um pouco o pescoço, procurando discretamente por uma mala ou alguma coisa que provasse que ele estava ali para ficar, consegui respirar melhor quando não achei nada.
– Ele... Foi deixar Kayla na escola. — Santana falou, cruzando os braços igual á irmã, o pai a olhou, indiferente, e assentiu fracamente.
– Vou esperá-los lá fora então. — falou, frio, indo em direção ao alpendre, senti o corpo da latina ao meu lado tremer.
– Leve-a para cima. — Jade pediu, visivelmente abalada. — Vocês têm aula. — saiu para a cozinha.
Puxei a minha morena para cima delicadamente, ela me parecia em choque, sentei-a em sua cama e fui até o banheiro pegar os uniformes das Cheerios, quando voltei ela ainda estava na mesma posição, fitando um canto da parede, os olhos nebulosos, franzi o cenho, preocupada e sentei do seu lado, peguei sua mão e tentei fazê-la me olhar.
– Acha que consegue ir? — perguntei, preocupada, faltavam apenas seis dias para o fim do ano, nós já estávamos passadas e ainda íamos para a escola apenas para os ensaios do glee e das líderes, por isso pouco importava se faltássemos ás aulas daquele dia.
– Claro que sim. — falou, apertando minha mão. — estou só... Cansada. — falou, e eu sorri de canto, beijando sua bochecha.
– Vamos lá então. — falei, nos arrumamos e eu a ajudei a amarrar o cabelo, Jade apareceu na porta do quarto e sorriu levemente, ela tinha o sorriso de Santana, só tinha percebido isso agora.
– Fernando chegou. — avisou. — poderia esperar aqui, Britt? Ele quer conversar com nós três.
Apenas assenti fracamente e sorri para Santana tentando acalmá-la fiquei ali em cima quase morrendo de ansiedade, me perguntando no que eles estariam conversando, demoraram quase quarenta e cinco minutos até que Santana subisse de novo, ela tinha os olhos vermelhos de chorar e os lábios estavam trêmulos, entrou e foi direto me abraçar.
– O que aconteceu? — perguntei, acariciando seu rosto.
– Ele vai embora, veio se despedir, estará na Austrália em duas semanas e quer ficar aqui conosco até lá. — falou, respirando fundo e escondendo o rosto em meu pescoço, a apertei em meus braços com carinho, passando as mãos por suas costas.
– Como se sente? — perguntei, sem jeito com a voz falha.
– Não sei, com medo, eu acho. — falou. — não confio nele.
– Podemos ficar na minha casa esses dias. — sugeri, e ela se apertou mais contra mim. — Eu insisto, Sant, se você não se sente bem aqui, quero que venha comigo. — ela olhou nos meus olhos e sorriu levemente.
– Só vou pegar minhas coisas, amanhã vou para lá, ok? — perguntou, e eu assenti, a abraçando com carinho.
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