My Angelus
13 Distância ou proximidade
Notas iniciais
─ O que foi aquilo? ─ Dean me perguntou arregalando os olhos e trincando os dentes. Fudeu. Não ... ainda sou Romanoff.
─ ‘’ Aquilo’’, foi preciso. ─ eu disse tentando soar indiferente, mas eu estava um pouco nervosa com toda a situação. Primeiro porque eu não imaginava que tinha coragem para fazer o que fiz com o demônio. E segundo, que agora eu teria de lidar com as informações que recebi do demônio e com o chilique de Dean. Um demônio dizer que você não é humana é uma coisa, agora três ...? E Leonel que diz não saber de nada ... Eu não sei.
─ Foi preciso? Nós íamos conseguir! ─ disse ele passando as mãos pelo cabelo.
─ Ah claro, iam... Mas eu já consegui, chega, para que ficar discutindo sobre algo que já aconteceu?! ─ falei com impaciência e sai andando pelo corredor, com Dean me seguindo.
─ Mas pessoas como eu discutem por coisas que já aconteceram, se não, pessoas como você, continuam a faze-las.
─ Eu não fiz bobagem nenhuma. Eu estou inteira, não estou? ─ falei parando próxima a cozinha e me virando para ele, que acabou trombando em mim... Nossa, desde quando ele era tão alto? ─ me peguei pensando. Olhei para cima e meu coração pulou quando peguei Dean olhando para meus lábios.
─ Está. ─ falou ele trocando o olhar dos meus lábios para meus olhos. A mão dele estava na minha cintura desde quando? É incrível como eu e Dean conseguimos sair de uma discussão para um hot, tão rápido assim.
─ Sim estou! ─ falei sorrindo nervosamente e sai quase correndo daquela situação. Eu estava indo para a cozinha mas me virei e subi para o quarto. Quando fechei a porta atrás de mim tive vontade de arrancar minha própria língua. Idiota, idiota, idiota!
Ele deve pensar que sou alguma virjona tapada... Na verdade eu sou ... Ou pior, pode pensar que não sinto atração por ele. Okay isso não é o pior né, porque eu demonstraria sentir algo por ele? Ele era muito bonito, e sexy, mas... não passava disso.
҉ ҉ ҉
Eles haviam exorcizado o demônio, na esperança da casca ainda estar viva, mas infelizmente não estava. Leo se ofereceu para levar o corpo para a família e dar a notícia que eles já sabiam, bom um familiar sumido a meses, a coisa que mais queriam era que ao menos tivessem um corpo para se despedirem e enterrarem.
Bobby parecia estar mais rabugento, mas admito, eu gosto dele. Leonel apareceu e disse que era melhor deixarmos essa história de descobrir o que eu sou por um tempo, até porque ele disse sentir só uma presença humana em mim, já Castiel disse que eu pareço humana, com sentimentos humanos, porem há algo em mim que ele não pode desvendar.
─ Ei, eu vou me sentar lá fora ok? ─ falei parando a porta da cozinha onde Bobby e os Winchester bebiam cerveja e falavam de algo idiota.
─ Tudo bem. ─ Sam respondeu com um sorriso.
Sai da casa caminhando em passos arrastados, procurando por algum carro que fosse possível se sentar sem contrair tétano, e acabei me sentando no capo de um carro laranja descascado. Acendi um cigarro e depois de alguns minutos agradeci mentalmente a nicotina, por fazer a ansiedade e estresse se esvaírem de mim.
─ Posso? ─ perguntou Dean brotando ao meu lado e me fazendo ter uma parada cardíaca.
Arregalei os olhos para ele e depois assenti com a cabeça, ele se sentou ao me lado e ficamos algum tempo em silencio. Eu mexia o cigarro vagarosamente e via formas se criando e se desfazendo.
─ Olha, elas flutuam, bonitas e enigmáticas, e depois se desfazem sem nem deixar vestígios de que existiram algum dia. ─ sussurrei depois de soltar a fumaça pelo nariz e boca.
─ Algumas coisas ou pessoas são assim, elas surgem tão repentinamente como somem. Mas ... isso é só fumaça de cigarro. ─ ele terminou rindo baixo.
─ Estou muito poética hoje, não estrague isso Dean. ─ repreendi o loiro. Nós dois sorrimos.
─ Eu posso te contar agora ... ─ disse ele mexendo distraidamente em um fio solto em meu short jeans, sua mão roçava de leve em minha perna, me causando arrepios. Talvez ele tenha reparado mas não disse nada.
─ Ah, claro pode me contar ... Mas sobre o que? ─ perguntei enquanto vasculhava minhas memorias para achar algo que remetessem a isso.
─ Sobre meu passado ... No dia em que fomos ao bar e você ficou bêbada e me perguntou isso.
Sorri enquanto me lembrava daquela noite.
‘’ Depois de virar a 6° dose eu me encaminhei para uma mesa levando Dean comigo.
─ Me diga sobre sua vida Dean Winchester. ─ falei com a voz levemente alterada.
─ Você não quer saber da minha vida, não mesmo. ─ disse ele sorrindo mas soando melancólico.
─ Você não sabe ... ─ sorri confiante.
Ficamos nos encarando por algum tempo, eu tentei manter o olhar firme mas não consegui e acabei voltando-o para a decoração do bar, que era todo de madeira, e com luzes de neon por todo lado. Quase uma balada com aquele som altíssimo.
─ O dia que estivermos sóbrios eu conto a você. ─ disse ele por fim. ’’
─ Me diga Dean. ─ falei quando despertei do pequeno flash back.
─ Eu tinha quatro anos quando meu pai salvou a mim e a Sam de um incêndio em nossa casa, minha mãe morreu.─ sussurrei um lamento que foi dito com sinceridade.─ Meu pai virou caçador depois de descobrir as causas do incêndio, um demônio chamado Azazel. Eu e Sammy entramos nessa vida mesmo, quando meu pai desapareceu, isso faz uns 10 anos... Já perdi meu irmãos algumas vezes. Já morri 10 vezes em um mesmo dia por causa de um arcanjo idiota chamado Gabriel, fui baleado, atropelado, esmagado por um piano... ─ ele fez uma pequena pausa e sorriu ao ver minha expressão de ‘’ An ? ‘’ ─ engasgado, eletrocutado, atacado por um cão fofinho... Bem só me lembro dessas. Já fui para o inferno, céu e purgatório. Já conheci Lúcifer, infelizmente.
Acho que esse seria um bom resumo da minha vida. ─ Terminou ele com o olhar baixo.
Eu não sabia o que dizer para uma pessoa que morreu 10 vezes no mesmo dia, perdeu os pais o irmão...
─ Eu... Me conte as coisas felizes agora. ─ Falei tentando mudar de assunto.
─ Bom... Eu gosto de torta, gosto do meu Impa-la, sou defensor de virgens, já transei com um anjo, aquela filha da mãe da Anna... ─ disse ele olhando para cima.
─ Olay, deu para entender. ─falei sorrindo forçada. ─ Anjos podem... pecar? ─perguntei desconfortável.
─ Eu não sei te responder isso, mas Anna pecava muito bem. ─falou ele perdendo o foco novamente.
─ Okaay Dean! ─ Falei levantando as mão em sinal de rendição, eu não queria detalhes da transa dele com um anjo.
Ele riu abertamente, claro que ele estava fazendo aquilo para me irritar.
─ Agora, me diga sobre você.─ falou ele virando o corpo para mim.
─ Animador. ─ resmunguei. ─ Eu tinha 11 anos quando meus pais morreram, hoje eu estou bem, mas a 8 anos atrás eu ia me sentar na beirada da ponte que tinha no meu bairro, todos os dias, e todos os dias durante 3 meses eu me perguntava se eu tinha motivos para continuar 'aqui' ou se eu deveria pular e acabar com tudo isso. Durante 3 meses eu sobrevivi e não vivi, hoje eu sei a diferença entre essas duas palavras. Só comecei a viver novamente quando conheci Zoe Ross, aquela garota foi um anjo em minha vida. A amizade que nós construímos … eu acho que nem a morte será capaz de destruir. Ela me fez superar a morte dos meus pais, e sempre que eu era maltratada pelos meus avós eu chamava ela, que vinha correndo e entrava pela janela do meu quarto … — eu soltei uma risada baixinha quando falei essa última parte. — ficávamos conversando até que tudo se acalmasse. Decidi cursar faculdade de psicologia em Winfield, e Zoe me acompanhou, fiz dois anos de curso e agora estou aqui. ─ Terminei de falar com um misto de melancolia, tristeza e felicidade.
Ficamos alguns segundos em silencio.
─ Eu não imaginava que você já havia passado por tudo isso. ─ Falou ele mantendo seus olhos nos meus.
─ Ninguém pode imaginar. ─sorri sem humor e joguei fora o cigarro que já estava apagado a tempos. Observei o fim de tarde que era muito bonito de onde estávamos.
─ Sobre hoje mais cedo... Eu não sei o que deu em mim, você não queria aquela proximidade e ...
─ Dean, por favor, não pense que eu não queria. ─ Criei coragem para dizer aquilo. Era fato que, desde que nos conhecemos rola uma química, mas é algo físico, e digamos que proximidades físicas me causem fobia. Os motivos da minha fobia foram lançados em minha mente como tiros, lembranças que me fizeram fria como eu sou hoje.
─ Então porque você...? ─ele não precisou terminar a frase, eu havia entendido. Porque eu sai correndo feito uma tapada nas vezes que nós ficamos próximos?
─ Eu só não posso. ─ Falei com olhar baixo me sentindo uma ridícula.
A proximidade em si não era problema, era ótimo estar próxima ao loiro, sentir o toque dele, seu olhar vivo sobre mim.... Mas o que vinha depois me assustava. Distancia era a minha outra opção.
Ficamos mais alguns longos minutos ali olhando para o céu em silencio até Dean se levantar e dizer que iria comer alguma coisa. Nós seguimos com nossa ‘’ amizade’’ como se não tivéssemos tido essa conversa. Agora ele não tentaria mais nada. Bom.
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