Como seria de esperar, a viagem de volta teve contornos um pouco mais macabros que a ida. Em virtude do fuso horário, o Eric teve que fazer a viagem de volta dentro dum caixão. Cheguei à portela como uma viúva a acompanhar o seu defunto marido num caixão estanque. Eu sabia que existiam. Já tinha ouvido falar nestes caixões e até pensava a princípio que todos eles dormiam num. Afinal a maioria dorme como nós em camas e estes contentores servem apenas para as viagens de longa distância. Foi uma viagem aborrecida na companhia de um caixão, com um vampiro adormecido lá dentro. Quando chegamos à portela, ele e a Pam tinham contratado uma empresa especializada que fez o transporte e segurança do caixão deste o Aeroporto até à casa dele. Ainda pensei que seriamos barrados na alfândega e que alguém ia obrigar a abrir o caixão mas entre os direitos dos vampiros, constava a impossibilidade de abrir um caixão em plena luz do dia que transportasse um vampiro lá dentro. Havia claro formalidades e documentos próprios que eram tratados com a devida antecedência para que todo o processo se desenrolasse sem incidentes. Se assim não fosse, já haveria quem se tivesse lembrado de traficar droga em caixões, sendo que assim evitavam a alfândega.

Eu continuava muito confusa e achava que ia levar dias a processar toda a informação que recebi.

No entanto no meio de tantas duvidas, receios e interrogações havia uma ideia que aflorava constantemente á minha mente. A hipótese que nunca seria necessário abdicar da minha humanidade para ficar com ele, caso ele o queira e eu também. Era uma boa sensação. Nunca sequer quis pensar em deixar de ser humana e não havia hipótese de reverter a condição de vampiro para humano. Aliás duvido também que mesmo que fosse possível encontrar uma reversão para isso que ele o quisesse. Se há coisa que os vampiros gostam é de ser vampiro.

E é assim que eu gosto dele, e é assim que ele gosta de mim. Uma humana e um vampiro por mais estranho que isto possa parecer. Foi assim que nos apaixonamos, para que raio um de nós (ou neste caso apenas eu) teríamos que mudar de condição para ficarmos juntos? Já não seria o mesmo! Podia resultar, eu podia nunca ter arrependimentos mas era um sacrifício que eu não concebia na minha cabeça! Condenar-me a uma existência diferente daquilo que sou para ficar com ele? Seria a atitude lógica de quem ama mas eu sou egoísta. Não queria mudar o que sou! É assim tão errado a minha forma de encarar a nossa relação?

Esta nova informação era sem dúvida uma boa novidade. Ainda não era certo que tudo se desenrolasse como o Tomas previa mas ficou acordado à saída que à medida que eu for ingerido mais sangue dele (se o fizer) que envio uma amostra para análise para que ele possa ir avaliando a minha evolução se existir.

Ao voltar a casa e de volta à realidade, o mundo continuava a girar e a minha vida não se cingia apenas ao Eric. Ultimamente era uma grande parte mas havia mais.

Regressei ao trabalho. O meu novo guarda-roupa fez sucesso pelos corredores da empresa.

Pela 1ª vez em quase 2 anos ali uma colega minha, uma das poucas mulheres que também lá trabalham convidou-me para lhe fazer companhia no cafezinho da tarde. Enquanto relaxávamos num momentinho de pausa, a Telma resolveu meter conversa, num tema mais pessoal.

— As férias foram boas? – Perguntou

Nunca tivemos nada em comum e nem uma conversa além do bom dia da praxe.

— Sim, foram. Já havia imenso tempo que não saia do país e foi uma boa pausa no stress. – Respondi-lhe

— Trouxeste imensas roupas novas – continuou ela – Compraste nos States?

— Foi uma prenda do Eric – disse-lhe. Assim como assim já todos tinham ouvido falar dele para que exclui-lo das conversas

— Olha vês, e ainda a malta diz mal dos vampiros! Quem dera que os homens humanos fossem aprendendo umas coisas com eles, como agradar às mulheres por exemplo.

Ela esteve bem e fui obrigada a rir!

Senti-me mais à vontade para continuar a conversa

— Se há coisa em que ele é bom é em saber como me agradar! – Disse eu com alguma malícia, confesso

— Pois acredito! Andas sempre com um bom aspecto nos últimos tempos. Que raios, até os bichinhos gostam e faz bem à pele – disse ela alinhando na piada! — Apesar disso, és capaz de ter passado aqui uns maus bocados com a incompreensão alheia quando se soube.

— Não propriamente. Podia ver a condenação e o medo nos olhos das pessoas mas nunca ninguém me disse nada abertamente o que já é bom! — Respondi

— Como em tudo acho que precisávamos de tempo para aceitar a diferença — disse ela, obviamente incluindo-se no grupo. — Com o tempo tudo passa a fazer menos confusão e afinal hoje em dia os humanos tem uma mente muito mais aberta à diferença que há uns séculos atrás. Se tu e ele são felizes juntos com o que têm, ninguém tem nada a ver com isso, seja novidade, estranho ou o que for!

— Obrigado Telma. Não que precise propriamente de aprovação dos outros para fazer o que eu acho que devo fazer mas é sempre bom contar com a compreensão e a aceitação da sociedade.

— Ora essa, sempre às ordens! – Disse ela rindo-se

Continuamos mais uns minutos em amena cavaqueira com ela a enumerar porque achava que afinal os vampiros eram os amantes perfeitos. Demos umas boas gargalhadas à conta disso!

Nos dias que se seguiram reatei os contactos com os amigos mais chegados. Catarina, Leonor, Pedro, Bruno e era como se o assunto vampiro estivesse definitivamente arrumado nas suas cabeças.

O Eric passou a fazer parte das nossas conversas enquanto meu namorado e não por ser de espécie diferente.

A Catarina andava louca com as minhas roupas novas e tive que lhe emprestar algumas apesar dela vestir 2 números abaixo do meu. Não que eu seja gorda, aliás sempre fui demasiado magra mas ao atingir a casa dos 30 anos ganhei umas gordurinhas aqui e ali que me fez passar a vestir o 38, enquanto a Catarina continuava nuns estrondosos 34!

Fui almoçar com a Leonor, que estava felicíssima porque descobriu que estava grávida outra vez. Ela já tinha um filho com 5 anos e a nova gravidez era um motivo de imensa alegria.

Fiquei feliz por ela. Apesar de eu ter agora 34 anos nunca senti essa coisa do relógio biológico a dar horas. Nunca ambicionei ter filhos. Foi algo que nunca senti necessidade. Depois também as minhas inconstantes relações amorosas nunca me permitiram pensar nesse assunto. Agora nem pensava mesmo em semelhante coisa. ADN’s com mutações, alterações fisiológicas. Mesmo que tivesse vontade e fosse possível, o risco era demasiado grande. Para aberração já basto eu. Perpetuar isso por futuras gerações não me parecia uma opção.

Antes de voltar ao trabalho a Leonor relembrou-me o assunto do SC e Ana.

— Atenção à tua retaguarda. Eles andam a falar muito no mesmo assunto – avisou ela

— Oh que carai…… — de vez em quando sai-me um palavrão ou outro – Serei o único humano envolvido com vampiros? O que não falta para aí são casos como o meu!

— É verdade, ultimamente então, parece que para qualquer lado que nos viramos, alguém anda ou tem sexo com um vampiro. É mesmo a moda da época! – Concordou ela – mas há um motivo para vocês darem tanto nas vistas

— Que é?

— Bom, ele é rico e tu sabes bem que a tua amiga é muito materialista. Ver-te com alguém que aparentemente te pode dar tudo o que ela quer é motivo para te odiar até à morte!

— Quero que ela pegue no seu ódio e se esfregue toda com ele

— O que seria o caso se ela não estivesse agora envolvida com aqueles extremistas. Era capaz de jurar que foi mesmo ela que falou em ti à organização do SC e rapidamente vocês viraram o alvo a abater.

— Eles não podem fazer nada contra ele. Ele mata-os a todos em segundos! – Costumo não falar das capacidades letais do Eric à Leonor mas ela não é nenhuma ignorante e sabe bem do que os vampiros são capazes se provocados. Pode não haver provas mas o facto de que volta e meia desaparece organizações inteiras de tráfico de sangue, misteriosamente a meio da noite leva a qualquer um com dois dedos de testa a compreender quem foram os autores.

— O meu medo é que eles não o ataquem a ele e sim a ti. São extremistas mas não parvos. Entre vocês os dois qual é o mais fácil de matar? E se te matarem atingem-no também! Amiga, és tu que estás em perigo não ele!

Era difícil ter uma vida normal no meio de tamanho reboliço, Mutações, extremistas religiosos, já para não falar do constante fantasma de sermos vítimas de algum ataque da parte dos vampiros. Era como se pintasse um alvo na testa e me pusesse numa carreira de tiro.

- Leonor – disse-lhe após pensar um pouco – Se conto isso ao Eric é bem capaz de me pôr a andar com guarda-costas atrás e a minha vida já é estranha o suficiente. Deixa ver se isso evolui ou se mantém apenas na onda da ameaçazinha. Afinal se estivessem a pensar matar-me amanhã não me andavam a avisar. O terrorismo passa muito por incutir medo nas pessoas para as levar a modificar os seus hábitos. Enquanto eles falarem não deve haver problemas. Quando eles se calarem é que é melhor meter as barbas de molho.

És capaz de ter razão — disse ela – Talvez esteja só a tentar meter-te medo para acabar com a vossa relação. O problema virá quando ela perceber que tu não cedes. Serão capazes de cumprir as ameaças?

— Tu achas que ela é capaz de matar-me? — Que diabo, afinal sempre fomos amigas uma serie de anos.

— Não sei. Às vezes acho que não mas, outras vezes penso como ela é influenciável e como muda de convicções conforme as pessoas com quem se dá. Junta-lhe a isso um ódio imenso por ela pensar que tens a vida que lhe estava destinada para teres todos os motivos e mais alguns para olhar por cima do ombro de vez em quando.

Notas finais
Os inimigos aproximam-se!!