Na segunda-feira, volto para a cidade a procura de lugar para dar as aulas, encontro uma pequena sala, vou a procura do dono para mim poder alugar.

Vejo um cartaz colado à parede, nele dizia que o dono do estabelecimento era o dono da farmácia, fui até lá.

_Em que posso ajudar?

_Gostaria de falar com o dono da farmácia!

_Um momento!

Logo aparece o dono:

_Sim?

_Eu gostaria de alugar a sala ao lado da mercearia! Quero dar aulas de pintura para ajudar a Senhora Dora nas despesas!

_A Senhora Dora é boa gente, então se você está lá com ela, podemos conversar sobre o assunto!

_Claro! Dora diz que não é preciso eu fazer isso, que pode cuidar de nós três com o que ganha dos chás. Nós três, porque minha filha também está lá! –respondo ao perceber o olhar incrédulo que ele me lançou. _E descobri que adoro pintar, comecei a pouco, mas sem modéstia, pinto bem!

_Podemos conversar sobre o aluguel, contrato e tudo mais, em outro dia? É que a farmácia sempre enche a essa hora! – ele olha para o relógio. _Os chás e ervas de Dora fazem sucesso por aqui!

_Sim, pode dizer quando que estarei aqui!

_Quarta-feira está bom?

_Ótimo!

Antes de voltar para casa e contar a novidade apara Dora, ocupo o orelhão da frente da farmácia e ligo para o hospital para ter noticias de minha irmã.

Mas a recepcionista diz que ela continua no mesmo estado de antes e que a mãe dela não saia de perto, que Bruno continuava a ir visitá-la sempre.

_Parabéns querida, você vai fazer o que gosta ensinar pintura, professora Sofia! –Dora se empolga.

_É! E Marina?

_Está lá em cima dormindo!

_Bom, vou aproveitar para guardar essas coisas todas!

Algo lá fora chama nossa atenção, pessoas falavam alto e havia barulho de carro, o lugar era sempre calmo, fomos lá ver, antes que acordassem Marina:

_Ah oi, estávamos mesmo procurando por vocês, sabem quem são os donos desses terrenos?

_Moram na cidade, nunca vêem aqui!

_Ai, vamos ter que voltar? É que achamos esse lugar tão bonito que quero construir uma casa de campo aqui para passarmos os fins de semana!

_Ah! Esse lugar é realmente lindo, mas como já disse, os donos moram na cidade, vão ter que voltar!

_Obrigada, desculpe, nem nos apresentamos. Sou Litielle, e esse é meu marido Marcos!

_Prazer, sou Dora e essa é Sofia!

_Oi! Bom! Vamos ter que voltar então, até depois!

_Até!

Ao entrar em casa Dora vai ver as panelas:

_Será que vão mesmo vir morar aqui?

_Não sei, não gostou deles?

_Fazem muito barulho, vão espantar os passarinhos!

_E acordar Marina, você sabe como ela fica irritada quando o soninho é interrompido!

_Fica manhosa! Bom, está quase na hora dela acordar, vou preparar a papinha!

Um tempo depois o barulho volta, e Marina acorda, subo para acalma:

_Calma bebê a mamãe está aqui!

_Mamãe!

_Falou as primeiras palavras!

Descemos para contar a Dora o primeiro prodígio dela, mas Dora está lá fora conversando com Litielle e o marido:

_Oh, a pequena acordou! –Dora passa a mão em seu cabelinho desarrumado.

_Quem é esse bebê fofo! –pede Litielle.

_Minha filha, Marina!

_Mamãe! –ela me abraça, colocando a cabecinha no meu ombro ameaçando dormir novamente.

_Ela falou a primeira palavra, e chamou você!

Ficamos bajulando Marina, enquanto Marcos e o dono do terreno conversavam Dora a convida para tomar um chá, entramos, Marina dormiu de novo.

_Não vai acordá-la para comer a papinha?

_Ela acordou irritada, vou deixá-la dormir mais um pouco!

Algum tempo mais tarde, começou a construção da casa vizinha, ao lado da nossa, e como Dora falou, com o tempo, alguns passarinhos começaram a ir embora, e ela, adoecendo.

Dora nunca foi de ficar doente, fiz os chás que ela me pediu para tomar, mas nada adiantava. Fazia seis meses que estávamos ali.

Meu ateliê de pintura estava quase pronto, faltavam algumas coisas pequenas, no mês que vem, eu já poderia começar as inscrições dos alunos.

Mas Dora não poderia adoecer, não agora, como seria a minha vida e a da Marina se ela não estivesse aqui? Quem iria me ajudar a dar amor e carinho a minha filha?

Eu já tinha pedido varias vezes que Dora fosse ao médico, mas ela negou agora ela teria de ir:

_Não preciso de médico criança, é só um pouco de febre e gripe, passa logo!

_Você falou a mesma coisa mês passado, e não passou, temos que ir ao médico, não quero que fique doente, quem que vai cuidar de mim?

_Vou melhorar, não se preocupe!

Uma batida na porta interrompe a conversa, vou abrir, é a vizinha:

_Oi querida, vocês tem uma mangueira para emprestar, a nossa furou e estamos precisando de água lá trás!

_Sim, deve estar ali na horta, pode ir pegar!

_Obrigado, já venho devolver!

Pela tarde vou até o ateliê, levo Marina comigo para ela passear um pouco. Ela vai fazer aniversário na semana que vem Dora já falou que prepara o bolo, eu vou comprar alguns pasteizinhos.

Os vizinhos também foram convidados, já que vão ir morar lá na mesma semana. Na verdade, quem vai morar lá, é o filho do casal, Litielle e Marcos só vêem pra cá, nos fins de semana.

O garoto nem apareceu ainda para ver a casa e o lugar, não parece muito interessado na construção, parece que ele é artista plástico, um concorrente no mercado.

Voltamos e os vizinhos estão lá em casa tomando chá e conversando com Dora:

_Vocês voltaram, querem lanchar?

_Sim, só vou trocar a fralda da Marina!

Descemos e lanchamos, vamos todos para o jardim aproveitar o lindo fim do dia, uma por do sol maravilhoso, Dora me ensinou a apreciar as coisas da natureza, desde uma simples flor, até um por do sol maravilhoso.

Na hora de dormir, coloco a já adormecida Marina no bersinho, olho pela janela e saio na varanda, é noite de lua, que ilumina tudo, penso em minha irmã, todas as semanas ligo para o hospital para saber notícias suas, mas ela continua na mesma.

Volto para dentro e me apoio no berço para ver Marina dormir, ela está crescendo e cada vez ficando mais parecida comigo, por incrível que pareça, ela não parece com a Carla, nem com o Bruno, mas sim comigo!

Carla está perdendo todo o crescimento da filha, as primeiras palavras, os primeiros passinhos... Tudo, mas não é culpa dela. E minha mãe ainda quer a fazer ficar longe da filha, depois que ela melhorar.

E esse é um dos motivos que sempre ligo para saber como minha irmã está assim, quando ela melhorar, vou voltar e lhe entregar a filha. Vai ser difícil para mim, já me apeguei tanto a Marina e ela chama a mim de mãe.

Sei que Marina também vai sentir a minha falta, mas Carla vai querer a filha perto dela, já que está a tanto tempo longe, sei que Bruno também deve estar com saudade da filha.

Espero que minha mãe não faça mal algum a essa criança, ou eu desmorono, não acredito ainda que ela fosse capaz de negar a própria neta, Carla ama essa criança, e como minha mãe ama Carla, era de se esperar que amasse a neta também!

Vou para minha cama:

_Não! Ela não é mais minha mãe, para mim agora, é apenas a mãe da minha amiga, Senhora Mariana Martins!

Repito isso para mim mesma diversas vezes, sei que continuo usando o sobrenome Martins, mas não quer dizer que sou parente, até por que, quero esquecer qualquer parentesco com aquela mulher!

Adormeço pensando nisso.