Mutação Oculta
5 Capítulo 5
Ao longo dos últimos anos ouvi falar muito sobre as sensações que causa ao ser humano o sangue de vampiro. Há quem alucine, há quem reveja o passado, há quem fale que conseguiu prever o futuro. Volta e meia alguém morre sobre o efeito da droga, ou porque teve um colapso originado por visões maléficas ou porque se acharam capazes de voar. Enquanto pensava que ingerir sangue de vampiro talvez não tenha sido uma ideia muito inteligente, comecei a aperceber-me que nada disso parecia estar a acontecer comigo. Reparei que conseguia ver partículas minúsculas e que ouvia com facilidade as conversas das pessoas que passavam na rua. Provei o ar e conseguia sentir sabores no mesmo. Todos os meus sentidos pareciam estar mais aguçados mas fora isso, nada de muito extraordinário aconteceu. Não vi anjinhos, nem demónios. O Eric tinha saído, talvez para tratar de alguns preparativos que eu preferia não saber. Era hora de fazer o que havia a ser feito. Saí do Fangtasia e após ligar o carro, dirigi-me ao local que o Eric me tinha informado. O Transito parecia-me lento e conseguia fazer manobras de direcção quase sem olhar. Sabia onde estavam os carros e a que velocidade vinham. Em pouco tempo estava à porta do apartamento, num prédio degradado, numa rua ainda mais degradada. Nunca fiz semelhante coisa. Aliás tirando uns cigarros e uns copos de bebida alcoólica o meu corpo desconhecia outras drogas. Nem haxixe ou marijuana sequer tinha experimentado. Não era portanto a pessoa indicada para parecer viciada, pois nem sabia muito bem como haveria de começar a conversa. Bati à porta. Um tipo com mau ar abriu. Tinha um olhar esgazeado como se não me conseguisse ver muito bem. — Disseram-me que aqui conseguiria comprar aquilo que pretendo! – Disse como teste.. — Depende do que queres! – Vociferou o tipo. — Posso entrar? Não quero correr risco de alguém ouvir, percebes? O tipo olhou-me com mais atenção, talvez para perceber se eu falava a sério, talvez para perceber se eu era um agente de autoridade e após um minuto, abriu a porta o suficiente para que eu pudesse entrar. O espaço, um T2 antigo estava imundo, havia apenas uns sofás velhos e rotos na sala. A cozinha tinha um amontoado de lixo, comida a apodrecer. Ouvia-se várias vozes nos quartos. Contei pelo menos 6 diferentes. Um outro homem aproximou-se de mim. Pelo aspecto percebi que devia ser o João. — Quem te deu esta morada? – rosnou-me.. — Perguntei por aí pelo bairro, acabaram por meu dizer que aqui tinham aquilo que eu preciso! Pensei que a palavra PRECISO ia dar mais ênfase ao meu suposto vício. O João parecia não estar muito convencido e resolveu aproximar-se para me revistar. Deixei. Tinha que alinhar se queria ter uma hipótese. Com as suas mãos sujas apalpou o meu corpo de alto a baixo inclusive em zonas onde eu não poderia ter qualquer arma ou microfone. O tipo que me abriu a porta, revistou-me a mala. Viu o meu BI e encontrou os meus cartões-de-visita. Leu a minha profissão. — João temos aqui um quadro superior!! – disse com ar de gozo O João pareceu gostar da informação mas não perdeu a oportunidade de tirar mais uma lasquinha. — Levanta a blusa! — Para? — Quero ver se não trazes algum microfone escondido! — Claro que não, não sou agente de autoridade! – Levantei a blusa e expus o meu soutien a ele. Aproximou-se e afastou-o dos meus seios para confirmar se nada estava escondido debaixo e também para admirar o conteúdo. Eu estaria completamente aterrorizada e enojada com toda a situação. Normalmente estaria. Mas sentia-me desafiadora, como se fosse capaz de qualquer coisa para levar a cabo a minha missão. Finalmente com um sorriso o João largou-me. — Tens dinheiro? – Perguntou-me — Claro! Tens aquilo que eu preciso? Ele aproximou-se de mim e viu os meus olhos com atenção. As minhas pupilas estavam para lá de dilatadas. Um dos efeitos do sangue. — 120 euros a dose! Abri a carteira, tirei o dinheiro e dei-lhe. — Cat, traz aí uma dose! — Gritou ele para o fundo da casa Quase que respirei fundo. A Catarina estava lá e estava viva. Um trapo humano apareceu tremendo com um frasquinho como os das amostras de perfume com sangue lá dentro. Estava suja, as roupas rasgadas e tinha vários hematomas pelo corpo e cara. Quando ela olhou para mim, eu vi que ela me reconheceu mas disfarçou. Mesmo sob o efeito da droga era perceptível que ela não estava ali de livre vontade. Tinha sido espancada e aterrorizada. Precisava arranjar um motivo para ficar, para conseguir fugir com ela dali. Eram 1:50 e dali a 10 minutos era tarde demais para ela e para mim. Arrisquei… — A vossa amiga é muito bonita! Será que não está também à venda? Os dois homens sorriram imediatamente. O que será que há com os homens e as lésbicas?? — Não! À venda não está! – Respondeu o João com ar de gozo — Nem alugar o seu tempo? – Perguntei desafiadora — Uhmm, talvez! – O João estava a pensar num cenário que o satisfizesse — Se pudermos ver… — Típico! — Se me deixarem primeiro aquece-la a sós e depois podem entrar e assistir! – Propus a esticar a corda, o mais que podia — Ela não parece muito bem, nem muito alerta! Dez minutos a sós, só para a deixar mais animadinha e depois juntam-se a nós, o que dizem? Tenho um amigo que sempre me diz que os homens são básicos. Há sempre uma altura em que pensam com a parte inferior do corpo e não com a superior. Estava a jogar tudo nisso! Como o João parecia ainda não estar no ponto aproximei-me dele e passei a minha língua pelos seus lábios. O seu cheiro era nauseabundo e precisei de toda a minha força para mostrar-lhe um sorriso maroto, de quem está desejosa de ser possuída à bruta ali e agora! Não sei se foi o sangue que me tornou mais apetecível, se o teria conseguido de qualquer forma o que é certo é que o outro homem que entretanto admirava a cena, gritou um ‘’Eh lá, temos fera!’’ e o João caiu de vez na armadilha. Uma coisa tenho a certeza, toda esta lata e auto-confiança não é coisa que tenha num dia normal. Durante toda a minha ‘’negociação’’ com o João, a Catarina manteve-se calada e cabisbaixa, quase parecendo não ter forças para se manter em pé. Sei que ela estava a ouvir-me e que de alguma forma parecia estar colaborante, pois pelo menos não me entregou. O João mostrou um sorriso imensamente amarelo e com dentes estragados e disse com ar triunfante: — Amadeu, vamos dar 10 minutos às miúdas e vamos à cozinha beber qualquer coisa. A noite vai ser óptima. Cat, trata bem a nossa convidada e não quero recusas, ouviste? A Catarina manteve-se imóvel e calada. Quando os vi afastar-se, aproximei-me rapidamente dela, encenando um abraço e disse-lhe ao ouvido: Vamos sair daqui, Já! Ela respondeu-me sem forças: Não posso, ele irá atrás de mim e mata-me! Então era isso que a mantinha ali. Estava sob coacção de ameaça de morte. Fingindo beija-la, disse-lhe: Não te preocupes, ele não poderá fazer mais nada depois desta noite! E com uma força que não sei onde arranjei peguei nela ao ombro, abri a porta e fugi pelo corredor e escadas abaixo, estava em cima das 2 da manhã e estava com medo de não conseguir chegar à rua. Ouvia o João e o Amadeu a gritar furiosos no apartamento, um sem número de outras vozes em súbita alerta e a começarem a perseguir-nos quando uma força descomunal me fez cair pelos degraus abaixo, com a Catarina a cair por cima de mim. Lutando para me levantar, fui obrigada a tapar os ouvidos com o barulho da explosão. O apartamento tinha desaparecido e provavelmente também o piso inteiro. A ideia que poderia haver vitimas inocentes a viver naquele piso ocorreu-me mas era tarde para o que quer que fosse. A Catarina estava ferida na cabeça, talvez causado por algo que a atingiu na onda de choque. Estava consciente mas a sangrar. Sem saber se o João e restantes estavam mortos ou não e se ainda estariam em condições de nos perseguir, peguei na Catarina e sai do prédio. O piso do João estava completamente destruído e começava a ver-se pessoas que vinham às janelas e portas de prédios próximos para ver o que tinha acontecido. Rapidamente tirei a Catarina dali para não sermos reconhecidas e assim que rodei a chave do carro, acelerei pela avenida o mais que pude. Durante mais de dez quilómetros km guiei furiosamente pelo meio do trânsito sem dizermos nada uma à outra, até que a Catarina falou: — Não sei o que se passou, como me descobriste, porque me foste salvar e principalmente como se deu aquela explosão mas vou ser-te grata pelo resto da minha vida e prometo-te nunca mais me envolver numa situação semelhante. Sorri para ela. — Amiga, o que interessa é que estás bem. Vamos tratar desses ferimentos físicos e também psicológicos. O teu pai vai ficar tão feliz quando te ver. — O meu pai, meu pobre pai, pensei tanto nele mas não podia sair. O João ameaçou matar-me e à minha família! – as lágrimas começaram a correr-lhe pela cara abaixo — Não te preocupes, o João não fará mal a mais ninguém. Não quero que penses mais nele, nem no que ele te fez passar. Vamos tratar de ti e quero a minha Catarina optimista e feliz de volta, ouviste? — Prometo-te minha amiga, prometo-te! Levei-a a casa. Os pais receberam-na emocionados. Sem dar grandes detalhes sobre a forma como a descobri e como a trouxe de volta despedi-me. Nada melhor para sarar as feridas físicas e emocionais do que ficar com quem nos ama. Quando ia a sair da casa dela, o Mário agarrou-me um braço e implorou: — Como a descobriu, Alexandra? — Tive uma ajuda de um vampiro! Disse-lhe meio a sorrir — Quero compensa-la a si e a esse vampiro. Como se chama ele? — Eric Northman, é o dono do Fangtasia. Quanto a mim não quero nada. Não o fiz para receber qualquer compensação Mário. Prometa-me apenas que trata dela, a leva a fazer uma desintoxicação, que a leva a uma terapia para que ela possa lidar com todos os horrores porque passou e isso será paga suficiente para mim. O Mário sorriu — Você é uma boa mulher ! — Não sou assim tão boa! — Disse-lhe na brincadeira.
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