As nossas feridas sararam e a Elena deu por terminada a audiência. Eu lutava para me conseguir habituar ao frio que sentia. Não estava gelada e o meu coração batia mas tinha a certeza que a minha temperatura corporal tinha descido alguns graus. Os sentidos estavam ainda mais apurados. Conseguia sentir as moléculas de ar a tocarem a minha pele. Sabia onde estavam todos, sentia-lhes o cheiro, o movimento que provocavam no ar ao se deslocarem.

A Elena aproximou-se de mim. Com os seus olhos brancos estudou-me.

— Continuas humana mas sentes como nós, não é verdade?

— Acho que sim – respondi-lhe – Tenho dificuldade de gerir tanta sensação ao mesmo tempo.

— Tens sede?

— Não, tenho fome.

— O que te apetece comer?

Percebi o sentido da pergunta.

— Comida. Não me apetece sangue. De verdade acho que conseguiria sobreviver de sangue se fosse necessário mas não sinto nenhuma compulsão por bebe-lo. Já um bom bife com batatas fritas ia mesmo a calhar.

A Elena riu o que foi uma surpresa.

— Ainda bem — disse-me – não sabia como irias ficar depois desta troca sanguínea mas o meu palpite era este. Que serias em tudo vampira menos na alimentação e provavelmente também não sentirás a fotosensibilidade como nós. Pelo que o Tomas explicou, o teu ser escolhe o que lhe interessa e rejeita os nossos defeitos.

— Porque me obrigou a esta troca sanguínea?

— Bom, agora não poderás dizer que és na realidade humana. Agora és mesmo outra coisa qualquer, uma criatura entre dois mundos e tens mais em comum connosco do que com os humanos. Parece-me uma forma racional de te controlar sem anular aquilo que és, já que ao que parece temos muito ainda que aprender contigo.

Era realmente lógico, se bem que eu não já não podia dizer antes disso que era uma humana normal mas não era hora de entrar em discussões sem sentido. Estava feito. O Eric estava vivo, eu estava viva, o meu coração batia, tudo o resto são questões menores às quais me hei-de adaptar. Além disso, o Tomas tinha-me dito que as alterações serão sempre reversíveis se ficar privada de sangue, informação que ele não partilhou com a autoridade e eu também não o iria fazer.

Olhei em volta e a Ana tinha desaparecido, bem como o James.

— Onde está ela? E o James?

A Elena sorriu e disse:

— Nós não aceitamos que se acuse em vão! Todos sabem as consequências de acusar um de nós. Se não ganhar a causa……

Entendi.

— E a Ana?

— Não há testemunhas! Aprende isso daqui em diante pelo resto da tua existência!

Eu já calculava isso mesmo antes de saber que eu iria sobreviver a esta noite. Quem perde, morre. Humanos não testemunham em tribunais de vampiros e sobrevivem para contar a história. Tirando eu, mas eu não era humana. Era, como ela disse, outra coisa, uma criatura entre dois mundos!