O boato correu como pólvora. Nas semanas seguintes senti-me a repetir o mesmo discurso vezes e vezes sem conta. Acho que podia ter feito uma gravação e coloca-la em Play assim que alguém me falava no assunto. Parecia que era a única humana envolvida com um vampiro, como se isso fosse assim tão raro. Pensei que eventualmente a novidade havia de passar mas não estava fácil. No trabalho olhavam para mim pelas esquinas. Quando eu passava ou me cruzava com alguém nos elevadores, via que olhavam para o meu pescoço à procura de marcas de dentadas.

O Eric mordia-me sim, sempre que fazíamos sexo mas a sua saliva coagulante sarava a ferida e não deixava marca de modo que não havia nada que as pessoas pudessem ver.

Cheguei a pensar que ia ter problemas sérios no trabalho, que perderia clientes e quem sabe até o emprego pela minha relação pública com um vampiro. No entanto apesar da crítica e do julgamento aparente, não parecia que deixasse de ter trabalho por causa disso. Afinal há esperança entre os humanos. Podem não concordar com quem eu me envolvo mas não baralham trabalho com conhaque. Pelo menos a grande maioria.

Não me restava outra hipótese senão esperar que a novidade deixasse de ser novidade e as pessoas se habituassem à ideia.

Até lá, passei a ver muitas pessoas conhecidas no Fangtasia. Era obvio que iam lá para ver o vampiro com quem eu me tinha envolvido. Sentia que eu e o Eric éramos uma espécie de animais enjaulados no jardim zoológico para turista ver. Cheguei a pensar qual seria o dia em que nos atirariam amendoins!

Cada um parecia ter a sua opinião sobre a minha vida e não tinham problemas em partilhar a sua opinião comigo, apesar de eu não estar minimamente interessada nisso.

No entanto, apesar de tudo parecia que a maioria das pessoas estavam apenas curiosas e que após o choque da novidade pareciam aceitar que a minha vida só a mim diz respeito e que os vampiros estavam entre nós e que tínhamos que aprender a viver em conjunto. Predador e presa numa estranha convivência.

Uma noite o Eric perguntou-me se eu estava a ter problemas por causa da nossa relação

— Bom — disse-lhe — não tem sido fácil mas nunca fui pessoa de condicionar a minha vida pelas opiniões dos outros. Ninguém tem que gostar ou não gostar. Às vezes cansa-me tanta pergunta e opinião não solicitada mas hei-de sobreviver, como sempre.

O Eric sorriu para mim. O seu olhar parecia cheio de admiração, ou era eu que queria ver isso nele.

— Esquece isso. Conta-me coisas da tua vida. Gostava de saber o que andaste a fazer no último milénio.

Estávamos na minha casa. Para desanuviar dos últimos dias tinha resolvido fazer-lhe uma surpresa. Mandei transformar um dos quartos da minha casa para ser completamente estanque à luz. Assim se ele quisesse podia ficar comigo e não ter que sair sempre antes do sol nascer.

Sem saber se ele ia gostar ou pensar que eu estava a querer um compromisso mais serio, arrisquei a surpresa. Ele admirou as obras no quarto sem dizer uma palavra, examinou os fortes estores colocados por dentro dos vidros e a forra na porta para evitar que o resto da luz da casa penetrasse pelas frinchas. No fim, num movimento rápido, pegou-me ao colo e espetou comigo na cama. Estava com um ar muito divertido e disse-me:

— Estás a pensar em aprisionar-me aqui e manter-me como teu escravo sexual?

— Dá-me ideias, dá!

— Coração, podes usar-me como escravo sexual sempre que quiseres — e resolveu demonstrar em géneros quanto estava agradecido pela surpresa.

Estávamos agora ali deitados, completamente em estado de êxtase e ele riu-se quando lhe pedi para contar a sua vida

— Coração, contar-te um milénio de vida é capaz de levar algumas centenas de anos!

— Oh, faz um resumo de 5 minutos! — Disse-lhe no gozo

Ele continuou a rir mas após pensar um pouco lá começou. Contou-me que tinha nascido cerca de 850 anos depois de Cristo, na zona que agora compreende a Noruega e a Dinamarca. O seu pai era um rei viking e ele um príncipe. Foi transformado com 23 anos após uma batalha em que ficou gravemente ferido.

— Só tens 23 anos?? – Interrompi

— Não! Tenho cerca de 1130 e qualquer coisa.

— Não é isso! Foste transformado com 23 anos mas pareces ter a minha idade!

— Os tempos eram outros, as vidas eram mais difíceis e a nossa expectativa de vida muito mais curta. Eu com 23 anos estava já em decadência! – disse ele sorrindo — As pessoas viviam com sorte até aos 50 anos, sendo que a maioria morria na casa dos 30. Não havia cura para doenças tão simples como uma constipação e as mortes em batalhas eram frequentes.

— Sim, eu sei disso, não sou uma completa naba em história! No entanto sempre assumi que parecias ter a minha idade e agora fiquei surpresa.

— Eu com 23 anos, já tinha sido casado por duas vezes e já tinha enterrado duas esposas.

— Mataste-as?

— Não! – Riu-se – A primeira morreu com uma simples gripe e a segunda de parto juntamente com a criança

— Nunca tiveste filhos?

— Não e talvez por isso foi fácil adaptar-me a esta outra condição. Não deixava propriamente nada para trás.

— Eras feliz como humano?

— Eram tempos diferentes. A felicidade não era vista e valorizada como agora. As vidas eram curtas e difíceis. As guerras duravam décadas. Acho que só o facto de estarmos vivos já era motivo de felicidade, não dávamos importância a algum tipo de valorização pessoal. Havia trabalho para fazer e fazia-se. Não contestávamos o nosso destino. O meu pai ordenava-me que eu fosse para a guerra, conquistar novos territórios e eu ia, sem nunca por em causa se o queria ou não fazer.

— Os Vikings foram guerreiros famosos – disse

— Sim, éramos mais fortes que as outras raças e conquistávamos com facilidade territórios. Pilhávamos aldeias, matávamos os homens e violávamos as mulheres! – Disse ele sorrindo

Quando eu não comentei nada ele perguntou

— Incomodou-te?

— Não, disse-lhe. Não podes ser julgado agora pelo que fazias naquela altura. Os costumes são outros e os códigos de moral e conduta são outros. Aquilo que era normal naquele tempo é agora inaceitável. Acontece que ninguém vive o suficiente para ser julgado pelas atrocidades de outro tempo, excepto vocês, vampiros. Se houvesse humanos vivos do tempo da inquisição seriam provavelmente condenados em Haia por crimes contra a humanidade. Por isso, não, não me incomoda. Tu agias segundo aquilo que era a normalidade do teu tempo.

— Não podes ser humana! Quase que gritou comigo. – És demasiado racional e pragmática.

— Garanto-te que não há nada de sobrenatural em mim.

— Às vezes duvido disso!

— Continua a tua história — disse-lhe…

Contou-me então que o seu criador tinha sido uma mulher que o encontrou gravemente ferido no campo de batalha. Provavelmente terá gostado do seu aspecto e resolveu resgata-lo duma morte certa. Após ter sido transformado ficaram juntos umas décadas, enquanto ela lhe ensinou como havia de viver e sobreviver à nova condição.

— Ela ainda é viva? Ou melhor…ainda existe entre nós?

— Não, ela foi capturada cerca de meio século depois, por um grupo de religiosos que terminaram com a existência dela.

— Gostavas dela?

— Sim, muito. Era uma vampira muito bonita e extremamente forte. Ensinou-me muita coisa e fomos amantes quase exclusivos durante muitos anos.

— Quase exclusivos?

— Bom, nós não temos a mesma moral que vocês e nem entendemos as nossas relações como vocês. Essa treta da monogamia é uma característica apenas humana.

— Os humanos não são monógamos – disse-lhe

— Como é isso? – Perguntou ele surpreso

— Nós não somos monógamos! Não naturalmente! Isto é, na maioria das relações há uma fase em que realmente só apetece ter sexo com aquela pessoa e somos monógamos facilmente pois estamos tão apaixonados que todas as outras pessoas são desinteressantes. No entanto com a continuação da relação e a monotonia e o dia-a-dia a monogamia é imposta por conduta social. Tenho a certeza que não há um humano ou humana que pelo menos nunca tenha fantasiado com outra pessoa ou situação. O que nos impede de fazer é a conduta moral do sociavelmente aceitável. Não está intrínseco à nossa condição de humano, não é que não sejamos capazes de desejar outros. Somos e desejamos, só não o fazemos!

— Raios!!! Tu tens a certeza que nasceste mulher? Perguntou ele rindo

— Achas que eu sou um gajo que mudei de sexo? – Perguntei estupefacta

— Não, estava a entrar contigo. Consigo sentir as tuas hormonas femininas no teu sangue mas tens uma atitude tão diferente das outras mulheres humanas que…

— Pensava que não te relacionavas com humanas!

— Assim, desta forma como contigo, não! Mas não achas que só fodi vampiras nos últimos 1000 anos pois não?

Não, não achava!

— Tive com muitas mulheres, a maioria delas apenas uma noite. Algumas tiveram a sorte de me ter outras vezes mas nenhuma humana esteve comigo da forma que tu estás. No entanto as humanas assim que estão com um homem, ou alguém que elas pensam que é um homem, começam logo a fantasiar com casamentos e filhos e exclusividade absoluta e aí estás tu, na maior a aceitar a forma como nós entendemos o sexo e as relações sem sequer ter um ataque de ciúmes ou a perguntar-me se ainda penso assim, se ando com outras. Tens que concordar que às vezes fico surpreendido e eu pensava que já nada me surpreenderia.

— Tu não andas com outras!

— Como podes ter a certeza? – Disse ele provocadoramente

— Nunca te disse mas não és só tu que consegues sentir-me. Desde o ataque que eu consigo sentir os teus sentimentos também!

— Isso não é possível! Disse ele e ficando automaticamente sentado na cama.

— Garanto-te que é possível. Logo não entendi muito bem o que sentia mas com o tempo comecei a aperceber-me que sabia quando tu acordavas, o que estavas a sentir, se estás irritado, entediado ou com vontade de vir ter comigo. Sei sempre onde estás. Não exactamente a morada exacta mas a orientação. Sou como uma bússola que aponta sempre na tua direcção. Sei sempre quando vais aparecer, de que direcção vens e qual o teu estado de espírito.

O Eric estava sem palavras e deixar um vampiro nesse estado não é fácil.

— Estou a tentar pensar se alguma vez ouvi algo do género mas tenho a certeza que não. Só nós podemos sentir os humanos, não o contrario.

— Bom, esta humana pelo menos consegue sentir-te!

O Eric estava completamente à nora. Acho que nunca o tinha visto com um ar realmente confuso.

— Começo a duvidar se tu sentes-me porque eu te dei sangue pela segunda vez ou se foi porque eu bebi sangue teu nessa noite. Mas tu és apenas humana! O teu sangue não pode ter nenhuma propriedade especial que faça tu teres essa capacidade mas é a única explicação que encontro. Só se…

— Só se?

— Só se quando bebeste o meu sangue ganhaste algumas das minha capacidades também. Nunca me disseste o que sentiste. Além dos sonhos e do desejo que mais sentiste ou viste?

- Não vi nada, nem senti nada. – Ele voltou a deitar-se e eu deitei-me por cima dele, com o queixo apoiado no peito dele – comecei a ver melhor, a ouvir melhor, a sentir o gosto do ar. Daí para cá, fiquei mais forte, mais rápida, canso-me menos, conduzo muito melhor, leio um livro de 500 páginas em dois dias mas não posso dizer que tenha sentido algo como euforia ou sequer me tenha sentido sobre a influência duma droga.

— E dizias tu que eras uma humana normalíssima! – Disse rindo e aparentemente menos preocupado com o assunto

— Eric, não sei porque é assim, estou apenas a dizer-te que é, por isso como eu sinto-te também, se fizeres sexo com outra pessoa tenho a certeza que serei capaz de sentir. Além disso….E calei-me

— Além disso? Perguntou ele

— Além disso eu sei que gostas de mim. Não sabes bem quanto, nem o que lhe chamar mas eu sei que gostas.

Ele ficou pensativo e depois disse muito calmo

— Nunca escondi que gostava de ti!

— Não disse que o escondias. Disse que sei que gostas e sei que não sabes ainda bem como reagir a isso.

— Deixa-te triste?

— Não. — E não deixava mesmo. Eu sei que ele gosta de mim e até sinto o quanto. Ele não está habituado a isso, que raios são séculos de existência sem sentimentos deste género, até um vampiro precisa de tempo para se adaptar.

— Amas-me? – Perguntou ele

— Já tivemos esta conversa. Quando souberes o que sentes por mim eu respondo-te a essa pergunta

— Amas-me! – Afirmou ele

— Não sejas impaciente. Fica-te mal. És um vampiro que raio!

E rimos que nem perdidos!

Ele continuou então a sua história. Após ter ficado sozinho sem a sua criadora, deambulou séculos pela Europa, esteve com grupos de vampiros locais em quase todos os países do norte da Europa. Caçavam e mudavam de local constantemente para evitar serem descobertos.

— Até quando mataste para te alimentar?

— Até aproximadamente ao século XVII quando acertamos as regras que te contei na outra noite.

— Mas não precisavas de matar, pois não?

— Não mas sou um predador e gosto de matar para me alimentar. Não preciso, mas gosto. O prazer da caça é como uma adrenalina. Alimentar sem matar é um tédio! No entanto se há uma característica em que somos bons é em adaptar-nos para sobreviver e se era necessário não matar, não matamos! Ao fim de uns tempos passou a ser mais fácil e há sempre uma luta ou um ataque que serve de consolo a toda esta existência como um predador com moral!

— Se te serve de consolo eu ainda te vejo com um predador implacável – e voltamos a rir

Após terem sido decretadas as regras às quais todos os vampiros deviam respeitar para manter a sua sobrevivência e existência, foi definido áreas controladas por alguns vampiros para manter a ordem. Foi nessa altura que o Eric veio para Portugal. Foi uma difícil adaptação ao clima e à excessiva luminosidade diária que torna as noites demasiado pequenas mas ele é forte e conseguiu controlar bem a sua área, sendo agora o responsável por toda a península ibérica.

— Vocês vivem mesmo indefinidamente? Qual é o vampiro mais antigo que existe?

— Não há bem isso de imortal para sempre – Disse ele — Há sempre problemas, enredos, intrigas, vampiros mais novos que pretendem poder. Um dos motivos pelos quais nos escondemos desde sempre e nunca exercemos o nosso poder sobre os humanos é que sempre fomos muito individualistas e pouco organizados. È cada vampiro por si. Os nossos maiores inimigos sempre fomos nós mesmos!

— Mas os vampiros mais antigos são mais poderosos, certo?

— Certo mas até um vampiro mais antigo pode cair numa armadilha. De modo que não há muitos vampiros mais velhos que eu. Somos um grupo de 20 na Europa e outros 20 na América do Norte. Somos os responsáveis por manter os mais novos em ordem principalmente agora que somos públicos.

— Europa e América do norte? Não há vampiros nas outras partes do mundo? – Perguntei

— Dificilmente. Poderá haver alguns nómadas, sem ligações a nada nem ninguém que deambulem por aí mas a vida não é fácil para um vampiro em certas partes do mundo. A África tem muitas horas de sol e as pessoas são sub-nutridas. No médio oriente a religião islâmica não aceitou minimamente a revelação da nossa existência e sabemos que os poucos que havia foram caçados e mortos. A Ásia é super lotada e não permite uma existência mais discreta. Afinal estamos por aí mas continuamos a gostar de manter algum mistério à nossa volta.

— Então, vocês, os manda-chuvas, esse grupo de 40, estão sempre em constante perigo?

— Sim e de vez em quando um ou outro tem que ser substituído porque foi morto por algum mais novo para ficar-lhe com o território.

— E isso é assim? Mata e sai impune?

— Não mas há formas de fazer as coisas. Alegar legitima defesa, apresentar testemunhas ao tribunal. Sabemos que não foi bem assim mas não há provas em contrário e a ordem precisa de ser mantida. Alias sabes a máxima, mantém os teus amigos perto e os teus inimigos mais perto ainda?

— Isso significa que tu estás constantemente em perigo também. Como fazes para te proteger?

— Não confio em ninguém, excepto na Pam e em ti, claro. E tenho os meus próprios espiões, muito bem remunerados para que esteja sempre um passo à frente dos meus inimigos.

Fiquei a pensar no que ele me contou e o que a Pam já me tinha dito

— Eu sou um perigo para ti? – Arrisquei

— És, claro! És um calcanhar de Aquiles que eu não contava.

— Achas que eu posso estar em perigo?

— Eu tenho a situação controlada, não te preocupes. Se houver algum perigo eminente eu saberei e aí resolvemos.

— Como?

— Não te preocupes com isso agora coração. Confias em mim?

— Sim mas…

— Então não te preocupes, nada irá acontecer-te.

E beijou-me carinhosamente. A noite estava a terminar, o sol estava quase a nascer e ele resolveu estrear o novo quarto dele e ficou comigo. Foi a primeira noite que realmente dormimos juntos na minha casa. Foi uma sensação de paz completa.