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4 Bad Guy - I


Notas iniciais
Bad Guy - Billie Eilish

Bad Guy

I mean, I don't see what she sees

But maybe it's 'cause I'm wearing your cologne

Katara confirmou que Mai não gostava dela quando, no entre aulas ao parar para conversar com Toph, sentiu um empurrão violento em suas costas. Se não fosse a percepção extraordinária da amiga, que a abraçou, teria caído no meio do corredor, de cara no chão na frente de um sem fim de alunos.

— Ei, qual é o seu problema? — gritou irritada.

Mai parou seu deslizante andar apenas por um segundo. Virou-se e lhe lançou um olhar serpentesco que arrepiou sua espinha.

— O que aconteceu? — Toph perguntou afastando-se.

— Mai! Ela me empurrou! E já faz um tempo que ela vem me lançando olhares estranhos. Eu nem fiz nada!

— Ah, doçura! — a Beifong sorriu com malícia. — Isso é por causa do cheiro.

Katara franziu a testa e perguntou exasperada:

— Cheiro? Que cheiro?

A amiga cruzou os braços, sorrindo como Monalisa.

— O perfume, é claro. Katara, o perfume do Zuko está em TODA você.

Olhos azuis saltaram das órbitas e bochechas castanhas coraram intensamente.

Seu “relacionamento” com Zuko era para ser algo discreto, extremamente secreto. Até porque qualquer convívio só foi possível depois que conseguiram reconhecer e superar diversas falhas passadas.

No primeiro ano do ensino médio, Zuko era um garoto raivoso e mal resolvido que descontava suas frustrações em qualquer um que aparecesse na sua frente e parecia ter predileção por Katara e seus amigos. Entretanto, o mais estranho era ele se permitir ser gentil em esparsos e inesperados momentos, como quando ajudou Aang em uma briga contra alunos mais velhos.

No segundo ano, então, após um sumiço de meio ano, Zuko retornou para a escola. Seu ar irritado e intenso desprezo ainda eram característicos, apesar de mais amenos. De qualquer forma, foi ele quem ajudou-os a ganhar computadores novos para a escola, unindo-se voluntariamente ao time de vôlei e sendo decisivo para a vitória. Foi no terceiro ano, depois das férias, que ele voltou completamente diferente, mudado. Para o espanto geral da nação, desculpou-se com humildade, ensinou química pacientemente a Aang, ajudou Sokka a entrar em um clube de esgrima super exclusivo e era sempre visto conversando e rindo com Toph.

Seu único fracasso: Katara, feita de material mais resistente e teimoso. A garota simplesmente não compreendia e não suportava a indulgência dos amigos. Aquele homem os tinha perseguido implacavelmente por, pelo menos, um ano. Por que todos agiam como se nada tivesse acontecido?

Mesmo que respondesse ou se dirigisse a ele, a garota o fazia de forma fria e cortante, sem dar qualquer oportunidade para aprofundamento do diálogo. Zuko, porém, ignorava seus óbvios avisos de “não se aproxime” e avançava lentamente, passo a passo. Um dia, encontrando-a infeliz com a impossibilidade do irmão de acompanhá-la em sua visita à mãe, ele reuniu coragem e afirmou que, caso ela quisesse, a acompanharia.

Dessa vez, Katara não teve como ser rude ou negar. Conhecia a história dele.

Toda a escola conhecia, na verdade. O rumor que circulava era que o pai de Zuko tinha assassinado sua esposa e mãe de seus filhos para obter controle total de sua herança e de sua parte na empresa de tecnologia que ergueram juntos. Como ele era de uma boa família, — ou melhor dizendo, de um clã rico e influente — o juiz o absolveu por falta de provas. Furioso ao saber do veredito, Zuko avançara contra o pai, todavia ele era um garoto e Ozai era cruel. E esse foi o dia do nascimento da cicatriz em seu rosto.

Ainda que, dessa vez, não tenha conseguido se livrar, a única punição de Ozai foi perder a guarda do filho que passou a morar com o tio e vinte e cinco por cento das ações da ex-esposa.

E, embora quisesse ser impiedosa, quando se lembrava dessas histórias, era impossível para Katara não demonstrar empatia e compaixão.

— Se importa se eu perguntar o que aconteceu?

Fim de tarde e estavam voltando para casa pela rua arborizada do cemitério. Balançou a cabeça e não o encarou.

— Um policial a matou.

— Desgraçado! Sinto muito. — Zuko disse com a voz rouca e baixa.

Sem necessidade de perguntar para entender.

Katara sorriu sem humor. O sinto muito era habitual, o xingamento não.

— E o que aconteceu com ele?

Arrumou os ombros, sua voz saindo aguda de ódio.

— Provas inconclusivas. Foi condenado a prestar serviços comunitários.

— Não consigo imaginar o que seja prova para essas pessoas. — Zuko respondeu e Katara notou em sua voz o mesmo sentimento que preencheu a dela.

Sem pensar, pegou a mão dele e apertou. Ele apertou de volta.

O garoto tinha passado por coisas horríveis, ela também. Não adiantava nada tocar constantemente na ferida. Colocou uma pedra no passado e preferiu encarar o futuro.

Não foi imediato, mas o relacionamento entre eles foi melhorando. Agora também ajudavam-se nas disciplinas e, provavelmente, era com ele que ela mais conversava. Como ocorreu o avanço do verbal para o físico, nenhum dos dois sabia explicar bem. Katara afirmava que Zuko tinha roubado um beijo seu enquanto liam sobre os amores de Lancelot e Guinevere para a aula de literatura. Zuko, por outro lado, garantia que Katara o tinha beijado enquanto liam um livro chato, que logo foi esquecido.

Quem quer que fosse o ladrão e o roubado, nenhum deles parece ter visto motivos para parar.

Não era para ser nada fixo, oficial, sério. Apenas um beijo aqui, outro ali, uma mão aqui, uma boca ali. Katara tinha terminado com Haru há alguns meses e Zuko parecia reticente em falar sobre sua vida amorosa, então decidiram aproveitar calmamente, sem cobranças. Estava dando certo, estava sim. E estava tão bom. Até que a garota se viu recusando convites para ficar conversando com ele por mensagem ou chamada de vídeo e a frequência com que estavam juntos era tanta que quando chegava em casa, sozinha, vovó perguntava:

— E Zuko?

Pensando bem, foi também nessa época a estreia dos olhares matadores de Mai; o que decidiu ignorar. Se Mai tivesse algum problema, ela que falasse e aí poderiam resolver juntas.

Entretanto, ali estava Toph resolvendo o mistério.

— Não entendi. — mentiu em um fio de voz. — O que você quer …

— Não adianta tentar me enganar, mandona. — a Beifong cortou com divertida paciência.

— Mais alguém sabe? — Katara perguntou abaixando a voz.

— Claro. Mai sabe.

Toph não parecia estar entendendo o intuito da amiga tanto que, além de manter o tom de voz normal, apontou para o corredor.

— Sim, sim. Mais alguém?

— Eu.

— Toph!

— Ok, doçura. Suki, com certeza, sabe. Sokka e Aang, caso não tenham percebido, ou são burros ou não querem ver. Vocês são péssimos disfarçando.

O primeiro sinal tocou.

— Mas… Qual a relação de Mai com isso? — perguntou desconfiada, apoiando as mãos na cintura.

Toph a imitou dizendo, incrédula:

— Sério mesmo, Katara?

O segundo sinal tocou e a amiga se afastou com um aceno, ordenando-lhe que a esperasse para o almoço. A castanha viu o corredor esvaziando, porém, antes de entrar na sala, mandou para o ficante uma mensagem com as duas palavras que fariam os joelhos de qualquer um enfraquecer:

“Precisamos conversar.”