Muse

21 Capitulo XXI - Chuva de Novembro


Muse

“Acredito que ontem eu jamais teria feito o que eu fiz hoje”
Cloud Atlas

Capítulo XXI:

Chuva de Novembro

Turno: Naruto Uzumaki

Casa da Sakura, 9h30min

Sakura não voltou para casa ontem.

Estava acordado já tinha um tempo, entretanto minha vontade de levantar da cama era zero. Arranjei os braços para trás e apoiei a cabeça nos mesmos cruzados, olhando para o teto totalmente branco. Acabei não fechando as porta-janelas ontem de noite, então acordei no exato momento em que o sol nasceu. A luminosidade deu as caras e o meu sono se escondeu.

Enviei três mensagens para Sakura desde ontem, enviava a quarta.

Não estava tão preocupado; sabia que ela podia se virar muito bem, depois daquele dia em que fomos para a floresta atrás da casa da Tsunade. Para uma pessoa que ficava sempre de recuperação em Educação Física, até que ela evoluiu e andou praticando bastante. No entanto, não era o estilo dela dormir fora e não avisar a ninguém. Imaginava que poderia estar na casa de Temari, ou outra amiga dela, mas de qualquer forma, procurei me manter despreocupado.

Deixei o celular do lado do travesseiro, esperando ela retornar minhas mensagens, e subi com as pernas para o ar, retirando as cobertas de cima de mim. Continuei na mesma posição, mas agora procurei descansar meus olhos pesados. Entrava um vento sorrateiro e tenro da varanda. Parecia chuviscar levemente lá fora. E esse clima de início de Novembro me fez recordar de um certo dia...

Flashback On

A luz do dia acendeu-se.

O calor dos meses anteriores se encontrava com o frio que vinha do final do ano. Em Novembro, os climas se misturavam e era a época perfeita para surfar.

Indo para fora, atravesso a porta-janela e piso no deque de madeira do quintal, dando de cara com o lindo mar que brilhava. Sim, papai e mamãe sempre gostaram do mar e então, num dia se perguntaram o por que de não morarem para frente dele. O único legado deles para mim, esta casa.

Boto a prancha de surf debaixo do braço e antes de correr pela areia, dou uma boa olhada na casa e a aprecio verdadeiramente.

Vou remando até a próxima onda que se formava. Consigo subir na prancha sem muita dificuldade e automaticamente viro junto da onda para o outro lado. Aquela sensação de liberdade era o que eu mais gostava nas praias de Summerside. E só de pensar que eu teria de sair dali, me dava arrepio.

O mar tornou a ficar preguiçoso e as ondas formavam-se bem baixas. Neste período, fiquei sentado na prancha que o tio Jiraya me deu. Ele mesmo a fizera. Era toda detalhada com alguns desenhos tribais e algumas palavras como: “Aloha”, “Surf”, “Prazer”. Não havia mais ninguém por aquelas redondezas e só havia eu naquele imenso mar. Por um bom tempo fiquei observando tudo ao meu redor, procurando sentir o gosto de despreocupação que eu sentia com mais afinco quando ia para o mar. Entretanto, minha cabeça sempre corria para Sakura e lá, permanecia, não se movia mais.

Fecho meus olhos, segurando firmemente a prancha e deixo minha cabeça cair para trás. Sakura e Sasori sofreram um acidente de carro. Sasori não sobreviveu e Sakura foi culpada por sua morte. Felizmente, o advogado da mãe dela conseguiu fazer com que ela fosse cumprir sua pena em uma escola lá no Maine, até completar 18 anos. Era só um ano e ela teria que voltar. Assim, uma nova assembléia com o juiz seria marcada.

Sakura sempre foi do bairro. Nos conhecemos quando nós dois éramos crianças ainda. Não nos desgrudávamos de maneira alguma, sempre caçávamos conchinhas na praia aqui em Summerside, até já participamos de um concurso de castelo de areia. Fora que, quando mamãe e papai morreram naquele assalto dentro do banco, ela foi uma das únicas a me consolar. Tal ato me fez ter um sentimento de “te devo uma”.

Quem diria que ela se passaria por assassina. Ninguém dessa cidade a olhava com os mesmos olhos. Logo, todo mundo já tava sabendo e conspirando contra a mesma. E eu pude sentir de perto a quão intrigada ela estava. E foi aí que eu mesmo, sem o empurrão de ninguém, me ofereci para lhe acompanhar na viagem. Eu me sucedi á sair de casa.

– Eu vou sair daqui.- Meus olhos estreitos, ainda encompridavam todo o meu redor cheio de mar.

Aquele azulão não se agitou mais naquela manhã. Era tempo de concentrar-se.

Era o momento certo de ajudar quem um dia muito me ajudou.

Flashback Off

Meu celular vibrou, despertando-me daquele meu subterfúgio do mundo.

Sorri satisfeito, acompanhando a forte preocupação indo embora.

“Dormi na casa das meninas do trabalho. Desculpe não ter avisado.

Logo, logo já estou em casa.

Beijos, Sakura”

Turno: Autora

– Sabe, eu acho que esse aqui...- Matsuri visualizou rapidamente a divisória de calçados e sorriu ao achar o que queria.- irá ficar muito melhor com você.- Da caixa de sapatos, retirou um lindo salto alto azul escuro, com pedras douradas incrustadas no mesmo.- Acho que combina com o seu tom de pele mais escuro. Tenho certeza que ficará linda!- A freguesa parecia concordar com a atendente após a mesma calçar o salto e olhar-se no espelho.

– É, você tem razão! Combina muito comigo...- A freguesa desfila pela loja, tendo certeza de que era confortável o suficiente para se usar. E contente, acabou comprando o sapato sem muito hesitar.

Lá no outlet, pelos finais de semana, as vendas eram excessivas. Vinha mulheres de toda a parte da cidade comprarem nas lojas daquele mini-shopping de calçados. Os presos despencaram e quando isso acontece, o lucro vai lá pra cima. E como o restante das lojas do outlet Étapes à Roses, a loja das irmãs não dava por vencer. Era a mais famosa dali. Mas isso, claro, graças a um toque de magia.

– Nós vamos pro laboratório hoje?- Perguntou Matsuri recostado ao balcão em que Ino servia junto da máquina registradora.

– Sim, faz uns 10min que nos chamaram. Mas antes, vamos passar em algum lugar pra comer alguma coisa. Meu estômago ta pedindo reforços aqui...- Ino revirou os olhos, descendo do banquinho em que estava sentada e balançando seu enorme rabo de cavalo. Com seus saltos de couro verde-escuros, colocou a bolsa no ombro e fechou a loja junto de Matsuri.

Já há vinte minutos no carro, decidiram parar em um Applebee’s de meio da estrada. A fome de Ino já estava insuportável e com isso, uma loira bem irritada e impaciente. Com o carro estacionado, pegaram uma mesa ao ar livro e não se anteciparam com uma salada de entrada. Uma porção de batata frita, com um cheeseburguer e por fim, um x-salada para a frágil da Matsuri. Após comerem, Ino ficou pensativa, amassando com apenas uma mão um guardanapo da mesa. Matsuri ainda tomava sem intervalos seu milk-shake de morango, com seus lindos orbes castanhos, fixos na paisagem que o restaurante proporcionava. Só instantes depois que foi perceber o quanto a irmã estava série e presa em sua mente.

– Está mais quieta do que o normal.- Estranhou de cara, Matsuri, sabendo que a loira ficava mais do que energética quando devorava comida gordurosa.

– Nada, é só que...- Pulou duas vezes a sobrancelhas, sorrindo naturalmente. Afagou os olhos com um punho, parecendo cansada.- estou com um pressentimento.

– Que tipo de pressentimento?

– Sinto que veremos Konohamaru ainda hoje.- Revelou a loira, após muito silenciar. Matsuri juntou as mãos para o meio das coxas e abaixou a cabeça, pensando no irmão que havia desaparecido repentinamente.

Tão logo já estavam na estrada, dirigindo-se ao BUNKER. Do centro até a floresta que encobria o território dos caçadores, era mais ou menos uma hora de carro. E lá pelas 16h os portões se abriam para o carro autorizado das meninas.

Iam vestindo seus aventais á caminho do laboratório, onde, como de costume, encontraram o prontuário do final de semana. Ino e Matsuri cuidavam da área documentada no laboratório, fora anotar as conclusões de certos experimentos. Enquanto os caçadores entre outros, trabalhavam na prática, fazendo experimentos e/ou caçando nos seus determinados horários.

– Parece que a pasta ta cheia hoje em?- Disse Matsuri, observando o prontuário que jazia fechado com todas as fichas dentro. Parecia bem volumoso.

– Pois é...- A loira passou com a língua nos lábios, cruzando as pernas em sua cadeira giratória. Com um cotovelo apoiado na mesa de controles, Ino ia resvalando os dedos pelas fichas dos procurados pelos caçadores. Lobisomem, vampiro, vampiro, ciclope, espectro... contava a loira, visualizando cada ficha. Estava entediada e até um pouco emburrada, entretanto, após deslizar seu indicador a próxima ficha, seus olhos se esbugalharam e em um arfo, a exaltação lhe subiu a cabeça. O momento da surpresa e do choque foram abaláveis e Matsuri viu o susto da irmã. Ino tinha as mãos em cada bochecha e tentava mais do que tudo controlar as lágrimas que vinham.

– O que foi, Ino?- Matsuri girou na cadeira e ao ver o estado da irmã, levantou-se curiosíssima.

– Não dá mais, não dá...- Sussurrou a loira, quase imperceptivelmente.

– O que foi, irmã...?- A mais nova apertou o ombro de Ino, aproximando-se da ficha. E quando viu, seu corpo estremeceu e uma enorme ânsia formou-se em sua garganta. Ela fechou os olhos desapontada e depois deste movimento, a loira pareceu não agüentar mais e saiu ligeira daquela ala, murmurando coisas como: “Acabou”, “É impossível agora”, “Deveríamos ter nos empenhado mais”.

Matsuri balançava a cabeça negativa, totalmente desolada e tentando negar a si mesma que aquilo acontecera. Lá, naquela ficha, constavam fotos de um garoto do qual elas conheciam muito bem. Ela tocou uma das fotos e acariciou-a, sentimental.

– Meu irmãozinho...

[...]

Ino parecia desolada.

Tinha lágrimas nos olhos, que borravam sua maquiagem. Já estava dentro daquela cabine de banheiro há um tempo.

Seu irmão estava sendo caçado pela BUNKER. A procura seria pela madrugada e só de pensar que o pequenino estaria nas mãos cruéis do Maine, ela já desabava novamente. Podia não parecer, mas a loira era tão sensível quanto Matsuri. Toda a pose de séria, a maquiagem em tons fortes, era apenas uma máscara para ocultar sua verdadeira alma. Tão frágil como um tatuzinho que se escondia.

– Ino?- Matsuri adentrou o banheiro e o passou a tranca.

– Sim.- A morena podia ouvir os soluços da irmã na última cabine. Suspirou profundamente e fechou-se na penúltima cabine.

– Sabe Ino, Konohamaru sempre foi um menino muito esperto. Já faz tanto tempo que a gente vive por aqui... e descobrir que ele está vivo me surpreendeu muito. Mas eu não deveria ter me espantado. Eu sei que ele é corajoso e sabe se virar sozin- Ino não deixou Matsuri terminar e a cortou, após ter limpado algumas lágrimas.

– Eles irão rapta-lo. Talvez o matem no mesmo momento que o encontrarem ou pior, irão traze-lo para cá e fazer experimentos com ele, igual á todos os outros.- Ino ficava imaginando... O irmão seria trazido para os laboratórios e iria reencontrar as irmãs mais velhas. Porém, elas nada poderiam fazer ali.

Uma forte dor no peito fez Ino estreitar os olhos para impedir as lágrimas de saírem e cruzando os braços, debruçou nos joelhos da mesma. Queria gritar. Queria gritar mais que tudo naquele momento.

Na cabine ao lado, Matsuri podia sentir o tamanho pesar de Ino. Fechou os olhos serenamente, com as mãos abertas pousadas nas coxas. As olhou, derramando algumas poucas lágrimas. Depois ás cerrou e disse mais do que convicta:

– Então eu roubarei a ficha dele.- A loira engoliu o choro, sobressaltando os olhos repentinamente. Balançava a cabeça negativamente.

– Não, não, é impossível, se te pegarem...

– Não irá acontecer. Nem irão perceber que o prontuário dele sumiu.- Matsuri umedeceu os lábios rosados.- Mas teremos que sair da BUNKER.

– Sim.- Ino abraçou os joelhos, pensativa.

– Iremos procurar por ele com nossas vidas. Certamente está pelas redondezas, já que conseguiram informações sobre ele.

– Está certo.- Mesmo Ino não tendo tanta fé no plano da irmã, queria acreditar que tudo daria certo. O silêncio pairou durante uns instantes, até que as duas decidiram sair das cabines. Matsuri encarou a irmã, perante a si e não hesitou em abraça-la. Lhe afagou as costas com a palma da mão e acariciou as madeixas louras de Ino, sussurrando ao pé do ouvido dela:

– Confia em mim. Nós vamos encontra-lo.

“Konohamaru...”

* * *

I will not surrender
Now until forever
You will never
Be alone

Grabiella Cilmi — Trecho de Defender