Passei a tarde criando planilhas e fazendo modificações com Scott, não era nada fácil ser líder. Já passava da meia-noite, mas eu estava sem sono.

- Vai continuar, Grey? — Scott coçava os olhos.

Eu soltei uma gargalhada, ele parecia uma criança mimada.

- Vá dormir. — Eu respondi. — Eu tenho um quarto?

- Eu cuidei de tudo. — Ele sorriu me estendendo a mão.

Caminhamos por um corredor tão silencioso quanto a morte, haviam várias portas, todas fechadas. Scott me levou a um quarto na última porta, ele era bem bonito.

- Nossa, obrigada. — Abracei Scott. — De verdade.

- Não por isso. — Ele murmurou. — Se não se importa eu vou me deitar um pouco, qualquer coisa só bater na segunda porta a direita.

- Tudo bem — respondi, correndo os olhos pelo quarto. — Boa noite.

Antes que eu pudesse ouvir sua resposta ele já tinha sumido na escuridão do corredor, resolvi voltar mas um choro ecoava no corredor seguinte.

Caminhei até a porta de onde vinha o choro e abri sem bater, havia uma criança sozinha, enrolada numa manta cor-de-rosa.

- Ei, tudo bem? — perguntei.

- Mamãe? — A menina levantou os olhos. Mas logo voltou a chorar. Ela era loira de olhos verde, parecia uma boneca, devia ter uns 4 anos, algo nela me era familiar.

- Tá tudo bem — Sussurrei, colocando-a em meu colo. — Não precisa chorar. Qual é o seu nome?

- Angie. — Ela respondeu, passando os dedinhos pelos olhos. Logo pensei que ela seria uma boa amiga para o meu bebê, sorri com a ideia. — E o seu?

- Nora — Eu falei, ainda sorrindo. — Você vir comigo?

Ela começou a rir e logo depois pegou em minha mão.

- Você tem algum brinquedo que queira levar? — Eu perguntei. Ela olhou ao redor do quarto vazio e apontou para a colcha rosa. — Que colcha bonita.

- Minha mãe que me deu. — Ela sorriu.

Não tive coragem de perguntar mais nada a Angie, segurei em sua mão e levei até comigo ao escritório.

- Quer biscoitos? — Mostrei-lhe o pote que Scott havia me dado horas atrás.

Ela sorriu e enfiou os dedinhos pequenos no recipiente, entreguei uma folha em branco e alguns lápis e continuei meu trabalho. Depois de meia hora eu e Angie já tínhamos comido todos os biscoitos, eu já tinha adiantado mais da metade da papelada e ela estava com sono.

- Vem, vamos para o meu quarto. — Peguei Angie em meu colo. Ela colocou os bracinhos em volta do meu pescoço e apoiou sua cabeça em mim. Ela estava suja e com fome, a raiva tomou conta de mim. Como podem deixar uma criança nesse estado?

O corredor estava escuro, mas eu escutei passos atrás de mim. Eu estava quase correndo quando cheguei ao quarto, Angie estava mais acordada, lhe dei um banho e uma maçã que eu achei no frigobar. Liguei a televisão e deixei que ela deitasse em minha cama. Eu estava de costas, mas podia sentir a presença. Droga.

- Você fugiu. — Ele disse. — De novo.

Patch estava parado na porta, com olheiras e o cabelo despenteado.

- Você não me ama, mais. — Minha voz era pura amargura.

- De onde você tirou isso? — Ele riu sem humor. — Ah, Scott. Só podia ser, quantas vezes já te disse que ele não é confiável?

- Me amar não é certo, Patch? — Eu falei, contendo meus gritos para não acordar Angie, que havia acabado de dormir.

- É a única coisa certa que eu faço. — Ele sussurrou, cansado. — Anjo, eu sei o que ele lhe mostrou e o que lhe disse, aquilo aconteceu, mas é porque eu te amo.

- Me explique isso, Patch. — Minha voz, aumentou. — Porque não estou entendendo mais nada.

- Eu precisava de tempo. — Ele suspirou. — Eu atirei pra todos os lados para que pudéssemos ficar juntos, não entende isso?

Ele chegou mais perto e meu corpo amoleceu.

- Eles estão com Vee. — Eu cedi, as lágrimas brotando em meus olhos. — Eles só vão vai deixa-la sair se eu ficar.

- Eu sei. — Ele confirmou com a cabeça. — Mas você não vai ficar aqui.

- É o que veremos. — Scott disse. Merda, ele também estava no quarto. — Você fica. — Ele apontou pra mim. — Já você sai.

Patch se aproximou dele.

- Qual o seu problema? — Ele urrava.

Eu corri e abracei Angie, com medo.

- Ela vai ficar — Scott estava tranquilo. — Agora, por favor saia antes que eu tenha que chamar a segurança.

- Patch… — Eu sussurrei, minhas lágrimas brotando. Eu levantei para pegar em seu braço, mas Scott foi mais rápido e me puxou colocando uma arma pressionada contra minha têmpora.

- Scott? — Eu gritei. Angie havia acordado e tremia , eu queria que ela não tivesse que passar por isso.

- Me desculpe, Grey — Sua voz estava tão fria quanto um cubo de gelo. — Mas é o certo.

- Scott, larga isso. — Patch tentava persuadi-lo, seu corpo estava ereto.

- Vá embora, suma. — Scott respondeu. — Ei, nem mais um passo…

O corpo de Patch vacilou e Scott pressionou mais a arma.

- Scott — Eu gritei. — Pare!

- Me de um motivo, Grey — Ele gritou de volta. — Só um.

- Eu estou grávida, Scott. — As lágrimas se juntaram aos soluços.