Muller-Family Wolf
4 Tyler
Tyler não gostava de sair, principalmente para uma boate. Nunca tinha pisado em uma, mas tinha a ideia de um lugar cheio onde mal podia se andar, com uma música irritante em seus ouvidos e pessoas se oferecendo o tempo todo. Talvez não fosse assim, fosse só o que se passava na televisão. Mas para ele não importava, não tinha menor curiosidade.
Não é certo dizer que ele é um garoto tranquilo, pois mesmo que goste de ficar em casa, ele nunca para quieto. Estava sempre por aí arranjando o que fazer, com várias ideias circulando em sua cabeça que chegava a se confundir, e do jeito que é curioso, sempre arrumava mais coisas para fazer. Sua “caverna” — que era como costumavam chamar o quarto dele- estava sempre bagunçada, cheia de papeis, roupas e muito mais.
Sempre se manteve tão ocupado, e por isso, não tinha amigos. Obviamente nunca teve uma namorada também. Vivia pelo colégio com o caderno embaixo do braço, óculos torto e o cabelo bagunçado. A mesmas coisas acontecia na faculdade.
Garotas? Sim, elas chamavam sua atenção, mas não tanto quanto a que havia dentro de casa.
Tyler tinha 16 anos quando estava aproveitando o dia na piscina com Raphael, Lizzie, Erike e Holly, quando Amy apareceu com seu biquíni vermelho. Desde então, começou a alimentar seu sentimento por ela, ainda que soubesse que era impossível de acontecer algo entre os dois.
Passaram-se dois anos, e em um momento de loucura, levado totalmente por seus desejos, ele simplesmente a beijo. E iniciou-se seu romance proibido.
Quando recusou o convite de Lizzie, sabia que era questão de minutos para que ela fosse até Amy. A ideia de ter uma casa vazia lhe agradou tanto, que ele correu a procura de Amy na mesma hora. Estava indo para o quarto dela, quando viu Lizzie sair de lá um pouco desapontando. Ele então desceu as escadas em direção à cozinha enquanto Elizabeth se dirigia ao quarto de Raphael.
–A Lizzie está vindo aí, você tem que dizer não! -Ele parou ao lado dela e se encostou na pia.
–O que? Respira e fala de novo! -ela colocou a mão no peito dele para acalmar sua respiração.
–A Lizzie quer que todo mundo vá para uma boate hoje, para comemorar a volta dela. Só que eu não vou, e pensei que você pudesse recusar também, para...você sabe...-ele se sentiu levemente envergonhado.
Amy o olhou pensativa, como se tivesse uma grande escolha a fazer.
–Não sei, não devíamos fazer isso com Lizzie...
–A Lizzie mora aqui, você vai ter tempo para vê-la novamente, sair com ela...De qualquer jeito, eu não vou
–Você não pode mudar de ideia? -ela sorriu tentando mudar a resposta dele.
Parecia que havia um encanto no sorriso de Amy, pois Tyler já não sabia mais o que responder. Ele balançou a cabeça como se estivesse acordando.
–Princípios...-disse firme e sorriu para ela.
Nesse momento, Lizzie entrou feliz na cozinha. Rapidamente, Amy pegou uma vasilha azul e uma colher de pau e começou a mexer.
–O que está fazendo aqui? — Lizzie andou até a bancada e se apoiou na mesma.
–Bom, eu moro aqui, lembra? -ela deu língua para ele, como costumava fazer quando criança. Estava só ensinando Amy como não queimar uma lasanha. -Amy o fulminou.
–Tanto faz! Eu vim para chamar a Amy para o convite que você recusou. E uma vez que você negou o convite, não tem voltar se não me fizer favores-Lizzie tentou parecer perigosa, mas acabou provocando risos em Tyler.
–Tudo bem. -ele se apoiou na bancada, ficando mais perto de Lizzie – Eu tenho princípios.
Lizzie revirou os olhos e prendeu sua atenção em Amy, ignorando a existência de Tyler no lugar.
–Então titia, quer ir para a balada com a gente hoje? -Tyler sabia o quanto Amy odiava ser chamada assim, mas Lizzie sempre fazia isso apenas para implicar com ela.
Amy se virou para encarar Lizzie, com uma expressão séria. Lizzie por sua vez, continuava apoiada na bancada, encarando Amy com olhos azuis pidões. Tyler imaginou a confusão que se passava pela cabeça de Amy. Era impossível dizer não quando Lizzie fazia aquela carinha.
–Então, tem essas coisas que preciso resolver no trabalho e quero fazer logo hoje para ficar o sábado e domingo descansado. -Amy tinha sido tão convincente, que Tyler ficou em duvido entre aplaudir e ficar triste por ela.
–Ok...-Lizzie deu meia volta e se foi, deixando-os sozinhos novamente.
–Uau, porque não está em Hollywood? -Ty bateu a porta da geladeira, sorrindo para Amy que continuava mexendo na vasilha.
–Geografia não é o seu forte, né?!- ela o analisou e sorriu, guardando a vasilha vazia em seu lugar.
Quando Tyler ouviu a porta da frente fechar, e todo a conversa se distanciar, levantou e foi direto para o quarto de Amy, a terceira porta a esquerda. Deu quatro batidas ritmadas, do jeito que combinou com ela. A porta não estava totalmente fechada, pois na última vez que seus dedos a tocaram, ela se abriu mostrando uma Amy de lingerie na frente do espelho. Os olhos de Amy se abriram de surpresa, e enquanto ela corria para fechar a porta, Tyler apenas a observava rindo.
–Tyler! — ela o repreendeu, furiosa.
–Que diferença faz? Não é como se minha mão...-ele foi interrompido.
–Tyler! -ela gritou mais alto e ele riu-Eu tenho...Como você disse mesmo? -ela abriu a porta, vestindo um short e uma blusa branca larga
–Princípios...-disseram juntos.
–Me sinto uma adolescente — Amy estava deitada no sofá com a cabeça no colo dele-Eu não aproveitei a minha como deveria.
–Como ela foi?
–Isso é história para outro dia.
–Acho que também não aproveitei a minha- ela o olhou –Eu sei, tenho apenas 19, mas aos 16 eu deveria ter feito coisas que me arrependeria depois. Deveria ter saído para beber, voltar tarde, brigar com alguém por pegar a sua garota...
–Você ia acabar com ele, e ficar sem a garota.
Então Tyler entendeu o que Amy quis dizer com não aproveitar a adolescência. Aos 13 anos você começa a se sentir mais nervoso, pronto para brigar em qualquer situação, sem se importar com os riscos. A adolescência para um lobisomem é mais difícil que para um humano.
–Ela acaba com a gente...-ele sentiu a mão dela em seu rosto.
Ele começou a pensar em todos os lobisomens, em tudo que passaram tentando levar uma vida normal quando normal é a única palavra que não te descrevia. Alguns se fechavam como Tyler, outros se sentiam perdidos como Raphael, e alguns não conseguiam se controlar, como...
–Você já pensou na história da nossa família?
–De novo? -ela levantou e ele foi atrás.
–É, eu descobri algumas coisas, conheci uma pessoa que...
–Tyler-ela colocou a mão no peito dele, como sempre fazia quando sabia que ele estava agitado. Aquilo construía uma barreira, e aos poucos ele ia se acalmando-Se ninguém nunca tocou nesse assunto, deve ter um motivo, não acha?
Ele respirou fundo.
–E talvez esse seja o erro! — ele segurou a mão dela.
–Para com isso, você vai se machucar! -ela disse calma, envolvendo Tyler com suas palavras.
Amy se aproximou de Tyler e o beijou rapidamente. Se distanciou e foi na direção da cozinha, mas ele segurou seu braço e a puxou novamente. A beijou como se estivessem longe um do outro por muito tempo, e fossem os últimos minutos de existência na terra.
Tyler ouviu um barulho vindo de fora, mas cessou rapidamente, então ele resolveu não dar importância. Ele a encostou na parede e continuou beijando-a. Sentia-se irritado por ter que manter aquilo em segredo, queria que alguém chegasse e os encontrassem ali.
Então seu pedido foi realizado. Ele ouviu a voz de Lizzie e parou o beijo para olhar, mas se surpreendeu ao ver que ela não estava sozinha.
–O que é isso? — Camille tomou a frente do grupo, com os olhos arregalados e uma expressão confusa e irritada.
–Um beijo ué! -Raphael bêbado, se sentou no sofá e observou a cena.
–Elizabeth, fica com ele! — ela disse sem olhar para a menina, que rapidamente obedeceu- O que você está fazendo com o meu filho? — ela olhou para Amy, pronta para atacar.
Tyler se colocou na frente de Amy, como se fosse um escudo.
–Eu sei o que fiz mãe! Não precisa descontar na Amy!
–Olha só como você fala, como se beijar a tia dentro da minha própria casa fosse algo normal! -Camille passou a mão pela cabeça, bagunçando todos seus fios. — Ela não é “a Amy” ela é sua TIA!
Tyler respirou fundo e fitou o chão. Camille olhou para Charles, que se encontrava na porta com os braços cruzados analisando a situação.
–Charles, você não vai falar nada? Seu filho estava aos beijos com a sua irmã!
–Camille, calma! — ele segurou o braço dela, mas ela logo se soltou parecendo mais furiosa do que antes.
–Calma? Você está pedindo calma? Céus, o seu filho está de caso com a sua irmã dentro da nossa casa! — ela gritou.
Tyler estava apenas observando a cena, tentando não dizer nenhuma besteira. Porém, ficar apenas observando seus pais discutirem sobre algo que ele fez, quando ele sabia que era errado, não adiantaria em nada.
–Hey, essa casa não é só de vocês, eu moro aqui também! -disse calmo.
–Por acaso você paga alguma coisa? -ela gritou.
–Mas a Amy paga, e ela tem direito de fazer o que quiser na casa dela! -ele se aproximou de Camille –E sim, eu chamo ela de Amy, assim como chamo a Holly de Holly e o Erike de Erike. Sabe porquê? Por que ela odeia que a chamem de tia, e porque para mim ela é mais que isso. Eu a amo.
–Você...
–Você transou com seus dois primos, um dos seus filhos nem sabe quem é o pai. — ele riu sarcasticamente. Olhou para ela sério e terminou – Você é hipócrita!
Um silêncio tomou conta da sala. Tyler estava respirando pesadamente, sentimento uma confusão imensa dentro de sua cabeça. Achava que tinha ido muito longe, mas agora não havia como voltar atrás. Ele sentiu a mão de Amy em seu ombro tentando acalma-lo, esperou que a mãe tivesse outro ataque, mas ela parecia muito atordoada para fazer algo. Charles parecia confuso, sem saber se havia algo para fazer, ou se devia. Lizzie perplexa segurava Raphael deitado em seu colo no sofá. O garoto parecia totalmente fora de si, e repetia a palavra “Hipócrita” várias vezes e ria.
Charles respirou fundo e se pôs entre Camille e Tyler.Com uma voz visivelmente controlada, ele acabou com o desconforto de todos.
–Está tarde, vamos todos dormir. Amanhã eu quero conversar com todos vocês, se possível. Lizzie, deixa o Rapha comigo. -a menina assentiu e todos começaram a se mover.
Da escada, Tyler ouviu Charles falar com Raphael.
–Você precisa de um banho gelado!
–Hipócrita- o garoto respondeu e riu.
Tyler estava sentado na frente de seu computador, com um casaco de moletom preto e um samba-canção. Para ele, não precisava ligar a luz ou trocar de roupa se não havia motivo para sair do quarto. Não queria encarar Camille ou Charles, e entendia a necessidade de deixar Amy sozinha.
Eram 13h31 quando Erike entrou no quarto com um pote de biscoitos e um copo de refrigerante de uva. Ele fez uma careta assim que entrou no quarto, observando a decoração.
–A faxineira não conhece esse lugar não?-ele fechou a porta atrás de si e sentou na cama, entregando o biscoito e o copo para Tyler.
–Estou me sentindo um fugitivo com você me trazendo comida-ele virou a cadeira –Então, você já sabe né?!
–Sim, está um clima bem tenso lá embaixo. Amy saiu cedo e ninguém a viu, então todo mundo tá arranjando porcaria para comer – ele riu e ajeitou suas pernas, sentando como índio na cama.
–Uma hora ou outra você ia saber – ele deu de ombros.
–Quem diria que a Amy pegava alguém, quem diria que VOCÊS se pegam?
–Saia daqui! — Tyler fingiu estar bravo e jogou um biscoito nele.
Tyler observou Erike sair, e após a porta se fechar, ele continuou na mesma posição, movimentando apenas sua mão e a boca. Um barulho de algo estalando veio do computador, atraindo a atenção dele. Na tela, Jennifer sorria com seu cabelo loiro por baixo da touca rosa e uma caneca por onde saía bastante fumaça.
–Até que enfim, Jones- ela posou a caneca ao seu lado.
–Fala Johann, como vão as coisas? Muito frio?
–Frio é o que não falta- ela sorriu-As coisas não parecem bem para você...
–Tão longe, e mesmo assim já sabe quando tem algo errado. — ele sorriu e respirou fundo, tentando escolher as palavras certas para resumir sua história- Minha relação com Amy...foi descoberta.
Jennifer deixou seu queixo cair por um tempo.
–Meu Deus! O que mais? — ela gesticulou para que ele continuasse.
–Eu disse que minha mãe é hipócrita, depois meu pai botou todo mundo para dormir e eu não saí daqui até agora.
–Você deveria estar preparado para uma coisa dessas.
–Mas não estava. — ele tentou disfarçar sua grosseria-Como vai a parte normal da família? Descobriu algo?
–Parece que temos mais uma tia que nunca mais foi vista.
–São cinco irmãos? Essa família é realmente grande.
–E a sua parte da família não quer que ela evolua... -ela riu, mas logo parou quando percebeu que ele mantinha seu cenho franzido- Esquece... -alguém a chamou e ela olhou para o que ele deduziu ser a porta. Ela olhou novamente para a tela e sorriu – Vou ter que ir, mas antes, deixa eu te falar o que descobri. Eu achei um caderno antigo da minha mãe, mas não consegui ler muita coisa, pois alguém estava chegando. O que consegui foi essa quinta irmã, e um sobrenome...Qual era mesmo? -ela estalou os dedos na mesma hora que falou o sobrenome –Danvers! Estava no meio de um texto, e não parecia ser coisa boa. Enfim, beijos.
–Tchau-Tyler desligou a câmera e abriu o navegador.
Não chegou a digitar a letra “D” quando a porta se abriu.
–Pegador, se vista, quero te apresentar alguém! — Erike disse e fechou a porta com a mesma brutalidade.
Tyler estava sentado em cadeira de madeira um tanto quanto desconfortável. Erike o levou à uma cafeteira, onde eles sentaram na mesa que ficava na calçada. Já fazia 30 minutos que estavam ali, e Tyler ao ponto de comprar outro bolinho, começou a ficar impaciente.
–Vai demorar muito? -ele olhou o relógio.
–Você não tem nenhum compromisso, Don Juan- Erike sorriu ironicamente.
–Qualquer coisa é melhor que...
–Ele chegou! — Erike se levantou sorridente.
Tyler seguiu o olhar dele até ver o tal amigo. Ele não parecia muito mais velho que Tyler, devia ter a idade de Holly. Tinha cabelos escuros encaracolados até o ombro, e o usava de modo que não parecia desleixado, e nem cobria seus olhos. Usava uma camisa branca, calça apertada do tipo que Tyler odiava, seu braço era coberto de tatuagens e ele deveria medir 1, 80.Tyler ousou pensar que ele era...bonito, e nunca imaginaria que ele estava indo se encontrar com Erike.
Erike o cumprimentou com um selinho, e logo depois olhou para Tyler, que parou de analisar o rapaz e tentou fingir interesse no momento e sorriu amigavelmente.
–Tyler, esse é....-Erike foi interrompido.
–Deixa que eu me apresento — ele sorriu e estendeu a mão para Tyler – Meu nome é Caleb Danvers, prazer Tyler.
Tyler apertou a mão do garoto sentindo seu corpo suar e o coração bater mais forte. Poderia ser uma coincidência, mas ao olhar nos olhos verdes de Caleb, ele viu a escuridão.
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