Holly se sentia esgotada, como se todas suas forças tivessem sido retiradas de dentro dela, sem a sua permissão. Tyler e Raphael a levaram para dentro da casa gritando por socorro. Amy desceu as escadas preparada para o ataque, mas quando seus olhos encontraram a irmã, ela voltou à sua forma humana e correu até os meninos que não sabiam onde coloca-la.

– Sofá! -ela avisou e eles obedeceram-Rapha, pega uma toalha molhada, e....

– O que está acontecendo? — Lizzie segurava sua aljava com uma flecha pronta para ser disparada. Ela colocou a aljava ao lado do abajur e correu até o sofá, sentando-se no chão ao lado de Amy- O que aconteceu?

– Você está se curando? — Amy perguntou e Holly apenas balançou sua cabeça- Ótimo!

Rapha chegou com a toalha molhada e a entregou para Amy, que a usou para limpar o sangue das partes do corpo da loira que estavam amostra. Lizzie segurava a mão dela com um olhar preocupado, Tyler e Raphael estavam de pé com os braços cruzados observando a cena. Holly por sua vez, queria apagar sua memória para sempre, sua semana tinha sido terrível.

– Nós vamos te dar um banho, Lizzie e eu! Ty e Rapha...-Holly segurou o braço dela — O que foi?

–Eu...preciso falar.

"Na noite que a Lizzie nos chamou para a boate, eu resolvi dormir no meu apartamento reserva, no outro dia eu ia fazer um ensaio coletivo. Correu tudo bem no ensaio, mas eu sentia que algo estava errado, algo estava atrás de mim. Já faz um bom tempo que sentia isso, mas naquele dia eu sabia que quem quer que fosse, já não aguentava mais esperar para colocar as mãos em mim.

De noite eu dormi com um cara que conheci na noite anterior, era para ser só mais um caso, mas eu não sabia que tinha escolhido o pior cara da balada, o namorado de Alexis Blacwell, uma menina que sempre implicou comigo no trabalho.

Sempre fiquei longe dela o máximo possível, mas parece que ela sabia o meu segredo, e ficava tentando me provocar. Bom, eu havia dado o motivo perfeito para ela vim atrás de mim. Ela apareceu lá no domingo, segunda, terça e quarta. Na quinta eu já não aguentava mais, eu precisava acabar com aquilo. Mas ela estava disposta à me atormentar mais, ela me seguiu até uma farmácia e iniciou uma série de xingamentos. Não havia ninguém por perto, mas vocês sabem como é difícil, sabem como é difícil se controlar.

O ramo que eu escolhi então, o estresse é tão grande que por vezes eu deixei de ir, e perdi grandes oportunidades da minha vida. Eu poderia viver como uma loba solitária, dormindo com vários caras gostosos, ricos e famosos, mas fiquei aqui.

Ela entrou no carro comigo, perdi o controle da transformação, ela correu, foi para casa assustada, e eu fui para a minha. Fiquei lá por três dias sem sair, engordei 2kg, esperando a ligação que não chegava. Mas eu sabia que iria chegar. Sabia que a vadia era esperta e venenosa o suficiente para se recuperar e correr até o jornal mais perto e contar, se fazer de vítima e acabar com minha vida. E o que eu faria? Eu era o monstro da história, eu sempre fui o monstro.

Só que sozinha naquele quarto, tanto tempo sem ver uma alma, com tanta televisão e chocolate, eu enlouqueci. Eu queria mostrar para ela que o monstro era mais forte, que ele podia vencer, podia acabar com ela sem piscar.

Eu fui atrás dela, eu entrei na casa dela no meio da noite, ele estava dormindo e.... eu a matei. Eu cortei a garganta dela, desfigurei seu rosto, acabei com aquele corpo perfeito e o pior, eu me senti poderosa. Naquele momento eu senti que ninguém era páreo para mim, eu poderia acabar com todos os meus inimigos, me senti bem.

Eu deixei o corpo dela destroçado lá, e saí em minha forma de lobisomem. Felizmente minha consciência me fez colocar o carro na rua de trás, de forma que ninguém me viu sair ou entrar, e se viu não acreditou. Depois eu entrei no carro e vim até aqui.

Durante o caminho eu comecei a pensar no que tinha feito, eu fui contra os princípios da nossa família, quebrei nossas regras. Eu comecei a me sentir fraca, estúpida e um verdadeiro monstro."

Foi sua primeira morte- Erike havia chegado no começo do relato de Holly, e tentava acalmar a prima.

– E daí?! — ela respondeu em um tom melancólico e fez beicinho.

– Você não está acostumada, está assustada.

– Querida, você não tem que nascer sabendo como reagir a isso. Para nós é difícil se controlar, muito mais do que os outros. Não porque somos monstros, mas sim superiores. -Amy pousou a toalha no chão, longe do tapete.

–Ainda mais que moramos na cidade...Quer dizer, os outros de nossa espécie se isolam, moram em lugares afastados da sociedade e evitam estresse — Tyler expôs o resultado de suas pesquisas.

–Vocês não são totalmente lobos. Vocês têm parte humana também, certo?!- Lizzie olhou no rosto de cada um.

–Certo!

– Isso quer dizer que você não é totalmente diferente. Quantas vezes eu quis dar uma flechada em alguém? Milhares- ela fez uma careta divertida e Holly sorriu

–Você estar se sentindo fraca, é perfeitamente aceitável, isso acontece. Em três dias no mínimo, você vai ficar bem. Não vai esquecer, é claro, mas vai se sentir forte novamente.

–Eu vou te levar lá para cima, e você poderá tomar banho e descansar, mas só por três dias, ouviu? -Amy fingiu brigar com ela, mas não conseguiu segurar o riso, exatamente como elas faziam quando pequenas.

Holly estava deitada no sofá, enrolada em um cobertor rosa de modo que apenas seu pé e sua cabeça ficavam de fora. Ela assistia à uma série de tv sobre garotas da sua idade que se preocupavam com problemas normais. Contraditoriamente, logo após passou uma série sobre lobisomens.

Aquilo fez a loira lembrar de tudo que lhe aconteceu, a fazendo sentir certos calafrios. Tyler disse que em poucos dias ela se sentiria melhor fisicamente, mas por dentro ela tinha certeza que não. Ela havia retirado uma vida do mundo com suas próprias mãos, nunca esqueceria. Tinha se sentindo bem, sim, mas aquele sentimento passara, e não voltaria.

Seus olhos estavam se fechando, ela estava pronta para se deixar ir, quando uma sombra masculina parou em sua frente

–Oi Erike! -ela fechou os olhos, mas quando não obteve resposta, abriu-os novamente para levar um choque.

Quem estava ali não era Erike, Tyler, Rapha ou qualquer pessoa conhecida. Ele era alto, bonito, e lembrava o namorado de Alexis. Porém, ela conheceu bem o rapaz para saber que não eram os mesmos.

–Quem é você? — ela tentou mostrar as presas, mas só conseguiu uma grande dor.

– Você está muito fraca, querida, poupe esforços! — um outro rapaz um pouco mais velho, caminhou lentamente até se posicionar ao lado do primeiro. — Eu nunca achei que seria você à matar alguém, sempre pensei que fosse o esquentadinho ou o pai.

–Só vou perguntar mais uma vez! Quem. É. você? –ela aumentou o tom de voz, mas ele tapou sua boca.

–Eu acho que tudo tem seu tempo, mas você está muito nervosa e....não queremos chamar atenção de uma certa alfa. De certo modo, eu até a queria, mas existe um certo lobinho por aí que complicaria- Ele sorriu

–Anda logo, Reid! — um rapaz bonito com cabelos encaracolados até o ombro disse sentado na poltrona que ficava perto dos pés de Holly, e só então ela percebeu sua presença. Ele parecia impaciente, um pouco desconfortável com aquilo.

–Calma, está com medo de que seu lobinho o veja aqui? — o tal Reid devia ser o líder deles, afinal, ele agia como tal – Meu nome é Reid, e odeio sua família. Vocês vivem pacificamente como lobisomens bons, mas se esquecem da própria natureza ou então, do que fizeram à nossa família anos atrás. Vocês nos deixaram órfãos! Então, eu coloquei cada um de meus irmãos na vida de vocês, para aprender seus costumes, e achar a melhor maneira de atacar. Para lobisomens, vocês deixam a sua guarda bem baixa.

–Que?

–Caleb entrou na vida de Erike –ele apontou para o encaracolado da poltrona – Os gêmeos conheceram dois seres intrigantes da família; Camille e Raphael- dois garotos da sua idade se materializaram atrás dela – O pobre Sebastian não teve tempo de conhecer a doce Lizzie –o rapaz que havia aparecido primeiro fingiu estar triste – porque você dormiu com o Damon! –ele se irritou e então Damon apareceu ao lado de Caleb.

–Você...-ela conseguiu dizer, mas Reid puxou o queixo dela para que ela olhasse em seus olhos furiosos.

–Eu coloquei Alexis na sua vida, porque ela pediu. Ela era uma simples humana e você acabou com a vida dela! -ele falava rápido sem soltar o queixo da loira, que por sua vez, tentava se mexer, mas estava muito fraca- Eu não ia fazer isso agora, eu ia esperar e tudo ocorreria bem, mas Camille e Charles não estão em casa, você está fraca e sozinha, a única ameaça aqui é Amy,e acho que podemos lidar com ela.

–Reid,você...- um dos gêmeos começou a falar, mas desistiu e balançou a cabeça. O outro não parecia feliz com a cena.

–Sábia escolha, Daniel –ele voltou seus olhos para Holly – Uma menina tão bonita...-o rapaz ficou em pé novamente e Sebastian lhe entregou algo brilhante.

–Prata! -ela arregalou seus olhos azuis e involuntariamente tentou gritar, levantar, mas não conseguiu.

–Esperta! — ele sorriu e aproximou-se – Eu sinto muito Holly, sinto mesmo, mas você matou uma pessoa muito importante para mim, e precisa pagar por isso assim como sua família vai pagar pelo que fez à minha. A má sorte é que você é a primeira! — ele enfiou a faca no coração dela bem fundo e a retirou.

Holly se contorceu e reprimiu um grito, então sua cabeça tombou para o lado e ela disse adeus ao mundo.

[...]

Lizzie estava no porão treinando quando escutou barulhos estranhos vindo de fora. Ela subiu até um compartimento onde conseguiu ver o jardim de trás e espiou, encontrando um grupo de 4 homens indo na direção da casa. Holly estava mal, Erike havia deixado seus compromissos para ficar lá, e junto de Tyler e Amy eles tentavam resolver a situação. Rapha estava calado, provavelmente abalado com o ocorrido. Ninguém havia chamado reforços, aquelas pessoas não deveriam estar ali.

Ela pegou seu equipamento e subiu lentamente pela escada. Parou no penúltimo degrau e escutou metade da conversa, quando constatou que não poderia acabar com eles sozinha, teria que chamar por ajuda. O problema é que não dava para subir sem passar pela sala, quando alguém chegasse ela já estaria longe. O tal Reid recebeu uma faca do irmão, e ela só percebeu o que aconteceria quando Holly falou. Lizzie sentiu seu coração bater forte, e só então percebeu que Raphael estava sentado no chão da cozinha, estático, com os olhos abertos, soluçando bastante. Ela tentou chamar a atenção dele, mas então ouviu o gemido da tia, e olhou apenas para comprovar.

Seu coração estava despedaçado, ela queria cair no chão e chorar, sem se importar com aqueles que viriam atrás dela. Memórias suas com Holly passaram por sua mente, e ela começou a pensar que talvez não fosse muito tarde, talvez ela estivesse viva, mas achava que não receberia ajuda. Lizzie precisava chamar ajuda o mais rápido possível, e precisava confirmar a morte da loira, então ela liberou todo o sentimento que se acumulou dentro dela nos últimos 10 segundos.

–HOLLY! – ela gritou com todas as suas forças, pela vida que não voltaria.