Mulheres de Vênus
3 Capítulo 3 - Jogo de sentimentos
Vários olhos sobre mim. Vários olhos sobre nós.
O que ela havia acabado de fazer? Não, eu não achei nenhum pouco ruim, tive saudades daquela boca. Mas quanta, digamos, cara de pau ela teve! Jessica, principalmente, fitava-nos como quem havia simplesmente perdido o chão por alguns segundos. Raquel mantinha aquela empáfia característica da inveja que sentia. Duda e Elis nem sequer se incomodaram, mas sorriram com prazer nos olhos.
_Ops, acho que temos uma novo assunto a tratar – disse Duda e sorriu curiosa -.
_Como...como? – Jessica pestanejou ainda boquiaberta -.
Pensei falar algo, mas como sempre, Julia estava um passo a minha frente. Seu gatilho era como um flash.
_Nos conhecemos ontem na The Pub.
Provavelmente todas se perguntaram, então, como ela teve a ousadia de me beijar após um único encontro, ou como já estávamos naquele patamar. Na verdade nem eu sabia sobre patamar nenhum, mas estava adorando toda a situação. Sim, é verdade que minha barriga estava meio revirada, minha cabeça meio bagunçada e meu sorriso, incontrolável. Mas tudo aquilo era bom, a sensação de que eu estava em foco aquela noite no clube era realmente boa.
_E já namoram desde então? – alfinetou Jessica com a cara meio fechada -.
Julia sorriu e abaixou o olhar, assim como o fiz. Antes que alguma palavra fosse dita em resposta, Raquel cortou o assunto, pois sentira a breve tensão no ar.
_Hoje vamos fazer burritos. Quer vir me ajudar, Julia? Ainda não conhecemos seus dotes – brincou, simpática e Julia aceitou o convite -.
Aquele silêncio repentino pairou. Estávamos ali, sentadas à luz da lua, ao som de Nina Simone. Elis adorava a leveza daquele tipo de som e sempre o escolhia para nossas reuniões.
Duda e Elis eram um casal. A primeira baixinha, com cabelos castanho-escuros descoloridos nas pontas, porte médio e um sorriso muito convidativo. Era sempre ela quem animava nossas noites com ideias geniais ou até absurdas. Na maioria das vezes, apelava para algo que poderia se relacionar com sexo ou a própria tensão sexual em si. Já a segunda, mais alta, bem magra, vestia somente camisas xadrez e usava seu coque característico e seus mini-shorts. Era linda, mas seu senso de humor, às vezes pesado demais.
Jessica e eu fomos um casal há exatos sete dias. Ela era daquele tipo de mulher que queria tomar conta do espaço ao seu redor. Seus olhos amendoados contrastavam com a pele bem clara e seus cabelos pretos, lisos e longos. Era pouco mais baixa que eu e seu corpo dava inveja em qualquer cidadã. Eu poderia muito bem descrever cada curva que ela possuía, cada ponto forte e fraco do seu corpo, mas prefiro não alongar. É impossível dizer que meus sentimentos por ela já não existem mais.
_Pensei que fôssemos amigas – sussurrou Jessica, mas num tom audível -.
_O que foi? – perguntei-lhe -.
_Nada, eu não disse nada.
Aquele clima estranho permaneceu. Julia ajudava Raquel na cozinha, Duda e Elis tentavam mediar uma conversa que fosse entre nós quatro, mas nada estava ajudando. De tempo em tempo eu virava meus olhos para procurar pelos de Julia e, por vezes, os encontrava. Ela sorria e eu também, mas disfarçadamente. Eu observava seus movimentos e a forma como seus pezinhos pequenos se moviam pra lá e pra cá era graciosa. Outra coisa que me fascinava eram seus cabelos e as pequenas ondulações que nele se delineavam.
Quando os burritos ficaram, enfim, prontos, todas nós decidimos entrar para a casa de Raquel e comê-los em sua sala de estar. Estava frio lá fora e a lareira nos ajudaria a amenizar a sensação gelada que ficara. Sentamo-nos no chão forrado por um tapete persa de muito bom gosto e ficamos ao redor de uma mesinha de centro que ali ficava. Jessica nem sequer conversou com Julia desde o início da noite, parecia chateada. Julia, pelo contrário, estava absolutamente normal e parecia nem entender o que estava acontecendo.
Abrimos um bom vinho, brindamos o retorno do Clube das Mulheres de Vênus e começamos a comer. Duda propôs uma dinâmica simples para que animássemos a noite: cada uma teria de pontuar o sentimento mais latente que lhe ocorrera durante a noite. Começamos pela anfitriã.
_O sentimento mais latente...Hm, essa é uma boa pergunta – disse Raquel – Acho que tenho de dizer inveja.
Todas deram risadas. Era mais do que óbvio, Raquel não escondia seus olhares para Julia e nós a entendíamos muito bem. Foi a vez de Elis, pois.
_Incômodo.
_Incômodo pelo quê? – perguntou-lhe Duda, que estava sentada abraçando-a e envolvendo seus braços pela cintura da namorada -.
_Digamos que o silêncio me incomoda, principalmente quando há tensões no ar.
Nem um pouco direta, pensei.
_Sua vez, Duda – apontei para ela como quem lhe jogava uma bomba no colo -.
_Tesão.
Disparei a rir e Raquel também. Elis abaixou a cabeça como quem admitia a culpa, admitia a mão boba e admitia a safadeza descarada e chegou a corar, por isso.
_Minha vez – disse Jessica interrompendo as risadas e ficando extremamente séria – Eu senti uma traição aqui hoje. Aliás, duas.
E o silêncio pairou.
_Na verdade traição não, uma falta de respeito enorme.
Ela insistia em continuar falando. Raquel pediu que parasse, mas nada de ela se calar.
_Minha namorada e minha melhor amiga se beijando na minha frente, como se nada de mais estivesse acontecendo e eu sendo feita de boba – acrescentou com um tom irônico e irritante -.
_Eu não sou sua namorada – vociferei -.
_É sim – retrucou e me puxou belo braço, beijando minha boca a força -.
Relutei, mas não resisti ao beijo. Quis morder sua língua, enfiar meus dedos em sua cara, mas simplesmente me fiz de estátua. Meu corpo não se movia e ela não me soltava. Senti o tapete se mexer e percebi que era Julia que estava se levantando. Raquel ainda tentou pedir desculpas pelo ocorrido, mas Julia foi quem pediu desculpas por estar sendo inconveniente e intrusa onde não era bem quista.
Soltei-me do aperto de Jessica, meus olhos marejados de um sentimento que misturava mágoa, remorso, vontade e arrependimento, e levantei-me tentando ir atrás de Julia, que já havia cruzado a porta em direção ao seu carro. Apressei o passo e consegui alcança-la, já quase acionando o motor.
_Julia, espera! – gritei passando em frente ao seu carro -.
Ela abaixou o vidro, levantou a cabeça e me olhou esperando que eu dissesse algo. Apoiei-me na parte debaixo da janela e suspirei a procura de palavras.
_Me desculpe.
_Não há pelo que se desculpar. Eu não sabia da relação de vocês, sou nova aqui, lembra? Logo me acostumo a não ter tudo que quero.
Ao dizer aquelas palavras ela acelerou o carro e foi embora. Fiquei ali parada por longos minutos, com vontade de socar o ar, mas seria inútil. Raquel saiu de dentro de sua casa, veio até mim e pousou sua mão direita em meu ombro.
_Quer que eu pegue sua bolsa? – perguntou-me -.
Acenei positivamente e fiquei ali ainda esperando. Eu não voltaria e olharia para Jessica, não sabia qual seria a minha reação.
___#
Já em casa, entrei sob o chuveiro que jogava água quente em minha cabeça e fechei meus olhos. Chorei bastante, ainda desnorteada e sem rumo. Eu nunca perdoaria Jessica, nunca, mas por que diabos então não consegui fugir de seu beijo? Ainda assim, para completar minha noite, as palavras de Julia ecoavam em minha mente como um filme num disco furado. Logo me acostumo a não ter tudo que quero. A não ter tudo que quero...
Sai do banho, me envolvi somente com um roupão e me sentei no chão do closet. Encolhi meu corpo, com o rosto enfurnado entre meus joelhos e fiquei ali, protegendo-me de mim mesma. Ouvi um tintilar de chaves que vinha de longe e levantei minha cabeça em alerta. O que seria aquilo?
Sai do closet passo a passo, andando pelos cantos do corredor e quando entrei, então, na sala de estar, Jessica estava deixando sua bolsa em cima da mesa.
_As chaves – estendi minha mão para que ela entregasse. Não fazia sentido ela ainda possuir esse acesso livre ao meu apartamento -.
_Você acha que devo? – indagou e foi chegando mais perto -.
Todas as suas intenções estavam em seus olhos. Aqueles olhos que um dia me conquistaram estavam secos, agora, para mim. Indiscutivelmente, a única coisa que me tirava do sério era aquela atração física incontrolável que eu sentia por ela e vice versa.
Jessica estendeu o braço e segurou o laço que prendia meu roupão. Abaixou a cabeça para fitá-lo e começou a puxar para que ele fosse desatado. Segurei seu braço em um ato impulsivo.
_Não – limitei-me a dizer -.
_Não?
_Exatamente.
_Me diz o que você quer então? Eu sei que você ainda quer algo de mim, Lara, eu posso sentir.
Fechei meus olhos apertando-os, balancei a cabeça de um lado para o outro como quem pretende afastar um pensamento e esfreguei a mão em meu rosto devagar. Eu não sabia o que dizer, não sabia mesmo o que ainda sentia. A única certeza pairava sobre o ódio que a traição dela havia me deixado. Respirei fundo, pois, levantei a cabeça tentando, pela primeira vez, não pestanejar diante daquela soberba que me botava quase no chão, e somente joguei as primeiras palavras que me vieram a cabeça.
_Sim, eu quero algo de você. O número do telefone da sua amiga, por favor.
Talvez meu coração tenha falado mais alto.
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