Mudanças e Memórias
1 Capítulo 1
Era outono e as crianças brincavam no parquinho sendo observadas por seus pais ou babás. Escorregavam no escorregador, escalavam o trepa-trepa e cavavam buracos na caixa de areia do parque.
Garnet observava atenta uma criança de três ou quatro anos a brincar na caixa de areia. Ela manipulava os brinquedos com suas mãozinhas gordinhas e seu cabelo ondulado sacudia com o sabor do vento como as últimas folhas da estação sacudiam nas árvores. Aproximou-se uma senhora e escolheu seu lugar ao lado da gem. Vestia um xale rosa puce com adornos crocheados nas bordas, um casaco roxo desbotado de botões e uma saia quase da cor do xale. Sua pele escura tivera uma cor mais vibrante, revelando que aproveitava seus últimos dias na Terra sem ter muito contato com o sol.
ーEssas crianças quando estão brincando nem desconfiam como o ar está frio. Qual delas é a sua?
Sem desviar o olhar, Garnet respondeu:
ーAquela na caixa de areia, com casaco rosa.
ーÉ a sua filha?
ーNão.
ーAh sim… Aquela criança não me parece estranha, no entanto. Eu desconfio que já a vi em algum lugar. Lembrei, foi com aquele senhor que cuida do lava-jato, Greg o nome dele, certo? Por acaso aquela seria sua neta?
De todas as habilidades de Garnet, conversar não era a que exercia com alta proeza, porém se viu em uma situação em que a senhora ao seu lado gostaria muito que ela a exercesse e não queria sair daquela posição em que poderia observar Nora com cuidado sem parecer suspeita aos humanos, então ela respondeu:
ーSim. Aquela é neta do Greg.
ーCerto, certo. Eu também trouxe meu neto para brincar no parque. É aquele ali com blusa amarela e uma coroa na cabeça em cima do escorregador. Hoje é seu aniversário de 7 anos e ele gosta de fingir que é rei. Ele me disse hoje que o parque seria seu castelo e as crianças seriam suas súditas, mesmo que elas não soubessem. ー A senhora terminou sua fala com uma pequena risada.
O relato da mulher trouxe à Garnet lembranças da infância de outra criança. Sempre que era seu aniversário, Steven gostava de colocar um manto e uma coroa. A gem esboçou um leve sorriso ao lembrar da vez em que o menino insistiu para que todas as Crystal Gems existentes na época se cobrirem com o manto e a coroa para experimentarem a passagem de ano individual dos humanos. Não havia necessidade de resposta, porém a lembrança motivou-a a compartilhar uma informação sobre a família.
ーSteven também gostava de brincar de rei quando era seu aniversário.
A senhora surpreendeu-se com a resposta daquela mulher. Estava achando-a apática, talvez não quisesse papo. Motivada, ela deu continuidade à conversa.
ーSteven é seu filho?
Filho? Garnet nunca havia pensado muito em classificar a relação entre os dois. No início de sua vida, o garoto era um elemento que precisava ser protegido, que crescesse saudável e feliz, como era desejo de sua antiga líder. Após alguns anos Garnet havia decidido que era tempo de começar a trazê-lo às missões para que aprendesse a se tornar uma Crystal Gem e ajudasse em suas eventuais tarefas na Terra, pois previra que com o tempo ele se tornaria um membro forte e confiável. Contudo, o afeto que ela tinha por Steven apenas cresceu e, com ele, a satisfação de vê-lo progredir a cada passo, a cada descoberta, a cada barreira transposta. Ela nunca havia pensado em como seria ser uma mãe humana, mas talvez fosse algo muito próximo do que ela fora para o rapaz um dia.
ーNão. Ele não é meu filho. Ele mudou muito.
ーE como ele está agora? ー Perguntou a senhora com uma voz suave.
ーEstá quase do meu tamanho. Possui pêlos no rosto e suas mãos já não são mais pequenas.ー Disse Garnet. Seu ser foi inundado por um sentimento de nostalgia ao lembrar de como ele era pequeno, de como ele costumava agarrar sua perna e se esconder atrás dela quando estava com medo ou como ela costumava carregá-lo com tanta facilidade em seus braços. A criança que observava começou a ficar embaçada, assim como toda paisagem a sua volta, e sentiu seus olhos umedeceram. Desviando o olhar pela primeira vez naquele breve período, ela mirou as pedras nas palmas de suas mãos. A luz do Sol ao entardecer adentravam-nas refletindo seu brilho entre as facetas das joias e não se esvaiu quando uma lágrima caiu em cima da granada direita. ー Estão maiores que as minhas.
A senhora entendeu. Ela não sabia exatamente o que dizer, não sabia se aquela mulher precisava ser consolada, mas entendeu o sentimento que pairava no ar. Sem querer ser rude, ela disse:
ーÉ difícil lidar quando eles crescem. É difícil lidar também com toda mudança que vem junto. Um dia minha filha decidiu que seu lugar já não era mais em casa e resolveu viver a vida dela. Ela veio parar nessa cidadezinha depois de passar uns bons anos rodando pelo país, e aqui se estabeleceu para criar o filho. Eu me mudei recentemente para cá, para ficar com ela depois que meu marido faleceu.
Garnet já havia se recomposto e vigiava com cuidado a pequena criança que agora se ocupava de outras brincadeiras.
Mudança. Mudança era algo recorrente na Terra e passou a ser mais recorrente depois que Rose decidiu desistir da sua forma física e o Steven entrou em sua vida após nascer. E por mais que o próprio garoto às vezes fosse averso a este processo natural, era inegável que ele trouxera mais mudanças do que ela poderia prever. A única coisa que não mudaria nunca era o sentimento que ambos compartilhavam um pelo outro.
Mais ou menos nesse instante, Nora veio correndo em direção à Garnet. Com uma chegada um pouco abrupta, ela pousou suas mãozinhas nas coxas da gem e anunciou olhando para ela:
ーNeti, tô com fome!
Colocando a pequena menina em cima da sua cabeça, Garnet virou-se para a senhora e disse:
ーPreciso ir agora. Os pais dela a aguardam para alimentá-la.
ーPodem ir e vão com cuidado. Também vou chamar o meu neto para ir para casa, pois já está escurecendo. Obrigada pela conversa, minha jovem.
Soou um pouco gozado para a gem ouvir “minha jovem” de um ser muitas vezes mais novo que ela própria. De qualquer forma, ela também se sentiu agradecida, talvez não tanto pela conversa, mas por despertar em si lembranças de um tempo que parecia tão remoto e fazê-la ciente de todas essas mudanças que lhes ocorreram. Foi afastando-se do parque levando contigo todas as memórias que construira com Steven e que agora poderia construir com sua filha.
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