Mudanças

37 Capítulo 37


Betty, como uma forma de castigar seu amado, não pela briga que haviam tido mais cedo, mas sim por ele ter bebido, foi embora do apartamento dele assim que o acomodou para dormir. Ele protestou, mas acabou cedendo no fim, viu que ela tinha a razão. Ela, porém, tão logo chegou em casa não se aguentou e ligou para ele para saber se estava bem. Ficaram conversando por largos minutos ao telefone até que o sono e o álcool venceram Armando e ele adormeceu.

O dia seguinte correu tranquilo para ambos. Não tiveram nenhum incidente e nem mais nenhuma crise de ciúmes. Sempre escapavam para se verem e trocarem alguns beijos.

O outro dia, porém, não seria bom e ambos pressentiam isso. Mario e Marcela chegaram de viagem e iriam para a empresa depois do almoço. Já estava quase na hora. Armando estava na sala da presidência conversando com Betty quando escutou o alvoroço do quartel ao lado de fora. Ele então falou:

–Acho que chegaram.

Betty ficou tensa. Ainda pensava nas palavras de Marcela e se sentia mal por ela, pelo casamento desfeito. Ainda se sentia, em certa forma, culpada por tudo. Quanto a Mario, não gostava muito dele, ele foi um dos maiores responsáveis pelo seu sofrimento, mas, no fundo, sabia que devia agradecê-lo. Se não fosse por ele, Armando nunca a teria olhado com outros olhos e não estariam juntos naquele momento. Mario havia sido uma espécie de cúpido torto, o pior exemplar, mas um cúpido.

–Vamos até eles ou esperamos que venham aqui? –Armando a questionou a tirando de seus pensamentos.

–Se quiser, doutor, pode ir. Sei que Mario é seu amigo e devem ter muito para conversar. Eu ficarei aqui.

Armando percebeu que ela ficou triste. Sentou-se de frente para ela e pegou suas mãos por de cima da mesa.

–Seja lá o que estiver pensando, afaste esses maus pensamentos. Não gosto de te ver triste. Se é pela Marcela, você não é culpada de nada. O maior culpado fui eu que deixei as coisas chegarem longe demais. Se for pelo Mario, não se preocupe, não deixarei que ele te ofenda nunca mais.

Betty agradeceu com um sorriso.

Nesse momento a porta foi aberta e Armando rapidamente soltou as mãos de Betty. Marcela e Mario entraram. Armando e Betty rapidamente se puseram de pé. Mario trata logo de cumprimentar animadamente seu amigo. Marcela apenas diz um cordial “olá”. Tanto ela quanto Betty ficaram visivelmente desconfortáveis.

–E como foram as negociações lá no exterior? –Armando questiona.

–Boas. Já entregamos as pastas com os documentos e os contratos para as secretárias. Elas irão organizar tudo e logo trarão para vocês. –Marcela diz secamente.

–Fico feliz. As negociações na Venezuela também foram bem. Já deixei os relatórios na sua mesa, Marcela. –Armando diz.

–Obrigada, Armando. Vocês ainda irão precisar de mim? –Ela questiona.

–Não, acho que isso é tudo, por enquanto. –Armando diz.

–Se me dão licença, irei para minha sala. Ainda tenho muita coisa para fazer. –Marcela diz e se retira.

Assim que ela sai, Mario cochicha com Armando:

–O que aconteceu aqui? Que clima estranho é esse?

–Preciso mesmo dizer?

–Bom, doutora Beatriz, precisa algo mais de mim? –Mario pergunta.

–Não, senhor Calderón. Obrigada por tudo.

–Vamos, Armando? –Mário disse já arrastando ao amigo.

–Mario, eu...-Ele olhou para Betty como uma forma de suplica.

–Pode ir, doutor. Depois terminamos aqui. –Betty disse.

Armando suspira e se deixa arrastar pelo amigo. Assim que chegam na outra sala, Mario começa com as piadas.

–Que isso, irmão, ela já te manda assim? Agora precisa de permissão para sair com seu amigo do peito?

–Mario, por favor.

–Estou falando sério. Se ainda não se assumiram e já estão assim, imagine se casar. Ela parece ser bem pior que a Marcela. Por falar nela, ela anda estranha. Não perguntou nada de você. Achei que eu seria torturado e massacrado pra soltar o nome da mulher pela qual você se apaixonou.

–Isso é estranho mesmo. Será que a Marcela desistiu de mim?

–Isso eu não sei. Nunca entendi sua noiva.

–Ex noiva.

–Tanto faz. Mas, mudando de assunto: quantas beldades você arrematou lá na Venezuela?

–Nenhuma, não preciso mais disso.

–Tá bom, Armando. Me conta. Prometo não falar nada para a Betty.

–Estou falando sério, Mario.

–Sério?

–Sim. É tão difícil acreditar?

–Não te reconheço mais, Armando. O que te passa? Tá doente ou ela te fez macumba.

–Me apaixonei, Mario, foi isso.

Nesse momento Sandra bate a porta e Armando a manda entrar.

–Seu Armando, a senhorita Zinng está aí e deseja falar com o senhor. –Ela comunica.

–Claro. A mande entrar, por favor, Sandra. –Armando pede.

Sandra sai e logo em seguida Alejandra entra. Armando a cumprimenta cordialmente e Mario fica abobado com a beleza da mulher. Armando os apresenta. Mario fica encantado.

–E então, Alejandra, nosso amigo a tratou bem lá na Venezuela? –Mario questiona.

–Sim, senhor Calderón, ele foi todo um cavalheiro.

–Nada de senhor Calderón, só Mario. Somos amigos, não?

–Claro que sim. Amigo do Armando também é meu amigo.

–Já está aqui há muito tempo, Alejandra?

–Cheguei tem dois dias, Mario.

–E já conhece a cidade?

–Não, ainda não tive tempo.

–O que acha se saíssemos hoje para conhecer a cidade, conversar um pouco? O que acha, irmão?

–Eu adoraria. –Alejandra disse.

–Eu não posso. Hoje tenho um compromisso. Armando disse.

–Que compromisso, Armando? Não me diga que vai deixar essa bela dama sem companhia? –Mario disse olhando para Alejandra.

–Juro que me encantaria sair, mas realmente não poderei hoje. –Armando falou.

–Não há problema, poderemos deixar para um outro dia. –Alejandra disse.

–Se quiser, minha cara Alejandra, podemos sair só nós dois e deixamos esse chato de lado. Mario brincou.

–Prefiro deixar para um outro dia, Mario.

Nesse momento Marcela entrou sem bater e se assustou com a bela mulher parada na sala entre os homens. Logo viu como ela estava descontraída e a vontade com Armando. Assim que viu Marcela, Armando as apresentou.

–O que veio mesmo fazer aqui, Marcela? –Armando questionou.

–Só vim deixar esse relatório que acabei esquecendo. –Marcela diz e entrega uma pasta para Armando.

–Foi um prazer conhece-la, Alejandra. –Marcela diz e se retira da sala.

Ela vai até a mesa da Patrícia e pergunta para a amiga:

–Patrícia, há quanto tempo a Alejandra chegou.

–Tem uns dois dias, Marcy. Ela chegou no mesmo dia que o Armando.

–Foi? Muito bom saber disso. A Beatriz está na sala?

–Está sim, mas o que está tramando, Marcy?

–Nada não, Patrícia.

Marcela entra na sala de Betty sem bater e encontra a presidente trabalhando na mesa. Ela se assusta ao ver Marcela.

–Dona Marcela, posso ajudar em algo?

–O que eu te falei antes de ir, Betty?

Betty se lembra exatamente das palavras dela, mas finge que não se lembra.

–Não entendo.

–Entendi sim, comigo não precisa fingir. Parece que a fidelidade dele durou pouco. Pelo que pude perceber, ele e Alejandra ficaram bastante íntimos, não?

Betty sentia que começaria a chorar, mas segurou as lágrimas.

–Senhora Marcela, eu realmente não entendo. Se se refere ao seu Armando, eu não tenho nada com a vida pessoal dele.

–Como não? Primeiro foi a alcoviteira dele e agora...

A porta foi aberta por Armando e Alejandra e Marcela não pôde terminar a frase. Ela apenas deu um sorriso vitorioso, pediu licença e saiu da sala.

Betty olhava, com dor para Armando e Alejandra juntos. A executiva estava bem próxima a ele e segurava em seu braço. Ele estava visivelmente desconfortável e com as mãos no bolso.

–Doutora, bom vê-la novamente. –Alejandra cumprimentou Betty.

–Digo o mesmo, mas a reunião não será só depois do desfile?

–Sim, será, mas é que eu gosto de ver o andamento da produção.

–Claro, é sempre bom olhar de perto os negócios.

Armando percebe que sua Betty está estranha e desconfia ser pela presença de Alejandra.

–Doutora, a senhora vai precisar de ajuda para revisar os relatórios? –Armando questiona.

–Não, doutor. Já fiz isso.

–Não vai precisar de mim para alguma coisa? Eu posso ajudar no que for, sei que esses últimos dias estão sendo corridos.

–Não, acho que não.

Armando fica incomodado. Sua Betty não havia percebido ou fingia não perceber que ele arrumava uma desculpa para ficar com ela. Via que ela demonstrava uma preocupação no rosto que ele não conseguia distinguir o motivo. Aquilo o estava matando.

–Armando, se não se importar, eu irei ver o Hugo. Queria ver com ele como está o andamento da produção. –Alejandra disse.

–Claro, Alejandra. Pode ir lá. Já sabe o caminho não? –Armando falou sem prestar atenção em Alejandra. Não conseguia evitar olhar para Betty.

–Sei sim.

–Doutor, que espécie de anfitriões somos? Acompanhe a senhorita Zinng. Vai deixa-la sozinha assim? –Betty disse.

Armando se espantou com as palavras de sua amada. Viu que ela não queria sua companhia. Perguntava-se, mentalmente, onde tinha errado e o que fez de errado dessa vez.

–Não há problemas, doutora Pinzón. Pra falar a verdade, prefiro até ir sozinho. Armando e Hugo perto discutem muito, parece que querem se esganar. –Alejandra disse rindo e se retirou da sala.

Armando então se aproximou de sua amada, ajoelhou-se próximo a cadeira dela e tentou tocar-lhe o rosto, porém Betty se afastou.

–O que foi agora, meu amor? Por que tão distante comigo? –Armando perguntou, com a voz suave.

–Não é nada, doutor.

–Por favor, me diga. Não gosto de te ver nessa agonia. Me mata não saber o que está pensando. Fiz algo errado?

Betty não consegue mais segurar suas lágrimas e deixa elas rolarem. Armando rapidamente a envolve em seus braços. Ela se agarra a ele e chora como nunca.

–Betty, estou me assustando. Diga-me o que aconteceu.

Betty chora mais um pouco. Armando se levanta, tranca a porta e a puxa para o sofá. Lá ele se senta e a puxa para sentar-se em seu colo. Ela continua a chorar e ele apenas a acalenta em seus braços. Após alguns minutos ela se acalma e conta para ele sobre o ocorrido com Marcela. Conta as palavras dela antes de viajar e as palavras de poucos minutos atrás. Armando então compreende tudo. Ele levanta, nervoso, e começa a andar de um lado para o outro na sala.

–Como ela ousa? –Resmungava.

–Doutor, se acalme. Se não falei antes foi para que não ficasse assim. Confio em você, mas, me entenda, há momentos que me sinto inferior. Sei que não sou bonita como a Alejandra.

Aquelas palavras atingiram como nunca a Armando. Sua Betty ainda se sentia insegura. Ele se acalmou um pouco e, segurando o rosto dela a fez olhar para si.

–Betty, me ouça: Não quero ouvir mais você se depreciando assim. Você é belíssima. A mulher mais bonita que eu já vi. Sei que ainda tem insegurança, isso também me passa ao ver outros homens perto de você, mas precisa aprender a confiar de mim.

Betty o puxa e o beija. Ele se assusta com a reação da amada, mas corresponde ao beijo com fervor.

–Te amo, doutor. O amo muito.

–E você é minha vida, Betty. A amo tanto. Se agora a Marcela já sabe, não há mais razões para nos escondermos.

–Ainda acho cedo para isso, Armando.

–Por que, Betty?

–Tem seus pais, eles nunca me aceitariam. Poderiam achar que só está comigo pelo embargo.

–Que pensem o que quiserem. Não pedirei permissão deles, já sou maior e sei o que faço com minha vida.

–Mas me sentiria culpada se você se distanciasse deles por mim.

–Betty, há muito que meus pais se distanciaram de mim.

–Mesmo assim. Não quero causar um distanciamento maior.

–Tudo bem então, faremos como você quiser, mas, depois do embargo terminado, eu vou te assumir publicamente. Aconteça o que acontecer.

Armando a puxa novamente e a beija com suavidade. Agora estavam mais tranquilos. O amor dos dois passou por mais uma prova e ambos sentiam que esse amor se fortalecia a cada dia.

Continua.