Mudanças

30 Capítulo 30


O resto do dia para Beatriz foi estressante. Afundou-se no trabalho. Não queria pensar em Armando e muito menos no que Marcela havia lhe dito. Agora confiava nele e lhe doía pensar que ele poderia voltar a ser como era antes. Para ajudar seu mau humor, ainda tinha as flores que Daniel mandara. As jogou fora, mas aquilo não lhe saía da cabeça. Não entendia quais as reais intenções dele.

Mais tarde, já em sua casa, Betty recostara-se para dormir, mas não tinha sono. A verdade era que queria falar com Armando, mas não queria ligar. Ele poderia achar que ela estava o sufocando como fazia Marcela. Esperava que, como ele havia dito na carta, ligasse para ela. Estava quase adormecendo quando escutou seu celular tocar. Atendeu ao primeiro toque.

–Alô! –Betty atendeu.

–Meu amor?

–Armando, é você?

–E quem mais seria a essa hora? Mal saí e já está esperando ligações de outro homem? –Armando brincou.

–Claro que não. Sabe que eu estava justamente esperando sua ligação. Como foi a viagem?

–Cansativa. Já estou aqui no hotel, mas não consigo dormir. E você, como está?

–Com saudades. Também não consigo dormir.

–Como eu queria estar aí ao seu lado, minha doutora monstro.

–E eu ao seu, doutor monstro.

–Por que essa viagem tinha que ser justamente hoje?

–Nem me fale. Por falar nisso, adorei sua carta e as flores. Chorei de emoção.

–Foram mais simples que a do maldito do Daniel, mas foram de coração.

–Por isso gostei.

Betty e Armando continuaram conversando sobre coisas triviais. Beatriz até pensou em falar com ele sobre o incidente da Marcela, mas acabou desistindo. Não queria deixa-lo preocupado, sabia que ele poderia fazer alguma besteira e que, de cabeça quente, não trabalharia bem. Conversaria com ele quando voltasse para Bogotá.

No dia seguinte, as meninas do quartel perceberam que Betty estava mais triste, mais dispersa, mas não falaram nada. Desconfiaram que fosse o excesso de trabalho que estava tendo desde que Armando, Mario e Marcela viajaram.

Betty, em sua sala, trabalhava, mas, vez ou outra, se pegava pensando em Armando e nas palavras de Marcela. A ex noiva de seu adorado namorado havia conseguido colocar dúvidas em sua cabeça. Apesar de estar bonita, sabia que sua beleza não se comparava a das modelos com as quais Armando costumava se relacionar. Mas não lhe restaria outra coisa a fazer além de confiar nele e torcer para ser fiel.

Nesse momento, Daniel invade sua sala e a tira de seus pensamentos. Ele puxa a cadeira e se senta de frente para ela.

–O que faz aqui, doutor Valencia? –Betty questiona já irritada.

–Calma, doutora. Espero que tenha recebido minhas flores ontem. Tive um imprevisto e não consegui vir pessoalmente entrega-las.

–Recebi sim e já joguei fora. Peço que não gaste seu precioso dinheiro com coisas que irão para o lixo.

–Assim fico ofendido. Logo hoje que arrumei dois ingressos para o teatro. Estava pensando que talvez pudéssemos ir juntos.

–Agradeço o convite, mas não sigamos mais com isso, senhor Valencia. Não sei qual é o seu jogo e, sinceramente, nem me interessa. Só quero parar com esse jogo.

–Mas não é nenhum jogo.

–Então é o quê?

–Será que é tão difícil de acreditar que você me interessa, doutora?

Betty começa a ficar incomodada e até constrangida pelo rumo da conversa, mas não deixa transparecer muito e responde:

–É sim. Não vejo o que o senhor viu de interessante em mim.

–Você tem muitas coisas interessantes visíveis e outras que acredito que posso descobrir, se me der uma chance.

–Doutor Valencia, quantas vezes eu preciso falar que nossa relação é estritamente profissional?

–E quantas vezes eu preciso falar que me interessa e que farei de tudo para ganhar uma chance sua?

–Acho que o senhor deveria investir seu tempo em algo melhor. Comigo não há futuro.

–Não vou insistir mais por hoje, mas ainda me restarão 28 dias, sem a interferência de nosso vice presidente, para eu te fazer mudar de ideia.

–Desista.

–Nunca. Você só me despreza porque ainda não provou o que é bom. Lhe garanto, minha doutora, que quando eu puder te ter em meus braços, farei te esquecer de qualquer experiência que teve antes.

–Podemos parar com isso? Com esse jogo?

–Tá bem. Não insisto mais por hoje.

Daniel se levanta, aproxima da cadeira de Betty. Ela se encolhe ao sentir a proximidade. Ele se aproxima ainda mais e lhe dá um beijo propositalmente no canto da boca e se retira ao ver a cara dela de assustada.

Betty, assim que Daniel sai da sala, limpa o local do beijo. Nesse momento o seu celular toca e ela atende irritada:

–Alô!

–Nossa, amor. Que bicho te mordeu?

–Doutor, me perdoe. Estou irritada.

–Percebi. O que houve?

–Daniel. Ele acabou de sair daqui.

–Ele te fez alguma coisa? Se fez, Beatriz, eu pego o primeiro voo de volta e arrebento a cara dele.

–Calma. Ele só quer me chatear. Não me fez nada. Não darei chance para ele fazer.

–Não está me escondendo nada, está?

Betty prefere não falar do beijo que acabara de receber de Daniel. Sabendo como Armando era genioso sabia que correria o risco dele deixar a viagem de lado e voltar para fazer besteira.

–Claro que não, amor.

–Tá bem. Qualquer coisa ligue para mim. Te amo.

Nesse momento aura Maria entra sem bater e ouve Betty falar que ama alguém.

–Também te amo. Tchau.

Betty desliga e só então se dá conta da presença da secretária.

–Ui, Betty. E então, vai contar quem você ama? –Aura Maria questiona com um sorriso malicioso.

–Não sabe bater antes de entrar, Aura Maria?

–Nossa, Betty! Você está ficando chata igual ao doutor Armando. Ele que sempre grita comigo por entrar sem bater.

–Começo a dar razão a ele.

–E então, não vai me contar quem você ama?

–Não. Vou te deixar na curiosidade só para você aprender a bater na porta.

–Não seja má, Betty.

–No momento certo vocês saberão.

–Não é o doutor Valencia, é? Ele tem andado te rodeando muito por esses últimos dias.

–Nem me fale nesse senhor, Aura Maria. Ele só tem me trazido problemas.

–Anda, Betty. Fala quem é o seu amor. O Nicolás eu sei que não é. Aquele lá vive como cachorro no cio atrás da Patrícia.

–Já disse que não, Aura Maria. Agora, será que podemos trabalhar? Hoje temos trabalho dobrado.

Aura Maria sai resmungando porque não descobriu o nome do amor da presidente. Betty apenas ri. Estava ficando muito difícil esconder a relação com Armando. Sabia que, talvez até mesmo antes de terminar o embargo, teriam que se assumir. As pessoas já estavam desconfiando.

Continua.