Mudança De Planos
10 Sendo Julieta
Notas iniciais
Como sempre, nos vemos lá em baixo!
Droga. Eu estou simplesmente surtando.
-Não vou conseguir fazer isso Alice. –disse.
-Claro que vai Bella. –disse ela em um tom maternal que ela achava que iria me tranquilizar- Vai sim. Olha, você ainda tem 4 aulas pra se acalmar. Depois é só chegar lá e dizer o que você ensaiou. Nada de mais.
-Nada demais??
-Olha, sem crise. Você decorou todas as falas, Não decorou? –ela continuava com aquele tom maternal supostamente tranquilizador.
-Sim. –respondi insegura.
-E Lee também não decorou as dele?
-Sim. –insegura de novo.
-Eu decorei as minhas. Então qual é o problema Bella? Nenhum!
-Nenhum? Alice, eu e Lee somos horríveis! –agora eu quase gritava.
-Não, não sã.. –olhei assassinamente pra ela- Ok, não são dos melhores, mas o que importa? O importante é que você fez seu trabalho. Cullen não pode te dar uma nota ruim por ser má atriz!
-Duvido que ele não tente!
-Bella, primeiro: calma! Segundo: o Cullen não é o animal que você o descreve e você sabe disso! Poxa, o cara te deu uma segunda chance, ele quer que você se recupere! –ela disse de uma vez só, e eu acho que arregalei os olhos assustada- E terceiro: -ela continuou em um folego só- você e o Lee são um desastre porque vocês não tem química alguma! Para se interpretar algo tão intenso como Romeu & Julieta tem que se ter ao menos um vinculo mínimo, e vocês são totalmente dissociados! A parte do beijo? Tá horrível! Não me olhe com essa cara, estou sendo sincera! Você sabe que mesmo sendo falso aquele beijo tá muito ruim! Mas fazer o que, não é?! Agora para com esse estresse e daqui á quatro aulas entre lá e faça o melhor que você pode, tá me ouvindo?
-Tô! –gritei de volta e ela riu.
-Bom! –ela gritou, e dessa vez eu ri. Olhei pra ela e disse, sincera:
-Obrigada Alice. –e juntas fomos para a aula de matemática.
**
Entramos na sala de literatura.
Deus, eu quero sair correndo daqui. E cadê o bobão do Lee?
-Então turma-começou o Cullen- hoje nosso cronograma será um pouquinho diferente.
-Diferente, Edward? –perguntou Lauren, só pra fingir que tinha intimidade com o professor.
-Sim! Nossa querida colega Isabella –ele disse apontando pra mim e os olhos das pessoas se arregalaram- tem uma pequena apresentação para nós. Primeiro ela vai nos falar sobre o livro, e depois encenar uma cena que ela mesma escolheu.
-Bella irá representar? –comentou Tânia com Lauren, alto o bastante para que toda a sala pudesse ouvir- Piada!
-Então Isabella, pronta? –ele disse ignorando Tânia. Olhei em volta. Lee não estava lá.
-Na verdade, não muito. Lee seria meu Romeu e ele não está aqui. –eu disse, e, tenho que admitir, aliviada por poder protelar.
-Hm. Será que ele não está se preparando? Não quer ir começando com sua análise enquanto ele não chega?
-Eu poderia não? –perguntei fazendo careta- Quer dizer, não podemos fazer isso na aula de amanhã?
-Infelizmente não Isabella. –ele disse lamentando sincero- Esse é o último dia que eu tenho pra fechar as notas desse semestre, e como não tivemos prova por eu ter entrado praticamente no meio do semestre a nota desse trabalho constitui 70% da sua nota total. Ou seja, se você não me apresentar isso hoje irá zerar no boletim.
MERDA.
-Ok. Posso... começar enquanto ele.. bem, não chega.
-A classe é sua. –ele disse sentando-se à mesa dele e eu ouvi risos de Tânia, Lauren e no outro canto da sala, de Rosalie.
-Ok. –disse nervosa enquanto pegava meu trabalho e ia para frente da classe.- Bem, a obra “Romeu e Julieta” se passa na antiga Verona do século XVI, e põe em cena a rivalidade entre os Montecchios e os Capuletos –eu comecei, insegura- Uma briga de famílias que acabou por ajudar o destino à selar o final de dois jovens amantes. Em um baile de máscaras na casa dos Capuletos, Romeu Montecchio conhece Julieta Capuleto. A paixão é mútua e instantânea. -olhei para o lado e Cullen balançou a cabeça, como que me encorajando- Ao descobrir que pertencem a famílias inimigas, os dois se desesperam. Mas o ódio de uma guerra que não lhes pertencia não consegue sobrepujar o amor do casal, pois afinal, o que é um nome? Não é?! O casal opta por se casar secretamente com a ajuda do Frei Lourenço. Mas, por obra da fortuna, acabam por ocorrer desentendimentos e desencontros, o que sela o futuro de Romeu e Julieta: a Morte.
Olhei em volta na sala e todos prestavam atenção em mim. Até Tânia e Lauren. Até Rosalie. Não sei se isso devia me dar confiança ou me deixar mais insegura. Continuei:
-A peça aborda diversos outros temas, mas sem sombra de dúvidas o que mais se ressalta em toda a trama é o conceito de amor sem limites, onde a morte acaba sendo bem vinda diante da escolha de uma vida em abstinência da companhia de seu verdadeiro amor. A essência da tragédia é à força da paixão. Ela é impulsiva, indomável e muitas vezes movida por pura teimosia. É possível imaginar que Romeu e Julieta se tornaram um casal representante do romance por causa dessa força. Até as autoridades religiosas, tão rígidas ao serem retratadas em outras obras, acabam por se curvar diante dos jovens amantes de Verona. O maior exemplo disso é o próprio papel do Frei Lourenço, que recorre a diversos meios, todos criticados pela sua posição religiosa, para unir o casal. Algo que não pode deixar de ser notado em “Romeu e Julieta” é que em momento algum houve hesitação, incerteza ou dúvida, traços típicos das obras de Shakespeare, nessa reinou o amor inquestionável. Pode ser que o final seja trágico, mas o que realmente importa é que eles tinham a certeza do amor. –eu disse, quase em um folego só e incrivelmente não me senti idiota ao dizer essa última frase como eu tinha certeza que me sentiria. Olhei para o Cullen e ele me observava com certa admiração. Me senti com mais coragem pra terminar:
-Muitos se perguntam se a história dos dois jovens realmente aconteceu, ou se foi somente fruto da imaginação de Shakespeare. Não há dados suficientes para comprovar que Romeu e Julieta existiram na realidade, mas isso só torna ainda mais inquestionável à perfeita técnica utilizada por Shakespeare, uma vez que uma peça escrita tantos anos atrás continua a despertar a imaginação dos leitores contemporâneos. Talvez esse desejo de transportar “Romeu e Julieta” para a realidade se baseie no fato de que hoje a existência de um amor arrebatador, puro e verdadeiro como esse, é praticamente remota. O que faz com que os leitores se fiem na esperança de que, pelo menos um dia no mundo, o amor foi amado como se deveria.*
Olhei novamente pra sala e todos estavam boquiabertos. Com certeza pelo fato de que ninguém considerava possível alguém como eu ter uma visão como essa de um romance tão... tão romance como Romeu & Julieta. Eu sei que mentalmente xinguei muitas vezes nesse meio ano Romeu & Julieta, e tudo mais que ter a ver com romance e essas coisas melosas todas, mas pelos deuses, até alguém quase seca como eu consegue ver beleza na obra de Shakespeare!
Senti que deveria me importar com os olhares e com o fato de ter demostrado a pouca sensibilidade que tinha, mas não me importei. Só olhei para eles de novo e disse:
-Bem, eu havia escolhido a cena em que eles se conhecem no baile para encenar, mas como Lee não está aqui, acho que não vou poder fazer -disse me virando para o Cullen que me encarava paralisado. Esperei um pouco, mas ele continuava parado me olhando –Cullen? Acorda! –gritei, e mesmo assim ele demorou alguns segundos pra voltar pra realidade.
-An.. Ah.. Isabella! Isso foi.. foi.. ótimo! Como você..? -ele perguntou gaguejando.
-Você estava sequer me ouvindo? –disse agressiva de novo quando percebi que estava corando em frente a sala- Eu mereço! Lee não está aqui! E acho que nem vai chegar, o que raios eu faço?
-Bem.. Outro alguém não poderia..
-Cullen, ao contrário de bizarros como você, nem todo mundo sabe Shakespeare de cor, sabia? –eu disse e tenho certeza que ele só não revidou porque ainda estava deveras atordoado.
-É... –disse ele ainda meio perdido- Então..
-Isso mesmo! –gritou Alice se levantando no fundo da sala e vindo em direção á nós- Ao contrário do Cullen nem todo mundo sabe, mas ele sabe. Você faria isso por Bella, não professor? Você bem sabe o quanto ela precisa dessa nota!
Olhei assassinamente para Alice. Como assim ele seria meu Romeu? Não!
-Eu não acho uma boa ideia –me apressei em dizer, mas Cullen já tinha mudado a expressão no seu rosto- porque.. ér.. ele.. ele.. é o professor oras.. como vai.. como.. como vai avaliar representando?
-Eu acho que dou conta! – ele disse, já bem recuperado pro meu gosto. – Se, é claro, você não se importar de eu ser seu Romeu. –ele completou com aquele sorriso torto idiota.
Frise no “eu ser seu Romeu”.
-Me importar? Puft! Porque eu me importaria? Não tenho motivos para me importar! –eu respondi, mais nervosa do que gostaria.
-Se pra você tudo bem –disse Alice sorrindo e vindo para frente da sala- Então vamos lá!
-Éer, vamos.. A gente só..? Bem. Ok. Quer começar Cullen? Você.. Sabe.. sabe como é, não?
-Com toda certeza! –disse ele e o olhar da classe se estagnou em nós. Ele acenou a cabeça para Alice, que abaixou a luz, pegou minhas mãos e olhando nos meus olhos com aqueles enormes olhos dourados começou a falar:
- Se minha mão profana o relicário em remissão aceito a penitência: meu lábio, peregrino solitário, demonstrará, com sobra, reverência.
Ele me encarava com uma intensidade enorme e presa naquele olhar demorei pra perceber que era minha deixa.
- Ofe.. Ofendeis vossa mão, bom peregrino, que se mostrou devota e reverente. Nas mãos dos santos pega o paladino. Esse é o beijo mais santo e conveniente.
- Os santos e os devotos não têm boca? –ele falou rapidamente.
- Sim, peregrino, só para orações.
- Deixai, então, ó santa! que esta boca mostre o caminho certo aos corações. –ele disse e naquele momento eu não sabia quem ele era.
Eu não sabia quem eu era. ]
Aquela sala.. todos aqueles alunos.. nada disso existia. Só eu e ele. Edward, Romeu, não importa. Ele estava ali me encarando com aqueles olhos intensos, apaixonados. Tocando na minha mão. E era lindo. Quase poético. Não sei como consegui lembrar, mas disse a minha fala:
- Sem se mexer, o santo exalça o voto. –e ele respondeu:
- Então fica quietinha: eis o devoto. Em tua boca me limpo dos pecados. –e me beijou.
Isso mesmo. Simplesmente me beijou.
Na frente de todas as pessoas que eu não via, mas supunha que estavam ali. E eu supunha não porque me lembrava, porque eu simplesmente não conseguia pensar naquele momento, mas porque eu ouvi a sala toda arquejar em surpresa. E eu quase arquejei junto. Eu também estava surpresa com o beijo. Como eu estava surpresa! E foi um beijo único. Intenso e novo. Só que carinhoso ao mesmo tempo. Um beijo gentil, diferente de todos que eu já havia dado em qualquer um que seja. Milhões de vezes diferente dos de Jake. Um diferente bom. E eu não o afastei. Não protestei. Não o repeli. Na verdade, correspondi. Isso era assustador e perfeito ao mesmo tempo.
Eu não sei quanto durou, mas sei que quando me dei conta ele havia me largado e eu estava nos braços dele com toda a sala nos encarando. Continuei olhando nos olhos dele pelo que parecia uma infinidade. Era muito fácil se perder ali. Até que ouvi um ruído atrás. Era Alice me alertando.
- Éer.. Que.. que passaram, assim, para.. para meus lábios. –eu disse com dificuldade.
- Pecados meus? Oh! Quero-os retornados. Devolve-mos. –respondeu ele perfeitamente ainda me encarando, intenso.
- Beijais tal qual os sábios. –eu respondi como deveria, sem, no entanto conseguir desviar o olhar. Ele começou a me soltar e eu quase protestei, porém Alice interveio:
- Vossa mãe quer falar-vos, senhorita.
- Quem é a mãe dela? –perguntou ele se afastando e me deixando paralisada no mesmo lugar.
- Ora essa, cavalheiro! A dona desta casa, certamente, uma digna senhora, honesta e sábia. Amamentei-lhe a filha, a senhorita com que falastes. E uma coisa eu digo, com certeza: quem vier a desposá-la, ficará cheio de ouro.
- É Capuleto? Oh conta cara! Minha vida é dívida de hoje em diante no livro do inimigo. –ele disse, e passando a mão nervosamente pelos cabelos saiu de foco, para que pudéssemos continuar a encenação. Percebi a minha deixa e me voltando para Alice disse:
- Ama, quem é aquele gentil-homem?
- Herdeiro e filho de Tibério, o velho. –ela respondeu.
- E aquele que ora passa pela porta?
- Se não me engano, é o filho de Petrucchio.
- E aquele que ali vai, que não dançou? –falei e sem querer olhei para o Cullen no canto da sala.
- Não sei quem seja.
- Então vai perguntar-lhe como se chama. Vai! Se for casado, um túmulo será todo o meu fado.
- Romeu é o nome dele; é um dos Montecchios, filho único do vosso grande inimigo.
- Como do amor à inimizade me arde! Desconhecido e asnado muito tarde. Como esse monstro, o amor, brinca comigo: apaixonada ver-me do inimigo!
E acabou. Paramos em frente à sala e todos começaram a bater palmas. Uns, grandes palmas, pelo sucesso que tinha sido. Alguns, mas perceptivos, palmas ressentidas, pelo beijo e a veracidade daquilo. Um desses era Mike.
-Bem.. foi uma aula bastante intensa, como não temos tempo o bastante para começar matéria, vocês estão dispensados! –disse o Cullen, e todos começaram a sair- Até logo, e os exercícios que eram para hoje, ficam para serem corrigidos na próxima aula! Éer.. Isabella? –gritou ele- Posso falar com você?
-Agora não.. não vai dar.. eu estou.. bem.. eu.. preciso chegar cedo.. em casa.. chegar cedo em casa. Até.. até logo! –eu disse e saí correndo com a mochila aberta e alguns cadernos na mão.
Eu não sei por que fiz isso. Não sei mesmo. E aquela mentira deslavada “preciso chegar cedo em casa”? Ainda não era nem o almoço! E ele deve ter percebido! Com certeza percebeu! Que grande idiota eu sou!
Isso não me impediu de ir direto pro estacionamento ligar minha picape e ir direto pra casa. E não me impediu de ir direto pro quarto e me trancar lá. Não, não me impediu. Mas eu precisava. Sabia que precisava. Eu precisava não ver ninguém. Ficar sozinha. Pensar. O que, por deuses, foi aquilo? Porque ele fez isso? Era uma peça! A droga de uma peça!
Não! Não era uma peça! Foi real! Muito real! Eu sentia isso. Sentia a mão dele na minha mão. Os olhos me olhando intensos, dizendo palavras que não eram dele, mas eram ao mesmo tempo. Não era ele! Não podia ser. Era Romeu. Só Romeu. Deveria ser só Romeu! Mas não era. Quem me beijou não foi Romeu. Foi o Cullen! Eu sei que foi! Mas porque foi? Porque raios foi?
E se foi, eu gostei? Eu correspondi. Disso eu sei. Mas não deveria. E Jake? Droga, e Jake?! Se eu gostei não deveria. Realmente não deveria. Droga Bella! É seu professor de literatura! Ele é a droga do seu professor idiota de literatura! Ou você se esqueceu disso?
Não importa. Foi só na peça. No outro dia seria esquecido. Eu não pensaria assim no outro dia. Amanhã nada disso vai parecer ter acontecido. E eu vou voltar a odiar meu professor. E é isso que ele será amanhã de novo. Só meu professor.
Notas finais
Até sabadinho que vem! hehe Beijinhos e não me odeiem!
*o texto que a Bella leu eu peguei de uma resenha no skoob, se alguém quiser eu passo o link!
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