Mudança

3 Capitulo 3 - Convidados para a Reunião


— Desculpa...não entendi.

Brandon ri mais um pouco. — Não tente me entender,pobre Anna. — Ele estende a mão e toca a minha,seu toque,apesar de ser na minha mão,me causa arrepios. — Você pode ficar louca.

— Eu já sou louca. — Puxo a mão de volta,e ajeito meu cabelo,estou tremendo.

— Não,você não é. — Brandon toma uma gole do wisky. — Sua irmã é.

— Conhece minha irmã?

— Não. — Ele coloca o copo em cima da mesa. — Gabrielle é amiga de Selina,a moça que você não chegou a conhecer na festa.

Me ajeito na cadeira. — Na verdade eu conheci. — Uma das pessoas que minha irmã me apresentou se chamava Selina,era bonita,e se enquadrava nos perfis da branca de neve. Cabelo liso,e curto até as orelhas,pele branca como folha e olhos totalmente negros. — Ela chega a ser mais branca que eu...

Brandon ri com meu pensamento alto,ele está girando o copo,cheio até a metade,com os dedos. — Então,Selina é minha melhor amiga.

Cerro os olhos. — Você já dormiu com ela?

Ele me olha confuso,mas ainda sorrindo. — Por que acha isso?

Dou de ombros. — Você é um cara de dezenove anos solteiro,nada mais justo que dormir com a melhor amiga...

— Você já transou com Peter?

— Claroquenão! — Dou um pulo na cadeira. Brandon ri,como quem diz "Viu? Não se leva todo amigo pra cama." — Tudo bem...— Suspiro. — Me desculpe. Disse isso só porque,praticamente,não tenho amigos e acho que quando tiver eu...eles...ah... — Coloco as duas mãos em cima da mesa,desistindo de tentar explicar uma coisa que nunca vou conseguir.

— Você acha que todos não prestam?

— É. E eu sinto muito achar isso de você,e dos outros garotos,mas é que...

Brandon tem um sorriso em um canto dos lábios. — Você achou certo,somos um bando de cafagestes,eu,Dave,Lena...

— Lena? Mas ela...

— É pois é,sei que não parece,mas ela é uma destruidora de corações.

— Ela destruiu o seu?

— Não! — Brandon faz cara de inconformado. — Droga Anna,por que acha que eu tenho uma ligação amorosa com todos os meus amigos?

Meneio a cabeça. — Não acho que seja com todos,apenas com os que você cita. — Brandon ri. — E Willy?

— Não,nunca beijei Willy,nem...

— Não estou dizendo isso! — O interrompo e ele olha pra mim,os olhos dele são tão intensos que é impossível ficar olhando. Desvio o olhar pra meu copo,quase intocado de suco. — Estou perguntando se ele não é igual a você e a Dave e...

— Ah não,ele não. — Brandon encosta as costas na cadeira. — Ele é muito quieto nessa questão,é aquela coisa de amor por toda a vida,sabe?

— Sei.

— Mas e você? Amor pra toda vida ou por toda a noite?

Volto a olhar pra Brandon,ele está mordendo os lábios e rindo. Não é aquela atitude que se faz para parecer sexy,é uma atitude de divertimento,e sem querer,ele ficou incrivelmente sexy. — Não,eu não gosto.

— Do que,exatamente? — Ele franze as sobrancelhas.

— De,ser igual a minha irmã. — Dou de ombros.

— Sei que sua irmã é louca,mas não sei se ela é amor de uma noite ou de uma vida.

Dou de ombros,denovo. — Ela é os dois misturados.

— Então você não gosta de nenhum dos dois?

— Não.

— Gosta do que então?

— De desenhar.

— Não estou falando disso. — Ele dá uma golada.

— Eu sei. — Tomo um gole do suco de morango. — Mas...eu não beijo muito. Eudesenho muito.

— Ah...

Coço a cabeça,estou meio nervosa. — Olha,eu estou indo pra casa. — Me levanto. — Obrigada pelo suco.

Brandon se levanta e se aproxima,um frio gostoso toma conta de mim,acompanhado pelo melhor perfume de todos,que faz coçar meu nariz. — Deixa eu te levar pra casa. — Ele levanta a mão e acaricia minha nuca,enfiando os dedos pelos cachos castanhos do meu cabelo,isso me causa arrepios.

— Por quê? — Pergunto,quase fechando os olhos.

Ele me puxa,e aproxima a boca do meu ouvido. — Questão de segurança.

— Eu não acredito que você não beijou ele! — Peter esbraveja. — Você é idiota?

Olho para os lados. — Peter cala essa boca!

— Você é burra Annabelle! — Ele esbraveja de novo e eu coloco o dedo na boca,pedindo pra ele ficar quieto. — Você é burra. — Ele repete,dessa vez bem mais baixo. Se a mãe dele ouvir,vai contar pra minha,e a minha vai contar pro meu pai,que irá contar pra minha irmã,e isso é ruim.

— Por quê?

— Ah... — Ele ri,e ajeita os óculos. — ...o cara te pegou pela nuca! Nuca! N.U.C.A!

— E daí?

Peter coloca a mão na cabeça,parece muito irritado. — Annabelle,quando um cara te pega pela nuca e sussurra no seu ouvido,ele quer beijar você!

— Mas ele não beijou.

— É claro que não! Nessas horas são vocês,mulheres,que tem que tomar a iniciativa!

— Nós?

— É! Estamos tentando atingir o limite de vocês...chegar ao ponto que vocês não aguentam mais...isso é excitante!

Olho pra Peter. — Só porque você virou bissexual acha que sabe de tudo agora.

— Cala essa boca. — Peter me taca um ursinho de pelúcia,que eu dei pra ele,quando éramos crianças. — Minha mãe não pode saber. — Ele cochicha.

— Tudo bem. — Pego o ursinho,que batizamos de Raj,e me deito na cama. — Minha irmã também não pode saber de Brandon,o.k.?

— O.k. Segredo nosso.

— Segredo nosso. — Sorrio e abraço Peter.

Uma brisa fria entra pela janela do quarto,podemos ouvir Daisy,mãe de Peter,assistindo televisão no quarto da frente. Nós dois já estamos de pijama,prontos pra dormir.

Sempre durmo em Peter,e ele dorme em casa,sempre estamos juntos a noite,quase todas as noites da semana,pra falar a verdade. Decidi vir pra cá,depois que Brandon me deixou em casa,porque Peter me ligou pedindo pra conversar...essa nova fase está sendo difícil pra ele,afinal,nunca pensamos que ele ia virar bi. Eu,sendo amiga,estou tentando ajudar da melhor maneira possível : aceitando.

Poderia também dizer que ele não é bi de verdade,e só se sente assim porque,segundo Brandon,Willy e Lena,David é um cara especial,que consegue tudo que quer. Mas acho que Peter iria se sentir meio ofendido.

Me aninho no peito de Peter,ele já parece estar meio que dormindo. Fecho os olhos,sem tentar pensar muito em Brandon,porque,se não,é capaz que eu não durma.

Desço as escadas coçando os olhos,ouço Daisy falando empolgada sobre algo,e Peter concordando,aparentemente entediado.

— Bom dia,mãe dois. — Murmuro,chamo Daisy de "mãe dois",assim como Peter chama Sonia (minha mãe),porque nós fomos criados juntos,quando éramos vizinhos.

— Bom dia querida,eu já fiz o seu prato : panquecas com muita calda. — Daisy diz toda sorridente,enquanto lava a louça,fazendo um barulho maior que o comum.

Me sento no mesmo lugar que sempre sento quando vou na casa de Peter,de frente para a janela,de costas para a porta. Peter está do meu lado,e sorri pra mim.

— Obrigada mãe dois. — Falo enquanto Daisy se senta,na nossa frente,e nos olha ansiosa. — O quê foi?

— Eu tenho uma coisa pra dar pra vocês dois,prometam que vão usar.

— Não posso prometer isso,vai que é um tutu de balé? — Peter olha pra mim e ri,eu o dou uma cotovelada. — Ai.

Daisy ignora e volta a se levantar,indo até a bancada e voltando com uma caixa pequena de couro,tem os diâmetros de um livro de duzentas páginas. — É de família...

— Iiiiiih...

Dou outra cotovelada em Peter. — O que é?

Daisy se senta e abre a caixa,me inclino pra olhar,dois colares de prata,um evidentemente mais feminino que o outro,estão sobre espumas. Os pingentes são idênticos,e parecem uma garrafa. — O que é isso?

— É um símbolo dos Dolfini,foi usada por séculos,esses...— Ela indica os colares na caixa. — ...foram dos meus avós,e agora estou dando pra vocês.

— Por que eu usaria um negócio desse,que pertenceu ao meu bisavô?

— É pra proteger vocês dois,todos Dolfini usa.

— Você não usa.

Olho para o pescoço de Daisy,ela usa sim,um dourado. — Você que nunca reparou.

Peter me olha irritado. — Ta,mas por que só nos dando agora?

— Crianças não precisam desse tipo de proteção,por isso não dei antes,agora coloquem logo,e não tirem mais.

Olho pra Peter,ele bufa e pega o colar mais masculino,abrindo e o colocando no próprio pescoço. Repito o que ele fez,pegando o que sobrou.

— Obrigada. — Sorrio,sentindo o pingente gelado bater um pouco acima do meu peito.

Acabamos de sair da aula,e não sei porquê estamos parados na calçada,olhando para a rua. — Peter,o que foi? Vamos logo!

— Estou esperando Willy.

— Hãn? Por quê? Quê Willy?

— O Willy. — Peter desgruda o olho da rua pra olhar pra mim. — Aquele...que conhecemos na festa.

— Por que ele vai vir aqui?

— Está vindo nos buscar,pra irmos na festinha,dele. — Peter volta o olhar para a rua.

Uma onda de raiva toma conta de mim,e eu dou um tapa nele. — Festa? — Dou outro tapa. — Eu não quero ir em festa nenhuma! — Começo a estapeá-lo. — Você sabe que eu não gosto de festa! Você ficou doido? Não acredito que você disse onde estudávamos pra um estranho! Eu vou te matar!

— Ei,ei. Calma mocinha. — Me viro para estapear,também,quem disse isso,e me deparo com Willy,não tinha reparado que ele era tão sexy. Os olhos verdes dele correm pelo meu corpo,parando no pingente,ele meneia a cabeça. — Só vão estar pessoas conhecidas lá,eu,Brandon,Lena...é uma reunião de amigos.

Olho pra Peter,ele está rindo. — Vamos? — Parece que meus tapas não o afetaram.

— Ta. — Por que ele não me disse isso ontem?

— Ah,agora sim,sem violência. — Willy sorri. — Venham,eu estacionei aqui perto.

— Você dirige?

— Você tem um carro só seu?

Willy sorri,ele faz muito isso! — Vocês acham mesmo que eu iria vir buscar vocês sem um transporte decente?

— Eu não achei nada. — Olho de relance pra Peter. — Até porque meu querido,único,amigo poupou as palavras e não me contou que tínhamos compromisso.

— Você vai mesmo ficar irritada comigo?

— É,você vai mesmo ficar irritada com ele? — Willy aperta meu ombro. — Vai ser legal.

— Ta,mas eu tenho que ligar pra minha mãe...

— Não. — Peter abaixa a mão que eu estava levantando para pegar meu celular no bolso da calça jeans. — A minha mãe já sabe,está tudo bem.

— Sério? — Olho pra ele indignada. — Você contou pra sua mãe e não contou pramim? — Paro e cruzo os braços.

Peter abre a boca pra falar alguma coisa mas não sai nada,durante segundos. — Eu...

— Não importa,vamos logo,se não chegamos atrasados. — Willy se enfia no meio de nós dois e vai nos guiando pela rua.

Musica boa está tocando no rádio,estamos dentro da caminhonete de Willy,e ele está cantando junto com a música,que eu infelizmente não conheço. Peter está visivelmente sem graça,e olha pra mim com desconforto quando eu o cutuco ou o ignoro.

Uma pontada de culpa e arrependimento está se formando dentro de mim,estou sendo muito dura com ele sem necessidade. Mas logo passa,e estamos totalmente bem de novo.

— É aqui. — Willy desliga o rádio e para o carro. — Bem-vindos a casa dos amigos mais estranhos da terra.

Me inclino em cima de Peter,na direção da janela,pra ver a casa. Parece uma daquelas casas antigas,mas é enorme,posso ver a janelinha do sótão lá em cima. Eu,particularmente,amo sótãos,pois o sótão da minha casa é o lugar onde mais desenho,e onde deixo meu desenhos também,pois ninguém nunca quer subir no sótão. — Vocês moram juntos.

— No momento,sim. — Willy responde,e ouço o barulho da porta se fechando,logo ele está na frente da casa indicando o caminho de pedras cinzas até a porta,de madeira,quase que preta. — Vocês vão ficar aí fora?

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.