Mudando os Rumos

4 Capítulo 4


Notas iniciais
Espero que gostem!

Capítulo 4

Abro meus olhos, já é de manhã.
A luz do sol invade todo o meu quarto, com uma leve brisa que faz a cortina esvoaçar.
Sento na cama, o lençol desliza sobre meus seios deixando-os desnudos.
Sinto mãos envolverem minha cintura, me dando um abraço por trás.
Sinto o peito firme do homem encostando em minhas costas.
Um abraço firme, porém gentil, quente, sensual.
Sinto seus lábios encostarem em meus ouvidos e sussurrar:
— Eu não disse que você roncava?


Acordo de repente.
Aquela voz... Sim, eu reconhecia aquela voz...
Quando, de repente, vejo um homem sentado em minha frente na cadeira da escrivaninha.
Dei um grito.


— Do Contra! O que você tá fazendo aqui? – digo com verdadeiro espanto.
— Co — co — como você entrou aqui? – digo gaguejando.
— Entrei pela janela, estava aberta. – ele disse sorrindo.
— Você ficou louco? Como ousa entrar assim no quarto dos outros? – nesse momento eu já estava gritando.
— Calma, não precisa ficar nervosa. Eu só entrei aqui pra te provar que você ronca enquanto dorme.
— O qu — quê? Como assim? – pergunto confusa.
— Eu gravei você dormindo, e agora posso te provar que você ronca. – disse ele sorrindo e me mostrando um pequeno gravador.

Senti meu rosto corar violentamente, entrei em pânico ao me lembrar do sonho.
Merda... merda, merda!
Será que eu havia falado alguma coisa indevida?
Será que fazia tempo que ele estava ali?
Sorte que eu estava dormindo de pijama...

— Eu não tô acreditando no que eu tô ouvindo...
— Eu sei que você gosta de ser diferente de todo mundo, mas isso já é demais! Entrar no quarto dos outros sem ser convidado, ou melhor, invadir... – disse me levantando da cama furiosa e indo direto para a porta.

Abri e fiz um sinal para que ele saísse.

— Ok... Eu já entendi. Acho que passei um pouco dos limites. Me desculpe. – disse ele de cabeça baixa indo em direção para a porta.

Quando ele já estava no corredor, me lembrei que ele havia dito que tinha feito uma gravação.
Não! Eu não podia deixar que ele fosse embora sem saber de seu conteúdo.
E se eu tivesse falado alguma besteira?

— DC, volta aqui! – dei um grito.

Ele parou no meio do corredor e se virou olhando para mim.

— Vem cá. Eu quero ouvir essa gravação. – disse num tom imperativo.

Ele voltou e veio até mim me entregando o pequeno gravador.
Era um daqueles gravadores antigos, que ainda se usavam pequenas fitas k-7.

Peguei o gravador da mão dele, e ouvi a fita.
Era uma gravação curta, devia ter pouco mais de um minuto.
Para minha surpresa, eu realmente roncava. E para minha sorte, não havia dito nada.
Senti uma onda de alívio.

— Viu só? – disse ele dando um risinho.
— Só você mesmo pra fazer uma coisa dessas... Você tem sorte que eu não sou a Mônica, senão você tava perdido.


Quando terminei a frase, vi que sua expressão mudou. Ouvir o nome da Mônica ainda mexia com ele.
Não pedi desculpas, ele merecia! Afinal, tinha invadido a minha privacidade. Mas mesmo assim, me senti culpada.

— Acho que é melhor eu ir. Ia te convidar pra tomar um sorvete, mas pelo jeito você ainda tá brava comigo.
— Sorvete? Essa hora?
— Sim! Eu sempre tomo sorvete de manhã aos domingos.

Argh... Ele ainda continuava com aquelas manias estranhas.

— DC, DC... Não sei o que eu faço com você. – digo sorrindo de leve.

Após o susto e um pouco mais calma peço que ele entre e fique esperando no meu quarto, enquanto eu tomava banho.
Antes de sair, achei melhor comer alguma coisa. Afinal não era saudável consumir uma quantidade enorme de açúcar com o estômago vazio.
Dona Benedita já havia posto a mesa do café da manhã com pães, queijo, geléia, frutas, suco e café.
Bendita Benedita!
Ele por sua vez, cedeu e acabou comendo um pouco junto comigo.

Fomos em direção à sorveteria, ela havia acabado de abrir. Devia ser por volta de umas dez da manhã.
Tomamos nosso sorvete e ficamos conversando.
Eu ainda estava um pouco brava com ele pelo que havia acontecido mais cedo e lhe dei uma bronca.
Ele apenas sorria.
Aquele sorriso charmoso que tanto me encantava e ao mesmo tempo me fazia sentir culpada, afinal eu ainda era namorada do Quim.

Depois do sorvete, demos uma pequena volta no bairro e voltamos para a pensão pro almoço.
Ele tinha ensaio na nova banda e me convidou para assistir.
A banda tocava covers de diversas bandas dos anos 70 e 80. Joy Division, The Smiths, Sex Pistols, The Clash, The Cure, The Doors…
Já era noite e eu nem havia me dado conta.
Havíamos passado o dia todo juntos.
Estava tão feliz, como há muito tempo não me sentia.
Ele me acompanhou até a casa.

— Adorei passar o dia com você DC, obrigada! – disse lhe dando um beijo no rosto.
— Era o mínimo que eu podia fazer, depois de ter pisado na bola hoje cedo. – disse ele sorrindo timidamente e passando a mão nos cabelos.
— Eu ainda estou brava, mas te perdoo. – digo sorrindo.

Apesar do DC ter sido extremamente sem noção, ele soube compensar muito bem o dia.
Nos despedimos.
Entro no meu quarto e meu telefone toca.
Era o Quim.

— Oi fofo! – digo animada.
Oi fofuxa. Desculpa não ter ligado mais cedo, eu estava ocupado.
— Sem problemas.
Pelo jeito está feliz, sua voz está tão animada!
— Estou sim, hoje não fiquei enfornada em casa.
Que ótimo! E o que foi que fez de bom que te deixou tão alegre? Viu a Mônica?
— Não, eu e o DC passamos o dia juntos, foi ótimo!

Silêncio.

Ah é? Você e o Do Contra passaram o dia juntos? Não sabia dessa proximidade de vocês.— disse ele num tom de voz sério.

Oops... Acho que eu havia dito aquilo de uma forma efusiva demais.
Apesar de nem sempre demonstrar, o Quim era bastante ciumento.
Ainda mais depois que ele descobriu que eu tinha uma grande “admiração” pelo professor Rubens no colégio.
Tentei remediar a situação.

— Ah fofo, mas de quem eu senti mesmo falta foi de você, pensei em ti o tempo todo! – menti.
Sim, claro... Vou fingir que acredito.
— Você está chateado comigo fofo?
Eu chateado? Só porque a minha namorada passou o dia todo com outro cara? Imagina.— disse ele num tom sarcástico.

É, definitivamente ele estava chateado, e pior, morrendo de ciúmes.
Aquela discussão ainda se arrastou por um bom tempo.
Quando finalmente desliguei o telefone comecei a chorar.
Me sentia culpada por ter passado o dia com o DC e me sentido feliz por isso.
Me sentia culpada por mentir que tinha pensado no Quim sendo que sequer havia lembrado dele.

Fui dormir chorando naquela noite.

Notas finais
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