Mrs. & Mrs. Swan-Mills
13 Manhã de Natal
Notas iniciais
EMMA
Meus olhos estavam pregados na porta do toalete como uma pulga num cachorro sarnento. De jeito algum eu deixaria aquela mulher escorregar entre meus dedos.
Eu conhecia aquele lugar pelo avesso. E principalmente o banheiro feminino. O problema que Regina o conhecia tão bem quanto eu.
Mas isso agora não vem ao caso.
Então sabia que ali não havia janelas. E sabia que Regina era esperta o bastante para não tentar fugir pela porta dos fundos — ninguém ousaria atravessar a cozinha daquele chef a não ser que tivesse instintos suicidas.
“Nenhuma saída, linda, a não ser para os braços da gatinha aqui.”
Esperei, olhei para o relógio, continuei a esperar. Ela estava demorando demais. Talvez não estivesse se sentindo bem. Quem sabe estava mais abalada do que sugeria aquele seu rostinho impassível? Eu estava prestes a conferir o que se passava com ela quando...
A camareira do banheiro das mulheres passou por mim como um morcego saído do inferno, como se tivesse visto o diabo com os próprios olhos.
Ou talvez a diaba.
Oh-oh...
Levei a mão ao coldre. Merda, a arma tinha ficado em cima da mesa. Antes que eu pudesse me virar para buscá-la...
Cabuuuum!
O chão tremeu. Os candelabros chacoalharam. A porta do banheiro começou a cuspir fumaça. E então a baderna se instalou. Os alarmes dispararam. Os aspersores começaram a jorrar água. As pessoas gritavam, atropelando cadeiras rumo às saídas de emergência.
Voltei à minha mesa e peguei a arma. Tentei abrir caminho através da multidão, mas a histeria era ainda maior.
Foi então que a vi, cabeça baixada, passando pelo estande da recepcionista junto à porta principal. Tentei alcançá-la, porém mal pude me mexer. Regina desapareceu na multidão como um fantasma.
Mas até então eu não tinha tirado os olhos de cima dela. Em nenhum momento se deu ao trabalho de virar o rosto para ver se eu ainda estava ali, se nada tinha me acontecido.
Mas por que faria isso? Os fogos de artifício eram obra dela, uma cortina de fumaça para sua fuga. Uma homenagem à sua independência. Mas eu não deixaria aquilo barato em hipótese alguma.
Peguei o meu sobretudo na cadeira — afinal não é porque estou jurada de morte que vou arriscar pegar um resfriado — e tomei o rumo da porta, abrindo caminho a cotoveladas.
Por fim cheguei na rua — a tempo de ver Regina se escafeder no Mercedes-Benz.
Merda! Chutei o ar à minha frente, furiosa comigo mesmo. Ela tinha conseguido mais uma vez.
E agora? Olhei na direção que ela havia tomado, pensando no que fazer.
Alguém me tocou timidamente no ombro. Virei-me para trás para ver o que era.
— Desculpe a intromissão — disse um dos refugiados do restaurante —, mas o senhor não está... ticando?
Olhei para o cara. O infeliz devia estar bêbado como um gambá. Mas eu não tinha tempo para...
Tic-tic-tic...
Filha da puta! Eu estava mesmo ticando!
O barulho vinha de algum lugar no meu sobretudo, mas de onde? E em que momento ela tinha colocado aquilo ali?
Caralho, eu tinha dado aquele mole todo, babando por ela como um cachorro carente, enquanto a vadia bancava a gostosona só para plantar alguma coisa no bolso da porra do sobretudo!
O ruído parecia vir de todos os lados. Foda-se! Tirei o sobretudo o mais rápido que pude e joguei-o para o...
Buuum!
Pedacinhos de sobretudo caíram do alto como confetes ao vento.
O sujeito que me havia alertado tremia debaixo de uma caixa de coleta dos correios. Agora eu estava realmente fula da vida.
Eu adorava aquele sobretudo.
REGINA
Fugir. Mas do quê? Para onde?
Como o célebre mágico Houdini, eu havia conseguido escapar daquele restaurante contrariando todas as probabilidades. Mas meu coração ainda estava atado por cordas e correntes.
A partir dali, para onde eu deveria seguir?
Reduzi a marcha do Mercedes para dobrar uma esquina. Puxa, como eu gostava de dirigir aquele carro, especialmente à noite. Nessas ocasiões eu conseguia convencer a mim mesma de que a vida tinha lá o seu propósito, de que eu estava indo para algum lugar, e ainda por cima em grande estilo.
Mas naquela noite foi diferente. Eu ainda sentia o gosto do champanhe nos lábios, o cheiro da fumaça nos meus cabelos. Sentia-me como uma maluca esquizofrênica. Que diabos eu estava fazendo?
Ao longo dos últimos seis anos minha vida nunca havia carecido de sentido. De um lado eu tinha meu trabalho, o perigo, a adrenalina; de outro, uma casa linda e bem organizada, festas na casa dos vizinhos, um jardim perfeitamente cuidado. Jantares às sete.
Sempre havia me esforçado para arquivar, organizar e compartimentar minha vida. Para ser a melhor agente, a melhor esposa, a melhor amante... No entanto, levando-se em conta minha infância, eu não tinha a menor condição de saber o que de fato constituía um lar feliz.
Portanto, seguia fabricando uma ideia de perfeição a partir do pouco que conseguia captar quando olhava furtivamente pelas Janelas de outras famílias, para a vida de outras pessoas.
Quanto à minha própria vida, era perfeita apenas do lado de fora. Sempre faltava algo, mas eu nunca conseguia saber exatamente o quê.
Agora meus dois universos paralelos, antes na mais perfeita ordem, haviam se misturado irremediavelmente — as fronteiras haviam se diluído. Todos os arquivos tinham sido lançados para o alto.
Minha vida havia escapado ao meu controle, e eu estava morrendo de medo — o que deixaria minhas colegas da Magic-Click chocadas. “Regina Mills não tem medo de nada”, diriam.
Mas elas estavam enganadas. Aquele abalo sísmico no meu mundo havia me deixado com todos os fios de cabelo em pé.
Liguei o rádio na esperança de tirar da mente aqueles pensamentos negativos. Num programa de entrevistas, uma apresentadora de voz rascante tentava ajudar uma mulher que reclamava de seu casamento à beira da falência.
Fiz menção de mudar de estação, mas os comentários dos ouvintes captaram meu interesse.
— Eu faço tudo — reclamava a mulher. — Trabalho fora, faço ginástica na hora do almoço pra garantir a forma, cozinho um jantar com minhas próprias mãos todas as noites, meus filhos são os melhores alunos da escola e minha casa, bem, dá pra lamber o chão de tão limpa que é.
— Então qual é o seu problema? — perguntou a apresentadora. — Seu marido bebe?
— Socialmente...
— Bate em você?
— Claro que não!
— É infiel?
— Nunca foi.
— Então qual é o problema, Regina?
Para completar, a mulher se chamava Regina também...
— Todas as noites meu marido se senta à minha frente durante o jantar e olha para mim como se eu nem estivesse ali...
— Entendi —disse a apresentadora. — Sabe o que você precisa fazer, Regina?
— O quê? — eu sussurrei em uníssono com a outra Regina.
— Esquecer do maldito jantar, mandar as crianças pra casa da avó e botar pra quebrar na cama, meu amor. Esqueça um pouco da casa! Ninguém vai morrer por causa disso! Pare de bancar a escrava diante do fogão! Comida é comida, minha linda. Você pode encomendar qualquer coisa na padaria da esquina. Preste atenção, Regina. Sexo tem a ver com mistério, com selvageria. Tem a ver com desordem... até mesmo com perigo. É um passeio de montanha-russa que vira você de cabeça pra baixo e te faz perder o ar. E se você se permitir perder o controle... Aí então, minha amiga, você vai ver estrelas!
— Mas é que eu...
— Acredite em mim, Regina. E todas as outras Reginas que estiverem me ouvindo neste momento. Se sua vida perfeita não está preenchendo seu vazio, é possível que ela tenha se transformado numa caricatura da sua própria fantasia. Amigas, vocês precisam chacoalhar as coisas um pouco! Parem de pintar porcelana e comecem a pintar como Picasso! Façam uma bagunça, pelo amor de Deus! Esqueçam as roupas do marido no chão... depois de arrancá-las do corpo dele, é claro! E outra coisa...
Com as mãos tremulas, mudei de estação. Uma voz masculina, muito grave, dizia: — E agora vou levá-los numa viagem madrugada afora, uma viagem gostosa e sexy, com... “Jazz para apaixonados”. E lembrem-se: nós ficaremos de pé enquanto vocês estiverem de pé. “Tenha a santa paciência!” Já estava disposta a desligar o rádio quando o celular tocou.
“Quem poderia...?” “Emma.”
Seria ela mesmo?
Abri o aparelho e conferi o identificador de chamadas. Sim, era ela.
Meu coração disparou como se sofresse uma overdose de cafeína. Mas não sabia dizer se isso era uma coisa boa ou uma coisa ruim. Hesitei, mas depois atendi.
— Alô.
— Essa foi a segunda vez que você tentou me matar hoje.
Caramba, com aquela voz ela poderia virar um superstar do sexo por telefone. Ainda bem que eu tinha acabado de reduzir diante de um sinal vermelho.
— Ah, não chora, vai —eu disse com uma calma afetada. — Foi só uma bombinha.
— Quero que você saiba — ela rosnou— que estou indo pra casa e, chegando lá, vou queimar cada objeto que você comprou em toda a sua vida.
Acelerei o motor, fazendo-o rugir. Foi como se Emma tivesse dito: “Estou indo pra casa pra fazer amor até você implorar pra eu parar.”
Abri um sorriso de voracidade; afinal, eu ainda não havia jantado.
O sinal ainda estava vermelho, mas quem se importava com isso? Não havia ninguém na rua, e talvez a mulher do rádio tivesse razão. Um pouco de perigo, uma voltinha na montanha russa...
— Vamos ver quem chega lá primeiro — sussurrei. Engatei o drive e pisei fundo o acelerador.
EMMA
Caralho, com aquela voz ela podia virar uma superstar do sexo por telefone.
Meu coração batia a mil por hora. Seria o perigo? A adrenalina? Ou quem sabe seria outra coisa?
Não parei para analisar meus sentimentos; sabia apenas que precisava meter as mãos no meu algoz antes que a noite chegasse ao fim. Só depois poderia parar um pouquinho e refletir sobre o assunto.
Um sedã preto tinha acabado de estacionar junto ao meio-fio. O motorista passou a cabeça pela janela e ofereceu:
— Limusine, senhora?
Olhei o carro de ponta a ponta. Exatamente o que eu precisava.
Minutos depois eu estava a caminho da auto estrada, costurando o trânsito como uma maluca. A mão esquerda no volante, o celular na direita. Digamos que eu tinha dado ao motorista uma noite de folga.
“Espero que ele não leve uma multa por minha causa”, pensei. Eu tinha um encontro, e nada nesse mundo me faria chegar atrasada.
E dali a pouco a auto estrada já se esparramava à minha frente, levando-me de volta ao que um dia tinha sido a minha casa. Onde minha adorável esposa esperava por mim, como sempre.
Mas não como sempre.
Minha mulher não era mais a mesma pessoa; talvez nem fosse mais a minha mulher!
Olhei para a rodovia.
Olhei de relance para o celular.
Olhei de volta para a rodovia.
— Foda-se — eu disse, e apertei um dos números da memória. Claro que estava ligando para Regina, para quem mais poderia ser? E ela não teve a menor pressa para atender.
— Ainda não chegou? — foi logo dizendo, sem nenhum “alô”.
— Preciso saber de uma coisa — falei secamente. — A primeira coisa que passou pela sua cabeça quando me viu pela primeira vez.
Silêncio absoluto. Pelo menos uma vez na vida, nenhuma resposta, nenhuma piadinha inteligente. Ela estava desprevenida.
— Eu respondo se você responder primeiro — disse por fim.
“Ah, não, não vai ficar de sacanagem agora, não!”
Eu estava farta de jogar. Nosso casamento inteiro tinha sido um jogo. Queria, nem que fosse por uma única vez, deixar toda aquela encenação de lado.
— Você parecia uma manhã de Natal — respondi. — Não saberia como dizer de outra forma.
Achei que o silêncio fosse se estender por toda a eternidade. Depois:
— Por que está me dizendo isso agora?
— Acho que... — Meu Deus, por que será que eu estava fazendo aquilo? — Acho que, quando chegamos ao fim de alguma coisa, automaticamente pensamos no início dela.
Regina não disse nada. O barulho do trânsito vazava pelo telefone. Com certeza estava dirigindo com a janela aberta. Eu podia imaginar seus cabelos varridos pelo vento.
— Achei apenas que você devia saber a verdade.
Regina continuou muda.
Dava a impressão de que tinha caído no sono. Ou parado para reabastecer. Teria ouvido alguma coisa do que eu disse? Minha vontade era de gritar. “Fala comigo, Regina. Porra, diz alguma coisa!”
— Então vai, fala — pedi. — Diz a verdade.
— Quando te vi... — a voz agora era suave, amena. — Achei que...
— Fala — sussurrei.
— Achei que você era a mais linda...
Uma pausa. Meu peito pulsando como um tambor. Mas devo ter interpretado mal as coisas, pois a voz dela era bem outra quando terminou a frase:
— ...missão que eu jamais tinha visto em toda a vida.
Balancei a cabeça, muda, digerindo aquelas palavras. Saboreando cada uma delas.
Tinham gosto de merda.
— Então pra você foi sempre uma questão de negócios — eu disse. — Desde o início.
— Desde o início — ela disse. — Negócios. Pura e simplesmente. “Anda, mulher, dá logo um chute na minha bunda e acaba logo com isso!”
Caí duas faixas para a esquerda e segui pela pista de alta velocidade. E aquela mulher com cara de bunda no espelho retrovisor, quem era? Engraçado. A babaca era a minha cara.
Mas achei que devia agradecer-lhe. Por ter mantido a cabeça fria, por ter-me dado a oportunidade de esfriar a minha própria cabeça.
— Obrigada — eu disse, com propósito. — Era isso que eu precisava ouvir.
Desliguei o telefone, minha armadura de ferro já de volta ao seu devido lugar.
Eu tinha um trabalho a fazer. Naquele ramo não havia espaço para sentimentalismo barato. Pisei fundo o acelerador.
REGINA
Manhã de Natal. Ela disse que eu parecia uma manhã de Natal.
Passamos os últimos anos do nosso casamento nos afogando no mais completo tédio, agindo como se fôssemos um casal de robôs pré-programados, e só AGORA ela me aparece com essa história de manhã de Natal?
Isso era demais para mim. Paixão, raiva, medo, sexo... Tudo isso eu tirava de letra.
Mas uma declaração como aquele, não.
Ela havia deixado a porta entreaberta. E eu havia olhado pela fresta, cheia de desejos... mas apavorada. Emma havia se revelado uma mentirosa de marca maior, capaz de jogar os jogos mais perigosos com inquestionável competência e a mais absoluta frieza. Eu já não sabia mais quem ela era, o que era real, o que não passava de uma simples tática de guerra.
Portanto, alguma coisa me fez pisar no freio.
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