Mrs. & Mrs. Swan-Mills
4 A Bêbada e a Prostituta
Notas iniciais
REGINA
Alguns dias depois, Emma e eu estávamos na cozinha, lavando a louça do jantar. Uma obrigação doméstica, um ritual. Nenhuma das duas dizia nada. Emma enxaguava as vasilhas debaixo da torneira, e eu guardava tudo na máquina de lavar. Era assim que sempre fazíamos. E se a gente resolvesse ousar um pouco e trocar de lugar? Eu enxaguaria a louça, e ela colocaria tudo na máquina?!
Acho que nosso casamento não suportaria tamanha turbulência. Emma parecia estar em outro planeta, como de costume. Pensando em outra coisa, em outra pessoa. Trabalho, eu suponho. Eu poderia ter quebrado um prato na cabeça dela, e nem assim ela teria notado minha presença.
Então ela me passou uma travessa ainda suja de comida. Eu disse à mim mesma: “Regina, não vá armar um barraco só por causa disso. Ponha a travessa na máquina e deixe isso pra lá.” Mas, poxa, por que não fazer as coisas direito? Eu sabia que a travessa sairia da máquina ainda suja, pior, suja de comida assada pelo calor do ciclo de secagem. Então passei por ela, me debrucei sobre a pia e joguei o resto de comida no triturador.
Emma não disse nada. Apenas fez essa careta que costuma fazer. Crispou os lábios, com uma expressão azeda no olhar. Quem estivesse ali para ver, acharia que eu tivesse debochado da dela.
Por sorte o telefone tocou.
Meus olhos imediatamente se voltaram para o aparelho na parede. Os dela também. A luzinha da linha dois estava piscando. A minha linha.
— Deve ser o escritório — eu disse, e rapidamente atendi. — Não demoro — saí da cozinha e corri escadaria acima.
Emma ficou sozinha, livre para fazer com a maldita louça o que bem entendesse.
EMMA
Regina saiu da cozinha. Virando o rosto, tapando o telefone com a mão enquanto falava. Eram muitos, os telefonemas do escritório.
Olhando para o prato sujo em minhas mãos, ouvi-a subir a escada apressadamente em direção ao nosso quarto. Onde poderia falar com privacidade. Mesmo assim fiquei de ouvidos abertos.
A torneira pingava na pia. Nada. Depois peguei o prato sujo e joguei-o direto na porra da máquina. Sem enxaguá-lo antes. Um ato de rebeldia, nada mais.
De repente ouvi um barulho estranho no andar de cima, como se alguém arrastasse um móvel — ou um corpo.
Apertei os olhos, pensando: “Que porra é essa agora?” Eu não ligava, mas... talvez Regina precisasse de ajuda. Calmamente, como quem não quer nada, subi em direção ao nosso quarto. Já no corredor, pude ver que a porta estava entreaberta. O suficiente para que eu desse uma espiadela.
Regina, de costas para mim, tinha acabado de vestir o casaco. Ainda sussurrava ao telefone, mas pude ouvi-la dizer:
— Sei... entendi... na suíte do último andar. Estarei lá em quarenta e cinco minutos. Suíte do último andar?
Ela desligou, e eu recuei. Mas o assoalho rangeu, um tantinho de nada. Regina se virou de repente e me viu parada à porta.
— Poxa, querida, você quase me mata de susto.
— Desculpa — eu disse com o máximo de displicência. — Só queria saber se não era nenhum problema.
Ela revirou os olhos e jogou o aparelho sobre a cama.
— Algum pateta fez uma burrice qualquer e arruinou o servidor de um escritório de advocacia na cidade. Sem servidor essa gente não faz nada. — Seus movimentos pareciam exagerados; a voz, um pouco alta demais. Ela encolhia os ombros, como se quisesse se desculpar. — Preciso ir até lá.
— Mas a gente prometeu aos Nolans que...
Subitamente rígida, Regina olhou para o relógio e disse:
— Volto em torno das nove. É só uma rapidinha. — A expressão bateu mal em meus ouvidos.
Ela sorriu. Eu sorri. Sorrisos de praxe, nada mais. Creio que tanto eu quanto ela estávamos aliviadas por poder passar algumas horas longe uma da outra.
Esperei até ouvir a porta da frente bater e depois segui os passos dela escada abaixo. Fui até uma janela e fiquei ali, parada, vendo-a tirar o carro da garagem. Não foi a primeira vez que fiquei imaginando aonde ela realmente ia. E o que faria depois. E com quem.
Talvez ela pensasse a mesma coisa quando me via sair. “Quando foi que a gente parou de se perguntar as coisas?”
“Porra, quando foi que a gente parou de se importar em saber?”
Os faróis do carro me iluminaram como um par de lanternas, e depois ela sumiu. Um relógio tiquetaqueava na lareira. De repente, nossa casa perfeita me pareceu grande demais, vazia demais. Felizmente eu tinha um pequeno compromisso também. Meia hora mais tarde, eu atravessava a ponte de Queensboro com o meu chofer de aluguel — um cara chamado Yousef. Eu não sabia ao certo se Yousef estava contente ou puto da vida por estar me levando em seu táxi até a cidade àquela hora. Decerto um pouquinho dos dois. Eu sabia como era isso, ah, como sabia. O cara dirigia mal à beça. Caramba, eu precisava de uma birita! O táxi de Yousef estava longe de ser uma Limusine: não tinha uma Janela que funcionasse e muito menos um bar generosamente sortido. Mas isso não tinha a menor importância, pois jamais saio de casa sem meu barzinho particular: o meu cantil de prata, com o melhor scotch que o dinheiro pode comprar. Do que mais alguém poderia precisar? Tirei o frasco do bolso e desatarraxei a tampinha.
Mas não o levei imediatamente à boca, pois passamos por cima de alguma coisa no asfalto. Olhando para o cantil, meus olhos caíram sobre a dedicatória gravada na prata. Puxa, quanto tempo fazia que eu não parava para ler aquilo?
“Às balas que não nos encontraram. Regina.”
Tá bom. Saúde pra você também, gata. Dei um longo trago na bebida.
Pela cara que fez, achei que Yousef me pediria um gole quando estacionou em frente ao endereço que eu lhe havia passado. A rua era escura e ameaçadoramente silenciosa. Restos de lixo moviam-se sobre a calçada como se fossem ratos. Talvez de fato fossem ratos. Paguei ao motorista e dei à ele uma gorjeta polpuda o suficiente para que enchesse a cara e esquecesse para sempre que um dia tinha me visto. Tão logo desci do carro ele arrancou em disparada, como se o capeta em pessoa estivesse atrás dele. Fiquei sozinha na rua.
Fiz um lento giro de 360 graus e desci um bolorento lance de escada até uma porta coberta por um tapume preto. Esmurrei a campainha e depois de alguns instantes a porta se abriu com um clique.
Entrei e olhei ao meu redor.
Caramba. Talvez Yousef tivesse razão. O tal lugar era sem dúvida a última parada antes do inferno.
Uma lâmpada nua pendia sobre a caixa registradora, revelando duas ou três putas completamente grogues, que mal conseguiam se apoiar no balcão. O breu me poupou de ver o que mais se passava naquela espelunca fétida. Sentei-me num banco que corria o risco de furar as tábuas podres do assoalho. Encontrei meu equilíbrio e esperei que o barman notasse minha presença.
Por fim ele me encarou como se tivesse acabado de descobrir que eu tinha dado em coma da mãe dele.
— Fala.
— Que cerveja você tem aí? — perguntei.
— Guinness...
Esperei pelas outras opções, mas ele não disse mais nada. Assim ficaria mais fácil escolher.
— Então me vê um Red Label com Club Soda. Não precisa exagerar na soda.
Enquanto ele me servia o drinque, recostei-me no balcão e analisei a decoração do lugar. Com meus olhos acostumados à escuridão, percebi que a penumbra encobria vários tipos de contravenções: drogas, jogos, dinheiro sendo trocado por saquinhos muxibentos. E pelos cantos, outras coisinhas que preferi ignorar.
Mais ao fundo, uma cortina parcialmente fechada marcava o início de um corredor e mais uma sequência de buracos secretos.
O barman trouxe meu drinque, socando o copo sobre o balcão. Talvez achasse que eu estivesse bisbilhotando demais. Então virei-me para o bar e olhei para a bebida. Era qualquer coisa preta, nem de longe parecida com o que eu havia pedido. Mas o olhar do barman sugeria que ele não era lá muito receptivo a críticas, e achei melhor mandar aquilo para dentro de uma só vez. Afinal, pensei, álcool é álcool.
Uau! Agora, sim.
— Manda mais um — eu disse, já começando a enrolar a língua. O barman me olhou de um jeito estranho, e achei melhor sair um pouco dali. — Onde fica o banheiro? — perguntei. E com o queixo ele apontou para a cortina dos fundos. Assim que ele me serviu o novo drinque — “serviu” talvez não seja exatamente a palavra —, caminhei até a cortina e, cambaleando, segui pelo corredor até encontrar duas portas. Numa delas estava escrito: “MICTÓRIO.” E na outra: “CAI FORA.”
Mais fino impossível.
Uma coisa não posso negar: sempre tive problemas com as placas de “não entrar”. Há algo nelas que me deixa extremamente irritada. Não consigo relevar. Então não resisti e, como o poeta, escolhi o caminho menos percorrido. Quase caí do outro lado.
— Caralho! — alguém gritou.
Eu havia interrompido um jogo de pôquer. Um jogo privado, muito privado. Desses que só rolam nas saletas dos fundos das espeluncas. Três tipos extremamente mal-encarados e um meliante com cara de assassino olharam para mim, mal acreditando no que estavam vendo.
— Mas que porra é essa? — um deles berrou.
— Desculpa — eu disse, com a voz arrastada. — Tava procurando o banheiro. — Fiz menção de sair, mas depois, cambaleando um pouco, dei meia-volta e disse: — Isso aí é pôquer?
— Jogo privado — disse alguém. — Pica a mula daqui.
— Mas tem uma cadeira vazia — observei.
Outro cara se virou no assento e me encarou.
— Que parte de “pica a mula” você não entendeu?
— Tem certeza? — Com certa dificuldade, levei a mão ao bolso. — Tenho muito...
Antes que eu pudesse terminar, o meliante com cara de assassino saltou da cadeira e encostou o cano frio de uma semi-automática na minha testa.
Gelei.
— Dona. Eu. Falei. Pra. Cair. Fora.
— Calma lá, amigo. É só a minha grana. — Lentamente tirei a mão do bolso e mostrei à ele um farto maço de notas.
Então eles sussurraram algumas palavras entre si. Nada que eu pudesse compreender, mas ouvi alguém chamar o meliante de Curtis. Tive a impressão de que ele era o manda-chuva por ali.
Eu estava quase dentro.
— Sei lá, tem essa cadeira vazia aí... — falei.
— Essa cadeira tem dono — rugiu Curtis. — É do Lucky. Era só isso o que me faltava.
— E quando o Lucky vai chegar?
— Na hora que ele quiser, porra.
— Mas quem sabe eu posso ficar no lugar dele até ele chegar? — arrisquei. — Você viu, eu tenho uma bolada.
Os caras em volta da mesa trocaram olhares como se eu não estivesse em condições de decifrar o que se passava na cabeça deles: “Que tal a gente se divertir um pouco enquanto o Lucky não vem?”
Curtis afastou a cadeira vazia com um chute.
Sorrindo como uma idiota, me joguei em cima dela.
REGINA
Com a discrição de sempre, passei de um carro a outro assim que cheguei à cidade. “Quem não planta não colhe”, resmunguei para mim mesma ao me jogar no banco de trás do táxi que me levaria até o centro, onde eu era aguardada. Chamadas no meio da noite não eram nem um pouco incomuns no meu ramo de trabalho. E o salário, nada desprezível.
Meu Deus! Se Emma sequer suspeitasse do que fazia quando escapava da nossa vida sufocante no meio da noite... O que Ela acharia?
Talvez nem se importasse.
Senti um leve tremor e depois olhei pela Janela, observando a cidade que se desfraldava do lado de fora. As pessoas andando pelas ruas, as luzes brilhantes cortando o céu da noite, tudo isso me fazia lembrar de um parque à beira-mar ao qual alguém havia me levado quando eu ainda era pequena — alguém de cujo rosto já não me lembrava muito bem. Os brinquedos vertiginosos, os espetáculos de aberrações — coisas que me deixavam ao mesmo tempo fascinada e aterrorizada, embora eu pudesse contar com a segurança de um braço forte que me levava pela mão — e que de vez em quando me jogava para o alto, mas jamais me abandonava.
Até que um dia me abandonou.
Inferno!
“Calma, concentre-se”, disse a mim mesma. “Você tem um trabalho a fazer.”
Abaixei a janela para deixar o vento fresco varrer as dores do passado. Escolhi um dos prédios mais adiante e comecei a contar os andares, um joguete que me divertia sempre que andava de táxi. Depois de contar os andares, calculava o número de apartamentos em cada andar e o número de pessoas em cada apartamento, chegando por fim ao número de pessoas que moravam no prédio inteiro. Quantas pessoas estariam escovando os dentes na pia do banheiro naquele exato momento? Comendo comida chinesa? Fazendo amor? Quantas pessoas comuns? Quantos segredos?
E então o motorista parou junto ao meio-fio. Através da Janela, olhei para o alto e vi meu destino final: o Elegantérrimo e caríssimo hotel Hudson. Ocupação máxima todas as noites.
Quem eram essas pessoas? E que diabos faziam para ganhar dinheiro suficiente para ficar ali, em vez de se hospedarem num motel à beira de estrada em Nova Jersey?
Lá em cima, num daqueles andares privilegiados, um dos hóspedes igualmente privilegiados esperava por mim. Talvez até salivasse, ansioso por minha chegada. E meu trabalho era dar à ele uma noite de sonhos.
Por assim dizer. Eu sabia exatamente o que ele fazia para poder se hospedar ali. Dei uma bela gorjeta ao motorista e, sussurrando, disse à ele que se esquecesse da minha cara. Depois peguei minha “maleta de médico” e saí do carro, cuidando para não sujar as botas de salto alto na sarjeta.
Caminhando em direção ao hotel, senti meu casaco se abrir acidentalmente e percebi que o porteiro quase desmaiou. Ótimo. Era exatamente assim que meu cliente deveria reagir ao ver o modelito de couro preto que eu havia escolhido para aquela noite.
Sempre foi mais fácil lidar com os homens quando eles estão de joelhos. Atravessei o lobby como uma pantera. Procurei não chamar muita atenção, mas os homens, contumazes caçadores, não tiraram o olho da minha carcaça até me verem entrar no elevador.
Uma vez dentro, passei a mão pela longa coluna de números e apertei o mais alto deles. Suíte presidencial. Nada menos que o melhor para esse homem. E isso incluía à mim também.
Entretanto, eu daria à ele muito mais do que seu dinheiro podia comprar. Eu entrara nesse ramo anos atrás, muito antes de conhecer minha esposa. Mesmo depois de casada, continuei com minha... carreira particular. Era experiente. Bem treinada. Excelente profissional. Orgulhava-me de ser a melhor de todas.
O Elevador parou no último andar. As portas se abriram com um chiado. “Hora do espetáculo”, pensei com um frio no estômago, a descarga de adrenalina que geralmente sinto minutos antes de entrar em ação. Quantas secretárias ou quantos programadores poderiam dizer a mesma coisa?
Quando as portas duplas da suíte se abriram, fui recebida por um guarda-costas do tamanho de um freezer. De açougue.
— Carlotta? —Ele rosnou.
Apenas sorri e entrei.
Enquanto ele trancava a porta atrás de mim, rapidamente analisei o espaço: portas, janelas, distribuição dos espaços. Na sala principal, mais quatro guarda-costas — cada um mais feio que o outro — se apertavam diante da TV, assistindo a um programa de perguntas e respostas.
Sorri. Um bando de Einsteins. Perfeito.
— O que tem aí nessa bolsa? —perguntou o freezer.
Não respondi, apenas abri a bolsa para que ele inspecionasse. Um a um, Ele retirou todos os meus instrumentos de trabalho: um chicote comprido e safado, outro de nove tiras, um par de algemas.
Nada disso o fez corar.
Decerto já vira o chefão fazer isso outras vezes. Jogou a tralha de volta e empurrou a bolsa nas minhas mãos.
— Temos que tomar um avião daqui a uma hora — alertou.
Pisquei os olhos e disse:
— Sou o gatilho mais rápido do Oeste.
Ele balbuciou qualquer coisa, apontou para um corredor e depois voltou à televisão. Os gorilas tentavam adivinhar o nome de um filme antigo, do qual era exibido um pequeno trecho. Não faziam a menor idéia. Aliás, não faziam a menor idéia de nada. Mas o filme era fácil. Preto-e-branco, Cary Grant. Filminho simpático à respeito de um cadáver.
Um dos meus favoritos.
— Este mundo é um hospício — soprei, antes de sumir no corredor.
Ficaram extasiados quando o apresentador do programa confirmou que eu estava certa. Caras como esses jamais esperam que uma mulher tenha cérebro. Acham que prestamos apenas para uma coisa.
Engano deles. Sorte minha. Meu trabalho fica muito mais fácil quando me dão por idiota. E então chegara a hora. Com todas as “antenas” em pé, entrei silenciosamente no quarto e fechei a porta.
Fui recebida com uma fanfarra de gargarejos e cusparadas no banheiro: meu anfitrião se refrescava para me receber. Ótimo. Isso me dava tempo para estudar o lugar.
Cama enorme e colcha com estampa de zebra. (Eca!) Portas de vidro que davam para uma ampla varanda no alto do prédio. (Excelente!)
Abri minha bolsa sobre a cama e... Senti o cheiro do meu cliente, que se aproximava sorrateiramente pelas minhas costas.
Virei o rosto e ofereci à ele o meu sorriso mais sensual.
O homem grunhiu como um cachorro. Parecia um pastor alemão prestes a abocanhar um suculento filé de carne crua.
Marco Racin. Europeu ensebado e vulgar. Cinquenta e poucos anos. “Puxa, Marco, como você está acabado!”, pensei. Mas a expressão em meu rosto dizia: “Vem aqui, garanhão! A noitada está paga, e eu sou toda sua!”
Ele andou ao meu redor, lentamente, lambendo os beiços como se admirasse a mercadoria. Sem me alterar, deixei que olhasse. Queria que ficasse excitado a ponto de comer nas minhas mãos. Depois de alguns instantes, andei até a porta e tranquei-a. E virei-me par ele.
Racin vasculhava a bolsa que eu havia deixado sobre a cama.
— Achou alguma coisa interessante? — eu disse, quase ronronando. Depois abri um botão e deixei que o casaco caísse aos meus pés, revelando os trajes da noite: uniforme completo de dominatrix.
— Muita coisa— Ele babou.
Em seguida, tomou-me nos braços suarentos e sussurrou alguma coisa no meu ouvido — nada que valha à pena repetir aqui.
— Muita gente já foi presa por dizer isso, bonitão — respondi.
— Não no meu país —Ele devolveu.
Ótimo. Ele estava no ponto. Hora de entrar em ação. Estalei os nós dos dedos, empurrei-o sobre a cama e peguei minha bolsa.
EMMA
— Merda! — eu disse, jogando as cartas na mesa.
Mickey, meu amigo mais recente, sorriu e puxou as fichas para si.
— Faltava uma única carta! — reclamei.
Os outros caras apenas riram e trocaram piscadelas como se eu não estivesse ali para ver.
A mudança da banca não me trouxe sorte nenhuma, e os resultados foram basicamente os mesmos.
— Caralho! — reclamei de novo. Outro amigo recente, P.J., ganhou a mão. — Essa foi... Porra!
De início meus companheiros de pôquer tinham relutado em me deixar entrar no jogo. No entanto, quanto eu mais perdia, mais ganhava a simpatia deles. Impressionante.
Depois de três rodadas no prejuízo fiquei meio zonza, comecei a achar que devia parar. Mas eles me incentivavam com palavras de apoio: “Deixa disso, mulher, tá cedo pra jogar a toalha”, diziam. Uns amigos-da-onça, isso sim.
Na mão seguinte, quando Curtis aumentou a aposta, fui logo dizendo:
— Pago. Quer dizer, passo. Não... pago. — Só parei quando Curtis lembrou que não era minha vez de jogar. E depois perdi de novo.
— Merda! — exclamei ao constatar que P.J. tinha blefado com um par de damas, fazendo com que eu passasse com uma trinca de dez na mão. — Essa eu mereci!
P.J. embolsou o resultado de sua vitória — em grande parte dinheiro meu —, depois olhou para mim com uma expressão de misericórdia e disse:
— Tu nasceu pra perder, moça. É a força do destino, fazer o quê? Mickey recostou na cadeira e começou a assoviar a abertura da famosa ópera de Verdi, e todo mundo riu.
Fiquei impressionada com a cultura musical dos caras; aquelas horas todas diante da TV, assistindo aos desenhos da Disney, afinal tinham valido para alguma coisa.
Era a vez do Curtis dar as cartas. Mas àquela altura o efeito da bebedeira e da jogatina já pesava tanto em minha cabeça que eu mal podia me sustentar na cadeira. Será que o pânico estava evidente em meu olhar? Dei uma olhadela vaga em direção ao Curtis.
— Não vem com esse olhar de peixe, não — Ele advertiu. E remexeu na cadeira de modo que eu visse a arma enfiada na cintura da calça, a mesma semi-automática que eu tivera a oportunidade de examinar de perto algumas horas antes.
Suspirei fundo e olhei para as minhas cartas. Olhei para as minhas fichas — ou para a falta delas. Olhei para o buraco vazio sobre a mesa surrada onde antes estava o dinheiro que já não me pertencia mais. Eu estava em maus lençóis; pior, estava na lona e precisava de uma bela vitória se quisesse sair vivo daquele jogo.
Olhei para a porta. Ainda nenhum sinal de Lucky. Eu corria contra o tempo. Suspirei outra vez e, lentamente, com o coração apertado, tirei do bolso do paletó a única esperança que ainda me restava: o cantil de prata.
Na superfície espelhada refletia-se o rosto de uma babaca com cara de merda: o meu rosto. Sob o olhar dos outros jogadores, alisei lentamente a prata, como se ali estivesse uma lâmpada mágica. Mas, infelizmente, nenhum gênio apareceu para salvar a minha pele.
Apertei o cantil contra o peito, dei-lhe um beijo de despedida e solenemente depositei-o na mesa.
— É prata pura — murmurei.
P.J. quis olhar de perto para se certificar. Viu a inscrição e leu-a em silêncio, porém remexendo os lábios. Depois, afetando uma voz de mulherzinha, disse em voz alta:
— “Às balas que não nos encontraram. Regina.”
Pensei que os caras nunca mais fossem parar de rir. Mickey estalava beijinhos no ar. Por fim, P.J. jogou o cantil sobre o monte das apostas, o que significava que eu permaneceria no jogo por pelo menos mais uma rodada. Estávamos prontos para a batalha final quando a porta se abriu com estrépito.
— Mas que porra é essa aqui? — alguém rugiu, como se tomado pela ira divina.
O jogo se interrompeu na mesma hora. Um frio quase palpável preencheu a sala.
Não era difícil supor que o famigerado Lucky finalmente havia chegado.
— Hora de puxar o carro, moça — sussurrou Mickey, aflito. — Obrigado pelas lembrancinhas.
Levantei a cabeça, decepção e má sorte visivelmente estampadas na minha testa.
Depois espremi os olhos para ver melhor o grandalhão recém-chegado. Não restava dúvida de que deixava Curtis no chinelo na categoria “meliante com cara de assassino”. De longe o mais perigoso da turma.
Ou será que...
Apertei ainda mais as pálpebras, tentando não sucumbir ao seu olhar.
— Você é o Lucky? — perguntei, atropelando as palavras.
— Sou eu mesmo — Ele rosnou, esperando que eu saísse correndo dali com as calças borradas. Mas não foi isso o que fiz. Continuei sentada, esperando.
Lucky arregalou os olhos e inclinou levemente a cabeça, intrigado. Talvez um pouco impressionado com minha capacidade de não derreter como manteiga diante da presença dele.
— Que foi, mulher? — Ele disse. — Tá procurando encrenca?
Lentamente balancei a cabeça e disse:
— Você é a encrenca.
— Hem? — Lucky obviamente não entendeu.
Então me empertiguei na cadeira, sóbria até os ossos, para que pudesse me explicar. Mas mamãe sempre disse que gestos valem mais que mil palavras. Portanto, arrastei a cadeira para trás, fiquei de pé e deixei meu gesto favorito falar por mim:
Começar com duas pistolas carregadas, com silenciador.
Sacar dos bolsos laterais.
Lembrar que o sacana fez por merecer.
Puxar os gatilhos.
Disparei as duas armas, deixando Lucky estatelado contra a parede. Acho que dali em diante ninguém mais o chamaria de Lucky, o sortudo.
Meus novos companheiros de pôquer subitamente se deram conta de que me haviam subestimado — de que talvez, quem sabe, fosse eu a meliante mais perigosa naquele saleta imunda.
Curtis levou a mão à cintura, em busca de sua semi-automática. Mas, coitadinho, não sabia que a arma tinha sido surrupiada antes que as cartas da última rodada tivessem sido distribuídas. Só por precaução. Estava em algum lugar debaixo da mesa.
— Agora é tudo ou nada — eu disse, valendo-me de uma expressão do pôquer para encerrar a brincadeira.
Depois eliminei todos em volta da mesa.
Foi então que lembrei: minhas cartas ainda estavam ali. Virei-as uma a uma e... par de valetes.
Poderia ter sido melhor. Mas, naquelas circunstâncias, um par de valetes era mais que suficiente; afinal, eu era a única que não havia caído fora do jogo.
Bem, tudo que é bom dura pouco. Eu não tinha mais nada a fazer ali. O dinheiro que eu havia perdido estava à minha disposição, mas não me dei ao trabalho de pegá-lo; de qualquer modo, não passava de alguns trocados da empresa, verba para as despesas miúdas.
Peguei a única coisa que de fato me interessava: o cantil de prata.
Depois voltei com a arma de Curtis para seu devido lugar, caso Ela tivesse herdeiros. A fim de evitar a fauna do bar, saí pela porta dos fundos, que dava para um beco escuro.
Os ratos corriam de um lado para outro na penumbra. Mas a lua olhava para mim através da silhueta de prédios decadentes, fazendo-me lembrar de que ainda havia coisas belas no mundo, como um céu cravejado de estrelas.
Tirei o cantil do bolso — o luar refletindo sobre a prata — e dei uma golada reconfortante. Talvez fosse ele o responsável por eu ter ficado, mais uma vez, fora do trajeto das balas.
E então avistei o meio de transporte que me levaria de volta para casa: em meio às sombras brilhava uma motocicleta gigantesca em cuja placa se lia: "LUCKY."
Bem, quem era o sortudo ali?
Subi na máquina, liguei o motor e caí fora daquele lugar.
Uma noite de trabalho como as outras, e nada mais.
REGINA
— E então, Marco, tem feito muitas travessuras, tem?
O colchão balançou quando meu cliente fez que sim com a cabeça, parecendo uma criancinha medrosa.
“Idiota!” não pude deixar de pensar.
Amarrado como um peru de Natal e com uma bola de borracha entre os dentes, o magnífico, poderoso e milionário Marco Racin estava completamente ridículo.
E totalmente sob meu controle.
Filho-da-puta. Eu não sabia se ria ou se vomitava.
Esfreguei o chicote no nariz dele e disse:
— Você sabe o que acontece com os garotinhos levados, não sabe? São castigados. É isso que você quer?
Racin gemeu como um bebê.
— Gosta de sentir o couro na pele, gosta?
Ele assentiu com a cabeça, quase explodindo de prazer. Lentamente deitei-me ao lado dele, prolongando a tortura. Ele tremia de excitação e medo.
—Tem tido pensamentos sujos, não tem? — sussurrei. “Sim! Sim!”, Ele acenou com a cabeça.
—Tem brincado com o próprio corpo, não tem? “Sim, sim, sim!”
Já era hora de pôr mais lenha naquela fogueira. Conferi minhas possíveis saídas e depois sorri. O que eu estava para dizer seria uma total surpresa para o meu parceiro. Mas, afinal, os especialistas não vivem dizendo que um pouquinho de surpresa é ótimo para esquentar um relacionamento?
— Tem violado as leis internacionais, não tem, lindinho? — perguntei, dessa vez com a frieza de uma lâmina de aço. — Fala que não violou, fala.
Racin arregalou os olhos, e uma gota de suor escorreu por seu nariz descomunal.
Estalei o chicote e em seguida soltei a bomba:
— Tem vendido armas poderosas para os bandidos, não tem?
Isso dito, várias partes do corpo de Marco Racin amoleceram como espaguete em água quente.
Tentou gritar aos guarda-costas. Mas evidentemente não conseguiu, com aquela bola ridícula entre os dentes. Empurrei seu rosto vermelho contra o travesseiro, as bochechas espremidas; depois, sem nenhum aviso e com muita eficiência, virei a cabeça do canalha o mais violentamente que pude.
Racin arregalou os olhos outra vez. A bola de borracha escapuliu de sua boca e rolou pela cama até o chão. O infeliz já não estava mais em condições de brincar com a vida alheia, seus dias haviam chegado ao fim.
Ainda ao lado do corpo inerte de Racin, peguei meu celular para ver as horas: oito e meia.
— Droga! Os Nolans!
Emma ficaria furiosa se faltássemos ao compromisso. Então ouvi alguém bater timidamente na porta. Um dos guarda-costas de Racin, receoso de interromper a farra.
— Sra. Racin? — Eld chamou do outro lado, hesitante. — O avião sai daqui a uma hora... Senhor?
O gorila começou a bater mais forte, e achei melhor sair dali o mais rápido possível. Não queria explicar o que tinha acontecido ao meu “anfitrião”.
Corri para a varanda, procurei por guardas no telhado — não havia nenhum — e olhei por sobre o parapeito. Uns cinqüenta andares abaixo, os táxis da cidade cortavam as ruas como peixes brilhantes nadando nas águas turvas de um rio. Precisava pegar um deles antes que os homens de Racin me transformassem no “pescado do dia”.
Mas eu estava preparada. Minha bolsa preta tinha sido concebida para situações dessa natureza. Sem perder a calma, voltei às portas da varanda, prendi uma alça da bolsa numa arandela de metal sobre a parede e me virei para a noite escura.
“Linda vista”, pensei num átimo, e depois corri em direção ao parapeito.
Deveria funcionar.
Atrás de mim, ouvi os homens de Racin finalmente arrombarem a porta com suas armas. Hora de dizer adeus.
— Valeu o empurrãozinho, galera — sussurrei antes de transpor o parapeito com um salto arrojado.
Aos olhos dos capangas boquiabertos eu havia simplesmente me jogado do telhado como uma espécie de assassina suicida.
No entanto, muito antes que eu me esborrachasse na calçada, minha bolsa se desmanchou num fio de kevlar — superfino e quase invisível — que me permitiu descer pela fachada do hotel como uma aranha e chegar ao chão com toda a segurança.
Sem dúvida alguma, a bolsa mais prática que eu usara na vida. Já perto do nível da rua, larguei o fio e saltei sobre a calçada. Um pedestre que passava por perto parou para olhar, mal acreditando no que acabara de ver.
“Deve ser turista”, pensei. Um nova-iorquino de verdade sequer teria piscado. Mas não fiquei preocupada. Antes que pudesse contar aos amigos, o tal cara já teria se convencido de que vira uma filmagem externa para o cinema. Pelo menos assim eu esperava, pois não tinha tempo para me explicar.
Com um sorriso entre os lábios, fechei o casaco e caminhei em direção à portaria do hotel como uma dona-de-casa qualquer voltando do mercadinho da esquina. Já estava próxima ao porteiro quando um táxi parou rente ao meio-fio. Entrei no banco de trás e, a título de gorjeta, sorri carinhosamente para o garoto uniformizado que me abrira a porta.
—Obrigada, querido — falei.
—O prazer foi meu — Ele retrucou, malicioso.
Depois de telefonar ao escritório simplesmente para informar que a missão estava cumprida, refestelei-me no banco do carro e relaxei pela primeira vez desde que recebera a incumbência.
Meu Deus, tudo o que eu queria naquele momento era tomar uma bela ducha. Com muita água quente e sabão para lavar da pele a sujeira do mundo.
Mas o que eu sentia por dentro não haveria água que lavasse. Recostei a cabeça no vidro da Janela e procurei por estrelas entre os arranha-céus. Naquela parte da cidade, contudo, não havia estrelas a não ser aquelas que se escondiam no interior das limusines. Então fechei os olhos e, com a imaginação, criei meu próprio céu estrelado.
Muito semelhante ao que eu vira certa noite em Maputo.
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