Mr. Lecter

1 I - Metamorphosis


Notas iniciais
Muito obrigado por ter chegado até aqui. Agora, eu não poderei te acompanhar nesse caminho árduo. Encare com decência e tente não sentir medo. Ele fareja, de longe... ➫ Boa leitura!

Seus longos dedos friccionam o grafite contra o papel com destreza. Movimentos hábeis e calculados vão dando forma àquela figura enigmática, mas tanto conhecida. O Homem Vitruviano. A perfeição da forma humana ligada estreitamente ao divino.

Homem e Deus. Deus e Homem.

— Magnifico. — disse. Para Hannibal, a imagem do homem expressava mais que uma ligação. Era a sublimidade da humanidade em seu meio. O Homem Vitruviano não era somente a semelhança do homem com o divino. O homem era o divino.

Homem é Deus. Deus é Homem.

O pensamento é interrompido em um bater de portas. Seus olhos vão em direção ao relógio de pulso suíço Patek Philippe. 15h. Will Graham.

Fazia somente dez dias que Will havia sido inocentado, e ele já persistia em voltar com a terapia.

Hannibal sorriu. Era irônico Will está ali, mesmo depois de descobrir a verdade. Frederick Chilton havia sido considerado culpado após cair em uma encruzilhada bem bolada, mas ambos que estavam naquela sala sabiam que era o verdadeiro Estripador de Chesapeake.

Will. Hannibal saudou, mas ainda concentrado em sua obra. Vitrúvio.

Hannibal. respondeu, sentando na poltrona de couro e recostando as mãos nos braços metálicos do assento.

Muitos consideram Mona Lisa a maior obra de Leonardo da Vinci. Mas apenas verdadeiros entendedores apreciam a perfeição d’O Homem Vitruviano. Hannibal se desloca até um balcão de mogno escuro. Agarrou alguns papéis-toalha e limpou suas mãos. O lado divino do homem. O lado humano de Deus. sorriu Magnifico.

Talvez as pessoas prefiram sentir o ar de curiosidade de Mona Lisa a ver um rascunho de um pentagrama humano de proporções exatas. A curiosidade é o berço da humanidade, não a falsa perfeição. Sua voz não expressava uma emoção exata, muito menos parecia ter emoção. Ele apenas cuspia palavra após palavra.

— Admirável. Hannibal sentou-se a frente de Will, encarando-o. Ele tentava decifrar no que Will Graham havia se transformado após sair do Hospital Estadual de Baltimore para Criminosos Insanos. Não se assemelhava em nada ao confuso e passível Will. Agora seus olhos verdes transpassavam uma calmaria voraz e primitiva. Quem é esse Will? O que é esse Will? — O que lhe traz hoje?

— Você. — disse, se levantando e indo até a uma bancada onde permaneciam algumas bebidas. Pegou a garrafa de Bourbon Woodford Reserve e dispôs em dois copos. — Sabe Hannibal, ficar preso naquele manicômio abriu minha mente por completo. É uma experiência um tanto… libertadora. — Ele entrega um dos copos a Hannibal, sem manter contato visual. A luz soturna da sala deixa as expressões de Will mais sombrias e severas. — Foi somente lá que minha mente clareou e tive noção do que acontecia ao meu redor. — Virou o copo, o gosto amadeirado e forte desceu por sua garganta. Seus olhos estavam caídos, mortiços a luz branda. — Foi somente lá que percebi quem realmente era Hannibal Lecter e o que fazia para me persuadir. Para que eu achasse que estava realmente enlouquecendo. — Will encarava o copo em sua mão, vazio. — Depois disso, eu criei uma raiva tão destrutiva de você que sonhava em ver seu sangue banhando esse chão de madeira. — sorriu e tornou a sentar na cadeira, agora fitando Hannibal. — Trocamos a moeda, Sr. Lecter.

Hannibal também sorriu. A malícia estava estampada em seu rosto. Tudo havia seguido como planejara, porém algo mais estava em cheque. Algo que preferia manter em segredo, na parte mais profunda de seu ser. Deixou a bebida de lado e olhou nos olhos de Will.

Testa o Croce? Cara ou Coroa?

[...]



Wolf Trap, Virginia

20h



Chaves são jogadas na mesa de centro. Seus cachorros pulam de felicidade ao encontrar o dono. Will sabia que a sua única família era seus animais. Eram eles que ainda mantinha a parte sã de sua mente a funcionar, se é que a mesma ainda existe.

Foi até o banheiro e se despiu. Abriu a torneira da banheira, verificando se a temperatura era ideal. Will ainda era pego pensando em Alana Bloom. Nas coisas que fez e que deixou de fazer. Hoje, nem ele mesmo entendia o que sentia por ela. Amor? Paixão? Ou apenas pena? E por Abigail Hobbs?

Abigail. Aquele nome ainda lhe causava sérios transtornos. Superar a morte dela havia se tornado uma verdadeira impossibilidade. Sempre se perguntava o que Abigail pensou ao morrer. Você não conseguiu me salvar, Will. Você me deixou aqui para morrer.

Pensar naquilo o fez sentir náuseas. A culpa o fazia sentir náuseas.

Dirigiu-se até a pia do banheiro e lavou o rosto, implorando para que a água levasse todo o mal que sentia. Voltou-se para o espelho. Porém, o reflexo que viu fez sua espinha arrepiar. Seus nervos retesaram. Era ele. Garret Jacob Hobbs. Sangue e pus saiam de seus olhos, sua pele estava podre, com bernes passeando no que antes devia ser a sua boca, mas agora era somente um grande buraco. Abigail está aqui, Will. Abigail está nesse inferno junto a mim.

Fechou os olhos fortemente. Sabia que aquilo vinha de sua cabeça, como boa parte de seus problemas pessoais.

Abriu. Agora, só encontrava seu reflexo no espelho. O cabelo recobrindo a testa, a barba por fazer e verdes e profundos olhos.

Voltou-se para a banheira e a adentrou. Repousou a cabeça e deixou com que a água se encarregasse de tirar as impurezas.

Baltimore, Maryland

20h27



— Magret de pato com purê de maracujá e foie gras. — Hannibal apresentou antes de dispor o prato para Jack Crawford e Alana Bloom. — Um animal particularmente passível, de sabor esplendoroso.

— Como de costume. — Jack concordou, afundando o garfo na carne macia do pato, e levando a boca. A carne se desmanchou maravilhosamente em sua boca, e simplesmente escorreu pela sua garganta. — Magnifico.

— Me pergunto como Will está. — Alana disse, sem ter tocado no magret. Apesar de tudo, alguns sentimentos por Will Graham ainda persistiam em se manter. Ela não se conformava que o velho Will estivesse completamente morto, enterrado a sete palmos em algum cemitério clandestino em Wolf Trap.

— Ele foi ao meu consultório hoje. — Hannibal respondeu, bebericando o vinho de sua taça.

— Ele foi lá mesmo depois de tudo? — Perguntou surpresa, experimentando o foie gras para não parecer mal agradecida, mesmo sabendo da procedência do prato e de como eram tratados os patos que viriam a se tornar o alimento. — Digo, mesmo depois de ter persuadido o enfermeiro a te matar?

— Não o culpo. Will carrega em si muita ira. — Hannibal a fitava, observando seu belo rosto, seus lindos olhos azuis. — E quando não há maneiras de dissipá-la, ele a direciona a alguém.

— Ainda me pergunto como não percebi que ele estava doente. — Jack ponderou, enquanto provava o purê de maracujá. — Talvez o verdadeiro culpado seja eu, Jack Crawford. — O gosto doce do patê não conseguiu superar o amargo que Jack sentia pela situação. Desde o início ele se encarregou de Will, e agora ele o deixou escorrer por entre seus dedos e não pode fazer absolutamente nada.

— Não se culpe, Jack. O que aconteceu a Will foi uma série de fatalidades. A primeira delas tem rosto e nome: Garret Jacob Hobbs. Tudo aconteceu em um efeito dominó, onde ninguém sabe ao certo quem é a ultima peça.



[...]

A mesa havia sido recolhida. Jack havia se retirado e a casa entrou em um profundo silêncio, apenas interrompido pelas tecladas no piano. Hannibal tocava Aria da Capo, que era de longe sua música preferida de Johann Sebastian Bach, ou simplesmente Bach.

Alana estava petrificada, observando os hábeis dedos de Hannibal tatearem as teclas de marfim de forma rebuscada e delicada. Por fim, o piano chorava notas melancólicas e belas, que simplesmente entorpeciam seus tímpanos.

Repentinamente, Hannibal a agarrou pela cintura, fazendo-a sentar ao seu lado. A sinfonia cessou, mas ainda ecoava na mente de Alana.

Seus dedos tocaram as maçãs de seu esbelto rosto e seus lábios se chocaram. Tímidos, entretanto verdadeiros. Ou parecia isso.

E repetiu-se, novamente e novamente, cada vez mais sedentos. Logo os lábios de Hannibal passeavam pelo pálido pescoço de Alana. E ela ainda ouvia, longínquas, todavia vividas, as notas de Aria da Capo, enquanto Hannibal a despia.

Suspirou profundamente e novamente o silêncio predominou no cômodo. Mas aquele era um silêncio diferente. Havia vida nele. Havia sentimentos em jogo. Havia uma disputa por emoções. E haviam dois corpos emanando calor, unidos por um sentimento forte, mas não completamente recíproco. Haviam corpos.

Notas finais
➫ Sobreviveu? Calma, estamos apenas começando...➫ Deixe seu review e me diga o que achou? Senão já sabe né... Tio Hanni vai atrás ;D