Motsatt
1 Prólogo - Rastro de Morte
Notas iniciais
Digamos que Motsatt seja a grande culpada. Começou como uma simples side-story para Coração de Porcelana, mas foi crescendo e criando corpo até virar o meu bebê... Admito que trabalhei nesta história com um afinco que jamais tive por qualquer outra de minha autoria, então peço, de todo o coração, que a apreciem!
Prólogo
Montanha Amardad, Nidhi – Tempos imemoriais
Nidhi parecia brilhar aos olhos de Nadezdha.
Sempre parecera.
Todas as vezes que parava naquela sacada para contemplá-la e admirá-la, a cidade construída dentro da grande montanha de Amardad, ela brilhava com todo o seu esplendor e glória, a vida voando livremente juntamente aos dragões que com suas escamas reluzentes, substituíam o céu e as estrelas que pouco se via por aquelas paredes de pedra. Como sua Saadi, que conseguia ver com suas escamas brancas e douradas ao longe, circundando a principal torre de Chede.
Mas agora brilhava de modo diferente.
Como se fosse um brilho efêmero. Como se as chamas da vida que mantinham a cidade fossem apagar.
Sentia calafrios. Sentia como se a morte se espalhasse por cada canto da cidade. Mas aquela não era a morte de Akhir. Não, certamente não era. Aqueles calafrios vis jamais poderiam vir do deus branco. Nadezdha já estivera próximo o suficiente da morte para saber disso.
Então... O que era?
Tinha um mal pressentimento. Sua intuição jamais lhe falhara. E tal pressentimento vinha lhe perseguindo durante dias. O desaparecimento de Munir apenas atiçara aquela sensação.
Baixou mais uma vez seus olhos em direção à cidade. Da sacada de Suzu conseguia ver as crianças na rua. Elas não corriam, gritavam e faziam suas brincadeiras como sempre. Na verdade, andavam caladas e cabisbaixas como se entorpecidas.
As coisas estavam muito erradas.
As portas atrás de si abriram num rompante, porém não se assustou. Era como se já esperasse aquilo. Escutou o som das sandálias se arrastando pelo chão e o roçar do tecido em movimento.
Nadezdha olhou para trás por tempo suficiente para constatar que era Prasanna. Admitiu estar surpreso ao ver que ela vestia sua armadura cerimonial, dourada e azul turquesa, que era nada mais que uma espécie de corpete sobre um vestido ricamente bordado, delicadas ombreiras e manoplas, sem contar a Coroa dos Líderes em sua testa.
Lembrava-se vagamente quando a vira usar aquelas vestes, no que agora parecia ser há muito tempo, no festival designado ao deus Val Har. Recordava de constatar o quão deslumbrante estava, mas agora, por mais que ainda a considerasse deslumbrante, vê-la trajando aquilo lhe pareceu um mal agouro.
- Prasanna. – cumprimentou num tom de voz neutro, ainda que soasse educadamente agradável. – Por que está usando estas vestes num dia tão comum?
- Pareceu-me apropriado. – Foi sua resposta. Mesmo que não tenha continuado, a mente de Nadezdha o obrigou a completar internamente: “Para o meu último dia de vida.”. Balançou a cabeça, passando os dedos nervosamente pelos cabelos azuis escuros e ondulados impecavelmente arrumados num rabo de cavalo que chegava-lhe a cintura. Nunca era bom quando pensamentos sombrios povoavam-lhe a mente. – Nadezdha?
Ergueu seus olhos em direção a jovem mulher. Ou ao menos era jovem ao seu ver. Prasanna já possua alguns séculos de vida, mas estes poucos séculos eram o quê, comparados ao quase milênio que Nadezdha já possuía? Suspirou, pressionando suas têmporas, percebendo o quão nervoso estava.
O que haviam feito? O que havia acontecido para que aquele povo fosse tão aterrorizado daquele modo? Seus sentidos aguçados e bem treinados apitavam.
Seu peito doeu.
E isso não era natural.
- Nadezdha? – Prasanna chamou-o mais uma vez, a preocupação presente em sua voz
O suor começou a molhar sua testa. Procurou vagamente os olhos de Prasanna e ergueu a mão em sua direção. Como se acometida por uma repentina falta de ar, a mulher levou a mão à sua garganta.
Do lado de fora, escutou as crianças começarem a gritar, as vozes imprimindo um profundo tom de terror, mas o som foi repentinamente estrangulado. Aquele mal agouro tornando-se uma tenebrosa realidade.
Suas mãos encontraram Prasanna e puxou-a para si, unindo seus lábios sofregamente, para que então a dor lancinante tomasse conta de seu ser. Seus braços fortemente pressionando-a contra, sentindo os dela fazendo o mesmo consigo. O sabor de sangue lhe preencheu os lábios e então o último pensamento tomou conta de seu ser antes do desespero final se estabelecer:
Por que os deuses nos odeiam?
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