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25 Capítulo 24 - Trato Dúbio
Notas iniciais
Capítulo 24 – Trato Dúbio
A presença de Maya era ao mesmo tempo tranquila e um tanto quanto constrangedora. Ela era muda e silenciosa, entretanto, de tempos em tempos pegava-a encarando a um deles, e seus olhos eram tão expressivos que dispensavam qualquer palavra que ela poderia ser capaz de dizer.
Jake não sabia dizer exatamente o porquê, mas de certa forma ela o recordava algo como uma criança adulterada. Como se ela fosse um adulto num corpo infantil. Talvez fosse devido ao fato de ela ser pequena em todos os sentidos, e andava próxima a Nero, quase quarenta centímetros mais alto do que ela, fazendo-a parecer ainda menor.
Recordava-se que, tão logo ela se recuperara, de noite Winter acabara abatendo alguns roedores e lagartos selvagens, e na hora de tratar as carcaças ela simplesmente arrancara a faca de sua mão, esfolando e eviscerando os animais com maestria, e não deixara ninguém ajuda-la, nem mesmo quando ela simplesmente levantara e começara a pegar algumas plantas ao redor e começou a esfrega-las nas carcaças para depois as assar na fogueira que fizeram. Talvez o fizesse porque gostasse de ser útil, mas... Bem, não reclamara porque ela cozinhava bem melhor do que qualquer um dos três.
– Ei, cuidado! – ouviu Winter exclamando e quando viu, a dita Maya estava escalando uma árvore e começou a balançar alguns galhos, fazendo com que mangas começassem a cair. Jake acabou rindo e olhou para Nero que estava sobre uma pedra alta.
– Então? – questionou ao mais novo.
– Consigo ver a cidade daqui. – respondeu. – Só não garanto que a alcancemos até o anoitecer. Talvez só amanhã de manhã.
– Mesmo que não paremos?
– A não ser que você queira que nós caminhemos madrugada adentro.
Jake suspirou.
– Certo. Talvez seja melhor nós irmos amanhã mesmo.
– Preguiçoso.
– Eu prezo pelo meu sono, ok?
Nero saltou de onde estava, apenas pousando com os joelhos flexionados para amortecer a queda.
– Alguém quer manga? – Winter perguntou e ambos o olharam. Ele estava de pé em meio à várias mangas que haviam caído, e já havia descascado parte de uma. – Sabe, tem bastante aqui e pelo menos a que eu peguei está muito boa.
– Acho que devemos ir andando logo para podermos encontrar um lugar bom para acampar... Mas eu aceito uma.
Enquanto Winter procurava uma que não houvesse amassado tanto, Maya encontrava-se sentada sobre um dos galhos, também comendo uma manga, mas assim que viu Nero ela começou a se mover para descer da mangueira.
– Pode pular, eu te seguro. – disse. Ela o olhou, como se para ter certeza, e Nero estendeu os braços à frente do corpo para lhe assegurar. Maya escorregou ligeiramente para a frente, saltando do galho, caindo certeiramente nos braços do rapaz, que a segurou rodeando seus braços pela cintura e na altura de seus joelhos. – Viu? – Ela lhe estendeu a manga que estava em sua mão. – Pra mim? Obrigado.
– Certo vocês dois aí atrás? – Winter questionou enquanto Nero mordia a fruta e punha a garota no chão com um braço.
Foram andando, embora não necessariamente na estrada. Não havia muita conversa entre eles e quando anoiteceu, simplesmente procuraram um local decente para montar um acampamento, então Jake foi verificar o que havia nas proximidades e talvez se havia algo que pudessem caçar.
Quando visualizara um macaco, porém, antes de ter qualquer reação válida uma flecha o atingiu e o bicho acabou caindo ao chão. Olhou para trás e viu Winter ainda com o arco erguido. Sem dizer uma única palavra ele sacou outra flecha e atirou de novo, e dessa vez um pássaro caiu estrondosamente. Era o suficiente para os quatro.
– Vannes? – chamou. – Por que você veio?
O mais velho deu de ombros, indo pegar a caça.
– Sabe, até que é bonitinho ver o Naphees com a Maya.
– Hã?
Winter pegou o macaco pelos pés. Ele não era como o símio da Terra, seu pelo era dourado e a face era ligeiramente contorcida, a superfície não coberta pela pelagem era semelhante à cobre.
– O que há de errado? – Jake questionou, estranhando o comportamento do outro.
– Eu... – suspirou. – Sabe, eu vejo Naphees com aquela garota, tudo o que ele fez mal a conhecendo. É mais que óbvio que ele está apaixonado por ela.... E ela por ele. E tem você com a sua namorada, que apesar de toda a situação... Bem, mesmo que não fale muito dela, é visível que você se importa.
– Claro, mas... Onde você quer chegar?
– Quando eu vivia na Terra, eu tinha uma namorada. – Disse, e acabou sentando no chão. – O nome dela era Nathalie, começamos a namorar quando tínhamos quinze anos. A conheci num campeonato de arquearia onde venci a final contra o irmão dela. – Winter passou a mão pelos cabelos. Embora não tão compridos quanto eram quando se conheceram, continuavam mais longos que os de Jake. – Ela era tímida e doce, e mesmo depois de estarmos à anos em um relacionamento ela ainda parecia ter vergonha em dizer certas coisas. Assim, quando não conseguia verbalizar o que queria, ela escrevia cartas. Ou textos.
– Mas... O que aconteceu com ela? Se você está aqui e....
– Ela morreu. – disse. – Os Bergais a mataram, logo depois que me encontraram pela primeira vez. — Jake arregalou os olhos e Winter abaixou o olhar. – Ela passara a semana toda dizendo que precisava falar comigo, e concordei leva-la a um parque no fim de semana. Quando estávamos sozinhos, eles simplesmente apareceram e tentaram me arrastar com eles. Resisti e eles acabaram pegando ela, pulando no lago. Estava no inverno, o lago estava congelado. Ela não morreu afogada, foi a hipotermia e o choque térmico.
–... Nossa... Eu sinto...
– Não é a pior parte. Houve o enterro dela. – Winter acabou apoiando sua cabeça na mão. – Mal cheguei lá, o irmão dela me atacou, ele dizia que era culpa minha. De certa forma foi, pensando bem. Mas Jacques repetia que eu havia a matado porque eu não queria assumir a responsabilidade. Não fazia a mínima ideia do que ele estava dizendo, até que ele berrou comigo, dizendo que ela estava grávida... E que eu matei ela porque eu não queria assumir o filho.
– O q....
– Antes que você fique mais chocado, a questão é: eu fiquei muito mal com a morte de Nathalie. Principalmente depois dessa notícia que ela estava esperando um filho meu, mas... – ele soltou outro suspiro pesado. – Desde que conheci vocês, e principalmente desde que Naphees encontrou Maya, algo vem me incomodando. É visível que para vocês, a.... Outra pessoa é como se fosse a razão do seu viver. Que vocês provavelmente não pensariam duas vezes em morrer por elas ou com elas. O que vem me incomodando, justamente, é isso.
– Como assim, Vannes?
– Eu simplesmente toquei com minha vida. Mesmo que a morte tenha me abatido profundamente, eu não parei minha vida por causa disso. Não acho que morreria por ela. Assim, me pergunto essas coisas devido à morte dela, se foi algo que poderia ter sido evitado, se simplesmente... Ah, esqueça.
– Esquecer? Como assim você quer que...?
– Shh!
Se assustou quando Winter se abaixou, quase rente à mata, e acabou fazendo o mesmo, e procurou ver o que ele vira. Avistou quatro homens, que carregavam uma arca de aparência pesada ricamente entalhada. Não conseguiu ver muito devido ao fato de já estar escurecendo, mas ouvia-os reclamando do peso. Eles seguiram até a margem do rio próximo ali, adentrando o que parecia ser uma gruta.
– Algo não me cheira bem. – Winter murmurou.
– Sim, mas...
– Mas acho que não podemos perder mais tempo com a caça aqui, certo? Os dois devem estar preste à fazer um filho para eles lá no acampamento, deixando-os sozinhos desse jeito.
Jake rolou os olhos, sabendo que tudo o que Winter queria fazer era fugir do assunto que poderia ser retomado, porém decidiu dar o braço à torcer, pegando o pássaro e voltando para o acampamento. Como era esperado, Nero e Maya estavam apenas sentados, mantendo a versão deles de uma conversa.
– Vocês viram os ladrões? – Nero questionou sem se virar para eles.
– Bem, ao menos agora nos confirmou que eram ladrões... – Jake murmurou. Maya levantou-se e pegou o macaco das mãos de Winter, enquanto Jake procurava uma faca para entregar à ela, que também pegou a ave. – Eles passaram por aqui?
– Não.
–... Vamos nos envolver com eles?
– Talvez. Não sei. – Maya ergueu a cabeça, olhando os três. Jake quase se encolheu diante o modo que ela o encarara. Perguntava-se se Nero mencionara à ela quanto à sua clarividência. – Ou talvez encontremos alguém que tenha ou vá se envolver. Não vi direito.
Aegis pôs a cabeça para fora da sacola de Nero.
– Macaco? Vai ter macaco para o jantar?! – Ela rolou para fora, aparentemente entalada nas luvas negras do de cabelos prateados. – Socorro!
– Bom, eu sei que as refeições de Maya estão...
– Não ouse terminar essa frase, Vannes!
– Lhe dando uns quilinhos à mais, não é?
– Você não sabe que uma das regras fundamentais de interação com uma mulher é jamais chama-la de gorda?! – Aegis exclamou num tom raivoso contorcendo-se de modo que ela mais parecera uma minhoca gigante do que o furão que havia assumido a forma. – Ah, me tirem daqui!
Nero suspirou, pegando sua luva e segurando Aegis pelo pescoço, retirando-a com um puxão. Ela deu várias voltas pelo local, e Jake percebeu que pelo menos sua forma animal parecia mais roliça, mas decidiu permanecer calado do que dar motivos para a Denor ter um ataque de raiva.
E agora que Winter mencionara ganho de peso e Maya, ela parecia realmente ter ganhado algum peso, mesmo as distâncias que seguia à pé – e considerando que tinha de andar mais rápido, já que as pernas dos trigêmeos eram bem mais compridas que as dela. -. Não estava mais tão esquelética quanto era anteriormente, embora continuasse magra. Graças à magia que Nero utilizara-se para curá-la, boa parte das cicatrizes e marcas que cobriam seu rosto haviam desaparecido, enquanto o cabelo começava a crescer, revelando-se de um claro tom de rosa, os fios curtíssimos cacheando-se ligeiramente, embora ela normalmente os cobrisse com um véu simples que viera junto à túnica que usava. Era um avanço, considerando-se o estado em que Nero a encontrara.
– Estamos quase chegando à cidade, certo? – Aegis questionou, tornando-se o cachorrinho branco de anteriormente. Seu rabo balançava tanto por algum motivo que ela parecia andar rebolando, o que fez Jake torcer os lábios na tentativa de não rir. – Isso significa que estamos mais próximos à Ha’qin, o que significa que provavelmente Rarac e Kapheliria irão retornar!
– Você realmente sente falta deles, não sente?
– Claro! Nós Denores falamos certas coisas que vocês não entenderiam! Preciso conversar com alguém de minha espécie!
Bem, Jake realmente sentia falta de Rarac, então a constatação de Aegis era bem vinda. E poderiam visitar Nasi, já que ela havia mudado para aquela cidade. Seria bom conversar com sua mãe com calma, sem algumas centenas de olhos os encarando, certo?
O cheiro de carne começou a se espalhar e Jake sentiu seu estômago gemer. Pelo aroma que a carne do macaco exalava, algo lhe dizia que provavelmente haveria briga para comê-lo. Ou não, porém ele realmente não daria para todos e ainda havia o pássaro, embora este não parecesse tão apetitoso.
Que estranho. Só de lembrar que até há alguns meses esse tipo de alimento o causaria repulsa, Jake quase tinha vontade de rir. Realmente, o que havia vivido havia mudado sua perspectiva em vários sentidos.
Nero recusou o macaco quando Maya demonstrou interesse em comê-lo, então ele acabou comendo a maior parte do pássaro. Jake comeu parte do pássaro e um pedaço do símio, enquanto Aegis e Winter brigavam para ver quem conseguiria a maior parte, sem perceber a garota cortando as suas partes silenciosamente. Realmente, ele estava bem melhor do que a ave, sua carne adocicada e Maya sempre dava um jeito de temperar a comida de um modo delicioso, não importando o quão escassos fossem os ingredientes. Certamente ela tinha o que poderiam se considerar mãos de ouro.
Pensou no que Winter havia lhe dito, sua namorada grávida assassinada. Talvez sentisse empatia devido à Lucy ter sido envolvida em tudo o que ocorrera, ou devido ao ocorrido com Celinne e Pearl. Não tinha certeza se elas estavam realmente vivas, como seu pai afirmara estarem, ou se fora algo que ele pensara ter visto. Se estivessem, não deveriam tê-lo chantageado como fizeram com Far? Era algo que se questionava constantemente, embora não houvessem respostas à suas perguntas como gostaria que houvessem.
Acabou que no dia seguinte foram àquela cidade, Cleethorpes. Como era ainda cedo, não era exatamente uma prioridade procurarem por uma pousada, porém o fizeram. Acabou que havia uma que era propriedade dentro de uma imensa árvore, pertencente à uma Nellac de pele escura, e os cabelos tão eram completamente entremeados com flores que mais fazia parecer ser um buquê do que realmente seu cabelo. Não havia camas disponíveis, apenas redes, cada uma já montada num quarto, e haviam três disponíveis, eles eram quatro – sem contar Aegis.
– Vamos pegar tudo logo, qualquer coisa Naphees dorme com Maya. – Winter resmungou e Jake foi obrigado a concordar, porém o mais velho não exatamente avisou o casal quanto à decisão, apenas os empurrou à porta indicada e os mandou arrumar suas coisas pois passariam a noite ali. Questionou o que se passou na cabeça do de cabelos prateados com aquilo, mas seguiu para a porta indicada à si.
O lado de dentro parecia ser algo que imaginaria talvez como a toca de um hobbit. Quer dizer, era amplo e confortável para uma pessoa, as paredes eram curvas e cavadas na madeira, e embora não entendesse exatamente o que eram as coisas dispostas pelo quarto além da rede verde escura perfeitamente tecida, era tudo bem arrumado e organizado. Pôs suas sacolas onde acho que deveria guarda-las, e decidiu experimentar a rede. Ela era viçosa, estalando como cipós quando se sentou, mas sua textura era tão macia e confortável como se deitasse sobre um tapete de grama, o que o fez soltar um suspiro de prazer.
Escutou batidas na porta e sabia que provavelmente era Winter, então com um gemido de desânimo acabou se levantando. Aparentemente ele havia chamado Nero também, e Maya havia o acompanhado.
– Fui falar com a dona. Há um estábulo na cidade, onde podemos comprar cavalos. – disse assim que abriu a porta. – Acho melhor irmos lá, certo?
– Temos dinheiro o suficiente? – Jake questionou.
– Bom, podemos ver o que faremos.
Revirou os olhos, porém como a presença de cavalos certamente adiantaria a viagem, seguiram aos estábulos enquanto Aegis permanecera guardando seus quartos, e se surpreendeu. Ainda possuía a ideia fixa dos estábulos da Terra, com baias de madeira onde os cavalos se mantinham e alguém vinha lhes trocar o feno e por ração, essas coisas.
Entretanto, os estábulos de Cleethorpes eram algo como uma construção oficial do governo. As paredes eram altas com colunas cor de areia, havia um muro completamente inscrito com símbolos decorativos que davam para um jardim interno, e deste jardim claramente se seguia para os estábulos, cada baia feita de uma pedra que Jake não identificou, grande o suficiente para os cavalos adormecerem, comerem, fazerem suas necessidades e ainda terem um espaço para se moverem livremente.
Os cavalos eram todos incrivelmente bem tratados, cavalos de fogo. Não sabia a diferença entre as raças de equinos de Talbor – tirando a raça Qhriz, a mais indicada para o Esben, que no caso, era a raça do cavalo de Arenai, Zurl. E também era a mais absurdamente cara – porém todos os espécimes dispostos ali eram magníficos, suas chamas sendo das mais variadas cores e tons.
– Veja esse lugar, – Nero sibilou. – não vamos conseguir comprar cavalos! Olhe só como...
Um relincho – na realidade, dois – acabou assustando-o. Virando-se, perceberam que haviam dois cavalos Qhriz em duas baias. Um era tão negro como o breu do couro do Esben, o fogo de sua crina movendo-se de modo fantasmagórico, acentuado por seus olhos de um vermelho sangrento. O outro era tão alvo quanto à neve, a crina movendo-se quase como neblina e os olhos de um azul esbranquiçado aceso. Eles moviam-se impacientemente e pareciam prestes à romper a cerca para correr na direção dos irmãos – embora não soubessem dizer qual.
–... Olá? – uma voz soou do fundo dos estábulos, e um homem robusto surgiu. Ele usava uma calça marrom e uma túnica, a barba perfeitamente aparada, acobreada e um turbante na cabeça. Parecia cansado, como se houvesse passado a noite em claro. – Oh, se não são aqueles garotinhos! Vocês cresceram bastante, não cresceram?!
Jake piscou. Ele estava falando deles?
– É... Com nós? – Nero apontou para si mesmo.
– Sim! Vieram buscar seus cavalos?
– Espera, o quê? Do que o senhor está falando?
– Ora, vocês não se lembram? Faz uns nove ou dez anos, vocês vieram aqui com seu pai comprar cavalos! Vocês levaram Deoks e Obadiah... – ele olhou para Winter. – Embora me lembro muito bem que eram só dois garotos...
– Espera, espera! – Jake exclamou. – Você está dizendo que já viemos aqui? E que temos cavalos aqui?
– Claro! Há uns... Oito anos o pai de vocês retornou com os dois e disse para cuidar deles até ele ou vocês vierem buscar, com o pagamento, é claro. – disse, cruzando os braços.
Jake e Nero se entreolharam, sem saber o que dizer, enquanto Maya soltava do braço do de cabelos prateados e ia discretamente à uma baia, enquanto Winter também se afastava ligeiramente. O homem parecia olhá-los de maneira ansiosa.
– Er, senhor... Infelizmente não sabemos do que está falando.
– Ora, como...
– Nós sofremos um acidente e estamos com perda de memória. – Jake se adiantou e Nero olhou-o surpreso por ele ter dito aquilo. – Recentemente consegui encontrar meu irmão aqui, e infelizmente ainda estamos no processo de recuperação, e estamos à caminho de Ha’qin para continuarmos nosso tratamento, então... Não fazemos a mínima ideia do que está acontecendo.
O homem pareceu murchar.
–... Está falando a verdade?
Jake tirou de dentro das vestes o amuleto que haviam lhe dado para que pudesse recuperar Rarac em Ha’qin, que era um simples círculo de argila com um símbolo gravado ao centro, algo semelhante à três caudas de fênix se enrodilhando. O homem pareceu murchar mais ainda.
–... Estão falando a verdade. – constatou e deu um suspiro cansado.
–... Aconteceu algo? – Winter questionou.
– Bem, sim. – ele tremeu e um cavalo esticou o pescoço, tentando abocanhar seu turbante. – Ontem, um grupo de ladrões assaltaram minha residência e levaram a herança de minha família, que era o que eu usava para manter os negócio dos cavalos. Sem ela, estou arruinado, então qualquer dinheiro que entrar agora é bem-vindo.
Ele deveria estar realmente arruinado, para falar sobre o fato para estranhos. Winter pôs uma mão no queixo e olhou Jake, que percebeu o que ele pensava. Os ladrões que haviam visto no dia anterior, talvez fossem eles...
Percebeu imediatamente o que o mais velho pensava.
– Por um acaso... Esse tesouro seria uma arca? – questionou num tom cuidadoso. Nero olhou para Winter, também entendendo.
– O-o quê...? Sim, sim! É uma arca entalhada em ébano e metal dusora! Você o viu?!
– Bem, eu e meu irmão aqui vimos homens carregando uma arca na mata... – disse. – O senhor disse que nosso pai comprou cavalos para os dois, e eu mesmo preciso de um cavalo, porém não temos como pagar tudo. Mas se fôssemos atrás da herança e conseguíssemos resgatá-la, poderíamos levar os cavalos?
Maya quase caiu da baia onde estava apoiada, e Jake acabou segurando-a pela cintura para impedi-la de cair. Ela parecia assustada com o que escutara.
–... Ir atrás dos ladrões? Isso seria suicídio!
– Estou trabalhando com a possibilidade de termos sucesso. O que o senhor diria?
O homem piscou, parecendo atônito com a ousadia de Winter. Bem, Jake tinha de admitir que ele arranjara a possibilidade de negócios bem mais rápido do que Jake teria pensado, porém ele poderia causar um atraso... E sabia que o outro ruivo apenas estava fazendo aquilo devido ao fato do treinamento do Esben que haviam recebido prezava o a agilidade e a invisibilidade, ataques rápidos e silenciosos poderiam acabar com muitos alvos desatentos.
–... Bem, o preço dos cavalos não é nem próximo do preço do que há contido na arca. Caso vocês realmente forem atrás dela, eu aceito a proposta.
Winter acabou sorrindo e Jake soltou um suspiro audível. Maya olhava assustada para os quatro e Nero estendeu a mão, tocando seu braço para tranquiliza-la, porém o modo em que ela o olhou demonstrou que ele não surtira exatamente efeito.
– Podemos fazer o seguinte: Durante a noite viremos aqui, pois até onde vi, a pousada onde estamos não possui janelas, e se sairmos armados pode acabar atraindo atenção indesejada. O que me diz, senhor...
– Ioji.
– Senhor Ioji.
–... Já que insiste nisso e estou desesperado, não vejo problemas... Espero que não veja problemas. — Ioji suspirou de tal modo que acabou expelindo fogo pelas narinas. – Porém me sentirei culpado se algo acontecer a rapazes tão jovens! Tem certeza de que quer continuar com essa loucura?
Quando saíram dos estábulos, Jake pegou Winter pelo pulso.
– Você é louco.
– Você não é o primeiro a dizer isso.
– Sério mesmo Vannes? Ao invés de descansarmos da viagem e seguirmos para outro lugar onde podemos comprar cavalos bem mais tranquilamente, você vai nos meter nesse problema?!
– Ora vamos! Você viu como os cavalos dele são, e mais... Ele tem cavalos Qhriz, sendo que – ele espetou um dedo no peito de Jake. – Um deles é seu. E temos a possibilidade de leva-los de graça! Me diga, quantas vezes teremos a oportunidade de levarmos os cavalos mais indicados para o Esben de graça?
Maya olhou-o assustada com a menção ao grupo de assassinos, e Nero abaixou o olhar. Não havia dito – ainda – a ela sobre esse detalhe, embora tivesse a intenção. Enquanto seus irmãos mais velhos discutiam, passou um braço sobre os ombros de Maya, tocando delicadamente na nuca de Maya, e acabaram seguindo sozinhos para a pousada. Provavelmente iriam acabar tendo de usar o uniforme novo que haviam recebido.
– Ah, ótimo, ele escapuliu com a garota!
– Vannes, sério, você...
– Nesses dias obscuros, onde crianças são caça; assassinos soturnos, de faces exatas, nas ruas de poeira, tramam o abate?
Ambos saltaram. Haviam sido pegos de surpresa, o som da viola surgindo do nada, e mais do nada ainda, entre os dois havia um homem quase tão alto quanto eles, o rosto totalmente enfaixado com tiras de tecido marrons de onde de vez em quando finíssimas mechas de cabelos ondulados azul turquesa escapavam. Seus olhos eram vermelhos e eram pintados de negro, e ele estava coberto por uma capa que oscilava entre o lilás e o dourado, com as bainhas ricamente bordadas com triangulações, o capuz caindo-lhe de modo que quase cobria a face, a viola vermelha e dourada entre as mãos também enfaixadas.
– Mas quem caralh... – Winter começou, mas o homem continuou.
– O morto que anda, o vivo que incomoda, Inq é como me chamo. – respondeu numa voz esganiçada e aguda.
–... Por que você fala em versos? – Jake questionou, ainda perguntando-se de que buraco aquele tipo havia saído, identificando o modo que ele falava devido à cadência e ritmo das frases.
– Para quê perguntas quanto à fala, enquanto almas irá mandar à vala?
Jake abriu a boca para responder, porém se deu conta que aquele homem claramente lhe dizia que sabia que eles provavelmente iriam tirar vidas durante à noite. Mas como?! Estivera escutando a conversa com Winter, por um acaso?
– Antes que se exaspere, não se altere, Inq também não é confiável, e auxilia aqueles que apagam.
Winter abriu a boca para dizer algo, porém quando percebeu em sua mão já havia um estojo de flechas e quando Jake percebeu já haviam duas adagas embainhadas em suas mãos.
– Talvez Inq dê sorte, e consiga clientes novos, enquanto a água correr e os restos brotarem. – ele se aproximou e pegou a ambos por suas nucas, e sua voz se alterou totalmente, tornando-se grave e baixa. – Nos reencontraremos em breve, Galrdais.
Antes que tivessem tempo de piscar, Inq já havia sumido.
–... Mas o que caralho acabou de acontecer? – Winter questionou.
–... Eu não sei. – Jake respondeu. – Ele... Ele nos chamou de Galrdais, aparentava saber que éramos assassinos e nos deu armas novas. Apareceu e sumiu de repente. Eu sinceramente não sei.
Se entreolharam, e talvez para poder absorver direito o ocorrido, retornaram para a pousada, afim de se prepararem para a noite, a hora do Esben.
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