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22 Capítulo 21 - La Vista del Fuoco


Notas iniciais
Ai ai, postei o capítulo relativamente rápido, mas não sei o que escrever aqui... Fiz um desenho do Piero, mas não escaneei (além de não ter saído lá essas maravilhas). Bem, é isso. Espero que gostem.

Capítulo 21 — La vista del fuoco

Dante estava sentado sobre o telhado de uma das humildes casinhas que encontravam-se dispostas, quase como esmagadas, pelas casas maiores e mais ricas. Era um bom lugar, e admitia admirar a força de vontade do Signor ou Signora que vivia ali, apesar da aparente humilhação que era manter-se como um pobre em meio àqueles ricos.

Phaeron encontrava-se empoleirado em sua forma de águia na torre da igreja, não muito distante, em estado de alerta. Alguns dias antes Bergais haviam aparecido. Nada que Dante, Piero e Phaeron pudessem dar conta, mas o Denor agia como se o pior pudesse ocorrer a qualquer momento.

Não que pudesse culpa-lo, mas admitia que eles não eram sua maior preocupação. Ficaria preocupado quando um de seus monstros aparecessem – caso isto ocorresse -, mas de resto... Sua mente encontrava-se em outro lugar. Um lugar escuro o qual poucas vezes permitia-se entrar, o que acabava por torna-lo singularmente introspectivo.

– Dante, por que estamos comendo aqui encima? – a vozinha de Heidi o chamou.

– Porque roubamos comida e caso o dono tenha percebido, teremos sossego aqui.

– Aaaaaah... A mamãe dizia que roubar é feio.

– É “feio” quando não se há necessidade de fazê-lo.

– Hã?

– Roubamos por necessidade.

– Ah.

Heidi era pequena. Quatro ou cinco anos. Não lembrava, sinceramente, e não se sentia exatamente coagido a perguntar, pois sabia que ela ficaria um tanto quanto magoada. E depois do que acontecera com ela, todos tentavam deixa-la menos magoada quanto o possível.

Heidi era aleijada. Não tinha movimentos da cintura para baixo, mas nem sempre fora assim. Recordava-se de que a pequena andava quando a vira pela primeira vez, pedindo esmola. A segunda, vira-a sendo espancada por riquinhos desgraçados. Espantara a todos, mas custara a capacidade de andar da criança, assim, a carregava em suas costas.

Assim, ela ocupava três postos no celeiro em que viviam: a de mais nova, única menina e com a ... Pior deficiência, embora não se falasse sobre o assunto.

Ciao bambini. – Se assustou quando Pietro escalou o telhado, aproximando-se dos dois. Heidi lhe dirigiu um imenso sorriso sujo com farelos de torta de frango. – Preparados para a sesta?

– Dependendo a que parte se refere da sesta. – retrucou. Durante o horário do almoço tudo se fechava e todos se recolhiam para as refeições, chegando a até mesmo tirarem um cochilo. Poderiam fazer o mesmo ou poderiam aproveitar o horário, arrombar algum lugar e promover um assalto.

– Dormir é chato! – Heidi exclamou.

– Dormir é ótimo! – Piero retrucou e o ruivo concordou silenciosamente. – Mas precisamos de dinheiro. Não que estejamos mais necessitados do que sempre, mas algumas liras à mais não fariam mal.

– Realmente, mas o que me sugere? Algum lugar para faturarmos nosso almoço também?

– Pensei que houvesse pego o seu quando conseguiu o de Heidi.

– É um tanto difícil ser discreto enquanto carrega uma criança loura nas costas, sabe?

– Claro, a Heidi é bonitinha, óbvio que vão parar e olhar para ela, além de se perguntarem porque ela está com um claro ser de má índole totalmente desvirtuado dos meios cristãos e que não comparece às missas de domingo.

Dante revirou os olhos.

– O que é “má índole”? – Heidi questionou.

– Alguém... Mal. – Pietro respondeu.

– O Dante não é mal!

– Não, mas parece. Vai me dizer que esta cara rabugenta dele é simpática?

Dante o fuzilou com os olhos.

– Dá um pouquinho de medo... – a criança admitiu.

– Heidi!

–... Mas eu acho o Dante bonito...

A essa altura Piero já estava rindo sem se segurar, fazendo com que o ruivo sentisse uma ligeira vontade de esganá-lo. Sentia um pedaço de telha solta sob seus dedos, mas pensando melhor, achou melhor não arremessa-lo. Simplesmente olhou envolta como pôde enquanto armava uma carranca e disse:

– Certo, onde devemos ir? Um lugar que dê comida para nós e o resto dos meninos ou dinheiro?

– Que tal ambos?

Olhou para o rapaz de cabelos prateados e este apontou para o armazém. O dono – um gorducho de faces coradas que Dante nunca descobrira o nome – trancava a porta dos fundos com um cadeado e ia embora para sua refeição com o andar capenga.

–... Admito que é uma boa ideia. – disse e Piero adquiriu um sorriso quase maquiavélico.

– Heidi, você fica aqui?

– Tudo bem! Não saio daqui!

Dante considerou que tal frase continha certo humor negro, mas apenas concentrou-se em descer do local e ir discretamente até a venda.

As ruas estavam desertas. Era um costume que todos se recolhessem na hora do almoço, o que tornava tudo mais fácil, tendo porém uma dificuldade adicional, pois seriam pegos muito mais facilmente. Ainda assim, Piero pegou um pedaço de arame de seu bolso, usando-o para abrir o cadeado. Levou menos de um minuto, porém Dante parou para observar suas mãos, como sempre fazia.

Tinha dedos longos e finos, mas cada centímetro, desde seus dedos até seus braços eram enrolados em ataduras. Sempre fora assim, desde que o garoto aparecera no celeiro há três anos, pedindo um teto. Quando o perguntaram sobre o assunto, simplesmente respondera que no acidente em que perdera a família acabara queimando o local de modo que era necessário sempre utilizá-las.

Sabia que este não era o motivo, pois sabia que Piero não poderia se queimar, já que ele era igual a Dante, controlando água e fogo. Fora um choque quando descobrira – além da animadora sensação de não estar sozinho em algo. -, mas também não perguntara mais nada. O mais novo nunca indagara em questão ao seu olho escondido, então fazia o mesmo com ele. Era uma espécie de entendimento entre ambos.

– Ei Dante, vai entrar ou não? – A voz de Piero o acordou. Ele já estava dentro do estabelecimento. Respirou fundo antes de segui-lo.

O interior era amplo, com o balcão e uma porta que levava às prateleiras onde o estoque era mantido. A luz entrava precariamente pela janela suja, mas era o suficiente para que visse as partículas de poeira dançando pelo ar, planando delicadamente até pousar por todas as superfícies numa camada de um translúcido branco. Sentia algo assumindo seu corpo quase como uma letargia, deixando tanto as pontas de seus dedos quanto sua consciência formigando.

Era nostálgico. Era semelhante. Com o quê não sabia dizer. Havia algo na aparente desolação do local que fazia seu interior revirar. De uma maneira boa, mas ao mesmo tempo ruim. A sensação de que, se fosse dar uma forma a sua mente, aquela seria a forma.

Havia estado em um local assim... Antes...

– Esse gordo nunca limpou esse lugar?

Ergueu os olhos, vendo Piero parado um pouco à frente a porta do depósito. A luz incidia diretamente de maneira fraca sobre ele, fazendo com que o cabelo claro brilhasse em seus tons de prata líquida. Os olhos verdes margeados por cílios longos e claros pareciam acesos como se houvessem chamas em seu interior, chamas vivas e calorosas, embora que ainda parecessem sempre solitárias e distantes. O garoto sempre tivera aquele olhar.

Mas naquele momento os olhos de ambos se prenderam. Um longo momento em que sabia Piero observava o mais profundo de seu ser e que o observava de volta. Um longo momento em que tudo era absolutamente errado sendo absolutamente certo. Não era a primeira vez que ocorria, havia ocorrido diversas vezes durante os três anos em que se conheciam, mas cada vez que ocorria era como se fosse a primeira vez, e sempre via os fortes apelos naqueles olhos verdes que gritavam que havia algo que o mantinha preso mas que desejava desesperadamente se livrar de tal.

Era sempre angustiante.

Como sempre, foi Piero que quebrou o contato visual, primeiro abaixando o olhar para depois seguir pela porta. Emitiu um suspiro; sua cabeça pesava. Nesses momentos desejava esquecer de tudo, de que eram Galrdais, que eram ladrões, que eram dois homens. Mas como não podia, simplesmente decidiu arrombar a caixa registradora, verificando se o dono deixava o dinheiro durante o horário de almoço – e sim, ele era burro o suficiente para deixar. -, além de verificar qualquer coisa útil.

Sabia que haviam perdido tempo, embora não tempo demais, então teriam de correr um pouco mais. Vasculhou por qualquer item de valor, qualquer coisa que chamasse sua atenção, que pudesse custar alguma coisa ou servir para algo. Pegou também algumas sacolas sob o balcão para levarem as coisas.

Algo chamou sua atenção quando se preparava psicologicamente para se manter no mesmo recinto que Piero novamente. Aproximou-se de uma das prateleiras do outro lado da loja, vendo que havia ali um dragão de madeira. Apenas isso, mas tão ricamente entalhado em detalhes que quase acreditava que se passasse seus dedos por sua superfície sentiria as rígidas escamas.

– Mas o que algo assim está fazendo aqui...? – questionou-se, erguendo a mão para pegar a estatueta.

Se arrependeu no momento em que a tocou. Todo o mundo girou antes de tudo mudar. Era uma caverna de paredes brilhantes como cristais,

– Se arrependerá por sua petulância, mortal!

Então o fogo o envolveu.

Sempre acreditara que as chamas eram algo como suas amigas. As controlava, o calor lhe aconchegava e nunca se feria. Poderia ficar para sempre em meio a elas, e estaria em casa.

Estava redondamente enganado.

Quando o fogo o envolveu, foi o inferno. Não havia fumaça, mas não conseguia respirar a energia quente que era emitida. Sua pele doía, parecia que ela derretia e fundia a seus ossos enquanto endurecia como o metal. Abriu os lábios para gritar – puro reflexo -, mas sentiu quando sua boca tornou-se tão seca quanto um deserto, a pele parecendo descascar e sua língua se tornar nada mais que um pedaço de carne seca.

Una-se. – uma voz sussurrou em sua mente.

Doía.

Una-se aos dragões.

Una-se aos seus irmãos.

Doía.

Os quatro dragões do retorno.

Doía. Doía. Doía. Doía. Doía. Doía. Doía. Doía. Doía. Doía. Doía. Doía. Doía. Doía. Doía. Doía. Doía. Doía. Doía. Doía. Doía. Doía. Doía. Doía. Doía. Doía. Doía. Doía. Doía. Doía. Doía. Doía. Doía. Doía. Doía. Doía. Doía. Doía. Doía. Doía. Doía. Doía. Doía. Doía. Doía. Doía.

Antes do fim. Antes da destruição do Dragão Branco.

Trarão vida à ruína, porém é inevitável.

Dragão. Dragão.

O fogo explodiu, abrindo um céu violeta riscado por milhares de raios que dirigiam-se ao solo como fios violetas. A terra estava vermelha, quase como se sangrasse, rachada, e jurava ver o magma brilhante sob ela. E havia algo à sua frente. Distante a ponto de sua silhueta parecer escurecida, mas... Mas ele o via com perfeição.

Alguém.

Era totalmente branco. Seus cabelos e pele totalmente desprovidos de cor, porém havia diversas rachaduras negras como breu por sua pele tal qual o solo acometido pela seca prolongada. Virou-se lentamente em sua direção, os olhos completamente negros e as íris de um insano tom de vermelho, um sorriso maligno e quase demoníaco em seus lábios, os dentes eram presas brancas e imaculadas.

Ele era idêntico a Dante.

– Meu irmão... – O som de sua voz era o som de uma multidão falando ao mesmo tempo.

– Dante! O que está acontecendo com você?! Dante!

Quando escutara o estrondo na outro cômodo, Piero soubera que havia algo errado. Encontrar Dante caído com o único olho vazio encarando o nada e o ignorando totalmente, porém, estava bem além de suas expectativas. Passou a mão pelos cabelos prateados de modo frenético. O que estava acontecendo com ele?

Alarmou-se quando a temperatura ao seu redor subiu consideravelmente. Olhou para o ruivo, cuja pele já começava a brilhar.

Dante, por tudo que existe, você não pode pegar fogo agora!

Foi totalmente inútil. Com uma explosão o corpo se incendiou e um círculo de fogo se alastrou, atingindo a Piero e as prateleiras num segundo, iniciando um incêndio sem qualquer demora. Num reflexo, o de cabelos prateados aumentou sua temperatura e se incendiou também, porém não conseguiu deixar de se queimar: As chamas de Dante eram absurdamente quentes e poderosas.

Rangeu os dentes. Uma comoção se iniciaria logo, então pegou o maior, jogando-o em suas costas e bufando com seu peso – Dante não era exatamente gordo, mas era consideravelmente musculoso, o que também o tornava consideravelmente pesado – e correu o mais rápido que pôde, passando por quem que já houvesse chegado ao local devido ao incêndio como um raio.

Esqueceu-se completamente de Heidi no telhado, concentrando-se apenas em sair da cidade o mais rápido o possível, chegando em pouco tempo ao lago depois do celeiro, embora estivesse quase cuspindo seus pulmões devido ao esforço.

Acabou jogando Dante na água para evitar que ele causasse um incêndio no gramado, e assim que ele atingiu a superfície logo peixes mortos pelo calor começaram a boiar.

– Piero, o que aconteceu?! – a voz de Phaeron o sobressaltou, vinda de trás de si. Olhou-o e o viu parar um instante, com uma expressão surpresa. Só então percebeu que suas roupas já haviam sido totalmente consumidas e que vestia as vestes de cinzas. – Você...

Rangeu os dentes.

– Nunca comente sobre isso, certo?! Agora o que aconteceu com o Dante?!

Phaeron apenas assentiu diante a primeira sentença e correu até o lago que já fumegava. “Pescou” Dante, pondo-o deitado sobre a grama que entrou em combustão instantânea. Ele ainda continha a mesma expressão. Piero manteve o incêndio sobre controle como pode, mas o Denor parecia saber o que estava acontecendo tanto quanto ele.

– Creio que teremos de esperar ele voltar ao normal... – murmurou. – Como isso aconteceu?

– Não sei, eu estava na outra sala. – justificou-se. – Só escutei quando ele caiu no chão e quando vi, já estava assim!

Foi a vez de Phaeron ranger os dentes. Piero moveu-se de maneira desconfortável, tanto pelo que acontecia quanto por sua situação. Olhou para os desenhos profundamente marcados em suas mãos e braços, que brilhavam em sua pele como magma.

– Essas marcas, você é...

– Eu não sei o que sou. – cortou-o. – Eu... Eu tenho que voltar.

Não esperou a resposta do Denor, apenas deu as costas a ele e já corria floresta adentro, mas ainda assim ouviu-o gritar:

– Qual o seu nome afinal?!

Quase rangeu os dentes novamente quando praticamente escutou a voz de sua mãe chamando-o por seu nome, o que mesmo sendo seu nunca se acostumara. Balançou a cabeça, afastando o pensamento. Era Piero agora. Piero, o ladrão.

O companheiro de Dante.

– Mas que diabos! – gritou quando saltou por cima de algo, algo feito de gelo. – Estou sem tempo para vocês, desgraçados!

Nem viu direito que era o Bergal, lhe acertou um golpe com toda sua força e ele pegou fogo entre gritos de agonia. Antes que conseguisse dar mais um passo sequer, porém, duas mãos agarraram-no pelos braços e jogaram-no ao chão, fazendo-o soltar um grito reprimido.

Pressionavam seus braços atrás de suas costas com extrema força, apesar das chamas. O calor o entregou: Aquele não era um Bergal.

– Ora ora... Mas o que temos aqui...?