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18 Capítulo 17 – Reencontro em meio a dor
Notas iniciais
Capítulo 17 – Reencontro em meio a dor
Jake praguejou de dor no momento em que recobrou os sentidos. Sua cabeça latejava e tinha certeza que sentia o sangue escorrendo por seu pescoço. Quando sua mente clareou um pouco mais, sentiu-se imediatamente alarmado. Havia algo em sua boca. Um pedaço de trapo, para ser mais exato. Estava amarrado em si, e ainda havia mais um tecido enrolado diversas vezes nele, mantendo sua boca cheia ao ponto de se sentir mal ao respirar, embebido com algo amargo e ardido.
Estava numa posição desconfortável, sentados sobre suas pernas dobradas sob si, suas mãos amarradas com algo que mais lhe pareceram cabos que cordas. Estava extremamente empertigado, com o que lhe pareceu ser uma coluna às suas costas. Ao tentar se mover, percebeu que seus pés também estavam amarrados, os cabos que os prendiam de certa forma também estavam amarrados às suas mãos.
Seus joelhos e pernas doíam, e ao olhar para baixo, viu-se sobre um estrado de madeira pontiagudo. Como se já não estivesse desconfortável o suficiente...
Mas logo a informação lhe veio à mente. Isso significava então que... Os Bergais haviam-no pego, e levado para algum lugar. Grunhiu, além de se debater na tentativa de romper o que lhe prendia, mas era forte demais. Pensou em usar qualquer um de seus poderes, mas nenhum parecia lhe responder, para seu desespero.
– Parece que o outro Galrdai já acordou...
– Pois bem então. A deixarei cuidando para que ele não fuja. – uma voz grave disse. — Deixarei a chave-mestra na argola da porta.
– Sim senhor.
Ouviu o som do que lhe pareceu uma porta de correr, com passos ecoando juntamente ao som de gelo, antes da porta fechar. Jake sentiu um agouro terrível no momento em que o homem dissera “A deixarei cuidando para que ele não fuja”. Debateu-se novamente, tentando acalmar a sua mente para que o fogo ou a água lhe respondessem, mas não conseguia.
Alguém parou a sua frente, e podia ver que era uma mulher. Mas ao olhar para cima, percebeu que ela possuía a cabeça de um felino, além de todo seu corpo ser recoberto de pelos brancos, fazendo-a parecer uma gata humanoide. Ela lhe deu a sua versão de um sorriso, que em conjunto aos olhos felinos cujas pupilas eram apenas linhas de aparência perigosa, parecia-lhe extremamente sádico, expondo todas as suas presas.
– Ora ora... – ela disse com um sotaque... Bem, felino, sua voz mais parecendo um ronronar. Ela abaixou-se à frente de Jake, que sentiu todos seus pelos se eriçando. – Vejamos o que temos aqui... Uma das “quatro entidades”. – ela deu uma risadinha, e passou dedo pelo rosto do ruivo. Parecia que sua mão era mais uma pata com um formato ligeiramente humano que uma mão em si. – Tens os cabelos como os de um Talbordai, além sua pele ser quente como a deles, mas olhe só... – Ela pegou a cabeça de Jake, virando-a. Sentiu que não era uma boa ideia lutar contra. – Ela tem a cor de um Bergal... Assim como seus olhos. Seu rosto também é bem mais parecido.
Jake se retesou ao sentir as garras começando a sair das pontas de seus dedos.
– Bem, sabia que já “cuidei” de um dos seus irmãos? – Jake arregalou os olhos. – Ah sim... – Ofegou quando uma das garras foi fincada contra a pele de seu rosto, pouco abaixo de seu olho direito. – Aquele garoto deu tanto trabalho antes... Sempre se escondendo, sempre fugindo quando púnhamos as mãos nele. – Silvou quando ela lentamente abaixava garra, cortando sua pele, o sangue quente vertendo. Ela agarrou-o pelos cabelos e o puxou, imobilizando-o ainda mais e obrigando-o a encará-la. – Cuidei especialmente para que ele não pudesse mais fazer isso, ah sim... Foi tão divertido ver aquele rosto bonito se contorcendo de dor enquanto eu partia seus ossos! E veja só que presente, logo em seguida consigo um idêntico! – ela deu uma risada, tirando sua garra do rosto de Jake, que já sentia o desespero tomando conta de si. – Sim, isso mesmo, lhe darei o mesmo tratamento! Vejamos se conseguirá se esconder como fez durante todos estes anos!
Ela falara sobre seu irmão. Haviam pego Nero?! Sabia que ele conseguia se esconder muito bem, e obviamente fugia, afinal, via quando as coisas iriam acontecer, mas então significava que eles haviam dado um jeito de pôr as mãos nele?!
– Oh, está preocupado com seu irmão? – Ela lambeu o sangue em sua face, fazendo-o se retesar. Sua língua era áspera como a de um gato. – Não faça isso, logo terá de se preocupar o suficiente consigo mesmo!
Aquela... Criatura levantou, finalmente soltando sua cabeça, que agora parecia pesar uma tonelada. Os olhos azuis vagaram desesperados por aquela sala. As paredes pareciam ser feitas de pedras marítimas, jurava ver conchas presas em alguns pontos. Havia também o que lhe pareceram ser lanternas de gelo nas paredes, com uma gélida luz azulada irradiando delas.
Olhar ao redor porém não foi a melhor das ideias. Aquela sala parecia estar cheia de aparelhos de tortura, o que quase fez o coração de Jake parar.
Como conseguira se pôr naquela situação?!
**Quase gritou porém quando um espesso e pesado tablete retangular de pedra foi jogado sobre suas coxas, pressionando suas pernas ainda mais contra aquele estrado pontiagudo.
– Hmmm... Creio que este seja muito leve... – a felina riu, antes de jogar outra pedra sobre a que já estava sobre Jake, que sentiu as lágrimas vindo-lhe aos olhos quando as pontas sob si pressionaram-se ainda mais dolorosamente contra sua pele e seus ossos. – Ora vamos, esboce alguma reação! Normalmente os meus “convidados” já estão gritando no segundo!
O terceiro veio. Não conseguiu se impedir o grito que foi abafado pela mordaça, as triangulações do estrado perfurando o tecido de sua calça e sua pele, além da agonia daquele peso que parecia quebrar lentamente seus ossos. Jurava que conseguia senti-los e ouvi-los estalando, como uma tábua de madeira lentamente cedendo ao peso sobre si.
No quarto, já sentia as pontas tocando-lhe os ossos. As pedras já estavam praticamente na altura de seu queixo. Seus pés pareciam ao ponto de quebrar. A mulher encarava-o com um brilho de sádica diversão em seus olhos.
– Bem, isso deve fazer andar pelo menos lentamente agora. – ela deu uma risadinha, e para a surpresa de Jake, com um movimento de sua cauda ela conseguiu derrubar todas as pedras de cima dele. O alívio veio apenas para o peso, pois o tablado ainda estava fincado contra sua pele. – Vejamos...
Ouviu o som do que lhe pareceu ser uma alavanca, e com um puxão seus pés e suas mãos – já estavam amarrados juntos. – foram levados para cima, deixando-o pendurado e todo o seu peso sendo seguro por aqueles membros. Era agonizante. Com os cabos apertados, conseguia sentir a circulação parando de passar por ali e parecia que a qualquer momento suas mãos e seus pés seriam decepados.
Mordeu a mordaça, e aquele líquido amargo nela preencheu seus lábios, deixando-o mais consciente do que gostaria.
– É horrível, não é? – ela riu e Jake abriu os olhos, encarando o chão à sua frente. Ainda sentia o tablado preso a si, e o piso estava manchado com seu próprio sangue. Grunhiu quando ela arrancou o estrado. – Ora, deixe-me ver seu rosto! – ela puxou-o pelos cabelos, obrigando-o a encará-la. Estava molhado de suor e não conseguira impedir que as lágrimas de dor lhe viessem aos olhos. Tinha certeza de que seu rosto estava extremamente vermelho, além de haver o sangue do corte que lhe fora infligido. – Ah... É assim que eu gosto... Bem que eu poderia retalhar um pouco mais... – uma garra arranhou de leve seu rosto numa ameaça, fazendo com que Jake fechasse seus olhos por reflexo, esperando pela dor. – Hmmm, não. Seria desperdício estragar este rostinho lindo. Em compensação...
Ela abaixou-se, pegando uma das pedras que estavam antes sobre as coxas. Se deu conta do que a felina ia fazer, mas não havia nem como se debater. Ela a pôs sobre as suas costas, fazendo com que o peso aumentasse sobre suas mãos e seus pés, fazendo-o soltar diversos silvos e grunhidos agoniados. Ela riu e pôs uma segunda, aumentando o desespero e a dor de Jake. Os cabos pareciam que a qualquer momento iriam decepar seus membros e a falta de circulação neles tornava-se desesperadora.
À terceira pedra disposta sobre suas costas, sentiu tanta dor tanto em sua coluna quanto em seus braços e pernas que eram puxados dolorosamente sobre suas costas, arrancando mais lágrimas e grunhidos. Não sentia mais suas mãos e seus pés graças ao peso, e tinha certeza que eles estavam pelo menos extremamente roxos.
– Não vai gritar? – Ela aproximou-se dele, pegando seu rosto novamente, obrigando-o a olhá-la mais uma vez, fazendo-a sorrir. – Isto está ficando interessante...
As pedras foram arrancadas de sobre ele novamente e com um golpe que não conseguiu enxergar, o cabo que o mantinha pendurado foi cortado, fazendo-o cair de peito. O ar pareceu ser arrancado de seus pulmões, ainda mais pelo fato de ter caído sobre o estrado de anteriormente. Os cabos que prendiam seus membros foram cortados, entretanto, não conseguia se mover. Suas pernas e seus braços encontravam-se dormentes e pesados demais.
Foi arrastado até o mais lhe parecia um altar de gelo, onde ela amarrou seus braços e pernas com correias antes que recuperasse seus movimentos, mantendo-o deitado de bruços.
Jake ergueu levemente sua cabeça, tentando ter um pensamento coerente em meio toda aquela dor. Precisava dar um jeito de sair dali, mas como? Estava preso, e quando tivera a oportunidade de escapar não possuía forças...
E parecia que as coisas iriam ficar piores.
Com suas garras, a felina cortou sua camisa, deixando suas costas completamente expostas. Ergueu sua cabeça, olhando por algo que pudesse ajuda-lo a escapar – o que era difícil graças ao fato de estar preso. -, e ela percebeu.
– Vejamos se agora você irá gritar.
E foi certo: Gritou. Ela fincou uma garra em suas costas, puxando-a para baixo e cortando a carne profundamente. Se debateu, mesmo sem nenhuma chance de se soltar, e tudo piorou quando ela jogou algo sobre o corte, fazendo-o arder insuportavelmente, ainda esfregando sobre o ferimento.
Sal.
Como se a ferida já não fosse o bastante.
Mais um corte foi feito, o sangue vertendo com abundância, e mais uma vez ela jogou sal sobre ele. E mais um, mais um, mais um...
Mordeu a mordaça com força, e o líquido mais uma vez verteu para seus lábios, mantendo-o consciente para seu desespero. Debateu-se novamente, o que fez com que a garra escorregasse da linha reta que fazia e ir de seu ombro direito até a extremidade esquerda de sua cintura. Gritou de agonia, enquanto a felina dava risada.
– Foi você mesmo que fez isso, olhe só! – disse enquanto passava uma quantidade generosa de sal no ferimento, fazendo-o gritar novamente ao ardor pulsante e doloroso. Se retesou ao senti-la encostando três dedos pouco abaixo de sua nuca, fazendo com que o desespero o tomasse a ponto de querer implorar para que não o fizesse, entretanto, era incapaz. As garras foram fincadas e sem escrúpulos desceram, rasgando sua carne até um pouco acima de seu quadril, arrancando-lhe mais um grito de agonia, sua garganta ardendo devido a tantos. Mais uma vez o sal foi passado, causando-lhe mais sofrimento.
Ela saiu de perto dele, fazendo-o erguer a cabeça fracamente, questionando-se de maneira temerosa o que ela iria fazer. Mais uma vez tentou se acalmar e ver uma maneira de se libertar, porém algo foi vertido em suas costas, abarcando todos os ferimentos. Algo que ardeu como ácido e praticamente enlouqueceu-o de tamanha a dor. Debateu-se como um animal, enquanto sentia o cheiro fétido do líquido e a fumaça que se fazia dele. Era como se suas costas estivessem derretendo dolorosamente, cada pedaço se desfazendo enquanto despedaçado por milhares de cortes, drenando todas suas forças.
Ao longe, escutava aquela criatura rindo como se estivesse se divertindo como nunca. Tamanha era sua dor que já sentia seu corpo formigando e sua visão adquirindo pontos escuros. Como se pusera naquela situação?
– Agora... – o som da porta se fez ouvir novamente, a interrompendo. Ouviu-a chiando como um gato. – O que está fazendo aqui?!
– Mandaram-me marca-lo. – uma voz masculina respondeu.
– Vá marcar o outro primeiro!
– Já fiz isso, por isso estou aqui. – Escutou passos se aproximando. – ...Você fez um estrago com esse.
– Não tanto quanto com o outro.
– Não... Com certeza não. Mas você ainda não terminou, certo?
– Óbvio que não, você me interrompeu desgraçado.
– São ordens, não venha me xingar. – Sentiu as correias de seu braço direito sendo desamarradas.
– Já que está o desprendendo, vire-o para cima.
– Você não pode fazer isso?
– Quem veio desamarrar ele foi você, não eu.
Ouviu um bufo, e mais passos, antes de sentir seu outro braço e as pernas sendo desamarrados antes de que fosse virado, mas logo foi amarrado novamente. Se contorceu quando teve de deitar sobre todos aqueles cortes dolorosamente, mas seu braço direito foi logo pego, puxado para um suporte que não viu já que recusava a abrir seus olhos, preso a este.
Silvou quando o que lhe pareceu ser uma agulha ou lâmina – sinceramente, sentia tanta dor que já nem conseguia distinguir mais direito. – penetrou-lhe a pele, sendo logo após retirada e o processo sendo repetido ao redor de seu braço, altura de seu bíceps.
– Ainda vai demorar muito? – a felina silvou.
– Não me apresse, ou posso errar a profundidade e acertar alguma veia ou artéria.
Ela chiou, e para Jake, lhe pareceu que a mulher saiu do recinto.
– Finalmente... – O homem murmurou. O ruivo sentiu-o se movendo e ele pegou seu rosto, fazendo-o abrir os olhos fracamente, encarando o Bergal de cabelos cor de alga, sua visão desfocada ao ponto de seu rosto ser um borrão. Ele desamarrou sua mordaça, pegou um pequeno frasco azul turquesa pela metade, vertendo-o entre os lábios de Jake. Foi como se houvessem dado um tapa em seu rosto e o obrigado a recuperar a lucidez, e a dor se esvaiu ligeiramente. O bergal mexeu na correia, deixando-a perceptivelmente folgada, mas ao olhar naquela direção, parecia estar bem apertada. Ele aproximou e sussurrou próximo a Jake. – A chave mestra está na porta. Siga o sangue.
E retornou a trabalhar no braço do Galrdai com um instrumento que lhe parecia uma vareta com uma fina lâmina em sua ponta, fazendo-o perceber que estava sendo marcado com uma tatuagem que não viu como era. Não demorou muito para a mulher felina retornar.
– Já acabou? – questionou mal humorada.
– Já. – respondeu de maneira singela, abandonando a lâmina próxima a mão meio solta de Jake, saindo como se nunca houvesse feito nada.
– Idiota, atrapalhando o trabalho dos outros. – ela resmungou. – Porque ele tirou a sua mordaça?! Ah, não importa, não vai conseguir falar mesmo. – completou, deixando-o alarmado.
Um pano foi pressionado contra seu rosto, sendo seguro pela patas dela com força o suficiente para impedi-lo de respirar, e então literalmente a água começou a ser despejada sobre o tecido, encharcando-o. Se debateu, tentando respirar, mas tudo o que encontrava em seu caminho era a água e o tecido encharcado.
– Olha só, é meio Bergal mas está se afogando! – gargalhou de maneira sádica.
**Jake puxou seu braço direito, soltando-o da correia. Tateou desesperadamente enquanto seus pulmões pareciam estar começando a nadar enquanto explodiam, encontrando o instrumento deixado pelo Bergal. Num movimento rápido, fincou-o no primeiro local que alcançou nela, antes que percebesse.
A felina gritou, e Jake sentiu o sangue vertendo sobre si e o tecido antes dela soltá-lo. Conseguiu ouvi-la cair um pouco afastada de si, então tirou o pano do rosto, respirando como se o ar fosse uma dádiva – e era -, para desesperadamente tentar soltar a correia de seu braço esquerdo, mas tremia tanto que era uma missão quase impossível. Sua mão estava roxa e com as marcas dos cabos das torturas de anteriormente. Assim que conseguiu, sentou-se, arquejando ao sentir os ferimentos em suas costas repuxando ao sentar-se, e libertou suas pernas com dificuldade.
Estranhando a quietude no momento que jogou as pernas para o lado, olhou a mulher, sentindo então um enjoo tomando conta de si. Havia a acertado no olho e era impossível dizer se estava viva ou morta, jogada contra a parede. Mas não ia esperar para ver.
Se pôs de pé, silvando de dor devido os cortes em suas pernas e os pés igualmente roxos e inchados mal o mantinham de pé. Deixou a camisa rasgada escorregar por seus braços até o chão e foi trôpego até a porta, sentindo o sangue escorrendo por suas costas, rosto e pernas.
No centro dela havia uma argola, onde estava pendurada uma espécie de moeda de cristal do tamanho da palma de sua mão, a qual pegou. Puxou-a, mas ela não se abriu, fazendo com que olhasse para aquela moeda. Levou-a até próxima ao batente, e ela começou a brilhar, junto ao que lhe parecia ser a fechadura. Puxou novamente a porta, e desta vez ela se abriu.
Pôs a cabeça para fora, e olhou envolta, verificando se não havia ninguém. Encontrava-se num largo corredor, com várias portas bem menores à sua frente, com pequenas portinholas no inferior.
Celas. – pensou. – Ou algo parecido.
Sua mente retornou para a informação de quando despertara, de quando ela dissera que havia que havia “cuidado” de seu irmão, além do homem mandando-lhe “seguir o sangue”. Olhou para o chão, percebendo ali realmente manchas de sangue, o que o deixou nauseado. Porém mais ainda, percebeu que poderia andar por ali sem medo que o seguisse por suas marcas de sangue.
Espero que Naphees esteja bem.
Seguiu incerto, tentando se manter sobre as marcas, olhando constantemente sobre seu ombro para ver se não havia nenhum soldado. Incrivelmente, dobrou para a esquerda e seguiu por mais um corredor à direta, onde as marcas rubras seguiam para dentro de uma das portas. Olhou-a hesitante, temeroso de ser uma armadilha e acabar ficando preso, mesmo possuindo uma chave.
– O Galrdai fugiu! – escutou uma voz gritando, que foi o suficiente para fazê-lo atrapalhadamente pegar a moeda, pô-la contra a fechadura e pular para dentro. Tropeçou nos próprios pés e caiu atrapalhadamente, mas teve presença de espírito o suficiente para fechar a porta. Ficou-a encarando durante algum tempo, escutou passos apressados em frente a ela, mas nenhum permaneceu ali. Agradeceu aos céus por isso.
Só então se perguntou de quem era o sangue que seguira até ali. O rastro seguia até o fundo da cela, onde viu vagamente uma figura deitada devido à má iluminação. Sentiu seu peito se apertando, seria Naphees? Arrastou-se até lá, até a figura, e quando finalmente conseguiu ver, graças a fraca iluminação – quase nada -, sentiu o aperto se intensificando em seu peito.
Não era Naphees.
Mas era um de seus irmãos.
Seu cabelo liso à primeira vista parecia negro, mas sabia que na realidade era de um profundo tom de vermelho, bem mais compridos que os de Jake. Espalhavam-se no chão, emaranhados com sangue, até o meio de suas costas. Os olhos azuis gelo abriram-se fracamente, antes de se fecharem novamente.
Lembrava-se vagamente de Rarac dizendo que apenas ele e seu irmão mais velho eram completamente idênticos. Então aquele era Vannes...
E só então se acendeu a pergunta de onde estava Rarac.
Que logo foi esquecida no momento em que olhou melhor para seu irmão mais velho, e sentiu quase como se fosse vomitar. Havia muitos cortes em seu peito, retalhando a camisa outrora branca, mas o que realmente lhe nauseou foram seus braços e suas pernas. Seus braços haviam sido esfolados até a altura da metade do antebraço, a carne vermelha e sangrenta exposta, e suas pernas estavam em uma posição estranha e lhe pareciam... Molengas...
Percebeu que os ossos haviam sido praticamente esmigalhados.
Se apenas de olhar já se sentia tonto, não queria pensar o que Vannes estava sentindo. E também percebeu como poderia ter terminado se não houvesse conseguido sair daquela sala. Não conseguiu se reprimir e tocou levemente uma das pernas, mas o corpo de seu irmão se retesou e pareceu que foi atingido por uma enxurrada de palavrões... Em francês.
– Desculpe! Desculpe! – adiantou-se, arrependendo-se imediatamente de ter feito aquilo. – Er, espera, você entende inglês? Senão não vai fazer sentido eu...
– Entendo, e acho que é a coisa mais estúpida a se perguntar no momento. – recebeu como resposta, fazendo-o sentir sem graça. Ele falava com certo sotaque, quase imperceptível, mas o possuía. – Não sei se devo ficar feliz de ter alguém comigo, mas quem raios é você?
Percebeu que ele não conseguia enxergá-lo direito.
– Hmmm... Seu irmão.
Vannes ficou calado por algum tempo, então ergueu a cabeça de leve do chão.
– Você é idiota como eu ou te pegaram de surpresa?
– Não sei se sou idiota como você e que raio de pergunta é essa quando se está...
Escutou a porta da cela se abrindo e quase teve vontade de se matar por ter perdido tanto tempo, mas quando olhou para ela, viu o que lhe pareceu ser inicialmente um menino de um metro e meio de altura, trajando uma bata de mangas compridas cor de creme com uma calça larga e geométrica. Seu cabelo era curto, castanho claro e tinha grandes olhos azuis. Ele olhou pra fora nervosamente, antes de fechar a porta silenciosamente e correr até eles.
– Fiquem quietos!
–... Quem é você? – Jake questionou hesitante.
– Eu vou ajudar a tirar vocês daqui.
– Ah ótimo. – Vannes suspirou, jogando sua cabeça pesadamente contra o chão. – Eu já estava sem muitas esperanças graças às minhas pernas aqui, agora parece que vou me ferrar de vez e vou descer as minhas escadarias para o inferno.
Jake quase teve vontade de rir. Um riso desesperado. O garoto fuzilou os dois com os olhos.
– Caso isto lhe acalme, eu sou muito mais velho do que pareço e com certeza sou muito mais velho que vocês dois, agora... – começou, seu olhar indo até os membros de Vannes. – Aos Sthanom garoto, o que aconteceu com suas pernas?!
– Fui atacado por uma gata louca que é a torturadora daqui, e não se esqueça dos meus braços. – Ergueu os membros sangrentos, e tanto Jake quanto o menino se encolheram. Como ele conseguia parecer tão indiferente? – Tá, mas e agora o quê?
– Eu ia dizer que íamos para fora, mas precisamos fazer algo imediatamente quanto...
– É, eu também acho.
O garoto se aproximou dele, como se o avaliando, e fez o mesmo com Jake.
–... Creio que terá de carrega-lo... – O ruivo de cabelos curtos olhou-o de maneira desesperada. – Sinto muito, mas compare o meu tamanho com o de vocês! Posso congelar seus braços e pernas para que... Bem, fique tudo no lugar.
– No lugar? Não tem nada no lugar, você consegue ver algo no lugar? Acho que tem muita coisa fora no lugar nos meus braços e nas minha pernas, como os ossos e a pele sabe? Mas eu só acho, principalmente nas minhas pernas... Eu nem acho que os ossos foram quebrados em muitas partes, e nem acho que estou sentindo uma dor dos infernos, afinal, ser torturado nem dói... Você nem grita muito, sabe?...
Ele deixou Vannes tagarelando e começou a congelar suas pernas no formato do que para Jake pareceram ser botas. Entendia que era para que elas se manterem-se firmes, e quem sabe o frio apaziguasse a dor...
E já podia ver que a personalidade de Vannes era bem diferente da sua. Se estivesse naquela situação, provavelmente estaria olhando para o teto, choramingando de dor internamente, sem querer falar com ninguém, querendo que o mundo se explodisse e morresse logo.
– Qual é o seu nome? – questionou ao menino.
– Nezumi. – respondeu, congelando as mãos do outro, e pareceu que aquilo foi extremamente doloroso. – Pronto. – ele olhou Jake, avaliando-o. – Você também não está no melhor dos estados, acha que consegue?
– Tenho outra opção? – Puxou seu irmão mais velho pelos braços – e recebeu mais uma enxurrada de xingamentos em resposta. -, fazendo com que ele o passasse por seu pescoço. Pegou suas pernas acima do joelho e carregou-o nas costas, tentando não se incomodar com o contato de Vannes e os ferimentos.
Ué... Vannes era ainda mais leve que Nero...
– Cara, você não conhece algo chamado camisa? Isso é constrangedor...
– A gata louca estraçalhou a que eu tinha, sinto muito. Você está falando gracinhas demais para quem foi torturado...
– Tudo certo? – Nezumi questionou, ignorando os dois. – Certo ou não, temos que sair daqui. Algum de vocês tem a chave, certo?
– Olha pra minha cara e diga se parece que tenho alguma chave. – Vannes resmungou.
– No meu bolso. – Jake suspirou, revirando os olhos. Nezumi foi até ele, vasculhando seus bolsos até encontrá-la. – Você não precisou dela para entrar aqui.
– Não, você deixou a porta aberta. – respondeu. – Agora vamos.
Ele abriu a porta, olhando ao redor para vasculhar a área, então saiu, indo na direção contrária da que Jake veio. Esforçando-se para não deixar suas pernas ceder devido a dor, seguiu a Nezumi de perto. Pensou em olhar sobre seu ombro para ver se havia alguém ali, porém Vannes disse que não havia ninguém.
– Agora que reparei que somos gêmeos.
– Você não tinha visto o meu rosto?
– Não.
–... Somos quadrigêmeos na verdade. Faltam dois.
–... Por que estou com a sensação de que deveria estar tendo um ataque? Acho que aconteceu tanta coisa comigo que não me surpreendo muito por enquanto.
Jake deu uma risada silenciosa e continuou o caminho.
Seguiram por um longo corredor, e era extremamente tenso pelo fato de constantemente haver a impressão de que repentinamente os soldados apareceriam. Ao fim dele havia uma extensa escada de madeira. Jake gemeu de maneira desesperada, mas era preciso descer. Não queria dar meia volta e dar de cara com soldados.
Só esperava que aquela escada não rangesse muito.
– Ei. – Vannes chamou-o num sussurro.
– O que foi? – questionou, tentando ignorar a dor.
– Qual é o seu nome? – perguntou a Jake.
– Isso lá é hora de perguntar alguma coisa assim?! – Nezumi cochichou à frente deles.
– Ele está dando uma de mula de carga, então sim.
– Klodike. – respondeu. – Se bem que nos Estados Unidos me chamam de Jake.
–... Se é assim, na França me chamam de Winter. Você sabe o meu nome de verdade?
– Sei, é Vannes. Por que diabos você se chama Winter se é francês?!
– Vou saber? Pergunte pra minha mãe adotiva!
– Vocês dois querem fazer o favor de ficarem calados?!
– É culpa dele.
– Minha?! – Jake protestou.
– Por todos os deuses, onde fui me meter...
Finalmente chegaram ao fim da escada, que dava para um imenso hall de pedras cinzentas cujo piso era de madeira branca e pilares de rochas marítimas. Cerca de cinquenta metros à frente, o recinto se afunilava e dava para outro corredor. Poderiam passar livremente, pois não havia nenhum soldado a vista, entretanto o local não possuía iluminação: A luz provinha do corredor ao fim.
Nezumi seguiu à frente com passos, mas quando chegou no meio do salão, ao pisar em determinada tábua, um clique foi escutado.
– Isso não me parece um bom sinal... – Winter gemeu nas costas de Jake.
Antes que respondessem, com um estrondo barras de ferro subiram do chão na entrada e na saída, e com um som metálico as paredes abriram dezenas, senão centenas, de aberturas, e de cada uma começou a sair uma lança, pontiaguda e mortal, pronta para perfura-los, e vinham em direção ao centro lentamente.
– Ah legal, vamos morrer. – Winter murmurou enquanto Jake sentia um frio terrível começando de seu estômago e na ponta de seus pés. – Sabia que estávamos dando sorte demais! Não tinha um jeito melhor...?
– Não há a opção “Não morrer” ?! – o mais novo questionou.
– Ali! – Nezumi apontou para a direita, perigosamente próxima a algumas lanças, o que lhe pareceu ser uma portinhola anexa ao chão. Nem esperou uma resposta dos gêmeos e correu até lá. Sem alternativas, Jake o seguiu o mais rápido que pôde. Com certo esforço ele abriu a tampa de madeira, claramente pesada, que se abria para um fosso.
– Ah nossa, que animador. Quem não garante que no fundo não tenham estacas prontas para nos empalar a la Vlad Dracul? – Winter mais uma vez resmungou. – Depois de hoje não duvido de mais nada.
– Ou empalados lá ou estraçalhados aqui, o que prefere? – Nezumi questionou antes de saltar para dentro.
Com a proximidade das lanças, Jake soltou Winter no fosso sem lhe questionar, antes de saltar atrás. Um frio veio-lhe subindo enquanto a velocidade aumentava de maneira assustadora, antes de bater repentinamente no que lhe pareceu ser água.
O que lhe alarmou porque a textura não lhe pareceu ser água.
Emergiu rapidamente, o que quer que fosse o líquido, lhe batia na altura do peito.
– Por favor, me diz que o que está entrando na minha boca não é o que estou pensando... – Ouviu Winter dizer com uma voz trêmula, e Nezumi ofegou, enquanto Jake limpava o rosto para poder enxergar. Quando abriu os olhos, viu que era vermelho.
Com um frio tenebroso, percebeu que era sangue.
–... O-olhe para cima.
Olhou, e pensou que fosse vomitar. Dezenas de corpos, dependurados de cabeça para baixo como meros pedaços de carne, o sangue deles vertendo lentamente naquilo o que lhe pareceu ser uma piscina. Mas o que mais o chocou foi constatar que entre os corpos de homens e mulheres havia corpos de crianças. Seus olhos ficaram pregados no que lhe parecia ser um bebê de poucos meses, logo ao lado de um menininho ruivo de no máximo quatro anos.
–... P-por quê... – Winter começou, e ele assim com seu irmão parecia nauseado.
– Certas criaturas usadas se alimentam de sangue. – Nezumi murmurou. – Deve ser para isso, mas ainda assim... Crianças! Há um bebê ali!
Jake olhou envolta, à procura dos dois, e encontrou Nezumi segurando Winter com dificuldade para que este respirasse. Se o sangue batia na altura do peito de Jake, no caso do menor, batia na altura de seu queixo. Foi até eles, pegando seu irmão novamente, sem deixar de se preocupar com o que poderia acontecer com o contato entre aquele sangue e os ferimentos de ambos.
O loiro foi até uma escada de ferro disposta ali. Quando este subiu, Jake foi até a borda, pondo Winter encima, antes de subir a escada. Se aproximou para carrega-lo, mas ele lhe estendeu uma mão congelada como um sinal para que esperasse, com uma expressão nauseada, coberto de sangue como os outros dois, antes de virar para o lado e vomitar. Jake percebeu a bile em sua garganta e não conseguiu se conter também. Era demais para qualquer um.
Quando terminou, encontrou Nezumi alguns metros à frente, agachado e tapando os olhos com as mãos, como se quisesse apagar aquela imagem de sua mente. E certamente queria.
– V-vamos... – disse com uma voz fraca, dando a volta na piscina em direção a uma escada no canto. Jake sentia como se suas pernas fossem feitas de geleia, mas ainda assim pegou Winter do chão – se bem que era ele quem estava com as pernas mais próximas de se tornarem geleia... – e seguiu o garoto.
Foram dar num logo corredor de celas de grades de gelo – ou algo semelhante. A grande maioria estava aberta e vazia, dando a Jake a terrível sensação de que os que teriam o mesmo destino que aquelas pessoas naquele local eram levados ali.
Apenas a última cela estava trancada.
– T-tem alguém aí? – Nezumi chamou com a voz trêmula. Jake sentia sua boca seca, e o som de correntes soaram do fundo.
Uma mulher surgiu. Estava extremamente magra e debilitada, de aparência faminta e doente, coberta de sujeira e em alguns locais sangue, trajada em farrapos. Seus cabelos estavam desgrenhados, compridos e prateados, e suas feições eram de alguém que se não estivesse naquele situação, seria extremamente bela. Ela olhou imediatamente para os gêmeos e seus olhos azuis gelo começaram a se encher de lágrimas.
Jake sentiu o mundo rodar quando a viu, e Winter bufou quando foi pressionado contra uma das celas. Uma parte de sua mente gritava, e foi capaz de sair do selo de suas memórias.
–... Mãe?!
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