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10 Capítulo 9 - Verdade Tenebrosa


Notas iniciais
Gente, desculpa mesmo não escrever nada decente aqui nas notas, mas estou com a cabeça quente com um problema, além de louca por causa de um trabalho da escola. Consegui postar o capítulo que prometi, e espero que gostem!

Capítulo 9 – Verdade Tenebrosa

– Então este é o seu protegido? Vocês Denores são conhecidos por guardarem coisas extremamente preciosas ou pessoas extremamente importantes. Reis, príncipes, nobres da alta estirpe e dependendo da situação, membros da Ordem de Keanls Houvedalec... Mas este garoto chega-me parecer medíocre... Embora tudo indique o contrário.

– O porquê de eu protege-lo não é da sua conta.

–... Acho que é sim, pois não sei se percebeu, mas os Bergais tentaram pegá-lo vivo. Se não fosse importante, teriam o matado simplesmente.

Foi esta estranha conversa que Jake escutou quando recuperou a consciência. Ainda com os olhos fechados conseguia identificar um estranho brilho tomando conta do ambiente, como se houvesse uma grande fogueira acesa no recinto. Também sentia o calor em sua pele, mas a falta da presença do crepitar das chamas o perturbava, indicando que naquele local não haveria nada do tipo ali.

Gemeu quando a dor lhe atingiu como uma avalanche. Parecia que todo o lado direito de seu corpo doía, principalmente o braço, as costelas e sua perna.

– Se houvesse me deixado ajudar, poderia adiantar um pouco a cura dele...

Não ouse encostar um dedo nele!

– Acha que apenas por eu ser do Esben que irei mata-lo? Se fosse por isso, já o teria feito há muito tempo.

– Apenas por cima do meu cadáver.

– Este problema poderia ser facilmente resolvido.

Um rosnado ameaçador passou por todo o recinto e Jake entreabriu os olhos. Respirar doía, e via acima de si um teto baixo com vigas de madeira o sustentando. A lâmpada ali pendurava se encontrava apagada, e procurou como um cego algo por algo familiar.

Então viu Rarac, sentado ao seu lado, os dentes à mostra e totalmente arisco, como jamais vira antes. Sentiu-se aliviado por um único segundo, quando viu o que estava à frente do cão.

Um homem alto, vestido com estranhas roupas de couro negro. Sua pele brilhava como se acesa por dentro, e seus cabelos eram chamas que tremulavam de maneira irregular, até os ombros. Era dele que provinha a iluminação do ambiente, e de certa forma era semelhante a Jake em suas feições, com o rosto fino e o nariz reto, entretanto seu maxilar era mais forte e os olhos eram de um tom flamejante de dourado, os quais estavam pintados por uma mão de tinta preta, fazendo com que o local não brilhasse. Passava um ar de autoridade tão grande que percebeu que sua diretora mais parecia uma criança malcriada em comparação a ele, mesmo que estivesse sujo de lama, sangue e trouxesse alguns cortes e hematomas na face. Este encarava a Rarac num desafio mudo.

Tentou se sentar, mas quase caiu perante a dor. O homem se adiantou, fazendo menção de ajuda-lo, mas Rarac saltou sobre seu braço.

– Rarac! – exclamou.

Seus olhos se arregalaram ao ver o cão puxando de uma tira de couro que interligava o pulso da roupa à manga uma faca ligeiramente curva de um metal que jamais vira. Era de um dourado escuro, repleta de pequenos pontos flamejantes de laranja, e o cabo era negro entalhada com inscrições que ao mesmo tempo eram desconhecidas e familiares.

Mesmo assim, ele o segurou, ajudando-o a se manter minimamente sentado, mas quase gritou. As mãos dele eram quentes como ferro em brasa e estava suando bicas apenas com sua proximidade.

– Certo, posso ver que está vivo. Seu Denor não estava deixando que eu me aproximasse. – disse numa língua que Jake jamais escutara antes, entretanto conseguia entende-la.

–... Quê?

– Seu Denor. – apontou com o queixo para Rarac. – Ou vai me dizer que possui um mas não sabe o que é?

Olhou para o cão e sentiu os olhos quase saltando da face quando este pareceu se alongar, apoiando-se nas patas traseiras e seus membros deixarem de ser os de um animal e se tornar um homem a sua frente. Se Jake possuía 1,86 de altura, Rarac era ainda mais alto do que ele. Era alto, grande, usava uma espécie de gargantilha e um saiote como os usados por alguns povos africanos, que lhes era justo na cintura e chegava até os joelhos, deixando-lhe o peito e parte do abdômen musculosos à mostra, além de se encontrar descalço. Tinha também largas tornozeleiras, braceletes e argolas de ouro, e sua pele era de um profundo tom de bronze, além do cabelo ser de uma estranha mistura de púrpura e prata.

Mas olhou mesmo para os olhos.

Aqueles eram definitivamente os olhos dourados de seu cachorro.

E aqueles olhos pareciam estar pedindo perdão.

–... Rarac?! – murmurou incrédulo.

– Pelo visto, é a segunda alternativa. – o homem murmurou.

– Sinto muito. Eu não podia interferir em muita coisa. – Foi a primeira coisa que disse. Jake quase se encolheu. Sua voz era extremamente profunda e grave, quase como um trovão.

–... Espera, você... É o meu cachorro... – sua mente pareceu dar um nó. Seu cachorro virara uma pessoa. Havia um homem brilhando ao seu lado, praticamente assando-o vivo e ainda havia sua família depois do...

Espera.

Acabou se movendo de maneira que quase revirou os olhos de dor, fazendo tanto o homem quanto Rarac se alarmarem.

– Minha família, Rarac, eu preciso... – a expressão dele se tornou ainda mais piedosa, o que fez a voz de Jake ir diminuindo, até estar por um fio. A voz gorgolejante retornou-lhe a sua mente como um fantasma. – Eles devem estar...

– Eles estão mortos. Os bergais os mataram. – o ser ao seu lado anunciou, e sentiu como se um buraco se abrisse no chão em que estava sentado. Apenas continuou encarando a Rarac, enquanto recusava-se a digerir o que lhe fora dito.

Mortos?

Pensou em tudo, tudo passando por sua mente. Sua mãe amorosa e trabalhadora que não se esforçava muito para se manter nos padrões impostos pela sociedade, o pai sempre trabalhando e sendo absurdamente presente ao mesmo tempo, mas principalmente à Celinne e a Pearl. Uma sempre em seu canto enquanto a outra estava sempre bisbilhotando em tudo. Uma tão fortemente apegada a coisas que parecia desejar serem imutáveis, enquanto a outra parecia se encantar com qualquer mudança. Como Pearl havia o atazanado para levar o cachorro para casa enquanto Celinne continuava presa à memória do antigo cão.

Mortos?

Estavam todos mortos?

– A temperatura dele está subindo. – o homem constatou, como se esperando que explodisse ou algo do tipo. Rarac lhe lançou um olhar quase de desprezo.

–... Eles foram mortos?

Sua voz saiu tão baixa que viu as orelhas ligeiramente pontiagudas de Rarac se moverem para tentarem ouvi-lo melhor.

– Foram assassinados? Por quem? Por quê?! O que eles fizeram?! Nenhum deles fez mal a ninguém! E Celinne e Pearl, você as conhece! São crianças!

– A vida já é extremamente injusta garoto. E estamos em guerra, onde as coisas tornam-se ainda piores.

Jake tremia. Não sabia exatamente porquê. Raiva, medo de algo, simplesmente não entendi. Também não sabia se encontrava-se prestes a chorar ou não, mas havia algo dando voltas dentro de si, de maneira nauseante e esfaqueado seu interior.

–... É, ele está com raiva. – o homem constatou quando os olhos de Jake tornaram-se dourados e os cabelos tremularam levemente.

– É óbvio que estou com raiva! – gritou, mas moveu-se tão bruscamente que bateu o braço quebrado. Gritou mais uma vez, pegando-o por reflexo e se curvou sobre ele. A dor em seu peito aumentou, e sentia a perna também gritando consigo. Gemeu, a dor fazendo com que sentisse vontade de se encolher em posição fetal e esperar que passasse, mas certamente daquele modo não passaria.

– Eu avisei para ter cuidado de seus ferimentos enquanto estava inconsciente.

Rarac soltou um resmungo que indicava que não queria dar o braço a torcer, mas o outro estava certo. Agachou-se ao lado de Jake, indicando-lhe que queria que estendesse o braço. Hesitante, o fez, e Rarac o pegou entre suas mãos, quase sem tocá-los. Entretanto, o rapaz sentiu um calafrio ao ver que ele possuía garras negras.

– Aguente um pouco e tente não gritar. Os donos desta casa podem perceber.

Se enrijeceu ao escutar aquilo. Estavam na casa de desconhecidos?

Os pensamentos foram varridos de sua mente quando sentiu o osso partido sendo movido. Rarac sequer tocava em seu braço, apenas dispunha uma mão acima e a outra abaixo, e era como se houvesse uma pressão com que o fazia voltar ao lugar. Levou o outro braço à boca e o mordeu, o grito saindo como um grunhido abafado, e certamente as lágrimas já escorriam pelo rosto sujo.

O homem levantou-se, parecendo alarmado. Puxou o que Jake pensara inicialmente ser um cachecol, que chegava a lhe cobrir até um pouco abaixo dos olhos pintados de negro. Passou o cabelo para trás e puxou um capuz que sequer percebera, fazendo com que o ambiente se tornasse escuro com a ausência da luz que emanava.

Dirigiu-se até as escadas do porão como um felino à espreita da caça. Jake arregalou os olhos ao perceber que pela porta entrava gelo, congelando as paredes e a madeira e se alastrando em direção a escada.

Rarac levantou-se, passou um braço pelo tórax de Jake e o arrastou mais para o fundo do porão, agachando de modo que deixava claro que se preparava para o ataque, garras em riste. Que droga estava acontecendo?!

Depois de segundos angustiantes, o gelo repentinamente retornou, e escutou o suspiro aliviado dos dois.

– O-o que foi isso?

O homem olhou-o com um olhar questionador que lhe indicava que havia perguntado algo tão banal quanto questionar se seis era igual a meia dúzia.

– Ele teve suas memórias seladas. – Rarac explicou, fazendo com que Jake o olhasse sobressaltado.

– O quê?!

– Acho que isto responde em parte minha pergunta. – disse, aproximando-se. – Não lembra de absolutamente nada?

– N-não.

Este retirou a máscara e o capuz novamente, sentando-se de pernas cruzadas à sua frente. Observando-o, Jake não lhe daria mais que vinte e cinco anos de idade, mas este lhe parecia apenas pelos olhos alguém muito mais velho. Rarac pegou, para sua surpresa, um pedaço de lajota no chão, transformando-a em terra negra e a modelou em seu braço como um gesso, entretanto era mole. Quando afastou suas mãos, ela se endureceu, como se retornando a ser pedra. Acabou olhando-a até admirado, percebendo que ainda continuava com o braço em sua boca. Rarac questionou num tom estranhamente casual:

– Quem é você afinal?

– Arenai Ergaton-Perais. – foi a resposta e o Denor olhou-o surpreso, o que era completamente sem sentido para Jake.

– A “Criança da Noite”? – Arenai rolou os olhos deixando claro que aquele título não lhe apetecia. – O que alguém como você está fazendo aqui?!

– Estava participando da invasão à Cvasq quando acabei descobrindo sobre alguns planos bergais e vim verificar. – olhou para Jake, depois para Rarac. – Agora devido à falta de informações, não sei se valeu a pena.

– Podem por favor me explicar o que está acontecendo?!

– Ele realmente é de Aurtrai?

– Creio que é meio óbvio.

– Pois bem, começarei pelo que deve ser absurdamente chocante para ti. Você não pertence a este mundo, e sim a um mundo chamado Aurtrai. – Jake olhou-o como se Arenai estivesse falando outra língua. Bem, estava, porém conseguia entendê-la. Outro mundo?! Como assim?! Se bem que vira seu cachorro virando um homem... – Neste mundo, temos quatro povos e quatro continentes, cada um separado por seu respectivo elemento: Ar, no continente de Agnata, o qual é povoado pelos povos genericamente chamados de Arel. Há várias sub-raças, cada uma com seu nome, entretanto, o que interessa agora são apenas os nomes para o povo em geral. Água, no continente de Berga, povoado pelos Bergais. Terra, no continente de Sharqar, onde seus habitantes são os Nellac e fogo, no continente de Talbor, povoado pelos Talbordai. É a este último a quem pertenço.

Ele moveu-se ligeiramente enquanto Jake se sobressaltou, quase gritando ao perceber Rarac pondo os ossos de sua perna no lugar. Mais uma vez teve de morder o próprio braço.

– Tecnicamente, povos de elementos opostos não podem ter filhos. Um homem
Arel e uma mulher Nellac, por exemplo. Absolutamente impossível.

– Faz sentido. – Jake disse de maneira precária com a carne entre os dentes. Arenai revirou os olhos com a visão.

– Mas – ergueu um dedo. – há quase dezoito anos algo que ninguém esperava ocorreu. Uma mulher Bergal engravidou de um homem Talbordai. Muitos pensaram que fosse algo como alguém tentando dar um golpe ou algo do tipo. Eu inclusive fui um desses. Não me interessei muito. Entretanto, quando as crianças nasceram que ouve o rebuliço. Entenda, quando uma criança Bergal nasce, ela congela, quando uma criança Talbordai nasce, ela explode em chamas. Quando nasceram, ambas as coisas ocorreram. Se não engano, dizem que primeiro se congelaram, como o esperados para um filho de uma Bergal, mas logo após explodiram em chamas.

– Crianças?

– Nasceram quatro ao todo. Quadrigêmeos, para tornar tudo ainda mais “simbólico e especial”. Chamaram-nos de “as quatro entidades”.

– E logo após o nascimento deles – Rarac continuou num tom neutro. – casais inter-raciais Bergal e Talbordai que estavam juntos há anos, por exemplo, repentinamente puderam ter filhos. Ninguém entende o porquê, mas é exatamente o que aconteceu.

– Sim, e as crianças foram apelidadas de Galrdai. Oito anos depois vem o assunto que também nos interessa. O príncipe de Berga estava noivo de uma donzela chamada Soah, que a qual já era chamada de Princesa Soah.

– Bergais são monogâmicos – Rarac comentou. – Se apaixonam uma vez na vida, à primeira vista. Depois disso, não há mais volta, portanto não possuem costumes como casamentos arranjados e coisas do tipo.

Arenai assentiu.

– Um belo dia – disse numa voz irônica que indicou a Jake que também havia uma profunda raiva reprimida por trás dela. – A princesa desapareceu. Seus aposentos estavam revirados, os guardas que a protegiam mortos. E adivinhe a única pista que havia quanto ao acontecimento? – Arenai se esticou, pegando a faca que Rarac havia pego de si momentos antes, demonstrando-a a Jake, com seu formado e entalhes, além de metal único. – Uma adaga talbordai.

Rarac deu um suspiro pesaroso.

– Creio que o resto se explica por si só.

–... Você comentou sobre estar participando de uma invasão, portanto, uma guerra?

– Já faz quase dez anos. – confirmou. – Nem mesmo fizeram uma declaração de guerra decente, e atacaram uma das mais importantes cidades da época, Nirllys, com uma onda gigantesca destruindo-a completamente. Foram poucos os que sobreviveram, mas veja só... Era a cidade onde os quatro primeiros Galrdai viviam.

Rarac largou a perna de Jake, que agora também se encontrava revestida com a pedra negra. Faltavam apenas suas costelas, mas admitia que não estava com muita disposição de tirar a camisa e sentir aquela dor lancinante no peito. Mas o olhar paciente do Denor, o qual dizia “Você sabe o que é melhor...” lhe fez soltar um gemido estrangulado e começar a abri-la atrapalhadamente.

– Mas faz sentido, se eles viviam ali. Mas não disse que havia passado oito anos?

– Exato, mas não é muito mais proveitoso ter soldados que possam ser capazes de matar o inimigo com o próprio elemento? – Jake assentiu. – Por algum motivo aquelas crianças possuíam um controle muito superior ao dos povos separados, mas o mesmo fenômeno não se repetia com as crianças nascidas posteriormente. E após o ataque a Nirllys, os meninos simplesmente desapareceram.

Manteve-se em silêncio por algum tempo, esperando que Rarac terminasse de concertar as costelas de Jake. Certamente não era agradável manter uma conversa com alguém uivando de dor.

– No ataque a Cvasq, o que seria equivalente a uma Nirllys Bergal, tive de invadir a um prédio extremamente importante, o Salão de Coral...

– É louco? – Rarac questionou, dando a Jake entender por seu tom de voz que entrar lá era suicídio.

– Não sou conhecido como “Criança da Noite” por qualquer motivo. – foi a resposta. – Continuando, durante a infiltração, antes que nosso alvo percebesse a mim e a meu grupo, ele comentou sobre terem encontrado a possível localização dos quatro primeiro Galrdais e as ordens de como os encontrar... Foi como vim parar aqui.

Jake olhou-o sobressaltado, e antes que pudesse por sua mente para trabalhar, Arenai estendeu a mão e pegou o amuleto que usava. Sequer o percebera, mas este se encontrava incandescente.

–... Este amuleto é um dos que é chamado de Nauri Talbor. Ele só é dado para crianças provenientes de uma gravidez que tenha nascido mais de um filho. – Jake se sentiu gelando. Não, não podia ser, não podia ser, não... – Quadrigêmeos, para ser mais exato. Todas as partes são a cabeça, que representa Ringan, o deus da luz, dada ao filho mais velho, a asa esquerda, que é atribuída a Dekhi, o deus da vida, é dada ao segundo filho. A direita, a Akhir, o deus da morte, pertencente ao terceiro filho e por fim a cauda, que representa Yangin, o deus do fogo, que é para o filho mais novo. Todas juntas formam a fênix, que é o símbolo dos quatro deuses gêmeos. O seu é o amuleto de Dekhi, então posso afirmar com toda certeza que é o segundo mais velho. Sabe alguma coisa sobre os outros três?

Sentia sua cabeça girando. Era informação demais para conseguir absorver. Isso significava então que sua família havia sido assassinada... Porque estavam atrás dele? Era isso? Por sua causa havia sido morta porque queriam pegá-lo, junto a seus irmãos?! E não era apenas ele e a Nero, e sim havia mais dois. Lembrou-se das alucinações que tivera, com pessoas que jamais vira na vida. Mas...

E se fossem os outros dois?

–... Sei... Espera! – olhou desesperado para Rarac, que pareceu não acompanhar sua linha de raciocínio. – Naphees! Acha que podem ter ido atrás dele?! – exclamou.

Os olhos dourados de Rarac se arregalaram e este se levantou num salto, dando a Jake um péssimo pressentimento. Se aquele Bergal havia desistido de procura-lo, quem não garantia que ele não havia rastreado Nero e ido atrás dele?!

– Poderia encontra-lo – Arenai se ofereceu. – enquanto continua a cuidar de seus ferimentos. E quanto aos outros dois?

– Até onde sei, mortos. – o Denor retrucou com uma expressão sombria, mas Arenai apenas revirou os olhos de maneira impaciente.

– Ora vamos, Denor. Não vê o amuleto dele? Como... – ele o pegou novamente, lendo os arabescos que havia ali. Com um estalo e sentindo-se repentinamente estúpido, a informação dançou em sua mente: Aqueles desenhos não eram meras decorações, mas sim a escritura de seu nome! – Klodike passou por uma experiência de quase morte, o pingente está chamando pelos outros irmãos. – olhou para Rarac. – Isto só acontece se todos estiverem vivos!

– Como sabe disso?

– Minha mulher trabalha no templo. Sou meio que obrigado a saber disso. – foi a resposta, enquanto este se levantava – Provavelmente seu irmão está muito bem acordado quando se tem um colar queimando em seu peito. Se for esperto, terá se escondido.

– Ele vê o futuro. – Jake disse em voz baixa.

– Clarividente? Ótimo, então creio que ele é esperto.

Foi tudo o que ele disse antes de sair.

Jake apenas ficou encarando o nada, tentando absorver tudo o que escutara, enquanto Rarac mantinha-se dolorosamente quieto enquanto continuava a cuidar de seus ferimentos. Olhou para o homem, e sua expressão culpada lhe dizia que ele sabia de muita coisa. Somente de ver sua expressão teve a sensação de haver sido traído ou algo do tipo. Agora sua família havia morrido e fora provavelmente por sua causa!

– Rarac. – chamou e viu seus lábios serem comprimidos. – Você sabia não é? Sabia de tudo.

– Eu o conheço desde que era um bebê nos braços de sua mãe. – respondeu. – Mas eu não podia falar Klodike, não a menos que houvesse descoberto sozinho. Ainda há coisas que ainda não posso falar, mas Arenai abriu-me uma possibilidade de poder lhe contar algo...

– Por que não poderia me contar?

–... Eu não sou Talbordai. – começou, evitando olhar nos olhos de Jake. – Nem Bergal, nem Nellac e muito menos Arel. Sou Denor. Sou vindo das Ilhas Hilkau do centro do mundo. Para lhe explicar melhor, é como se minha raça fosse a raça neutra de Aurtrai. Podemos dominar qualquer elemento, e possuímos a capacidade de nos transformar em qualquer animal... E não podemos quebrar nossas promessas. Se a fazemos, morremos por nossa traição.

Suspirou, olhando para o chão.

– Há uma espécie de Academia, onde alguns dos nossos são treinados para se tornarem guerreiros e então somos literalmente comprados para que possamos prestar nossos serviços... Mas os Denores são poucos. E mais poucos ainda são os que entram na Academia, como eu, portanto valemos uma fortuna. Realizamos então um pacto e protegemos a pessoa ou o objeto requisitado pelo resto de nossas vidas. Somos treinados especificamente para cada função, e nunca vi muito sentido em morrer por um cofre ou algo do tipo.

–... Fala como se fosse um produto...

– E não é o que sou? Faz quase dezoito anos... Quando chegou na Academia a notícia das crianças Galrdai. Como nada do tipo havia sido visto antes, muitas pessoas tentavam invadir sua casa, sequestra-los, para tentar apresenta-los num show de aberrações e coisas do tipo. Sua família era... Amiga de uma pessoa muito bem relacionada, que era capaz de pedir Denores e mais Denores sem gastar uma mísera moeda. Lembro que tinha ficado curioso e decidi me oferecer, apenas para vê-los. Caso não me interessasse quando os conhecesse, poderia retornar para Hilkau e outro viria realizar o pacto em meu lugar.

Ele fechou o buraco que havia criado para curá-lo, enquanto Jake apenas o encarava esperando que continuasse.

– Quando cheguei a Nirllys, junto aos outros, fui levado a sua casa... – suspirou, parecia estar voltando no tempo. – Pediram para que trouxessem as crianças, e me lembro bem. Ainda eram os quatro pequenos demais para andar, mas grandes o suficiente para se manterem sentados. Apenas dois eram realmente idênticos, enquanto os outros dois variavam na cor do cabelo e dos olhos. Os iguais eram você e seu irmão mais velho, Vannes.

O rapaz do lago retornou a mente de Jake.

– Devido as tentativas de sequestro e tudo mais, seus pais os mantinham escondidos dentro de casa. Quando viram tanta gente reunida num só lugar, se assustaram e começaram a chorar... Mas você não. Apenas ficou sentado, e olhava para todos com uma curiosidade que foi o suficiente para me fazer decidir aceitar fazer o pacto com você e protege-lo o resto da vida. No começo tive de lidar com comerciantes de escravos e sequestradores, mas tudo ficou pior.

–... O ataque a cidade?

Rarac assentiu.

– Não apenas isso. Quando os Bergais atacaram a cidade, eu estava bem ao seu lado. E na água eles haviam lançado todos os tipos de criatura e ainda havia soldados misturados a ela. Na confusão, todos se separaram, seus pais, seus irmãos.

Ele parou um instante, olhando para a porta, como se verificasse se havia algo.

– Realmente, você jamais morreria apenas com a água. O problema era que cada soldado ali parecia disposto a atacar. Foi um pesadelo. Ainda durante a enchente causada pelo tsunami e tudo mais, você conseguiu se encontrar com seu pai. Quando a água abaixou, encontramos Naphees com Aegis encima de uma árvore que havia se mantido em pé. – balançou a cabeça. – Os soldados estavam matando a quem houvesse sobrevivido, e todos estavam cansados e machucados demais para poder lutar contra. Tivemos que fugir da cidade sem poder ir atrás de sua mãe, Vannes e Esben. Por isso que não fazia a mínima ideia que estavam vivos.

– E você comentou sobre minhas memórias haverem sido seladas com Arenai.

Rarac coçou a cabeça, um ato que Jake considerou masoquista, tendo em vista suas garras.

– Os anos iniciais da guerra foram os piores, loucura por toda parte. Seu pai tentou escondê-los, ordenando para que controlassem apenas fogo, e trocassem a cor de qualquer característica que lembrassem as de um Bergal. Olhos, cabelo. Para vocês é possível simplesmente mudando suas chamas, por exemplo. Quando procuravam por vocês, procuravam por quadrigêmeos, não por dois garotos. Mas de algum modo descobriram e... Foi um caos novamente. Os Bergais estavam com uma atitude extremamente xenofóbica, a ponto de executar membros de sua raça casados com Talbordais e executá-los por traição, matando também seus filhos, se possuíssem algum.

– Lembra-me o holocausto de Hitler... Judeus eram exterminados pelo simples fatos de serem judeus.

– Quase isso. Dependendo de seu elemento, dá para vir parar facilmente aqui, na Terra. E muitos pais, tentando poupar pelo menos seus filhos, mandavam-nos para cá. Quando simplesmente os atacaram de novo, seu pai percebeu que era muito melhor para você e Naphees virem para cá e simplesmente viverem uma vida normal. E isso só seria conseguido caso não lembrassem de suas perseguições, nem se lembrassem das habilidades que possuíam. Então selou suas memórias e os trazer, esperando terem uma vida normal, e fez com que eu e Aegis jurássemos que não iriamos contar nada a não ser o que vocês haviam descoberto sozinhos.

– Arenai se encarregou de parte disso. – Rarac assentiu. – E isso o que ele fez... Não há como reverter? Como tirar?

– Creio que não. Seu pai era um mestre em magia, não duvido nada que ele tenha posto uma magia que apenas ele ou alguém tão capaz quanto possa desfazê-la. Sua mãe talvez, caso esteja viva, ou um sacerdote.

– Até magia existe agora?

– Magia sempre existiu, tanto neste mundo, quanto em qualquer outro. – respondeu para sua surpresa. – Vale para cada um de seus habitantes acreditar ou não. Neste mundo, preferem fechar os olhos a ela.

–... Ei, mas Naphees lembra de algumas coisas...

– Aquele garoto é como o pai de vocês. Aprende muito rápido, e quando suas memórias foram seladas ele já sabia pelo menos o básico de restauração e destruição, além de algumas coisas mais que aprendia com viajantes em estalagens ou coisa do tipo. Para magia você era tapado que nem uma porta, nem parecia filho dos seus pais.

– Obrigado pelo elogio.

Rarac deu de ombros, numa reação de “apenas a verdade”. Para alguém que nem pensava que magia existia, não ficava muito surpreso por ser burro que nem uma porta no quesito.

– Acho que é muito capaz que a magia existente em Naphees não tenha sido totalmente selada, e ela acaba fazendo alguma interferência com o selo do pai de vocês, abrindo brechas as quais ele aproveita. Não sei se é possível...

– Mas parece uma boa teoria.

– Você parece estar acreditando rápido demais. Estou até surpreso.

– Rarac, hoje o meu carro explodiu, minha família foi assassinada, tentaram me capturar, vi meu cachorro se transformar em um homem, um cara feito de fogo, descubro que sou um híbrido sei lá o quê que nem existia, só sei que não sou humano e tenho mais irmãos do que imaginava, além de não lembrar nada porque meu pai quis, e tudo em uma madrugada! Você acha que tem alguma coisa para duvidar?

–... Realmente, não.

– Ei, mas quanto tempo eu fiquei inconsciente?

– Não sei. Estava mais preocupado em mantê-lo escondido dos Bergais, e aqui não dá para ver o sol ou algo do tipo, e ainda estava com um olho em Arenai.

A porta foi aberta, e mesmo que lentamente, foi o suficiente para que desse um pulo, assustado. Nero desceu rapidamente, e percebia Arenai do lado de fora, como se verificasse os arredores. Aegis saltou de seu ombro, transformando-se em mulher. Chegava a ser engraçado o contraste que formava com Rarac. Ele era grande e moreno, ela era pequena e branca. Tentou não se importar com o fato de ela estar seminua, e Nero veio até ele em passos largos.

Abriu a boca para falar com seu irmão, mas ele lhe deu um abraço que pegou-o de surpresa, mas soube imediatamente que ele se encontrava muito mais aliviado por vê-lo vivo. Não exatamente bem, mas vivo. Portanto resolveu engolir a dor em suas costelas, e retribuí-lo minimamente.

– Eu pensei... Droga... Pensei que não havia conseguido...

– Ei, estou vivo. Creio que é melhor do que esperava.

Nero se separou, parecendo pesaroso, e balançou negativamente sua cabeça. Jake percebeu que ele trazia uma estranha mochila de couro nas costas e um jornal dobrado entre as mãos que se encontravam trêmulas. Jake franziu o cenho, e Nero o entregou sem dizer uma única palavra.

Logo a primeira manchete narrava o assassinato de sua família. Umedeceu os lábios, correndo os olhos, vendo que aparentemente seu pai ainda se encontrava vivo, mas em estado gravíssimo. Debrah se salvara – admitia que era a única que não fazia tanta questão assim... – pois fora dormir fora, mas sua mãe e as duas menores haviam morrido aparentemente por ingestão de um veneno ainda não identificado. Porém estancou ao final da reportagem. Esqueceu-se de respirar, empalideceu e sentiu que começava a tremer. Era aquilo que estava acontecendo? Era realmente aquilo?!

Por não haver qualquer pistas de seu paradeiro, Jake era o principal suspeito.

Acreditavam que havia matado a própria família.

Notas finais
Reviews?