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7 Capítulo 6 - Construindo Laços


Notas iniciais
Gente, sinto muito pelas notas horríveis capítulo passado, mas eu era um zumbi pré-ENEM! Isto é tudo o que tenho a declarar! Bem, ao capítulo!

Capítulo 6 – Construindo Laços

Jake se sentia miserável. Fizera aquilo na pior hora e momentos possíveis; se amaldiçoava por isso. Enquanto Near se encontrava entre a vida e a morte, agira devido aos próprios desejos. Achava aquilo repulsivo de si mesmo, e sua própria mente ecoava:

Idiota, idiota, idiota...

Esfregou seus olhos e encolheu-se do frio. Fazia mais ou menos uma semana agora. Far parecia estar o evitando, e sinceramente não podia culpá-la por isso. Na realidade, se culpava pela situação, fora ele que deixara a tudo pior. Fora ele que começara a sair com muitas garotas, fora ele que tentara se contentar em ser apenas seu amigo, fora ele que escondera aqueles sentimentos por tantos anos.

Fora ele que agira por impulso num momento de fraqueza de ambos.

Sentia muita raiva. Dava à garota todas as razões do mundo para que não confiasse nele depois disso. Entendia que ela tivesse medo de se aproximar.

Seu humor estava horrível. Sequer parecia que na semana anterior se encontravam rindo e conversando normalmente. Fora visitar Near no hospital, mas este se encontrava em coma. Mihael e Far estavam indo de carro para a escola, e a loira mantinha-se dolorosamente quieta quando tinha de sentar ao seu lado durante as aulas.

Aquilo o torturava.

Olhou para baixo, vendo Rarac deitado na calçada, a cabeçorra apoiada em suas patas, encarando-o tristonho com seus olhos amarelos.

– Só você para me aguentar, não é Rarac? – sussurrou.

E somente o cachorro mesmo. Quem aceitaria sair consigo às três da manhã, num frio de lascar, apenas para ficar sentando no banco de uma praça e escutá-lo se lamuriando? Só aquele cachorro mesmo! Parecia até mesmo se apiedar de sua situação dada a expressão de seus olhos.

Ou talvez só estivesse esperando que o dono se cansasse e voltasse para casa, assim ambos poderiam dormir.

– É, é bem capaz de ser isso mesmo, seu preguiçoso. – murmurou e o cachorro latiu, o assustando, como se contestasse: “Ei! Não é só porque passo grande parte do dia dormindo que quer dizer que eu seja preguiçoso!”. Aquilo faz Jake sorrir.

Realmente estava ficando louco.

– Ora, não é muito comum encontrar alguém por aqui a essa hora, não é, Klodike? – A voz repentina o assustou, fazendo-o pular. Rarac ergueu suas orelhas e balançou o rabo, parecendo se encher de alegria.

– Credo Naphees, quer me matar do coração?! – resmungou entredentes, realmente segurando seu peito. Seu irmão gêmeo apenas sorriu, antes de sentar ao seu lado, despertando só então a pergunta na cabeça de Jake. – Espera, o que você está fazendo aqui a esta hora?

– Fugi de casa. – respondeu com uma naturalidade assustadora. – Preciso de um tempo sem muita gente me atazanando... E parece que você também.

– Sou tão previsível assim? – murmurou depressivo. Nero sorriu como se pedisse desculpas e assentiu, mas uma movimentação repentina atraiu a atenção de Jake para seus cabelos. Quando percebeu o que era, arregalou os olhos. – Isso na sua cabeça é um rato?!

– Hã? – Nero levou as mãos até a cabeça, pegando o animalzinho. – É um camundongo. Klodike, eu te apresento Aegis.

Ele estendeu a mão para Jake, que fitou aquilo incrédulo. Era um minúsculo camundongo albino, o qual trazia um fitilho verde amarrado ao pescoço. Por seu olhar e o modo que movia seus bigodes, podia jurar que estava chateado.

– Ela é um pouco temperamental... Não suporta que confundam-na com um rato. É melhor pedir desculpas.

A descrença se tornou ainda mais marcante em seus olhos.

– Quê?!

– Peça desculpas.

– É um rato!

O chiado inconformado realmente fez Jake crer que ela entendia o que ambos falavam. Realmente, aquilo era loucura.

– Desculpa?

Aegis apenas se enroscou na palma da mão de Nero e virou a cabeça de uma maneira um tanto quanto esnobe, como se não a aceitasse.

–... Acho que você não foi convincente o suficiente...

– Você está mandando eu pedir desculpas para um... – o olhar furioso o fez se interromper no meio da frase. -... Camundongo.

Ratos eram capazes de armar uma carranca? Pois Jake jurava que Aegis estava carrancuda. Mexendo os bigodes de maneira desaprovadora, ela saltou da mão de Nero para sua perna, e em seguida, para a surpresa do ruivo, saltou para a testa de Rarac, que animadamente balançou sua cauda.

– Ei Rarac! – Nero cumprimentou, surpreendendo a Jake mais uma vez. Como sabia o nome dele?! Apenas Jake o chamava assim, e só o vira uma única vez, sequer comentando sobre o cachorro a ele! – Você andou um longo caminho, hein amigão?

O cão latiu animadamente e quase saltou sobre Nero, pondo suas patas dianteiras sobre ele e lambendo seu rosto. Aegis chiou, perdendo o equilíbrio e caindo. Num reflexo, Jake a pegou antes que atingisse o chão, já que comparando o tamanho de Rarac à de Aegis, uma queda daquela altura seria mortal.

E seriamente, quando pegou o corpinho, o qual pousara de pernas para cima, acabou por reflexo pousando seu dedo indicador em seu peito. E o coração parecia sequer bater de tão rápido que se encontrava.

– E você quase a matou. – Jake murmurou, enquanto Rarac continuava a atacar Nero com um furacão de alegria e animação que era impossível passar despercebido. O ruivo com um camundongo tendo um ataque cardíaco em mãos mais parecia uma mancha cinza em contraste com um mundo colorido. – Ele... Era seu?

– Não. – Nero disse rindo, enquanto fugia de lambidas no rosto. – Eu lembro dele.

– Lembra... – Jake parou por um instante, antes de que a informação fosse devidamente digerida por ele. – Espera, como assim?!

– Ele sempre foi seu... A não ser que tenha arranjado um cachorro idêntico e posto o mesmo nome. – Nero começou, coçando ligeiramente sua cabeça, como se estivesse forçando sua mente, tornando-se confuso. – Espera, o quê?

Olhou para Rarac, que rolou, pondo-se de pernas para cima, como se esperando que ele coçasse sua barriga.

– Vai sonhando. – bufou, e o cachorro ganiu.

– Você está aqui por causa de Far, não é? – seu irmão questionou repentinamente, assustando-o mais uma vez aquela noite, e com motivos. Far era outro assunto que sequer haviam chegado perto, então como sabia?!

Olhou-o com desconfiança.

– Como você sabe dessas coisas? O nome do meu cachorro, ou até mesmo sobre um assunto bem pessoal?

Viu Nero se tencionar, mas o que realmente chamou sua atenção foi o fato de ele olhar envolta, como se houvesse alguém presente naquelas ruas desertas além deles, o que também deixou a Jake tenso.

– Eu... Eu não sei. Eu só vejo. – respondeu, atraindo sua atenção.

– Vê?

– Antes que aconteçam.

No momento em que Nero proferiu aquelas palavras, Jake bufou. Uma coisa era crer que ambos eram irmãos – obviamente. -, outra era ele vir e lhe dizer isso.

– Ah, certo, você vê o futuro. Claro.

– Estou falando sério. – suspirou, deixando claro apenas por seu tom que estava acostumado com aquele tipo de reação. — Se eu disser que eu vou passar mal daqui a quinze minutos, você acreditaria?

– Não. – foi a resposta imediata e cética, mas olhou discretamente para o seu relógio.

– Ótimo. Continuando, você está aqui por causa de Far?

–... Talvez. – respondeu, ainda pouco à vontade. Voltar a este assunto durante toda a semana havia sido desastroso para si mesmo.

– Só pelo seu tom de voz sei que fez besteira.

– Claro. – suspirou. Estava tudo bem contar aquilo a Nero? Mesmo que fossem irmãos, a perda de memórias havia tornado a ambos praticamente desconhecidos. Suspirou, soltando um dane-se em sua mente. Talvez fosse melhor por tudo pra fora mesmo. – Eu beijei ela.

As sobrancelhas erguidas de Nero lhe questionavam o que havia de besteira naquilo, lembrando a Jake que deveria contar a história completa a ele antes que entendesse o porquê de beijá-la ter sido uma grande besteira.

E ele escutou silenciosamente enquanto lhe narrava os fatos.

– Então você basicamente ficou confuso e beijou ela pouco depois dela ter visto seu irmão quase ser assassinado na sua frente.

– É.

– Você não pensa?!

– Eu não pensei. Por isto estou péssimo. Algo a declarar?

– Você é um idiota?

– Nossa, obrigado.

– Sinto muito, não posso dar conselhos de situações que não faço a mínima ideia de resolver. – Nero tossiu levemente, entretanto, este fato não chamou a atenção de Jake. – Mas você está se remoendo por isso. Acho que a melhor coisa a fazer seria...

O outro se interrompeu, tossindo descontroladamente. Sobressaltado, Jake virou-se para ele, os olhos azuis se arregalando ao constatar que o de cabelos prateados parecia chorar sangue. Nero cobria a boca e o nariz com as mãos, mas no momento que as retirou, percebeu que também vertia sangue por ali. Olhou em seu relógio.

Havia passado quinze minutos.

– Droga, Naphees! – Levantou-se num salto, pronto para pegar seu irmão, atormentado pela visão. Lembrava suas crises, mas não lembrava de sangrar como Nero sangrava. – Eu preciso te levar...

– Não me leve pra casa! – exclamou para sua surpresa. Ele parecia se afogar em seu próprio sangue. – Eu... Saí de lá... Por...

Jake olhou ao redor, desesperado. Não fazia a mínima ideia de onde Nero morava, e encontrava-se longe de sua própria casa, também era óbvio que ninguém apareceria para ajuda-los. Pegou os braços de Nero, passando-os envolta de seus ombros, antes de praticamente. Ele sequer possuía forças para se manter de pé, seu corpo sendo abalado por espasmos a cada vez que tossia.

Sem muitas alternativas, acabou levando-o para sua casa. Quando finalmente chegou, já bufava diante o peso que carregava, e Nero já se encontrava praticamente inconsciente. Abriu a porta de forma atrapalhada e subiu as escadas, pondo-o em sua cama. Foi ao banheiro, pegou uma toalha e voltou quase correndo para seu quarto, pondo-a contra o rosto do de cabelos prateados no momento exato em que tossia e cuspia sangue.

Este segurou fracamente também a toalha, abafando o som, e quando retirou seu rosto, encontrava-se sem ar, mas assustadoramente pálido. Os olhos amarelos encontravam-se desfocados, sem realmente enxergar. E então sua cabeça simplesmente caiu para trás e fechou os olhos.

– Naphees? – Jake chamou. Segurou seu ombro, balançando-o ligeiramente. – Naphees?

Nenhuma resposta, já havia perdido a consciência. Olhou preocupado para o rosto manchado de sangue, antes de suspirar e limpá-lo. Admitia que estava impressionado que ninguém aparecera para ver o que se passava em seu quarto, pois ele e Nero não haviam sido exatamente silenciosos.

Olhou por cima de seu ombro, vendo Rarac com Aegis sobre sua cabeça. Sequer se preocupara em pegar os animais, mas parecia que o cão era obediente o suficiente para segui-lo de volta para casa. Os bigodes do camundongo tremiam, e ela parecia preocupada com seu dono, mas novamente poderia ser algo da mente de Jake, já que não se passava de um rato.

Abriu o casaco de Nero – que a àquela altura estava bastante manchado de sangue. -, tirando-o juntamente com seu cachecol. Na realidade, percebeu que as roupas de seu irmão em geral não estavam em bom estado. Prestando atenção, possuíam um terrível ar de segunda mão, e agora estavam manchadas de sangue. As únicas coisas que pareciam ter uma melhor qualidade eram o cachecol e as luvas. E mesmo que os Clearwater não fossem exatamente da classe alta, eles ainda possuíam um ótimo poder aquisitivo.

Olhou para Rarac, que encarava-o com uma expressão de “Vamos lá, troque as roupas dele! Vocês são iguais mesmo!”. Na teoria era fácil pensar nisso, mas não era exatamente assim na prática. Mas depois de alguma procrastinação, finalmente trocou as roupas de Nero. Não foi exatamente difícil, só foi o que poderia chamar de embaraçoso.

Ao fim se sentia exausto, o suficiente para que trocasse de roupa e simplesmente caísse na cama sem muitos mais problemas.

Acordou com o sol dando em seus olhos. Resmungou, revirando-se sem muita vontade de se levantar, antes de dar de cara com uma massa de cabelos prateados. Quase escutou as engrenagens de seu cérebro girando, antes de lembrar o que ocorrera durante a madrugada. Na realidade, sequer se lembrava de ter ido dormir.

Sentou-se um tanto quanto grogue, olhando para Nero. Ele havia se movido e deitado de lado, mantendo-se de costas para si, mas não o deixou menos preocupado com aquilo. Recordava-se que após suas crises, era acometido por uma febre terrível, então tocou sua testa.

Para sua surpresa, ele estava surpreendentemente gelado.

– O que foi? – a pergunta repentina quase o fez saltar da cama.

– É... Eu estava vendo se você estava melhor...

– Eu avisei.

E ele estava certo, realmente avisara. Só que é meio difícil acreditar quando alguém lhe diz que vê o futuro, mas deveria dizer que Nero demonstrara extremo crédito em si mesmo... Pelo menos na sua visão.

– É, avisou. Mas está melhor?

– Isso é o de menos. – Nero deu um gemido, pondo-se sentado. – Desculpe pelo trabalho que devo ter dado, mas digamos que o que eu tive foi tipo o prelúdio para o pior.

Nenhum dos dois disse nada, foi entendimento instantâneo.

– Acontece com você também. – o de cabelos prateados constatou.

– Sim, mas... Eu não saio chorando sangue ou coisa do tipo.

– Mas depois você... – ele fez um movimento que deixou bem claro o ato de vomitar.

– É. Aliás, porquê você não queria ir para casa?

– Digamos que não possuo uma família muito amorosa. – respondeu, movendo-se desconfortavelmente. – Só de olhar para o seu quarto, eu vejo que você é criado como um filho e tudo mais. – deu um suspiro pesaroso. – Na... “Minha casa”, agem mais como se eu fosse alguém vivendo de favor, ou um intruso mesmo. A pessoa que mais me trata bem por lá é Cynthia, e isto porque normalmente a proíbem de falar comigo.

Jake franziu o cenho ao escutar aquilo. Simplesmente a notícia não entrava muito bem em sua mente. Sabia que uma família tinha de ser muito boa para acolher uma criança a qual não sabiam de muita coisa, entretanto as coisas soavam um tanto estranhas.... Para não dizer muito.

– Por que eles a proibiram de...

– Você viu que sou capaz de ver o futuro. Mas eles não acreditam. Inclusive pagaram um médico para afirmar que sou esquizofrênico.

– Você não está...

– Exagerando? Estaria se não houvesse os visto. – olhou em volta, parecendo desconfortável com o rumo da conversa. – Espera, se estamos em sua casa... A essa altura alguém deveria ter entrado, não?

– A essa altura eles devem estar na igreja. – Jake respondeu, se levantando, entendendo que Nero queria mudar de assunto.

– Não deveria ir com eles?

– Eles já desistiram. Eu acredito em uma força superior, mas não acredito no Deus que eles cultuam, nem esse negócio de...

–... Ficar indo para a igreja e nem ir e cultuar uma cruz de madeira. – Nero completou.

– Exato.

Ambos acabaram dando um sorriso de total cumplicidade. Parecia que possuíam muito em comum.

– Nunca entendi esse negócio de cultuar a cruz. Tudo bem, é o símbolo do sacrifício e tal, mas...

– Se o Cristo foi morto nela, porque ela se tornou o símbolo? Não deveriam tê-la repugnado ou coisa do tipo?

– Realmente... Se acreditarmos em algum deus, mas não no Deus da igreja, somos classificados como pagãos?

– Segundo os religiosos, como satanistas.

– Os fanáticos são os piores.

– A minha “mãe” é. – Nero fez uma careta. – Não ficarei surpreso se um dia acordar amarrado na cama com um padre pronto para me exorcizar.

Jake riu.

– E você não viu nada relacionado a isso?

– Já. Foi ontem.

Acabou rindo mais.

– Sério?

– Ahan, e aquele homem tinha uma cara suspeita. Acho que estava dando um golpe... Acho.

– Não querendo dizer nada, mas apenas com minha sincera opinião, e quase certeza, eu acho.

– Exatamente isso. – Nero concordou, tentando se levantar. Entretanto, parecia ainda um tanto fraco, caindo sentado novamente no colchão.

– Não quer que eu veja o que deixaram para o café da manhã e traga aqui?

– Não, eu aguento...

– Só avisando, aqui tem uma escada. Se alguém cair e se esborrachar no chão, não me responsabilizarei. – o interrompeu, o que fez Nero bufar e revirar os olhos. Quase viu uma imagem de si mesmo quando o fez.

– Tudo bem, vou ficar aqui e tentar trocar de roupa.

– Pode usar as minhas... Digamos que as suas não ficaram no melhor estado depois do que aconteceu. Se quiser tomar banho, o banheiro é a porta na frente do meu quarto.

– Ok. Cuidado com o Rarac.

Sem se importar com o fato de ainda estar de pijama – afinal, apenas ele e Nero se encontravam na casa. -, desceu. Foi até a cozinha, encontrando boa parte do café da manhã coberto, como sempre deixavam aos domingos. Havia biscoitos, pão doce, pão normal, queijo, suco e café com leite ainda quente num bule. Talvez houvesse dormido menos do que esperava.

No momento em que pegou o café quente, Rarac passou correndo por si, o atropelando e fazendo com que quase vertesse o líquido sobre si mesmo. Soltou um xingamento baixo, olhando para o cachorro que se encontrava sentado próximo a porta dos fundos.

Teve vontade, só de birra, de deixar o cachorro trancado dentro de casa, mas sabia que se sua mãe chegasse e visse a casa suja, ela teria um ataque. E limpar urina e fezes não estava em nenhum de seus planos. Portanto, foi abrir a porta para ele, e quando este retornou, a fechou, aproveitando para pôr ração para ele.

Deu um jeito de encaixar o café e o suco na bandeja onde o todo o resto se encontrava, levando-os para cima. Estava até acostumado a fazer isso, pois algumas vezes acordava com o que chamava de “síndrome do poço sem fundo’’ e literalmente comia tudo o que via pela frente. Como sempre dava um jeito de equilibrar tudo e abrir a porta, o som do chuveiro no banheiro indicando que Nero fora tomar banho.

Pôs a bandeja no chão, vendo Rarac quase correndo em sua direção. Apenas estendeu um dedo e disse:

– Você não vai comer nada disso.

Ele se jogou no chão, apoiando a cabeça entre as patas e encarando-o com imensos olhos pidões. Entretanto, Jake estava acostumado com Pearl, portanto, possuía certa imunidade com Rarac.

Um chiado o fez olhar para o lado, vendo Aegis dentro do bolso do casaco de Nero, apenas a cabecinha exposta. Como havia se posto ali não sabia, mas ela encarava o queijo com uma expressão esfomeada.

– Primeiro um cachorro, agora um... Camundongo. – murmurou, pegando um pedaço, antes de tirá-la de dentro do bolso e pô-la na mesa, entregando o queijo, que começou a ser devidamente devorado.

Mais ou menos neste momento, Nero saiu do banheiro. Não havia pego muito, apenas uma calça e uma das camisas que tinha o costume de usar sob as de botão. Entretanto, não pode deixar de reparar nas luvas, que não havia dado atenção durante a madrugada. Percebeu só então o quão compridas eram, chegando acima de seus cotovelos.

Franziu o cenho para aquilo, entretanto manteve-se quieto. Havia algo nelas que o incomodava profundamente, mas não sabia dizer o que era.

Levantou-se, indo também tomar banho, e quando retornou, tomou café com Nero enquanto conversavam sobre pensamentos que possuíam que decerto seriam considerados incomuns. Era bom ver que alguém tinha um pensamento semelhante.

– Uma das coisas que mais me incomoda – Nero disse, enquanto dava um biscoito a Aegis. – é ver aqueles comerciais em que o homem volta para casa, e a mulher está linda e bem arrumada, esperando ele retornar. Sério, eu não consigo capturar a imagem de alguém sendo feliz limpando, cozinhando e passando o resto da vida.

– Também, e só sai de casa para ir para o chá da tarde ou coisa do tipo. Me parece mais uma prisão domiciliar que um casamento. E sinceramente, como a minha mãe diz, quem em sã consciência vai limpar uma casa de salto alto e colar de pérolas?

– Não faço a mínima ideia, mas quando vejo alguns idiotas dizendo coisas sobre “lugar de mulher é na cozinha” e que alguém dorme com o chefe, dá vontade de fazê-lo cuidar uma casa por uma semana inteira de salto alto.

– É uma ótima ideia.

– Na verdade, também não faço ideia de como as mulheres se equilibram naquilo. E convenhamos, o que deve passar na cabeça da mãe, quando carrega nove meses na barriga, acorda de madrugada com o bebê chorando, cuida, dá amor e carinho, pra quando crescer o filho vem e diz “Mulher só serve para fazer comida e me esperar depois do trabalho”?

– Não se esqueça da dor do parto. E parece que de vez em quando temos os filhos de chocadeira.

Ambos riram.

– Isso é uma sociedade machista... E não faço a mínima ideia de como ainda não fomos influenciados por ela.

– Somos seres de mentalidade superior. – Nero disse com uma expressão tão absurdamente séria que foi hilária. – Ok, esqueça o que eu disse. Pare de rir da minha cara! Lembre-se que ela é igual a sua!

Foi o suficiente para fazer Jake parar... Por hora. Após mais algum tempo, pegaram o há muito aposentado tabuleiro de xadrez, o qual Jake e Near jogavam havia alguns anos, mas depois passaram a considerá-lo entediante.

Lembrar do amigo o fez se sentir repentinamente mal. Conversar com Nero realmente havia deixado sua mente mais leve, mas agora que retornara, parecia pesar mais que antes. Sentia-se culpado por parte da situação tanto por Far quanto Near. Deveria estar mais preocupado com o amigo que provavelmente corria risco de morte que...

– O que houve? – Nero questionou ao ver sua expressão, pegando as peças brancas para si.

– Eu... Ah, esqueça.

– O quê? – insistiu.

– Lembrei da situação. – disse, pegando as peças restantes. – Eu começo.

– Ah... Ainda não sabe exatamente o que fazer?

– Além disso, há o sentimento de culpa. Não foi a melhor hora, nem o melhor momento. – continuou, realizando uma jogada com um de seus peões negros. – Fui um idiota completo.

– Pare de se remoer sobre isso. Vai piorar as coisas. – foi a resposta, então Nero apoiou-se para trás, pelos braços. – Sabe, se isso dura uma semana, e você está se remoendo por uma semana, não sei como você mesmo se aguenta.

– Essa é a questão, nem eu mesmo me aguento. – murmurou depressivo. – E eu deveria estar mais preocupado com o irmão quase morto dela do que com isso.

– Não posso negar que seja verdade. Hm... Não lhe ocorreu em ir falar com ela?

– E fazer o quê? “Desculpe por ter te beijado depois de seu irmão quase morrer, e sou apaixonado por você desde sempre?”.

– Isso soou idiota e muito mais como uma menininha apaixonada. – a resposta de Nero veio como confirmação. – Não estou bem dizendo isso... E nossa, você é apaixonado por ela desde sempre?

– Pulemos este assunto.

– Ok... Tente esfriar a cabeça. Novamente, está se remoendo demais.

– E vai me dizer que...

– Se o assunto é relacionamento com garotas, saiba que sou completamente leigo sobre isso.

– Sério?

– Se você conhecer alguém que se atraia por “esquizofrênicos”, me apresente. Quem sabe eu não te entenda?

Acabou tendo que rir quanto ao comentário, mas Nero tinha razão. Talvez a melhor coisa a se fazer fosse esfriar a cabeça e refletir sobre o que faria. Simplesmente ir até Far e falar a situação de maneira curta grossa era algo que sequer cogitara em fazer. Na realidade, se não houvesse agido daquele modo, ela sequer suspeitaria de seus sentimentos.

– Vai pensar sobre isso?

– Vou.

– Espera, do que estamos falando? Da Far ou de alguém que se atraia por esquizofrênicos?

– Do mais importante, idiota. – disse rindo.

– De um a dez, o que acha que seria mais importante para mim?

– E onde diabos você acha que eu encontraria uma pessoa atraída por esquizofrênicos?

– Sei lá, num hospício? – a essa altura os dois já estavam rindo alto.

– Ok, tenho duas alternativas: uma interna e uma psiquiatra. Qual das duas?

– Espera, deixa eu pensar... Estamos falando sério?

– Óbvio que não! – pegou uma das peças brancas que já havia adquirido e jogou na cabeça de Nero.

– Ai!

– Era pra doer... Ai! – exclamou no momento em que foi acertado de volta. – É guerra?!

– Talvez, se quiser ter um ataque de infantilidade. O que me diz?

A resposta foi um cavalo branco na testa.

Rarac fugiu depois de um tempo para debaixo da cama devido às peças voadoras e Aegis se escondeu entre alguns livros da mesa. Claro que era ataque de infantilidade, mas a verdade era que estava se divertindo. Na verdade, não se lembrava de algum dia já haver rido tão verdadeiramente como naquele momento, apesar de toda a idiotice que estavam fazendo e a dor de ser atingido por aquelas peças.

Entretanto, em um mísero segundo, quando havia apenas os reis no tabuleiro, dispostos como se estivessem se encarando, Nero soltou um silvo de dor e segurou o próprio antebraço esquerdo.

– O que houve?

– Não sei! – exclamou. Puxou a luva, tirando-a, e quando Jake percebeu, já arregalava os olhos. Havia ali uma marca roxa, muito semelhante à marca que havia aparecido em seu peito. Estendia-se das costas de sua mão até acima de seu cotovelo. Assim como o ruivo fizera, Nero cutucou o local e se encolheu. – Isso não estava aí...

– Deixe-me ver. – disse, pegando o mais suavemente que pôde o braço de seu irmão, recordando-se de como a marca aparecera em si. – Teve algum pesadelo?

–... Sim, por quê?

Neste momento, a porta foi aberta, fazendo com que ambos a olhassem. Jake se sentiu gelando ao ver seu pai parado, encarando-os com uma expressão chocada. Sequer vira o tempo passar, e teve um breve vislumbre do que ele e Nero vestiam, constatando que encontravam-se praticamente idênticos.

Oh droga...

Jurava que conseguia escutar o batimento cardíaco acelerado de seu pai, enquanto tentava encontrar alguma saída. Como já não andava no melhor dos estados mentais, sentia vontade de rir. A situação parecia tão constrangedora e tensa que chegava a ser engraçada.

– Oi Sr. Silverman. – Nero foi o primeiro a falar, mas John simplesmente recuou, fechou a porta e foi embora, deixando um silêncio deveras desconfortável. – Falei o que não devia?

– Ele deve ter lembrado de ter nos escondido um do outro durante anos.

– É, eu sei. – Nero olhou para seu braço roxo. – Agora sua família toda vai subir para ver o que aconteceu.

– Isto é uma suposição ou uma visão.

– Ambos. – foi a resposta.

Dito e feito. Depois de alguns minutos, o escândalo estava instalado na casa, a maioria tentando entender onde Nero esteve durante todos aqueles anos sem uma única pista – Debrah desesperada pois se não aguentava um, quanto mais dois! — . A única que parecia estar feliz e sem perguntas era Pearl, animada com a perspectiva de possuir dois irmãos mais velhos.

– Esperem, ainda estou digerindo isso... – Carolina murmurou mais uma vez quando questionada se estava bem. – Eu nem imaginava! Nunca, em todos esses anos...

– É mãe, eu também não. – apontou para Nero no momento em que este abriu a boca. – Fique calado.

– Você lembra de alguma coisa?

– Apenas sobre Klodike, Sra. Silverman. – foi a resposta educada.

– Klo... O quê?

– Eu. – Jake suspirou. – É, eu sei, nome bizarro.

–... Então também é adotado?

– Sim, meu pai é Robert Clearwater.

O vinco formado na testa de Carolina foi o suficiente para que os gêmeos dessem um passo para trás e darem um sorriso exasperado em movimentos idênticos. Era mais que óbvio que ela e John teriam uma bela de uma... Conversinha.

– John, por favor, venha aqui!

Os dois se entreolharam. Sim, certamente.

– Er... Acho que vou indo...

– Ah não, fique, fique! O almoço logo ficará pronto, e não quero separar mais ninguém por enquanto! – disse se levantando. – Minha nossa, eu esperando que um dia Jake trouxesse uma namorada, mas trazer um irmão! Isto eu não esperava... Mas não deixa de ser uma ótima notícia!

– Namorada... – Nero deu uma olhada de esguelha para Jake, que lhe acertou uma cotovelada só por via das dúvidas.

O dia realmente estava tomando proporções inesperadas. Mas a visão de seu pai descendo as escadas, parecendo em algum tipo de estado de choque, lhe fez pensar que ainda havia muita coisa a ser respondida. Coisas que certamente não viriam tão facilmente.

E nem percebia que ao se aproximar de seu irmão, seu destino se selava.

Notas finais
Admito que foi legal fazer um capítulo todinho só do Jake e do Nero... Quero fazer isso mais vezes. E as tretas irão começar...