Motivo

1 Capítulo único


Cheguei em casa depois de um longo dia de estudo e trabalho. Não dei boa noite para quem estava na sala, apenas atravessei a casa e fui direto ao meu quarto, como de costume. Joguei minha bolsa no chão com indelicadeza e o gato que estava dormindo na cama acordou. Não que eu esteja com raiva de algo em particular, infelizmente esse é meu jeito… Bruto. Algo que eu me tornei, algo que desgastou, e ainda desgastava, todos os meus relacionamentos, algo que me deixa cansada. Isso drena todas as minhas energias. Eu estou cansada mesmo que não tenha nem mesmo tentado fazer algo. O cansaço trouxe a intolerância e ignorância que se tornaram parte de mim ao longo da minha curta existência. As minhas experiências passadas pareciam tão longes que estavam quase esquecidas, fazendo-me não refletir a minha jornada para, quem sabe, me tornar alguém melhor. As experiências ruins, entretanto, estavam tão intrínsecas à minha alma e iam me apodrecendo de dentro a fora, dia após dia.

Sentei na minha cama e minha mente fugiu da realidade por alguns momentos, revivendo o dia entediante que tinha se passado, as falas insignificantes que tinham sido ditas e os olhares antipáticos compartilhados por todas as pessoas que passaram por mim… Não eram coisas presentes somente nesse dia. Todos os dias, desde que eu me lembre, o mundo me parece assim.

Levantei-me da cama, peguei minha toalha ainda úmida em cima da cadeira e fui rapidamente para o banheiro. Tirei a roupa, prendi meu cabelo e entrei na cabine do chuveiro ao som da novela que assistiam na TV da sala. A água estava impiedosamente gelada, tanto que me machucava um pouco. “O mundo precisa de mais empatia”, pensei. Ironicamente, eu mesma sou uma das pessoas que precisa ter mais empatia. Vivo olhando apenas para o próprio umbigo e ajo conforme meus próprios interesses. A empatia que eu desejo é para meu próprio benefício, para não me sentir tão ignorada aos olhos de quem eu achava que precisava desse sentimento. Quem estou querendo enganar? Eu simplesmente prefiro ignorar isso.

Peguei o sabonete e comecei a me lavar enquanto encarava os potes de xampu, condicionador e hidratante. Se tem uma coisa que eu tenho certeza, é que nossas vidas, ou melhor, passagens no planeta Terra são ínfimas se comparadas a existência da galáxia ou mesmo do universo. Nada do que eu faça vai ser relevante. Nem para mim, nem para minha família, nem para os meus amigos. Para ninguém. Eu também tenho certeza de que a morte é inevitável… Então pra quê se importar tanto em viver?

Saí do meu banho e fui direto para o quarto novamente, ignorando toda confusão que estava tendo na sala. Fechei a porta, abri o guarda-roupa e peguei as primeiras peças que estavam próximas. O gato miou do lado de fora e arranhou a porta, querendo entrar. Destranquei a porta e abri só o suficiente para ele passar. Tranquei novamente a porta e comecei a me vestir. A visão otimista do mundo é algo que eu nunca compreendia, já tinha tentando aderir a este “estilo de vida”, mas o pessimismo sempre me puxa de volta. Como um ditador cuja retórica é tão surpreendentemente convincente que não precisa de uma forte ideologia para conseguir seguidores.

Ouvi dizer que tudo é energia. Ações são energia. Deus é energia. Pensamentos são energia e sendo assim: o pessimismo atrai coisas ruins e otimismo atrai coisas boas. Mas viver seria muito fácil se pudéssemos mudar algo com o poder do pensamento. E Deus não quer que nossas vidas sejam fáceis, pois se quisesse, não teria nos castigado com o mártir que é viver, que é ser parte dessa humanidade.

Novamente fui ao banheiro. Liguei a luz, peguei a escova e comecei a escovar os dentes, um pouco desatenta. Virei-me rapidamente e derrubei a caixa de creme dental vazia dentro da privada. Imediatamente peguei a caixa com as pontas dos dedos e joguei no lixeiro debaixo da pia. Dei um suspiro e me engasguei com a espuma na minha boca. Pude ver toda a cena ridícula no espelho e dei uma risadinha envergonhada, embora ninguém estivesse me vendo. Lavei as mãos e continuei a escovar os dentes. Não há espontaneidade, não há mais originalidade nem amor. Este sempre esteve em falta, na verdade. Sempre pensei sobre a vida, como somos poeira estelar e assim, como toda boa poeira: insignificantes. A inevitabilidade da morte, o desgasto das relações sociais, a falta de empatia, tudo isso e mais são coisas que me deixam extremamente abalada e sem ter para onde fugir, sem ninguém para me acalmar e dizer que é tudo nóia… Não tinha como fugir e tudo isso era real.

Voltei ao quarto, fechei a janela, desliguei a luz e me deitei. Fiquei o que pareceu horas deitada, encarando o teto. O barulho do vento não me deixava dormir e me revirei várias vezes na cama, tentando achar a posição mais confortável possível. Todas as tentativas foram frustradas e então me sentei. Não sei o que aconteceu. Chorei. Há pessoas que procuram fugir em pequenas coisas sem nem perceberem. Eu tentei por um bom tempo, mas em um passe de mágica, em um milésimo de segundo, nada me interessa mais. Pequenas fugas não dão conta. E foi aí que comecei a pensar cada vez mais frequentemente na grande fuga. E hoje foi um dos dias que tinha feito a grande decisão.

Levantei-me lentamente, a visão já acostumada com o escuro e me aproximei da janela. O plano da paisagem do décimo terceiro andar foi ficando mais aberto conforme eu me aproximava. Quando estiquei os braços para abrir a janela, senti algo macio passando entre as minhas pernas. Olhei para baixo, assustada e vi que era meu gato. Ele miou para mim enquanto se alisava no meu pé. Estava com fome. Fui até a cozinha para pegar a ração dele. Senti o saco muito leve e voltei para encher o pote que estava no quarto. Coloquei o resto de ração no potinho e me sentei na beira da cama, observando a avidez com que ele comia. Bocejei e pensei “preciso comprar ração amanhã”. Deitei novamente e finalmente consegui dormir.

Notas finais
No momento de desespero você toma decisões drásticas e um pensamento simples como "se eu não estiver aqui, quem vai alimentar meu gato amanhã?" te faz perceber que você ainda precisa estar aqui, que você ainda não pode morrer. Não importa o quão simples, fútil ou complicado seja, tudo que você precisa é de um motivo.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!