Mortem
1 Mortem
Era escuro. Frio e sem vida. Apenas o vazio a ser apreciado.
As lamúrias tornam-se palavras indecifráveis em um redemoinho de medo e dor.
O temor da perda. O medo do desconhecido. Não há modo de fugir de mim. A praga mais temida. A maldição lançada sobre a terra para punir os pecadores. Uma sentença que todos os dias me faz levar milhares de presos que não têm direito a um advogado.
Eu sou uma moça. Uma mulher. Uma senhora solitária que anda vagarosamente todos os dias entre pessoas distraídas e apressadas. Sou muitas vezes a única a ouvir as ultimas palavras. Seus últimos pensamentos me pertencem.
Alguns já contemplaram a minha face. Já fugiram do meu beijo. Já me desafiaram. Fogem do meu toque.
Mas, alguns desesperados me procuram, desejando abrigo, desejando uma amiga fiel e silenciosa. Desejando aplacarem a sua dor me chamam como a uma velha amiga, veem ao encontro do toque dos meus lábios. E eu, não recusando seus pedidos lhes seguro com certa dor suas mãos frias e os acompanho de coração partido e de bom grado pelo corredor que talvez os leves a eternidade.
Eu volto meus olhos para as pobres criaturas que ocupam o pequeno quarto branco. A moça chora. Os olhos inchados observam com atenção o rapaz magro e pálido sobre a cama maca.
Suas mãos seguram a dele na esperança de prendê-lo aqui por mais tempo. Os olhos do moribundo estão levemente abertos, observa a amada com demasiada ternura e balbucia palavras de afeta e consolo.
—Não se canse. – Ela pede. A voz baixa e rouca é a denúncia de quem há dias não dorme bem. Sento ao lado do corpo magro e acaricio seus cabelos encaracolados e cor de chocolate. Olho para ele e a pobre criatura me retribui com um sorriso amargo.
—Você vai casar... Ter lindos filhos... Eles terão os seus olhos... Cor de mel... E será feliz... – Sua voz é fraca, e ela só pode ouvi-lo por estar perto.
—Não posso ser feliz sem você. – ela responde em meio a lagrimas e soluços que tentam ser silenciosos.
—já está na hora. – aviso em voz baixa. Ele, a pobre criatura quem vim buscar, não se opõe a minha notícia, porem, seus olhos cansados suplicam por mais alguns minutos. Eu, não sou dona do tempo, não o controlo, apenas faço a minha parte do trabalho, apenas seguro suas mãos e os levo daqui.
Meus lábios frios tocam os seus ambos olhamos para seu corpo –agora sem vida- sobre a cama. Ambos observamos o caos formar seu império n pequeno recinto.
É uma alma silenciosa que caminha ao meu lado. Olha para trás apenas uma vez, observa a mulher que ama ser sedada para amenizar o desespero da perda. Não, ele não me pede para ficar, para falar uma última vez que ama e para se desculpar por ter sido orgulhoso e tê-la machucado. Ele usou seu pouco tempo para fazer isso.
Ele não me questiona sobre seu futuro e andamos lado a lado por um corredor vazio e límpido até o limite em que posso chegar.
—Faça uma boa viajem. –Eu desejo sem olhar para ele.
— O que acontece agora? –ele questiona inseguro pela primeira vez sobre o seu futuro.
—O futuro de vocês é um mistério até para mim... – respondo com um suspiro profundo que lhe causa arrepio.
—Mas... – ele começa, mas quando duas figuras brancas e iluminadas aparecem no final do corredor ele se cala.
—Eles te mostraram o caminho. – eu não os espero chegar até nós. Deixo-o no corredor e volto, refazendo meus passos.
Sou novamente uma senhora solitária. Caminhando por um corredor iluminado, observando o império de dor que se forma com minha existência. Sou um acidente. Minha existência é odiada e temida. Posso passar milênios observando a confusão e tortura, talvez me delicie ao buscar os que me merecem, talvez de má vontade, beije lábios inocentes, no final todos estarão ao meu lado, todos serão meus, mas um dia, eu serei liberta. Um dia o castelo de cartas cairá e meu trabalho não precisará mais ser feito. Serei apenas uma lembrança antiga, um fantasma na memória de todos.
Meus passos são interrompidos com um choro inocente. Para a porta e observo a pequena criatura ser segurada por braços calorosos e acolhedores. Não preciso procurar por ela. Está ali. Observando sua cria. Com um sorriso estampado nos lábios rosados, está ali, iluminada, trasbordando uma alegria que nunca me foi oferecida, uma alegria inocente, intensa e quase vertiginosa. Toco porta e pequenas linhas de gelo se espalham pela madeira. Ela me nota. E sua alegria se esvai momentaneamente. Afasto-me, sou uma intrusa em sua festa particular, uma penetra indesejada.
Meu trabalho nunca termina, assim como o dela. Alguém me chama. um som desesperado, angustiado, desejando minha atenção. Eu a alcanço, a encontro, observo seus olhos, observo o machucado que infligiu em seu próprio corpo. Está em busca de seu amado. Desejando compartilhar com ele a eternidade. Observo seu medo e seu desejo. Ele aparece sem demora. Com lagrimas nos olhos, sofrendo com a sua dor. E Ela aparece também, ouvindo um clamor silencioso que é entonado como cantiga.
—Não é hora. –Ela me diz.
—Sim, eu sei Senhora. –respondo rispidamente.
—Senhora Morte, ela não está pronta... – fala com delicadeza e doçura.
—Eles nunca estão prontos, Senhora Vida. – respondo com rispidez, que contrasta com a sua suavidade.
Abaixo-me ao lado do seu corpo que agoniza em dor. Deixo que minha cabeça caía sobre meu ombro e a analiso de perto. Acaricio seus cabelos e permito que a pobre alma amada se aproxime para um último adeus. Não observo o que dizem, falam muito mais pelo olhar, são pequenos segundos que se tornam uma eternidade para ambos. Com um último sorriso ele some, deixando-nos a sós, uma reunião particular entre garotas. A Vida, a Senhora do início dos tempos chora, chora a sua dor compartilhada, o seu medo, A Senhora compreensão, que é mãe, pai e amiga, segura sua mão com extrema delicadeza e lhe oferece palavras de apoio.
Não sou mais bem vinda, não sou mais uma convidada. Levanto-me para um adeus.
Deitada no chão ela me oferece seu melhor sorriso de desculpas, com um toque de amizade.
—Você ainda me pertence pequena criança, ainda não deve estar em minha companhia. Mas, teremos outros momentos, e quem sabe, da próxima vez, você se junte a mim?
Deixo-lhe uma rosa e presente, uma rosa que um dia foi linda, de cor brilhante e intensa, mas que agora, assim como eu, ostenta um escuridão sem vida.
Afasto-me com passos lentos enquanto outros humanos aparecem para socorrê-la.
Não olho para trás, sigo meu caminho para atender a outros chamados, e será assim até o fim dos tempos, quando terei minha liberdade, e eles também.
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