Moon Society: The lighthouse.

26 Capítulo vinte e quatro: Em uma batida de coração.


Notas iniciais
A história trata de transtornos mentais, exposição a grandes traumas, situações de crise, abuso de substâncias e álcool, não recomendado para o público mais sensível ou para pessoas com histórico de transtornos PODE APRESENTAR GATILHOS.

Depois de sair da sala dos professores, Jonah fez uma varredura antes de ganharmos o estacionamento e me levou para dentro do prédio onde a cafeteria ficava, ainda faltavam dez minutos de intervalo e eu queria estar com as minhas melhores amigas.

Nós nos sentamos na mesa mais afastada, longe das janelas com minhas costas para a parede e Jonah à minha frente, de costas para nós três, olhando para a porta sem piscar.

Contei a elas a minha versão de tudo o que havia acontecido, mesmo que as fofocas já tivessem chegado à seus ouvidos.

― Caralho! Você está sangrando ― Falou Mirella.

― Ei! Fala baixo, quer que todo mundo ouça? ― Falei pressionando a manga de meu blazer no ouvido.

― Você deveria ir para a enfermaria, para o hospital ― Morgana sugeriu.

― Não, na enfermaria vão chamar meus pais de novo, no hospital... Se eu aparecer novamente sem que seja para tirar essas belezinhas Tucker me interna, ele jurou ― Falei temerosa ― Eu tenho planos demais para esse fim de semana, foi só uma queimadura ― Falei.

― Então... Passou de raspão por Ian e você e atingiu Wilhelm?

Eu assenti.

― Ombro, antebraço e na barriga ― Falei franzindo as sobrancelhas.

― Vamos parar de pensar nisso, sim? ― Mirella falou chacoalhando as mãos nervosa.

Eu assenti.

― Espero que estejam descansadas, hoje vamos escrever uns mil convites ― Falei já sentindo meus ossos protestarem.

― Isso é que é prova de amor hein ― Morgana disse cutucando meu ombro.

― Você vai convidar Eros? Desculpa, mas tive que perguntar ― Mirella falou.

Eu revirei os olhos.

― Minha mãe me forçou a convidá-lo, por causa dos pais dele... Essa coisa horrorosa de networking entre famílias ― Eu fiz uma careta.

― Milionários, pode dizer ― Mitchie brincou ― Nós já nos acostumamos com sua condição ― Ela brincou.

Eu suspirei.

― Tenho que te contar uma coisa ― Mitchie disse.

― Não, você não tem ― Morgana falou à irmã mais nova.

― Qual é ela tem direito de saber...

― Que não seja pela melhor amiga, você não consegue manter a sua boca...

― Hey, todo mundo já esconde coisas de mim, vocês duas também não, por favor...

― Ontem fomos à uma das festas do Tristan...

― Eu sei, a minha irmã estava lá ― Falei.

― É ela não te disse nada? Mas que cacho...

― Ei! Briguei com o meu pai hoje de manhã e sai de casa cedo! Mal falei com minha irmã hoje, então ela não poderia me dizer o que quer que fosse, não fale assim dela.

Mitchie revirou os olhos.

― Desculpa, o fato é que... Eros estava lá com...

― Julianne? ― Falei tentando não parecer afetada.

― Foi a primeira festa do time de Hurling... A temporada mal começou e... Acho que ele deve fazer o teste...

― Corte a parte do Hurling...

― Eu sinto muito que tenha que ser eu a te contar ― Mirella falou ― Eles não estavam se beijando nem nada... Só... Bem próximos... Mas ele nem sorri para ela do mesmo jeito que sorri para você, ele parece...

― Gostar mesmo de mim? ― Pedi irônica ― Obrigada por me contar, mas eu... Meio que já imaginava.

Morgh suspirou.

― Ele é um idiota, pior que isso, é um babaca, não deixa ele estragar a semana do seu aniversário.

― Eu não vou, falta uma semana, estamos quase prontos ― Falei animada.

Jonah e Ian nos levaram para a aula extra curricular de literatura, Morgana era do último ano, então ficávamos no mesmo prédio e eu e Mirella subimos pelo pequeno elevador até o último andar.

A aula de literatura foi interessante e faríamos um trabalho sobre um livro que abordasse sobre quebra de paradigmas culturais ou éticos.

Quando nossa aula acabou Jonah me mandou esperar na sala enquanto ele fazia uma varredura pelo estacionamento antes de eu sair do prédio.

Mas eu estava impaciente por ir para o hospital e finalmente tirar aquela bota ortopédica e aquele gesso verde do braço.

Eu e as meninas esperávamos o elevador subir, mas o elevador é uma tranqueira, ele era aqueles elevadores antigos com portas de grade de ferro, a geringonça levava um século para subir e descer e uma eternidade para fechar aquelas portas velhas.

Quando estávamos prestes a entrar vi uma aluna cadeirante se aproximar.

― Você pode ir primeiro ― Falei.

Ela sorriu e agradeceu.

Morgh e Mirella a ajudaram a fechar as portas daquele negócio, que rangeu como se fosse desmontar e começou a descer lentamente.

― Deus! Vamos de escada ― Falei.

― Você não deveria forçar a perna ― Morgana falou preocupada.

― Eu ando devagar, são apenas três andares, estou quase curada, inclusive vou me livrar disso hoje.

― Jonah e Ian foram buscar o carro, espere eles voltarem e um deles te carrega para baixo ― Mirella falou.

― Gente eu estou bem.

Elas concordaram.

Enquanto desciam os contei a elas a história de como consegui o meu vestido.

― Era uma loja de penhores em Waterford, eu só entrei porque achei a fachada interessante, nem estava procurando nada específico, ele parece bem antigo, possivelmente é uma relíquia, parece que aquele vestido que me encontrou ― Falei para Morgana.

Elas riram.

Nós chegamos ao primeiro andar, era aberto, a Lun Evanic funciona em uma antiga fazenda, caso eu não tenha mencionado isso antes, estávamos em um corredor aberto, de pedra com janelas vitrais.

Eu me encostei para respirar enquanto esperávamos Jonah.

― Esqueci sua chave no meu armário ― Mirella disse a Morgana ― Vou buscar, não saiam daqui ― Ela pediu.

Nós duas rimos da afobação dela.

Ficamos conversando sobre ela e Nathaniel, ela me contava as novidades sobre o trabalho dele, os planos que eles faziam para quando eles fossem para a faculdade.

Eu senti meu estômago revirar quando Eros e Julianne entraram em meu campo de visão.

― Finja que nem está vendo, eles não merecem sua atenção ― Morgh falou.

Eu assenti olhando uma última vez ele a segurava pelos quadris.

― Só... Vamos sair daqui ― Falei a Morgana.

Eros se soltou de Julianne e andou para fora do prédio, mas ela segurou o braço dele, disse alguma coisa e eles riram.

Então ela andou para dentro, mexeu em algo no armário e quando fechou seus olhos faiscaram em minha direção.

Respirei fundo, sentindo meu coração acelerar.

Ela tinha um sorriso cínico, quase perverso.

― Hey Brie... ― Julianne falou tentando soar doce.

― Me tira daqui ― Pedi a Morgana ela me olhou confusa, então ficou um pouco pálida e assentiu.

― Você está bem? Está... Muito vermelha ― Ela disse nervosa.

Eu parei de andar e minhas mãos cobriram os meus olhos, meu cérebro começou a fritar, meus olhos pareciam estar cozinhando dentro do crânio.

― Brie...

― Agora não... Agora não... Agora não...

Falei como um mantra, eu não poderia ter um black-out agora.

Meus black-outs são situações terríveis, isso acontece quando estou muito nervosa ou sob muito stress, hoje foi um dia de merda, um black-outs sou eu geralmente apagando sem realmente apagar, eu fico lá no piloto automático e quando eu volto um monte de coisas aconteceram, Mason diz que o cansaço mental aumenta a frequência com que eles acontecem, que eu fico exausta e meu cérebro cria esses black-outs para me tranquilizar, que os black-outs são meu cérebro inventando coisas que não estão lá.

― Tenta... Respirar ― Morgana disse.

Eu tentei, parecia que meus pulmões estavam em chamas, que mãos invisíveis os espremiam.

― Ouvimos dizer que foram “atacados” ― Juliane falou debochada ― Uma pena terem errado o alvo... Quem levou aqueles tiros foi o pobre homem.

Eu tentava andar, mas minhas pernas nunca pesaram tanto, meu corpo estava vibrando e eu comecei a sentir aquelas pontadas em meu peito e minha cabeça, elas se espalharam por meus braços, indo até a ponta dos meus dedos, varias fisgadas e minhas veias pulsando intensamente.

Morgana falava comigo, mas minha pulsação em meus ouvidos havia me deixado atordoada.

― Acho que quem deveria ter levado aqueles tiros...

― Já chega Julianne ― Morgana berrou.

― Não! É verdade, quem deveria ter levado aqueles tiros eram você, seus pais arrogantes e a vagabunda esnobe da sua irmã ― Ela disse.

Eu fechei meus olhos com força.

― O que você disse? ― Falei conseguindo dar dois passos na direção dela.

Nós duas estávamos paradas em frente a janela de vitrais maior.

― Repita o que disse ― Desafiei.

Minha visão estava embaçada demais, mal conseguia enxergar ela.

― Nada, ela não disse nada ― Morgana falou tentando me afastar.

Eu ri sem humor.

― Repita o que você disse ― Falei a olhando friamente.

Julianne estava em silêncio, me olhando esquisito.

― Brieanna respira, não vale a pena

― Você é fodida da cabeça ― Julianne falou dando um passo à frente.

Eu senti meus joelhos cederem, um som alto ecoava por todos os lados, algo como metal retorcendo e um zumbido de turbinas gigantescas.

― Cala a droga da sua boca Julianne ― Morgana berrou ― Respire, Briea...

― Você não vê que ela só quer atenção?

― Já chega Julianne ― Morgana disse.

― Foda-se isso, eu espero que quem esteja procurando você e o resto da sua família bizarra encontre vocês e todos vocês esnobes se fodam ― Julianne falou cuspindo as palavras acidamente.

Eu fiquei de pé, sentindo meu corpo um tanto mais leve, mas minha visão totalmente ofuscada, não conseguia enxergar muita coisa, antes do último black-out apenas me lembro de olhar para Julianne e sua voz ecoando em minha cabeça, cantando ofensas a minha família, eu queria muito machucar ela.

Então meu estômago estava muito esquisito, com aquele aperto, uma veia pulsava em minha cabeça, meu cérebro continuava fritando, minhas mãos estavam formigando e senti o chão tremer sob meus pés, então um clarão e as janelas explodindo como se fossem feitas de açúcar atingidas por água,

Então eu estava no chão, no escuro, com minha cabeça latejando e sem respirar.

Ouvia ao longe a voz de Morgana, Eros e Mirella, quando eu desmaio, as vezes eu simplesmente não me lembro de nada, mas outras vezes... É como se eu estivesse congelada de olhos fechados, mas completamente consciente.

Eu ouvia tudo distante, Morgana gritando com Eros, Eros gritando com Morgana, Mirella gritando com Eros, mas eu não queria mais ouvir nada, só estava cansada demais e dormir parecia um ideia brilhante.

Senti um par de mãos em meu rosto, eram quentes, senti meu corpo leve demais sendo sacodido, ouvi a voz de Jonah, então duas mãos enormes pressionando meu peito.

― Vamos ― Jonah falou.

Minha mente estava clara demais, como o sol do verão, eu continuava exausta demais para abrir os olhos.

Mãos pressionando meu peito, lábios empurrando ar por minha garganta, empurrando ar para os meus pulmões.

Exausta...

O céu rosa pálido, risadas, uma canção sobre a lua, risadas

Mãos...

Ar...

Mãos pressionando meu peito... Uma... Duas... Três... Quatro... Lábios empurrando ar para meus pulmões em chamas.

Eu respirei fundo finalmente conseguindo abrir meus olhos, mas ainda me sentindo mole demais, tudo estava rodando, minha cabeça, o prédio, Jonah, Morgana, Mirella, Eros.

Meus ouvidos zuniam, alto demais.

― Brie, Deus! ― Morgana falou em meio às lágrimas.

― Ela está bem? ― Eros perguntou, seu rosto estava todo vermelho.

Mirella me abraçou.

― Ela tem que ir para um hospital ― Jonah falou se sentando, a sua testa estava suada, ele parecia exausto.

Eu tentei me sentar devagar, mas tudo girou.

― Calma ― Ian falou ― Você quase me matou de susto ― Ele disse beijando minha testa.

Depois duas ambulâncias estavam ali, eu não entendia o que estava acontecendo e meus pulmões ainda não funcionavam direito, apaguei dentro da ambulância.

Eu acordei em meio à uma tomografia, me sedaram novamente, apaguei e acordei num quarto, Jonah estava ali.

― Seus pais estão aqui ― Jonah me tranquilizou.

Ele olhou o celular preocupado e me olhou novamente dando um sorriso nervoso.

Eu suspirei.

― Que porra aconteceu?

― Descanse ― Jonah falou.

Meus pais entraram pela porta e minha mãe estava quase em cima de mim.

― Ei, o que aconteceu? ― Minha mãe perguntou a Morgana e Mirella paradas ao meu lado.

Tecnicamente eu só deveria ter a família aqui, mas Jonah pode ser muito persuasivo quando quer.

― Os médicos ainda não disseram ― Jonah falou, ele e meu pai saíram do quarto por algum tempo e voltaram em seguida.

Minha tia Emily estava ali, a olhei confusa, ela vestia um vestido azul claro, com jaqueta de couro e maquiagem nos olhos, seu batom vermelho fazia a boca dela parecer com a minha ainda mais.

― Oi vem aqui ― Falei batendo no espaço ao meu lado.

Ela se sentou ao meu lado.

Então me abraçou e foi a única vez durante todos esses três meses absurdos que eu não senti vontade de chorar.

― Senti sua falta, muito, que bom que está aqui ― Falei.

― Eu também senti sua falta, só não esperava te encontrar em um hospital ― Falou brava.

Eu ri debilmente, me sentindo engraçada, deveriam ser os remédios.

― Eu venho muito aqui ― Falei dando de ombros.

― Não tem graça ― Meu pai falou.

― Mas é verdade, sou um imã de acidentes ― Falei rindo ― Hunmm me sinto engraçada ― Falei à Jonah ― Eles me deram drogas?

― Medicamentos ― Jonah corrigiu ― Tucker a médico para sedá-la já que ela não parava quieta e queria, muito mesmo, ir embora.

― Eu imagino ― Minha mãe falou.

― Viu meus dedos? ― Falei à Emily ― Estão bem pequenos ― Falei mostrando, Emily parecia estar longe, mas quando mostrei minha mão meus dedos tocaram a bochecha dela.

― É percebi ― Falou divertida.

Minhas amigas riram baixo.

― Sua cabeça está enorme ― Falei ao Jonah.

― Desse tamanho ― Falei gesticulando com a minha mão boa para Ian que riu baixo.

Jonah riu baixo acompanhando o amigo.

― Ela está muito esquisita, o que Tucker deu à ela?

― Ela já vai...

Jonah nem terminou de falar, meus olhos estavam pesados demais para prestar atenção no resto da conversa.

A pior parte de ser drogada em um hospital é que você fica entre consciente e inconsciente e eu não tenho ideia de quantas horas ou dias se passaram.

Quando despertei novamente, o único ponto de luz no quarto era o quadro de raio X onde meu médico mostrava aos meus pais e Jonah as chapas que eu havia tirado.

Eu estava atordoada e só conseguia ouvir coisas aleatórias.

― Ela teve esse sangramento nasal novamente quando ela realizou a tomografia a cabeça dela acendeu como uma árvore de Natal, depois fizemos uma outra tomografia e nada, fizemos diversos testes, vamos ficar atentos à qualquer mal estar, todos os exames feitos, ossos, órgãos, sangue, ela está saudável, mais saudável do que todos nós juntos, não tem nada que explique aquela parada cardíaca.

― Não chegou a uma parada ― Jonah falou entre dentes.

― Tudo bem, quase parada ― Tucker falou ― Ela tinha vestígios de pólvora por toda lateral esquerda do rosto

― Eu comuniquei que um dos projéteis passou por ela e atingiu Ian de raspão e Wilhelm na barriga, os outros dois passaram muito distantes e atingiram o ombro e o antebraço... Me atirei sobre ela e a tirei da linha de visão, não haviam carros ou pessoas por perto, certamente foi um tiro de longo alcance, ainda não fui capaz de ver os projéteis.

― Como não perceberam isso? ― Meu pai perguntou.

― Senhor fazemos varredura antes de ela sair, a deslocamos rapidamente e fazemos varredura enquanto ela está nos prédios

― Claramente não é o suficiente ― Meu pai falou rude ― Por Deus, essas balas passaram perto da minha filha ― Ele disse.

Todos eles estavam de costas para mim, tentei me sentar devagar.

― Jonah e Ian salvaram a minha vida e Wilhelm levou dois tiros para me proteger, como isso pode não ser o suficiente para o senhor, senhor Brown?

Ele me olhou bravo.

― Entende como estou me sentindo? Aquelas balas... Passaram ao lado da sua cabeça... Três centímetros, Brieanna, três centímetros e o meu bem mais preciso...

Eu fechei os olhos.

― Eu sei ― Falei sentindo um arrepio ― Ninguém melhor do que eu Jonah e Ian e Wilhelm sabemos disso, nós estávamos lá na linha de tiro ― Falei ― Não brigue com eles quando eles estão fazendo o melhor que podem ― Falei.

― Você se lembra do que houve? Enquanto fazíamos a varredura antes de te tirar do corredor? ― Jonah perguntou.

Eu forcei minha mente, por longos segundos, branco, claro demais, zumbido.

― Eu... Não me lembro... Um zumbido? ― Falei confusa.

Minha mãe franziu a testa, obviamente não acreditando em mim.

― Me lembro de estar andando no corredor... Então... Um zumbido e... Eu acordei com você por perto ― Menti.

Esperei um par de horas para Tucker cerrar aquele gesso verde do meu braço.

Então outro par de horas enquanto ele examinava os ossos da minha perna dizendo que eu havia me recuperado em tempo recorde, que talvez ordenei minha própria cura porque queria muito dançar no meu aniversário.

Eu ri e concordei, talvez seja isso.

Fui liberada com a condição de que deixaria todo esforço para meu aniversário e não forçaria minha perna por uma semana, continuaria usando a muleta.

― Como está Wilhelm? ― Perguntei à Jonah quando eu, ele e Emily esperávamos meus pais assinarem os documentos.

― Está bem, embora tenha perdido muito sangue, realmente, está fora de perigo, ele está...

― Puto e querendo bater a merda fora de quem atirou nele ― Ian falou sem pensar.

Eu arregalei os olhos, Jonah e Emily também.

― Jesus... Perdão... Senhorita Brown... Senhorita O’Brien ― Ian falou todo sem graça.

Então explodi em uma risada alta, que chamou a atenção de algumas pessoas em volta.

― Mil perdões... Senhorita.

― Ah Ian, já falei para me chamar de Brie, a não ser que você queira que eu te chame de senhor Dorchester o tempo inteiro ― Falei arqueando a sobrancelha ― Você se atira em frente a carros blindados e leva tiros por mim, se não puder me chamar pelo primeiro nome ninguém mais pode ― Falei sorrindo para ele.

Jonah e Ian sorriram e assentiram novamente.

Emily tinha os olhos estreitados em minha direção.

― Nossa quantos papéis será que estão assinando?

― Devem estar pedindo orientações médicas ― Emily sugeriu.

― Para o que? Estou ótima ― Falei confusa.

Jonah riu.

― Pare com isso ― Emily brigou fazendo cara feia.

Demorou um tempo até meus pais se juntarem à nós.

― Pronta par ir? ― Minha mãe perguntou.

― Quero ver Wilhelm ― Falei.

Ela me olhou preocupada com uma expressão derrotada.

― Você disse que ele tinha ficado bem ― Falei acusadora à Jonah.

― Ei! Calma, o cara está ótimo, de verdade, Brie ― Jonah disse então olhou para meus pais sem graça ― Digo... Wilhelm vai ficar bem senhorita Brown... Só... Não sei se... Você... Se as pessoas podem vê-lo ― Ele pareceu escolher bem as palavras diante dos olhos dos meus pais.

Eu olhei para meus pais e suas expressões suavizaram.

― Eu sei o que está fazendo ― Falei ― Não querem que eu veja como é levar um tiro? Ou não querem que eu veja como alguém que levou um tiro para me proteger ficou? ― Pedi triste.

― Não é nada disso ― Minha mãe disse.

― Apenas não é uma boa hora ― Meu pai falou.

― O que faz esa hora não ser tão boa quanto qualquer outra?

Ele passou a mão pelo cabelo.

―Ótimo, vamos vê-lo ― Falei ao Jonah.

Jonah me levou até o elevador e me guiou até o quinto andar.

― Ele deve estar dormindo, por causa da medicação para a dor, nós nem estamos em um horário de visita ― Ian especificou ― Só me deixe checar ― Ele falou ― Vai ser bem rápido porque ele precisa descansar.

Eu assenti.

― Ei parceiro, se cubra, você tem visita ― Jonah falou.

― Quem está aí? ― Wilhelm perguntou.

Jonah me deixou entrar.

― Oi ― Falei baixo.

― Ei! Senhorita Brown ― Wilhelm disse sorrindo sem jeito, tentando se sentar, mas gemendo de dor.

― Ei não se esforce ― Pedi me aproximando ― Só queria dar um oi, fiquei preocupada.

― Comigo? ― Falou confuso.

― É com você, Wilhelm, que ideia é essa de pular em frente à balas? Não sou a Whitney Houston.

Ele riu, mas pareceu que até rir doía.

― Se queria férias era só ter pedido ― Jonah brincou. Nós três rimos.

― Fico feliz que tenha sido eu a levar tiros e estar aqui em uma cama de hospital e não a senhorita.

― Ah, sobre isso, acabei aqui de qualquer jeito.

― Como assim? ― Perguntou confuso.

― Eu não consigo me lembrar direito, estou esperando Jonah abrir o bico.

― Vai sonhando ― Jonah falou.

― Temos que arranjar uma forma de manter a senhorita longe de acidentes ― Wilhelm brincou ― Não sei o que fez você se abaixar, mas... Salvou sua vida.

Eu levei minha mão até meu bolso, até a pequena flor totalmente diferente de tudo o que eu já havia visto, que cresceu na rachadura no asfalto do estacionamento.

― Sei disso Wilhelm, fico feliz que esteja bem, ouvi dizer que precisa descansar ― Disse gesticulando para Jonah que riu.

― Obrigada por vir senhorita Brown ― Ele disse segurando minha mão ― Isso significa muito.

― Isso é o mínimo que eu poderia fazer, você, Ian e Jonah salvaram a minha vida ― Falei ― Deus é testemunha de que esse é um árduo trabalho.

― Nem fale ― Ian brincou.

― Podes crer ― Jonah concordou.

― Fique bem Wilhelm, espero que possa ir para casa logo ― Falei me inclinando e beijando a bochecha dele.

Wilhelm corou e agradeceu.

Eu, Ian e Jonah saímos do quarto e descemos até o estacionamento subterrâneo onde os Audi nos esperavam.

Eu entrei em no carro número 2 com minha mãe e Emily, Jonah se sentou ao volante e começou a comunicação de praxe.

― Alpha, verde, erário, diamante e lux em segurança, Em trânsito, relatório de perímetro.

― Fox pronto e aguardando instruções ― James falou.

― Águia e Dragão para Alpha, ninho seguro, elemento e visitantes em segurança, rendição 1/20, sinal verde

― Shark para Alpha, artefato seguro, sinal verde e aguardando instruções.

― Alpha para equipe, sinal verde, prossigam, mantendo a formação.

― Um dia vai me explicar todos esses códigos Jonah?

― Se você quiser eu posso explicar Senhorita Brown, coloque seu cinto de segurança.

― Calma Jonah, nem dentro de um blindado você relaxa ― Falei colocando o cinto ― Jonah, gosto que você seja o Alpha ― Eu disse me sentindo sonolenta, me ajeitei entre minha mãe e tia Em.

Jonah corou até a raiz do cabelo castanho.

― Obrigado, senhorita Brown, vivo para servi-la ― Brincou.

Eu ri.

Minha mãe pigarreou novamente e tia Emily me olhava com as sobrancelhas juntas.

Jonah fixou seus olhos na estrada e seguiu para casa.

Sai do carro com a ajuda da minha tia Emily e minha mãe, ainda usava aquela muleta, mas agora tinha um pé descalço e o outro com meu sapato da Lun.

Entrei pela porta da frente, todas as meninas estavam ali, April, Morgh, Mitchie e minha irmã.

― Graças à Deus você está bem ― Mirella disse sendo a primeira a me abraçar.

― Fiquei tão preocupada, não acredito que você teve uma...

― Ela não teve ― Jonah falou entre dentes.

― Bom, quase teve ― Morgh falou.

― Eu quase tive o que? ― Perguntei confusa.

Jonah fez aquele gesto nervoso, Ian desviou os olhos e Morgana me olhou confusa.

Minha irmã chegou da cozinha e me abraçou.

― Não acredito que foram atacados, duas vezes no mesmo dia... Quão perto aquelas balas... ― Ela me abraçou apertado.

― É verdade que jogaram uma bomba? Até Julianne foi parar no hospital? ― April perguntou.

Eu olhei elas e meus pais, Ian e Jonah confusa.

― Eu... Eu não... Sei...

Admiti confusa.

― Gente vão com calma ela precisa descansar foi um dia estressante ― Minha mãe falou ― Ela vai direto para o quarto.

― Ah não você ouviu Tucker sou mais saudável que todos vocês juntos ― Falei.

― Menos da cabeça não é? ― Malloney brincou.

― HAHAHA ― Falei ― Prometo que responderei tudo, quando eu souber porque... Eu... Só... Eu desmaiei eu não me lembro de nada ― Admiti.

Meu uniforme estava empoeirado, sujo de sangue.

As meninas foram para a sala de televisão e sobraram, Jonah e Ian, meus pais, Emily e eu.

― Jonah e Ian podemos conversar no escritório? ― Meu pai pediu.

Eu segurei o braço de Jonah.

― Acha que ele vai brigar com vocês? ― Perguntei, tentando soar baixo.

― Eu não sei ― Jonah falou no mesmo tom.

― Pai, não brigue com Jonah Ian ― Falei ― Eles são os meus seguranças.

― Tecnicamente, eles são os seguranças da família ― Minha mãe falou.

― Eles ficam comigo a maior parte do tempo, logo, eles são meus seguranças ― Falei.

― Eles são seguranças da família Brown ― Meu pai disse.

― Vai brigar com eles?

― Eu... Não...

Meu pai me olhou incrédulo.

― O que aconteceu não foi culpa de Jonah ou Ian, pai.

― Tivemos uma falha hoje, falha que poderia ter custado a sua vida.

― Mas nada aconteceu ― Falei teimosa.

― Mas poderia ter acontecido ― Ele devolveu.

― Mas não aconteceu, eu sabia que estava segura o tempo inteiro ― Deixei claro.

― Jesus Cristo ― Falou ― Será que você tem prazer em me contradizer? ― Ele perguntou passando as duas mãos pelos cabelos.

― O senhor quem me disse que bons argumentos blindam qualquer questionamento, e que é importante questionar sempre... Porque nada é uma verdade absoluta, estou errada?

Minha mãe e Emily riram, enquanto meu pai tinha as mãos na cintura e ficou me olhando enquanto mordia os lábios tentando não rir.

― O que está errado? Seus argumentos são fracos ou eu questiono os pontos certos? ― Pedi divertida.

― Touché ― Emily falou.

Jonah prendeu o riso quase convulsionando.

― Vá para o seu quarto, tome banho ― Meu pai disse fazendo um gesto de mão com Jonah.

― Não brigue com eles, pai.

Repeti subindo as escadas com a ajuda de Emily e minha mãe.

Retirei as minhas roupas e meu sapato, ainda era um pouco esquisito usar minha perna depois de tanto tempo com aquela bota, parecia que eu estava aprendendo a andar de novo.

Depois de tomar banho, sai vestida em um roupão e tentei encontrar roupas para vestir, Emily estava sentada na beirada da minha cama.

― Não comece a chorar ― Falei ― Estou tentando ser forte aqui, já ferrei tudo com todo mundo e se você começar a chorar por minha causa eu não vou aguentar ― Falei.

Emily respirou fundo.

― Eu não consigo acreditar que com todos sob vigilância, com tudo o que você sabia que estava acontecendo teve coragem de mentir, esconder coisas de despistar Jonah e sair com Eros sem segurança nenhuma ― Emily falou ― Estou chateada e decepcionada, você tem que ficar segura, em primeiro lugar, eu, todos nós tentamos proteger você... Eros tem outras pessoas, mas sou eu quem vai ter que ficar sem você se algo acontecer... Se você não levar a sério sua segurança, todos os sacrifícios... Nada do que fizemos por você terá feito sentido ― Falou ― Não faça isso de novo ― Falou desviando os olhos como se tivesse falado demais.

― Me desculpe... Só... Eu não pensei direito ― Falei.

― Não pensou direito? Brieanna!

― O que? Por que disse meu nome desse jeito?

― Não pensou direito? Você foi perseguida e atropelada e parou em um hospital, você acha que foi sua decisão? Qualquer uma daquelas decisões estúpidas naquele dia? Porra!

Emily estava brava, muito brava, ela nunca xingava.

― Eu só queria dar um tempo de... Tudo, todo mundo... Meus pais estão escondendo um monte de coisas de mim, isso está acontecendo por causa do dinheiro deles, todo mundo fica fazendo escolha por mim baseado no que acham que é melhor para mim, eu só queria fazer algo que eu mesma tivesse decidido, sabe?

― Você é tão ingênua ― Falou tocando minha bochecha, eu fechei os olhos aproveitando o toque de seus dedos em minha pele.

― Você fez o que Eros queria que você fizesse, entende isso? Foi uma escolha muito egoísta dele, tirar você da escola, acha mesmo que a decisão de se livrar do seu relógio, sair da escola sem seus seguranças com um braço e uma perna quebrados foi sua decisão?

― Minha semana estava caótica... Em... Eu estava perdendo o controle Jonah me segue para cada maldito lugar como uma sombra ― Falei ― Eu realmente quis sair com Eros naquele dia.

― Mas?

― Meu pai possivelmente disse algo a ele... Porque a forma que ele... Depois tudo ficou estranho... Faltei à escola no dia seguinte porque Jonah e os outros perceberam um cara aqui na frente e atiraram nele, então no dia seguinte na escola, Eros estava com o rosto machucado, depois descobri que Joseph havia batido nele porque soube que ele quem havia, acidentalmente me atropelado, bateu nele por sair comigo... O que não faz nenhum sentido, mas meu pai sabia o que havia acontecido, ele protegeu Joseph.

― Eros continuou vendo a outra garota.

Não era uma pergunta.

― Acho que deveria afastar ele, porque claramente tem algo estranho e errado nisso tudo, seu pai e Joseph podem estar querendo te proteger.

― Me proteger do que? Essa é a parte que me deixa furiosa, eles nem ao menos me dizem do que acham que deveriam me proteger ― Falei.

― Eu sei que não é fácil, mas se isso der certo vai desanuviar sua mente, até ser seguro sair, até saber mais do Eros, seus pais vão relaxar e eu vou ficar mais tranquila em saber que está segura, andando na linha.

Eu ri.

― Nunca vou andar na linha.

― Tem razão, você pertence a outro lugar, nenhuma linha desse mundo se aplica à você ― Emily falou.

Ela é tão misteriosa as vezes.