Montre - A Sinfonia do Tempo
25 Montre
Notas iniciais
Alistair caíra em frente ao castelo onde vivera por intermináveis anos. Ao mesmo tempo em que Chamberlain caía para o lado contrário, atingido no peito por uma antiga espada enferrujada — que provavelmente não teria vida mais longa que o homem quem atravessara, já que a lâmina parecia prestes a se desfazer por si só. O Duque, ou seu fantasma, ainda falara algumas últimas palavras antes de desaparecer por completo e para sempre, mas ninguém nunca soube o que ele dissera. As chamas que começaram na sala de estar haviam se espalhado por toda parte central do castelo e provavelmente consumiriam a construção por inteiro em pouco tempo, mesmo com a chuva torrencial que ainda caia.
A Natureza parecia cansada de tudo aquilo.
...
Os jornais do dia seguinte só falavam em uma coisa: o incêndio no castelo de Alistair. O clima estava muito bom, o que era de se surpreender depois da terrível tempestade que assolara a cidade no dia anterior. Algumas pessoas haviam morrido no incidente, mas como Clarence não tinha um cemitério, tiveram de enviar os corpos para a cidade vizinha. Seus nomes e fotografias apareciam no jornal: Lady Catherine Rosenthal, uma pianista da Cidade Central e Oliver Blackwood, um rapaz de tapa-olho de que ninguém nunca tinha ouvido falar. Embora não os conhecessem, todos comentavam com pesar sobre o lamentável ocorrido.
– O que houve com Lorde Alistair? – Sr. Laynon perguntou à garota que veio entregar o jornal com a notícia sobre o incêndio.
– Ninguém sabe – respondeu ela – Está desaparecido, assim como outras quatro ou cinco pessoas que foram vistas no castelo ontem, pode procurar sobre isso na gazeta... — e depois segredou — Dizem que tem a ver com o Duque de Chamberlain, você conhece as histórias, não conhece?
Sr. Laynon fez que sim com a cabeça e abriu na página com a notícia para ler as descrições: eram realmente Alistair; a jovem Lilet que o acompanhara naquele dia em que partiram no trem; o homem do cigarro, Hazel Crawford, que também seguiu com eles; o famoso mecânico Garrett Alkane; Howell Blackwood, irmão do homem que morrera, e uma mulher de cabelos prateados de nome desconhecido. Havia uma nota sobre Victor de Constance, que alguns disseram ter visto no castelo, mas que na verdade se encontrava encarcerado, juntamente com um mago de nome Louis, na prisão da Cidade Central. Parece que tinham sido reconhecidos e responsabilizados pelos recentes atos de vandalismo na cidade de Saint-Claude, nas montanhas.
O relojoeiro deu algumas moedas à garota, que continuou o serviço de entregar os jornais rua acima. Abriu seu relógio de bolso, e o encarou pensativamente: esperava que Alistair e seus amigos estivessem bem...
...
Alguns meses mais tarde, uma nova livraria abria na simpática cidade de La Reynie. Ao lado dela havia um estúdio de música conjugado, com bastante espaço para conter um piano, alguns outros instrumentos, todos os alunos, e mais duas prateleiras de livros que não couberam na parte literária da Delacroix & Clermont. Alistair havia se mostrado muito entusiasmado com a ideia de abrir uma loja, e como nem ele, nem Lilet tivessem mais onde morar, concordaram em mudar-se para La Reynie e começar um negócio juntos. Curiosamente, uma oficina mecânica se instalou na rua de trás na mesma semana.
Lorde Crawford levou algum tempo para visitar a loja porque havia estado ocupado concertando Ophelia, a autômato. E quando Alistair a viu novamente era como se tivesse encontrado uma irmã não-militar de Rhea. Embora ainda fosse muito direta, pegou o trem para a Cidade Central alegremente, dizendo que iria de volta para a mansão da Rainha, pois estava ansiosa em revê-la — coisa que ninguém jamais conseguiria imaginar Rhea falando tempos atrás. Parecia que Ophelia fora modificada por alguém muito habilidoso da Rosa Escarlate, e Crawford pretendia investigar o assunto quando não precisasse mais da ajuda de uma bengala para andar.
Hector e Garrett tiveram mais problemas para se recuperar, uma vez que o mágico havia perdido muito sangue por conta do ferimento com o florete, que perfurara de leve um dos seus pulmões. O mecânico por sua vez, sobreviveu graças à sua habilidade de cura, que na situação crítica no castelo, se ativara sozinha. Os médicos e curandeiros, embora conhecessem vários tipos de ferimentos mágicos, não sabiam nada sobre aquele, portanto tudo que puderam fazer foi esperar o homem se recuperar por si só.
Assim que visitou La Reynie, Astaroth não conseguiu parar de dizer que deviam dar uma festa para inaugurar a loja, ou no mínimo anunciar sua abertura no jornal. Acabaram aceitando a ideia do anúncio, já que o espaço da livraria não era assim tão grande para sustentar um baile. Dessa forma, Sr. Laynon pôde ficar muito aliviado ao saber que o “percussor do caos” ia levar uma vida bem tranquila vendendo livros em uma cidade não tão longe dali. Depois de permanecer um tempo em La Reynie, Hector disse que pretendia viajar, como fizera quando ganhara a recompensa do Duque, e talvez até passasse pela Cidade Central para cumprimentar Victor e Louis na cadeia. Havia deixado uma única saída disponível no portal em que prendera os dois no dia do incêndio, e ela dava diretamente para a delegacia de Saint-Claude. Era certo que seriam reconhecidos e presos, como afinal, acontecera.
Garrett também apareceu, falando pelos cotovelos sobre como o lugar era bonito e como aquele feitiço que o acertara era dolorido. Não ia ficar muito tempo, porque havia uma porção de coisas que queria aprender sobre a geração de energia a partir dos movimentos da terra, e achava que também deveria tentar ajudar alguns pesquisadores na área médica. “Se dependesse deles eu estaria morto!” ele reclamou, quando questionaram seus motivos.
Não tiveram mais notícias nem de De Winter nem de Lenore, mas sabiam que eles deveriam estar nas ruínas da antiga igreja onde sempre ficaram. A última vez em que viram Howell fora no enterro de Oliver e Catherine, no cemitério de Ward, a cidade ao lado de Clarence. Ele agradecera pela ajuda e dissera que iria visitar velhos amigos, e talvez voltasse a vê-los um dia.
Alistair havia ficado desacordado por três dias por isso não esteve com eles na despedida do Primeiro Século. Estava feliz por estar vivo e ficou contente com a ideia de poder começar uma vida nova em um lugar diferente, junto dos amigos. Não sabia dizer se tinha sido verdadeiramente imortal em alguma época da sua vida, mas agora tinha certeza de que não o era. Pegara até um resfriado nos primeiros dias, quando se mudara para sua pequena casa na área externa de La Reynie – nunca havia ficado resfriado antes, o que podia ser um indício de que o Lorde não era mais invulnerável. Embora que, fora isso, sentia-se um Século perfeitamente normal: até sua força e velocidades inumanas continuavam inalteradas.
O Lorde deu-se muito bem com a nova profissão, e mostrava ser um leitor tão entusiasmado que mesmo quem estava só de passagem, ao vê-lo dentro da loja com seus óculos, quase terminando um livro muito grosso ou contando as crianças uma história interessante, sentia vontade de entrar. Aproveitando a popularidade da livraria e do estúdio de Lilet, Alistair decidiu-se por abrir outra sessão no andar de cima para revender antiguidades.
Foi quando estava no trem de volta para La Reynie, carregando consigo um espelho laqueado preto e vermelho que arrematara em um leilão, que percebeu que o objeto não estava refletindo o interior do trem da maneira correta. Havia cortinas e vidros coloridos que não estavam dentro da cabine de verdade, e a paisagem do lado de fora, quando refletida pelo espelho também era outra. Alistair ficou maravilhado com aquilo, e continuou a virar o objeto procurando ver o que mais ele poderia descobrir, até que se forçou a parar quando vislumbrou algo diferente no assento da frente. O Lorde estava sozinho na cabine, mas o espelho mostrava uma mulher quase translúcida sentada no banco, olhando pensativa para o lado de fora.
Finais são mesmo muito relativos.
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