Montre - A Sinfonia do Tempo
17 Espiral
Hector poderia ter certeza que de estava em um parque de verdade, se não soubesse que acabara de entrar em um portal propositalmente mal feito. Estava preocupado que Lilet, Alistair e Crawford estivessem feridos ou não tivessem conseguido sair do portal por qualquer outro motivo, uma vez que há pouco tempo havia visto os inimigos aparecerem praticamente ilesos no castelo do Lorde. Não havia pensado duas vezes, e imediatamente tentara refazer o portal de Louis para procurar pelos colegas — embora ainda não tivesse certeza se a ideia tinha funcionado.
Hector podia ver alguns modelos mais antigos de carruagens passarem pelas ruas, embora não parecesse haver ninguém dentro delas — e nem fora, o que dava a sensação estranha de os cavalos estrarem guiando-se sozinhos. O lugar também lembrava vagamente a cidade onde o mago passara sua infância, e por um momento, ele se perguntou como estariam as coisas agora se ele não tivesse resolvido ajudar o Duque com seu relógio indestrutível. Bem, “indestrutível” era maneira de falar, já que há poucos minutos havia visto o objeto completamente despedaçado no alto do castelo. Será que Rhea o havia destruído? Chacoalhou a cabeça — não tinha tempo para pensar sobre isso, precisava encontrar Alistair e os outros. Havia acabado de enviar um pequeno feixe de luz para vasculhar a área quando ouviu uma voz perguntar:
– Perdido? – Hector virou-se na direção do som a tempo de ver Louis aparecer do outro lado da rua.
– Ainda aqui? – respondeu Hector, ligeiramente impaciente – Será que imaginei ter visto você e Catherine entrando no castelo de Alistair?
Louis deu de ombros:
– O trabalho difícil sempre fica para mim, você sabe. Tive que voltar.
Hector ergueu uma sobrancelha involuntariamente. Voltar para quê? Teria Louis conjurado um portal errado outra vez? Aquilo seria realmente cômico, mas não muito provável naquelas circunstâncias:
– Veio buscar seu chefe? Constance? – perguntou, embora sentisse que devesse se apressar.
– Ora, não. Victor não importa, vim procurar por você! – riu o outro – Não achou que fossemos deixar Hector Astaroth interferir nos planos, não é mesmo? E também não posso permitir que tire Alistair da minha armadilha, se ele realmente for o Século Imortal, "a vontade" de Chamberlain. Estando preso, imortal ou não, não vai fazer muita diferença... – depois aproveitou para caçoar — Embora eu acredite que nem mesmo você seja capaz de fazer alguma coisa agora. Não está sentindo falta de nada?
Hector havia decidido não dar muita atenção ao outro mago, já que não achava que pudesse se demorar por ali, mas ao ouvir a última pergunta, instintivamente procurou pelo Medalhão. Não estava com ele. Subitamente soube o que havia causado a destruição de relógio: alguém havia roubado o medalhão e o usado. Quando e por que, era algo que ele não saberia dizer. O que o deixava intrigado era que, mesmo com o relógio destruído, Louis continuasse a agir como se tudo estivesse nos conformes.
– Talvez eu não precise interferir. Afinal, o relógio do Duque não era aquele amontoado de madeira no castelo de Alistair? – tentou fazer o jogo de Louis.
– Bem, quem quer que tenha feito o trabalho não pensou direito. Quero dizer, pode até ter conseguido despedaçar o relógio, mas não há como impedir de que ele seja reconstruído outra vez. Querem mesmo matar o Duque? Terão de revivê-lo e destruí-lo quando ele não estiver mais conectado àquele objeto. E é exatamente isso que Catherine fará.
Hector havia passado os últimos anos procurando por alguma coisa que pudesse garantir a queda do Duque caso ele viesse a retornar. Na verdade, tinha acreditado que o medalhão seria o suficiente para derrota-lo mesmo dentro do relógio. Agora percebia que as reservas do Duque até poderiam desmanchar o feitiço de indestrutibilidade do objeto, mas não dariam cabo de Chamberlain. Havia adquirido o costume de furtar as pessoas na esperança de encontrar o Medalhão das Sete Luas, e agora, ironicamente, alguém o tinha roubado dele.
– De qualquer forma, não vai mais precisar daquele medalhão – disse Louis, quase lendo seus pensamentos – A Rosa Escarlate vai cuidar do Duque rapidamente. Não queremos que você fique com toda a fama outra vez...
Hector, entretanto, respirou aliviado e abriu um sorriso. Havia acabado de localizar Alistair e os outros, e a uma distância indefinível dali uma das portas de vitral se abria, dando saída para Crawford, Victor e ao próprio Lorde. Mas o mágico ficaria ali, ainda tinha em torno de cinquenta minutos para dar cabo de Louis.
...
Alistair e Crawford se viram na conhecida Vanilla Garden quando saíram do portal. O céu estava muito negro, e embora não estivesse chovendo, era possível ouvir trovoadas a todo o tempo. Respirar também não era bem uma tarefa agradável, já que o ar da cidade parecia drasticamente reduzido por causa de toda aquela agitação no céu.
Pessoas corriam por toda a parte, tirando as mesas das ruas, chamando os filhos para dentro das casas e fechando as lojas. Em contrapartida, alguns iam em direção do castelo, carregando câmeras e luzes para observar o que estava acontecendo. De onde os três estavam podiam ver os relâmpagos convergirem para perto do castelo, e não havia dúvidas de que as coisas não estavam indo nada bem por lá.
Victor de Constance saíra com eles pelo portal e olhava para o céu com uma cara péssima. Qualquer que o visse um poderia dizer que ele entendia perfeitamente bem o que estava acontecendo e não gostava nem um pouco, mas Alistair não se deu ao trabalho de olhá-lo: assim que percebeu a direção dos raios, pôs-se a correr.
Passou muito rapidamente por entre as ruas, que estavam esvaziando-se mais conforme ele avançava, mas teve problemas para se aproximar do castelo devido à grande quantidade de pessoas que se aglomeraram no caminho de pedra. Sabia que os moradores de Clarence eram do tipo aventureiro, mas não esperava que tantos deles estivessem lá. Estava se virando para tomar um caminho pela floresta quando enxergou o que acontecia em seu castelo: algumas pessoas estavam no pátio superior dando um espetáculo suficientemente grande para manter toda aquela plateia em volta, mesmo com o perigo evidente.
Feixes de luz explodiam quando dois deles entravam em contato. Uma mulher de vermelho ficava a margem da estranha dança, ajoelhada em frente a um objeto indefinido, e ruídos cortantes soavam quando uma segunda mulher aparecia por entre a estranha penumbra que se formara na sacada do castelo. Os flashes dos jornalistas interrompiam a cena em intervalos quase constantes. Alistair precisava chegar lá o mais depressa possível, e sabia como, conhecia seu castelo melhor do que ninguém.
...
– Rhea? – Crawford ouviu Victor dizer quando passaram pelo caminho que levava a entrada da construção. Não o tinha ouvido falar desde que chegaram, mas o homem mostrou-se disposto a segui-lo sem causar problemas e Crawford achou que não tinha tempo para reclamar. Virou-se para onde Victor olhava e viu um lampejo metálico reluzir por detrás das árvores.
– O que é? – disse sem dar muita atenção. Alistair há muito havia sumido de vista, uma vez que a velocidade de Crawford estava reduzida ao que seria humanamente normal. E ele não estava com vontade de continuar perdendo tempo.
Victor não respondeu, mas se aproximou do que quer que estivesse no chão e trouxe à luz. Era uma mulher, e uma de suas pernas estava virada de um jeito que não deixava dúvidas de que estivesse completamente quebrada. A pele de seu joelho parecia rasgada como tecido, deixando à mostra algumas engrenagens acobreadas, que pareciam um pouco soltas e completamente imóveis.
– Eu sabia! – rugiu Victor, e subitamente largou a cabeça da moça, que bateu no chão com um ruído abafado. E o homem disparou furioso, antes que Crawford pudesse dizer alguma coisa.
Lorde Crawford tinha muito com que se preocupar, e não sentiu, por um momento, que correr atrás de Victor fosse uma boa ideia. Em vez disso, procurou ver se a mulher ainda estava viva. Tentou tomar seu pulso, mas para sua surpresa, a mão de Rhea dobrou-se para trás, parecendo tão quebrada quanto sua perna. Também era de metal.
Tentou abrir os olhos da mulher, e então concluiu o que já tinha suspeitado: ela era um autômato. Seus olhos eram feitos de vidro e iluminados por milhares de pequenas lâmpadas verdes, que nesse momento estavam apagadas. Nunca vira nada assim antes, mas o modo como as pequenas engrenagens estavam colocadas o fazia lembrar-se de um método propriamente seu de construção. Tinha certeza que poderia concertá-la se tivesse tempo, o que evidentemente não tinha. O céu continuava terrível, e ele não conhecia o paradeiro de nenhum de seus colegas. Tirou um cigarro do bolso e o acendeu com o que havia restado do seu isqueiro. Precisava ir para o único lugar onde parecia estar acontecendo alguma coisa: o castelo.
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